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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (7)

04.06.19

Chega hoje ao cabo a republicação das cartas de Joseph James Forrester que em 2013 pretendi dar a conhecer através deste meio poderosíssimo que é a web, que a todos a todo o lado consegue chegar. Esta carta surge separada uma vez que ela já não trata propriamente da viagem ao Douro; antes ocupa a substância das suas linhas com assuntos ainda mais pessoais do Barão...

 

Não termino contudo sem revelar que, quando em 10 de abril (ver aqui), refletia: «Estas cartas do Barão de Forrester estariam inéditas até eu as ter redescoberto em 2013? Não o posso dizer, embora acredite que não». E de facto não, não estavam! Estas cartas foram - pelo menos - publicas em 2005 neste trabalho de Norman R. Bennett que convido o leitor interessado a ler pois não só as transcreve, como igualmente nos revela mais pormenores sobre esta personagem, os ingleses que negociavam no vinho, e sobre o próprio Douro[1].

 

 

*

«DUODÉCIMA CARTA

Assim como até aqui me tenho entretido como que de uma vida irregular, escrevendo acerca das pedras do Douro, acomodações de estalagens, etc, etc, assim também passarei agora a dizer uma ou duas palavras sobre um objeto que grave impressão me tem causado pelas terras por onde tenho passado: refiro-me a certas casas, geralmente muito mal construídas, mas sempre em lugares mais públicos, e com as janelas au rez de chaussès, junto das quais geralmente se vê bastante gente, congregada, falando e divertindo-se como romeiros em dia de festa. Estas casas, Sr. Redator, são as cadeias, para onde, de certo, não vai gente que tenha praticado boas ações; contudo, se o objeto de uma prisão é castigar os culpados, e o do castigo é corrigi-los, parecem-me muito fora de razão que sejam dados aos povos, semelhantes maus exemplos como estes a que me refiro; porque, em muitos sítios, longe de ser castigo, os presos vivem, só com a diferença de não terem a sua liberdade, melhor e em maior abundância que jamais conheceram, simplesmente porque pertencem a alguém destes povos de aldeia, como parentes ou compadres que também têm os seus; de sorte que uma espécie de maçonaria ou fraternidade existem entre eles, e a confraria é quem os sustenta.

 

Dizem, - mas eu como viajante não posso dizer se é verdade, - que estes estabelecimentos são só privilégio dos pobres; e que até, por muitos e sucessivos anos, gozam deste mesmo privilégio, ou por esquecimento, ou porque nenhuma despesa fazem ao Estado; mas, ainda assim, frequentes vezes acontece que no meio do seu regozijo e repentinamente aparece uma ordem não de soltura, mas para que, ligados uns aos outros, vão seguindo caminho do Porto ou Lisboa, para cumprirem o degredo, expiarem as últimas penas.

 

Eu não me acho com forças, nem a ocasião é própria, para entrar deveras neste assunto; contudo, na cadeia da Relação da cidade do Porto, acontece quase o mesmo, e em muito maior escala, quanto ao edifício, mas não quanto aos confortos em razão da ausência dos parentes. Aqui consta que há também inquilinos de muitos anos, que ocupam, segundo os anos de serviço, diversas graduações; e que seu chairman (desculpe o termo inglês por não saber o termo técnico) tem muita autoridade, e os seus decretos tem força de lei; e de certo, são rigorosamente cumpridos, e com maior presteza, que costumam os empregados legais. Não digo isto para ofender repartição pública alguma; porque é bem sabido que nenhuma tem a obrigação de trabalhar dia e noite, como pratica a clientela do dito chairman.

 

Haverá quem diga que eu sou um estrangeiro muito perverso, e que agora abuso da hospitalidade dos dignos portugueses, fazendo estas minhas críticas, da mesma forma que, quando me atacaram na época em que falei nos vinhos do Porto; e quando mereci o lisonjeiro epíteto de ser uma "ave estranha num país estrangeiro". Porém, Sr. Redator, já estou muito velho e à prova de bomba; não me intimidam quando eu trato de fazer bem ao país que amo como meu. Vou contar-lhe uma história que tem seus visos de romance; mas nem por isso deixa de ser menos verdadeira.

