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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Um troço ignorado da muralha pré-românica

25.08.17

Em Dezembro de 2016 referi na publicação do blogspot intitulada  "Prenditus est Portugale ab Vimarani Petri" que num arruamento desativado desde o século XVIII - a viela de São Lourenço - que circundava pelo exterior a muralha antiga da cidade a oeste e que terminava junto da porta de Santa Ana, havia sido recolocado à vista um pequeno troço de muralha de aparelho construtivo aparentemente pré-românico.

A se confirmar, como parece ser o caso, estas pedras são as mais antigas que se encontram expostas. Ainda mais antigas do que o mais conhecido cubelo que temos nas costas da rua de D. Hugo (embora englobadas na mesma cerca defensiva) e seguramente mais antigas do que a torre do Barredo (casa que é reputada como a mais antiga ainda existente na cidade).

 

Ilustrando esta pequena descrição coloquei a imagem que se vê abaixo, tirada umas semanas antes. Esse caminho é a antiga viela de S. Lourenço que deixou de ter saída, como referi, ainda no século XVIII. O seu aspecto degradado advém da utilização que os proprietários das casas da rua dos Mercadores (à esquerda na foto) fizeram desse espaço, aproveitando-o como extensão das suas propriedades. Na altura esta imagem foi captada através da porta que impedia a passagem para aquela área. Contudo, meses volvidos e por intermédio do portal PORTO, obtive a excelente notícia que o espaço havia sido recuperado!

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Com efeito, foi em finais de maio deste ano que aquele espaço foi devolvido à cidade devidamente reabilitado. Agora, turistas ou simples portuenses com curiosidade pelas antiqualhas da sua cidade dispõem de um bom acesso através do miradouro junto à igreja de S. Lourenço, deixando assim de existir o que se efetuava por baixo de um edifício da rua de Santana, que estava aberto  apenas a determinadas horas do dia para acesso dos moradores aos lavadouros que ali existem.

As imagens ilustrativas desta nova realidade que tirei logo em junho falam por si (ver abaixo). Mas não há nada melhor, caro leitor, do que deslocar-se ali pessoalmente e depois de contemplar a vista magnífica, deitar o olhar para aquelas humildes pedras que se falassem nos contariam histórias de mouros, normandos e presúrias cristãs...

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Embora as casas da rua de Santana neste local em boa parte assentem na antiga muralha pré-românica/românica, apenas aquele pequeno troço na imagem mais à direita parece apresentar o seu aparelho original intocado. Não obstante no restante troço surgirem vários silhares de aspeto idêntico que terão sido reaproveitados após o desmonte da estrutura original. Foi pelo menos o que me sugeriu a observação no local (aguardo com expectativa os comentários dos meus leitores cujo mester seja a arqueologia).

Este troço passa despercebido, é verdade; mas se a Câmara Municipal do Porto ali colocar um marco explicativo conforme se vê junto a muitos outros monumentos, em breve isso deixará de acontecer. Pelo contrário, será valorizado e assumido como uma mais valia para a cidade acrescentando-lhe valor patrimonial.

 

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Nota: A fonte e inspiração para esta publicação veio de uma fotografia patente na obra A imagem tem que saltar: a igreja e o Porto no século XVI (1499-1606), do Dr. José Ferrão Afonso publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian/Fundação para a Ciência e Tecnologia (2014).

De Magnetum a Portucale: uma curiosidade com 1500 anos

23.06.17

Já em outra altura que referi que, em minha opinião, a atual cidade do Porto nasce verdadeiramente no século XII com a vinda de D. Hugo para bispo dela cerca de 1114. Contudo existe obviamente uma história para trás desta história, pelo menos 700 anos anterior, quando do império romano em desegragação se foram os vários núcleos locais auto-organizando; não substimando é claro a presença pelas nossas bandas dos Suevos e depois dos Visigodos. Creio não andarei muito longe da verdade se disser que foi a igreja que acabou por, em parte, preencher o papel do antigo império durante o periodo conhecido pelos historiadores como Alta Idade Média.

 

Ora se todas as paróquias e bispados tiveram o seu início, no território que se veio a conhecer como Portucale o caso não foi diferente. Derrotados que foram os Suevos, pacificada a zona com a presença visigótica, foi tempo de surgir a divisão paroquial, fortemente impulsionada por S. Martinho de Dume. Mas desenganem-se os portuenses de agora... o bispado de Portucale com sede no morro da Penaventosa não foi logo criada. Durante um breve periodo de tempo a sede de bispado localizou-se numa paroquia rural que deva pelo nome de Magnetum. Com efeito, nas atas do 2º concílio de Braga verifica-se que nele esteve presente Viator Magnetensis Ecclesiae Episcopus. Não durou ainda assim muito tempo nesta casa: cerca do ano 580 seria transferido o bispado para Portucale para não mais daqui sair, mesmo que na conturbada época da reconquista muitos dos seus bispos estivessem ausentes e parassem por outras localidades bem mais a norte...

 

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A atual igreja de Meinedo antes da DGMEN lhe deitar a mão... Por baixo dos alicerces deste edifício do século XIII foram descobertos os alicerces da igreja suevo-visigótica existente ao tempo do 2º Concílio de Braga

 

Tivesse o bispado nunca saído de Meinedo e talvez o Porto não viesse a existir, pelo menos com tal desenvoltura? Ou a existência do seu bom porto de mar faria fatal como o destino o desenvolvimento de uma cidade mais ou menos parecida com os moldes atuais? Para nada serve esta reflexão senão para tentar comunicar, a si caro leitor, que as coisas quer na vida de uma pessoa quer na vida de uma cidade podem desenvolver-se de forma bem diferente após uma simples tomada de direção.

 

Quanto a Meinedo, continuou sendo uma pacata paróquia rural, hoje incorporada no concelho de Lousada e que (espanto!) voltou a ser bispado pois desde 1969 que constitui uma Sé Titular, isto é, uma Sé que apenas existe no título! Presentemente possui este título o arcebispo Léon Kadenga Badinkebele, núncio apostólico para o Belize e El Salvador (ver aqui).

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para saber mais: http://www.rotadoromanico.com