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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Sousa Reis e a Quinta de Santo Ovídio

18.12.19

Quem me lê, se não sabia que existiam uns manuscritos na BMPM de um cidadão que deu pelo nome de Henrique Duarte e Sousa Reis[1], passou a saber há já umas boas publicações atrás. Foi uma testemunha insubstituível da evolução da cidade no século XIX, legando-nos descrições de muitos e vários aspetos do Porto do seu tempo. Os manuscritos mais conhecidos que a sua filha entregou em depósito na biblioteca são os famosos Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da cidade do Porto, em 7 volumes. Acontece que, apenas os quatro primeiros se encontram editados (para quando uma nova edição, mais atualizada, de todos eles?). No 5º, o autor perde-se na descrição, entre outros assuntos, de vários palacetes ou casas apalaçadas. Numas espraiando-se por várias páginas, em outras legando-nos apenas um singelo parágrafo. Este manuscrito faz parte dos que ainda se encontram inéditos, possuindo também ele vários importantes informes para o estudioso do burgo portuense no século mais especial de todos, da humanidade (opinião pessoal, é claro).

 

É a descrição de um desses palacetes, ou melhor, de uma Quinta onde esta casa senhorial se encontrava, que para aqui recupero. Penso que se trata de um texto inédito. Mas, inédito ou não, muito poucos o conhecerão. O objeto em questão já teve muitos nomes: Quinta da Boa Vista, de Santo Ovídio, dos Figueiroas, viscondes de Beire, condes de Resende... E agora? Agora nada; pois foi completamente arrasada, quinta e edifício, no final do século XIX!

 

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«Casa e quinta chamada do Figueiroa, que foi do visconde de Beire e é do conde de Resende.

 

No tempo em que a cidade não tinha jardins públicos, pois só depois da Restauração se lhe deu o primeiro,[2] o dono da casa e quinta denominada do Figueiroa, Manuel Pampelona Carneiro Rangel Veloso Barreto de Figueiroa, que mais ao diante foi visconde de Beire, imitando os seus antepassados, franqueava nos domingos e dias santos ao povo o lindíssimo jardim anexo à sua casa e quinta, a qual uma só vez cada ano era aberta e frequentada pelos visitantes, pois além disse dia conservava-se vedada e fechada talvez para lhe não prejudicarem a cultura do terreno; o antigo arvoredo que guarnece a rua central da quinta e o pavilhão ou lindo mirante que a remata em frente da rua de Cedofeita, torna na realidade aprazível o gozo da sombra ali oferecida num dia caloroso.

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i1 vista da face posterior da casa nos seus últimos anos, ainda apresentável

 

O jardim conservava-se então cheio de flores, dispostas nos quarteirões bordados de bucho, e em vasos colocados em ordem o que muito o embelezava, concorrendo também para isso as casas de fresco vestidas de trepadeiras sobressaindo por entre arbustos recortados em diversas formas, e finalmente recreava o ver a grande taça circular que está no centro do mesmo jardim onde repuxa a cristalina água alimentadora de uma aluvião de peixe de várias cores e de todos os tamanhos: era encantador o sítio ainda que pequeno, o qual não deixava de ser visitado por muita gente nos dias e às horas em que se conservava aberto.

 

Alguns poucos bancos de pedra ministravam descanso a quem dele precisava, mas como era jardim particular não comportava tantos quantos eram precisos.

 

Muitas vezes os inconsiderados atos de pessoas sem educação obrigaram o bondoso visconde a fechar por algum tempo as entradas daquele seu recreio, que tão generosamente oferecia ao uso público.

 

A entrada principal desta propriedade faz-se por um pavilhão espaçoso, que se vê na face do poente do Campo da Regeneração, [3] em cuja construção se revela a antiguidade da fábrica: deste pavilhão até à casa de habitação desta nobre família, que igualmente é de arquitetura antiga e fica em posição central, caminha-se por uma larga rua interiormente guardada pelos lados por paredes altas de murta, e atravessando-se o átrio e pátio interior e inferiormente à casa, sempre descendo por escadarias de granito, sai-se a uma galeria guarnecida de balaústres de pedra, na qual prende a escada semicircular que conduz ao jardim.

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i2 a casa à espera do coup de grâce, vendo-se já as terraplanagens para a nova rua

 

Os possuidores deste prédio tem até ao presente [1865/66?] conservado nele todos os indícios da época em que os seus antepassados lho legaram. Foi herdeira do visconde de Beire, sua filha primogénita D. Maria Pampelona Carneiro Rangel Veloso Barreto de Figueiroa atual condessa de Resende, viúva do conde do mesmo título D. António Benedito de Castro e sobrinha do primeiro Duque de Palmela».

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E aqui termina a descrição de Sousa Reis.