 

Quando habitei a casa na Ramada Alta atualmente ocupada pelo patriótico e filantropo (termo de que me sirvo em lugar de Ilmo. e Exmo.) visconde da Trindade, tinha um relógio de mesa muito lindo, de três e meio palmos de altura, sendo o assunto um preto segurando um cavalo bravo e fogoso. Quando saía da minha casa pela manhã, e voltava à noite, costumava sempre conferir o meu relógio de algibeiria com aquele; mas aconteceu-me um dia, que, voltando a casa, dei pela falta do relógio, manga de vidro, preto, e cavalo branco, e até a própria chave. Em vão, pergunto a minha mulher, filhos e criados, pela falta; mas ninguém me podia esclarecer o negócio; porém tendo motivos de suspeitar de algumas pessoas, relacionadas com os criados, paguei a cada um deles um mês adiantado, e mostrei-lhes a porta. Foi justamente, Sr. Redator, nesta ocasião que alguém me falou na bela organização do corpo dos ladrões na cidade do Porto, debaixo da autoridade do ladrão-mor a que acima me referi.

 

Mandei falar a este potentado por eu não ter a honra de o conhecer pessoalmente, remetendo-lhe os sinais do objeto roubado, e contando-lhe todas as circunstâncias do roubo. Recebi logo um recado verbal mui atencioso, já se sabe, no estilo de - "fulano faz os seus cumprimentos a sicrano, &c; e logo que possa, dará conta da sua missão": Com efeito - na mesma noite uma pessoa mui bem trajada, com hábito de Cristo ao peito, me procurou em casa; e tal era a sua presença de respeitabilidade, que o meu novo criado sem hesitação alguma o encaminhou à minha sala de visitas, pondo as competentes velas de cera; e apresentando-lhe uma cadeira, convidou-o a assentar-se em quanto que vinha ao meu gabinete chamar-me. Pode bem imaginar-se a minha surpresa, quando entrei na sala, e depois da devida troca de cumprimentos, o cavaleiro hóspede participou-me que era o embaixador do Ilmo. ladrão mor da cadeia; e que vinha, da sua parte, para assegurar-me que o roubador não tinha sido nenhum membro da honrada profissão a que ele presidia, aliás com muito gosto me teria sido já restituído o relógio.

 

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Joseph James Forrester, ou como melhor é conhecido, o Barão de Forrester (27.05.1809 - 12.05.1861)

 

Agradeci, como era de supor, a finesa do cavaleiro e lhe retribui os cumprimentos da personagem que ele vinha representar. Confesso, porém, que enquanto o meu criado o acompanhava até à porta, passei um golpe de vista por toda a sala para verificar se, com efeito, mais alguma outra redoma me faltava.

 

Publiquei anúncios nas gazetas, oferecendo alvissaras de 6 moedas a quem me desse notícias do meu pobre cavalo branco, e seu condutor africano. Em seguida veio um adeleiro convidar-me para ir ver um relógio muito bonito que ele - que não tinha visto os anúncios - julgava poder servir-me, dando ao mesmo tempo uma descrição exatíssima do objeto.

 

Acompanhado por um amigo, segui o adeleiro até uma casa na rua de....... na cidade baixa; entrei numa loja onde estava a conversar uma mulher de mantilha com o dono: não reparei muito neste mulher no momento da entrada; mas vi sobre o mostrador 3 montes a 2 moedas em que ela pegou sem as contar, metendo-as num lenço, e saindo precipitadamente. A quantia do dinheiro por ser aquele que eu tinha oferecido de alvissaras, fez que eu, ainda que tarde, lançasse os olhos após a mulher; e não pude deixar de pensar que eu a tinha visto em diferentes ocasiões, falando com os meus criados.

