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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

O arranjo urbanístico no bairro da Sé e o 'Acto Medieval'

por Nuno Cruz, em 27.07.18

Compulsando os relatórios camarários produzidos nos anos 40 do século passado, é possível verificar uma contínua preocupação com a salubridade da cidade. Fosse na demolição de Ilhas, substituídas por outras funcionalidades no mesmo espaço[1], fosse na construção de novos bairros ou edifícios sociais[2]. Este último exemplo, aliás único na época[3], talvez tenha albergado parcial ou totalmente os habitantes da área da Sé que foram expatriados em 1939, quando se deram as conhecidas demolições que para sempre estropiaram a mais antiga das mais antigas zonas da cidade; criando no seu lugar a plataforma artificial agora denominada Terreiro da Sé[4].

 

O plano que abaixo se apresenta surge no relatório camarário de 1940. Nele podemos comprovar as demolições que realmente se efetuaram, mas também verificar as demolições a fazer numa 2ª fase que, felizmente, não foram levadas avante[5]. Pois é caros leitores, a tragédia poderia ter sido bem maior uma vez que as demolições que não ocorreram estendiam-se até ao edificado da rua de Santana junto do local onde podemos observar restos da muralha românica! Outro ponto negativo: o x amarelo indica o Solar dos Correias que no plano se encontra marcado como edifício de interesse, o que não impediu que fosse demolido e que se tivesse perdido o rasto das suas pedras previamente numeradas para uma possível reconstrução cerca de uma década depois!!!

 

 

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 i1 A vermelho as principais modificações ocorridas em 1939-40; a verde aquelas adiadas para a nunca realizada segunda fase. Notar que este era o estado de coisas em inícios de 1941; posteriormente muito mais foi suprimido nomeadamente na calçada da Vandoma e no morro da cividade...

 

 

Para sempre desaparecidas estão a rua da Sr.ª de Agosto, a rua do Paço e o largo do Paço Episcopal; a própria rua de S. Sebastião viu a sua face E ser obliterada do traçado citadino. Restam-nos diversos registos fotográficos, que nos dão uma parca sensação do que seria passar por aquelas ruas, decadentes é certo mas ainda assim arruamentos que seriam dos mais antigos da cidade velha, dentro do perímetro do castelo[6].

 

O intuito dos arquitetos era o de desafogar a Sé Catedral das excrescências à sua volta, fossem estruturas a ela afetas, fossem casas de habitação; e nem uma capela, a dos Alfaites a isso escapou![7] Com esse desafogamento, pretendia-se que o monumento fosse apreciado em toda a sua plenitude. Mas se é verdade que a operação resultou num melhor vislumbre daquela imensa nave, em minha opinião, haveria uma outra imponência quando se avistava uma torre da Sé do fundo da rua Senhora de Agosto (ver i2), como se o estreitar da visão provoque uma maior magnitude e capacidade impactante da mole granítica[8].

 

 

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I2 O antigo largo do Paço Episcopal e a rua da Sr.ª de Agosto. Ao fundo a imensa mole pétrea da Catedral permite ao transeunte antever o grandioso edifício que encontrará ao chegar junto a ela. Na casa do gaveto com o largo do Paço Episcopal é curioso notar no pilar chanfrado que a mesma apresenta, aparentando ser mais antigo do que a casa em si, o que parece apontar para um aproveitamento da versão mais antiga daquela construção(?)

 

 

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i3 Várias são as imagens disponíveis no AMP que poderia usar para ilustrar estas demolições, mas optei contudo por apresentar apenas duas. Esta mostra-nos o largo do Paço Episcopal, em primeiro plano e as rua da Sr.ª de Agosto (3) e Paço Episcopal (2). O n.º 1 assinala a pequena plataforma onde existiram os famosos açougues que por muito tempo deram o nome a este largo; a demolição deste edifício contudo é bem anterior a 1939 e por isso completamente independente desta intervenção.

 

 

Destas demolições apressadas (o plano original data de junho de 1939) não está isento de culpa o duplo centenário que passou à história como Acto Medieval, que se celebrou na cidade em 7 de junho de 1940 e que se desejava tivesse lugar naquele local.[9]

 

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i4 Início da cerimónia do Acto Medieval, logo após anfitriões e convidados haverem deixado as suas viaturas no início da calçada da Vandoma; aqui vão já subindo a mesma calçada, com o Prof. Dr. Mendes Correia, Presidente da Comissão Municipal, a liderar (3ª pessoa da pé a contar da direita). Reparar, à esquerda, nas casas da remodelada calçada da Vandoma (com holofotes a apontar para a Sé Catedral) bem como mais longe ainda à esquerda vemos as traseiras de algumas casas do largo da Cividade: tudo também demolido poucos anos depois.

 

 

No final deste evento o acrescento ao coro alto da igreja da Sé, propositadamente construído para a solenidade, foi possível de ser removido. Cá fora contudo, as casas e ruas que haviam desaparecido não mais puderam reaparecer. E assim, uma boa parte daquele cantinho histórico portuense povoado de memórias que abarcavam um período de pelo menos 900 anos apagou-se para sempre!

 

 

Como nota final, convido os meus leitores a lerem o excelente trabalho de Maria Leonor Botelho intitulado A Sé do Porto no século XX. Embora seja um estudo sobre as intervenções por que passou o nosso mais importante monumento durante aquele século (algumas delas verdadeiras sevícias...); não podia deixar de referir, é claro, as transformações à sua envolvente, que deixaram aquela área com a sua forma atual.

 

________

1 - Veja-se o exemplo da “Ilha do Zeferino” na rua Senhora das Dores que deu lugar a um parque infantil em 1942;

2 - Como o caso do bloco de apartamentos da rua Duque de Saldanha, concluído em 1941;

3 - O próprio relatório camarário aponta já outras diretrizes para alojar as classes mais pobres.

4 - Bonito miradouro citadino mas que resultou de um crime patrimonial, fruto da forma de ver a cidade e os seus monumentos da época, à qual não eram alheias as formas de atuação, no mesmo âmbito, do regime fascista de Mussolini;

5 - Quem sabe, uma consequência da falta de fundos provocada pelo eclodir da 2ª guerra mundial;

6 - Nome pelo qual a certa altura começou a ser conhecido o burgo amuralhado da Penaventosa;

7 - Capela seiscentista que foi depois reconstruída à entrada da rua do Sol.

8 - Não posso dissociar este pensamento da chegada junto do Al Khazneh, na distante Petra, onde o mesmo efeito se produz. Quanto à memória descritiva da intervenção na Sé, ele diz pretender melhorar as condições de trânsito do local, «libertando-o de certos prédios inestéticos, o que permitiria desafrontar as fachadas da Sé e dos Paços do Concelho, criando novas perspectivas e pontos de vista» (os Paços do Concelho estavam à época temporariamente alojados no Paço Episcopal).

9 - Centenário da Formação e Independência de Portugal, aliás comemorado em várias localidades do país.