 

Esta quinta era originalmente ainda mais larga, pois compreendia terrenos cedidos para abertura da rua da Boavista. Construída nos finais do século XVIII, era «um dos prédios mais nobres dessa cidade [Porto] e que mais concorria para ornamento dela pelos edifícios, jardins, e mais pesssoas [sic] que a constituiam ... em cuja construção havia empregado seu defunto pai João de Figueiroa Pinto e também o suplicante mais de oitenta mil cruzados», no dizer de um documento judicial de 1787.[4]

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i3 perspetiva inversa da i1, mostrando o banco (à esquerda) onde Eça de Queirós descansou ao sol, após o seu regresso da húmida Albion

 

Existe ainda documentação que inclui as apegação e vedoria da quinta, datada de 1766, ao tempo portanto, em que nem a rua da Boavista existia (nem quartel é claro). Eis este curioso documento: «§ Primeiramente se mediu esta quinta que está toda cercada de muro de alto a qual tem na cabeça do nascente de norte a sul do caminho público que vai da igreja de N.ª Sr.ª da Lapa para Cedofeita, até o cunhal da cocheira mista à casa da fábrica do Hospício dos Padres Agostinhos Descalços. Tem mais a dita cabeça do nascente do cunhal do dormitório dos mesmos padres até o campo e casas foreiras ao mosteiro de Belém 19 varas e três quartas, confronta esta cabeça do nascente com as estradas antiga e moderna que vão desta cidade para a de Braga, ... e na cabeça do norte, de nascente a poente, tem 169 varas e meia, e confronta com o caminho público que vai da Senhora da Lapa para Cedofeita...

§ dentro de si tem esta quinta uma correnteza de casas, que corre de N. a S. com várias cocheiras e estrebarias.

E porquanto onde antigamente era uma capela e casa do capelão da mesma, e quintal que o dito tinha para viver e satisfazer aos legados que na mesma capela se achavam impostos por seus instituidores, se acha hoje o Hospício dos padres Agostinhos Descalços, e para que pela diuturnidade de tempo os ditos padres se não alarguem mais na extensão do que hoje possuem, foi preciso o medir-se por fora tudo o que os mesmos padres Agostinhos Descalços têm, para não haver dissipação das terras deste prazo ... se mediu toda a terra que eles possuem, que tem na cabeça do nascente, de N. a S. do cunhal da cocheira do dito caseiro até o cunhal do dormitório, que é o último que têm os ditos padres, trinta varas menos dois palmos, e por ficar na frente da rua, antiga estrada que vai desta cidade para a de Braga, confronta com a mesma rua...».

 

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i4 a quinta na planta redonda de 1809: o n.º 1 indica a casa (ver fotos acima), o n.º 2 o acesso à quinta feita pelo outro extremo da propriedade (com um pequeno hexágono simbolizando o mirante mencionado no texto de Sousa Reis). A linha azul será a antiga estrada para Braga, de origem romana, no segmento rua Mártires da Liberdade / praça da República / largo da Lapa

 

O fim chegou no final do século XIX, quando D. Manuel Benedito de Castro, o 5º conde de Resende e possuidor da quinta, obtendo aprovação do conselho de família e em concertação com a Câmara Municipal, mandou abrir uma rua cujo eixo, passando sensivelmente no centro da casa e quinta, ia sair à rua de Cedofeita (atual rua Alvares Cabral).[5] Parcelados os lotes, bom rendimento deve ter gerado para o sustento dos seus filhos a maquia obtida. Foi, direi eu, uma demolição por autofagia...

 

Associada a esta quinta, e agregada à sua origem, estará uma capela que por ali existia e que tem também a sua interessante história para contar - ao de leve mencionada no documento acima -  mas que ficará para uma próxima publicação.

 

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com a ajuda do googlemaps e da planta de Teles Ferreira, podemos localizar o local exato onde esteve o mirante da quinta, hoje um ponto da cidade sem nada que o distinga ou enobreça: os n.º são 1) travessa do Figueiroa, 2) rua Alvares Cabral, 3) rua Sacadura Cabral (continuação da anterior) e 4) rua de Cedofeita

 

PARA SABER MAIS: ver O Tripeiro, 5ª série, vol. 5, artigos de Vasco Valente e Eugénio Andrea Cunha Freitas, de onde aliás, foram retiradas as imagens antigas da quinta, usadas nesta publicação.

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1 - 1810-1876.

2 - O famoso jardim de S. Lázaro.

3 - Hoje praça da República.

4 - A sentença é da época de Manuel de Figueiroa Pinto, a casa terá sido construída no primeiro quartel do século XVIII.

5 - O troço entre a rua de Cedofeita e a rua Anibal Cunha - rua Sacadura Cabral - surge já em pleno século XX.

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