 

O lojista não me conhecia; e eu também nada lhe disse do fim da minha visita. O adeleiro disse-lhe que eu era muito tentado com objetos de gosto, e queria ver a sua coleção. Levou-nos para uma sala no 1º andar; e logo que entrei, vi numa prateleira entre ricos vasos de porcelana e outros objetos, o meu cavalinho com todos os mais aprestes. O bom do homem abriu as suas gavetas, e caixa-forte; em poucos momentos cobriu a mesa de pulseiras, cordões de ouro, alfinetes de peito, tiaras e aneis de brilhantes, e um sem número de condecorações. E em várias outras partes da sala apontou toda a qualidade de roupa feita, e alguns lenços de seda pendurados sobre uma corda que comunicava com uma campainha fora da porta.

 

Logo conheci que eu estava no atelier de um ladrão de profissão; cujos discípulos eram ensaiados neste recinto, praticando a gíria de furtar lenços sem serem pressentidos, sendo o grau de perfeição na arte o poder tirar um destes lenços da corda solta sem tocar a campainha.

 

Nestas alturas tirei da algibeira o Periódico dos Pobres, e mostrei o meu anúncio ao professor da arte ligeira. Ele mudou de cor, e deu um passo para a porta; porém intercetei-lhe a retirada, e em poucas palavras, mas com muita firmeza, reclamei o que me pertencia. Pranteou, - suplicou perdão, - protestou a sua inocência, dizendo que não lhe era possível saber de onde vinham os objetos que lhe ofereciam à venda, ou em penhor; - que não conhecia quem lhe tinha trazido o relógio; e que muito sentia não ter visto o anúncio, porque no momento da minha entrada na sua loja, a mulher que dias antes havia trazido o objeto roubado, estava neste ato levando as 6 moedas, preço que lhe tinha custado. Continuou a jurar que nada sabia do furto, mas acrescentando que, visto que o objeto era meu - conhecia ser da sua obrigação entregar-mo; o que com efeito fez dentro de meia hora.

 

Como vi que não era possível descobrir o modo engenhoso, com que o relógio tinha sido roubado de minha casa, forçoso foi que me contentasse com a sua restituição, sem ulterior procedimento; mas - quando cheguei a casa, e principiei a dar corda ao relógio reparei que a fábrica tinha sido atada com um bocadinho de retrós de seda verde, que havia sido tirada da pequena mesa de costura que estava no outro lado da sala - operação esta que decerto não foi feita no momento, e que tinha por fim evitar que o relógio desse horas durante a mudança. Este facto deixou suspeitas sobre mais de um indivíduo; e será força de imaginação, mas é facto, que quando eu passo por certa rua muito estreita que conduz ao postigo do Sol, uma mulher, que julgo ser a mesma que eu tinha visto recebendo o dinheiro na loja de que já falei, - logo que me avista, retira-se para dentro de casa.

 

Tenha paciência, Sr. redactor, com esta massada - mas estas reflexões são consequência da prisão voluntária a que me votei na minha barquinha, e da minha imaginação precisar de distração. Porém o remédio está na sua mão e não gostando do que tenho escrito, remédio será queimar esta carta.

 

Agora falemos sério. Sentirei, Sr. Redator, se eu nesta narração entrar em seara alheia; por isso que sei que o meu amigo Sr. José Frutuoso Aires Gouveia Osório, doutor pela universidade de Coimbra, e Edimburgo, nas suas viagens à Inglaterra, França, Bélgica, e países do norte, estudou teórica e praticamente a organização das prisões. Desejava muito perguntar a este meu amigo, por que motivo não tem ainda publicado as suas observações àquele respeito. Será, por acaso, que ele, também[2] como eu, tenha pedido estatísticas, sobre o assunto a algum ministro de estado, e as não tenha recebido, depois de lhas prometerem? Quem sabe!


Sou de VV.

J. J. Forrester»

*

 

1- Tive conhecimento deste trabalho quando fazia a segunda republicação destas cartas, ainda assim optei por esperar pela última por crer ser o tempo mais oportuno para o divulgar. 

2 - No original tãobem.

 

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Publicado originalmente na antiga casa d' A Porta Nobre em 14.07.2013.

 

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (5)

20.05.19

Prossigo com a reposição das cartas de Joseph James Forrester, apresentando a 8ª e 9ª cartas.

 

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OITAVA CARTA


Ocupar-me-ei da terceira parte do país vinhateiro, entre o Pinhão e a Baleira e que tenho chamado o Alto Douro. A distância é de três léguas boas, mas quem tem de as caminhar facilmente acreditará serem quatro. Como acontece até aqui, não há caminho nas margens do rio, povos apenas se vem na margem direita Casal de Loivos, Foz Tua, Fiolhal, e Riba Longa, não sendo possível descobrir o rio os povos de Ervadosa, Soutelo, Nagoselo, nem S. João da Pesqueira na margem esquerda. Esta última divisão do terreno marcado para a produção do vinho que (com a exclusão de todo e qualquer outro) é destinado para o embarque, é sumamente interessante para o viajante, amador das belezas e maravilhas da natureza.

 

Em ambas as margens (até os ribeiros de S. Martinho, acima da quinta do Zimbro) há belas quintas de vinho e azeite, e alguns pomares. No Fiolhal há bastantes amoreiras, das quais se faz alguma seda e os pomares em S. Mamade, logo ao pé, produzem a melhor laranjas da província.

 

O rio Tua nasce no reino da Galiza, próximo ao lugar de Pias, corre por Mirandela, fertilizando muitas terras, vem desembocar no Douro, no pequeno povo de Foz Tua. Os ribeiros de S. Martinho separam os xistos dos granitos e são mui notáveis as vinhas na lousa de um lado de cada um dos ribeiros e as grandes e continuadas fragas de granito nos outros lados.

 

Destes sítios até ao 1º ponto dos Culmaços (um bom quarto de légua) as margens apresentam vistas sublimes que encantam o verdadeiro artista e amador da natureza. Nos Culmaços tornam a principiar os xistos e por conseguinte as vinhas e estas na sua vez acabam na Baleira, por baixo do celebre monte de granito de S. Salvador do Mundo. Os pontos, de vergonha para o Governo, são os seguintes: Aroeda, Frete, Carrapata, Roriz, Malvedos, e Culmaços. As terras nestes sítios são mais delgadas do que as do baixo Corgo e os calores são muito fortes. O bastardo e o alvarilhão que produzem bem no distrito de Penaguião não se dão aqui tão bem, e por isso que o gosto do mercado vinhateiro é sem dúvida de vinhos encorpados e com muita cor, se cultivam o Souzão, a Touriga, Tinta Francesa, Tinto Cão, Mourisca, e mais outras tintas. Os vinhos brancos ficam mais desviados das margens do rio.

 

As vindimas estão a findar e por toda a parte os excessivos calores tem secado muito vinho, talvez uma quinta parte da produção total. Tenho dito que as margens do rio, por toda a extensão do país vinhateiro (que vem a ser outo léguas) tem poucos habitantes e não sendo no tempo das vindimas, apenas fica um caseiro em cada adega. Agora porém, o país parece outro, ranchos de trabalhadores com cestos cheios de uvas às costas, comboios de bestas carregadas com odres, conduzindo vinho de umas adegas para as outras; centenares de mulheres nas vinhas, vindimando as uvas e cantando as suas modinhas, os homens nos lagares pisando as uvas ao som do tambor, viola e gaita de fole, é o que se vê e se ouve em todas as direções.

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embarque de vinho na Régua

 

Apesar da moléstia das videiras e a probabilidade de uma continuada escasses de vinho, toda a gente que encontrei parecia contente e satisfeita, contribuindo para isso os altos preços por que se tem vendido os vinhos e não ter havido diferença sensivel nos jornais. Nota-se também que muitos negociantes estrangeiros do Porto, este ano compram uvas e fazem o vinho à sua vontade na época da vindima!!

 

Falei os caseiros que ficam todo o ano a tomar conta das quintas. Honra seja feita a esta classe dos habitantes do Douro. O caseiro tem toda a responsabilidade dos grangeio das vinhas, do fabrico do vinho e sua conservação até que seja carregado, desviado de qualquer povo, sofrendo privações, exposto ao rigor do tempo; recebe apenas por ano em renumeração dos seus serviços e para o seu sustento e da mulher e filhos, umas 15 a 20 moedas; são mui raros os casos em que ele se esquece do seu dever.

 

Os carreiros e carretões tem a consciência mais elástica, tal é o seu cuidado para que nem as pipas nem os odres arrebentem por andarem muitos cheias, que fazem alto muitas vezes pelo caminho, para dar alívio às vasilhas que conduzem, não se esquecendo de convidar os amigos que encontram para tomar parte nesta importante operação. Não deixara de ser interessante o seguinte extracto de uma ordem dada a 9 de Março de 1791 pelo juíz conservador da Companhia Geral do Alto Douro:

Sendo tão público e geral o desafôro praticado pelos carreiros de abrirem as pipas pelos batoques, até furando-as para beberem o vinho, e o dar a quem encontram; ordeno a todos os comissários que a Junta da Companhia tem no Douro, formem processos dos referidos factos &c. &c.

 

Não acontece haver a mesma generosidade da parte dos trabalhadores que conduzem as uvas. Às vezes tendo-lhes pedido um cacho de uvas, respondiam-me que não o podiam dar sem licença do patrão, e logo depois passava o ranco inteiro na barca de Baguste e cada homem com todo o sangue frio lavando enormes cachos no rio, comendo-as e até dando-as ao barqueiro! Não posso dizer com certeza se as vindimeiras costumam esconder passas nas algibeiras, porém o que é facto é que em certas quintas costumam à noute dar busca nas mulheres, na mesma forma que fazem nas fábricas de tabaco em Lisboa, Sevilha e outras cidades.

 

Em todas as quintas há duas cardanhas, uma para os homens, outra para as mullheres. Nos domingos e dias santos, ouve-se missa logo ao romper do dia, para que os trabalhos da vindima não sejam interrompidos. Os homens ganham 200 reis por dia e as mulheres seis vintens; o pão é à custa deles, mas o senhoria dá o almoço, jantar e ceia; em outro tempo também dava vinho, porém agora não o há.

Sou de VV.
J.J. Forrester

 

*

NONA CARTA

As minhas vindimas não permitem que eu trate somente do que está no fundo do rio; por isso eis-me nas vizinhanças da quinta do Enxodreiro e Régua, escolhendo alguns cachos de uvas sem defeito - obra bastante dificultosa em razão do oidium que nestes sítios tantos estragos tem feito. Cheguei aqui justamente numa ocasião importante - que vem a ser uma festa musical sobre o rio. Todos os habitantes da Régua - em peso ou estavam no cais ou em barcos toldados e elegantemente armados. Os artistas eram de Jugueiros e da Régua, tocaram muito bem e todo o mundo parecia satisfeito - quando se ouviram gritos por todas as bandas, sensação geral pela aparição de um barco toldado, cortinado, emplumado de preto e cheio de homens vestidos de rigoroso luto!

 

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Esta eça flutuante tinha estado amarrada mais para cima do rio, de sorte que os da festividade não a tinham visto. O barco fúnebre veio vindo vagarosamente para baixo - a música parou, e por alguns minutos todos mostraram certos receios. Ao pé de mim, um sujeito assegurou-me que havia de haver pancada, que as figuras sinistras eram membros do clube musical da Régua, que vinham desafiar os seus irmãos de Jugueiros! Outro, com aparente seriedade, deu-me a entender que talvez fossem alguns conspiradores do reino vizinho, que vinham raptar El-Rei D. Pedro V. Um terceiro (e já se sabe o que diz o adágio acerca de negócio de três) logo que ouviu soar o verbo raptar lembrou-se do substantivo rapto, e possuído desta ideia e evocando os espíritos de seiscentos mil habitantes das regiões inferiores, exclamou com frenesim: "Será o Conde de Saldanha raptando a filha do Ferreirinha". Nisto o barco chegou ao pé de nós - entrou pelo meio de toda a súcia e parando entre as duas bandas de música abriram-se as cortinas e os empregados da Câmara do Peso da Régua, vestidos não de grande gala, mas de luto pesado pela morte de S. Majestade a Rainha [provavelmente D. Maria II], mostraram-se e fizeram as suas cortesias aos amigos e conhecidos.

 

Ora, Srs. redactores, durante o cerco do Porto e mesmo depois o general Conde de Saldanha sempre me fez a honra de me tratar com amizade; e quando escrevi o meu Ensaio sobre Portugal, ainda estava persuadido que sua Exa., já marechal e duque, era meu amigo e desejava promover o bem da sua pátria - porém, em primeiro lugar, se sua Exa. me não enganou, deixou de cumprir a sua palavra, prometendo dar-me todos os orçamentos e estatísticas sobre o país, que havia na secretária, - e não mos deu - e segundo, tanto ele como os Srs. Rodrigo e Fontes de Melo, me asseguraram que estavam resolvidos a fazer o bem destas províncias do norte, ao mesmo tempo que me fizeram a honra de pedir a minha humilde cooperação. Ofereci-me para servir gratuitamente na direcção da empresa - não fui aceite; ofereci o meu dinheiro à perto de um ano - não tem sido preciso. Fiz o que pude, ao menos mostrei a melhor vontade - mas o bem para estas províncias ainda não veio e ainda se não principiaram as estradas!

 

Por estes motivos digo que hei-de pôr de quarentena todos estes bons desejos e profissões, portarias e decretos e discussões de partidos promovidos pelo governo ou seus agentes; e hei-de guardar o meu dinheiro na algibeira até que possa ter alguma garantia não simplesmente de boas palavras mas de boas obras; preferindo, em lugar de dedicar a minha atenção aos projectos de estradas do Minho, ver se posso estabelecer uma academia para a instrução de jovens arrais, na navegação deste rio, cujos obstáculos parece que, por fatalidade, ainda tem de existir por muitos séculos.

 

Falo neste estilo de homens públicos, por serem eles como a caça do monte, que esta exposta, com licença ou sem ela, ao tiro de qualquer caçador, porém ainda que não esteja satisfeito com o proceder do Exmo. presidente do governo e seus colegas, muito senti ouvir semelhantes reflexões sobre o carácter particular do nobre marechal e seu filho, muito especialmente tendo eu há tempos encontrado o próprio conde que vinha de Travassos de visitar a Exma. Srª Dª Margarida Rosa Ferreira, o qual me assegurou que logo que soubera dos acontecimentos que tanto têm dado que falar, se tinha apressado a ir oferecer todas as satisfações à Exma. Srª Dª Antónia Ferreira, e não achando sua Exa. fora muitíssimo bem acolhido por sua Exma. mãe e vinha-se embora muito penhorado da visita.

 

Deixarei tocar os músicos e grazinar os murmuradores, que nestas alturas são ainda mais numerosos do que uma grande parte dos frequentadores da praça do Porto - lastimando em que eles não tenham outra cousa em que se ocupem, e voltarei ao exame das pedras do rio - mas por hoje não serei mais extenso.

Sou de VV.
J.J. Forrester

 

 

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Publicado originalmente n' A Porta Nobre no blogspot em 13.06.2013 e 24.06.2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (4)

05.05.19

Prosseguimos com as cartas do Barão de Forrester. Conforme indicado atrás, serão colcadas duas por publicação.

 

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SEXTA CARTA

Na nossa última carta dissemos que no Piar não existia indício algum de ter havido princípio de estrada em comunicação com a ponte que neste sítio se tentou fazer. Este facto é mais notável quando se vê no Elucidário de Viterbo que: “El-Rei D. Dinis no ano de 1301 fez romper novas estradas por cima da sua Ponte do Douro em direitura a Canaveses”. Naquela época podia-se servir da palavra estrada, falando de qualquer caminho insignificante; porém, pelo que vimos nas nossas digressões de Penafiel até Mesão Frio por Canaveses e Marco, em alguns sítios é mesmo dificultoso passar um homem a cavalo. O Piar não é somente notável por ser um sítio de muita passagem no XIII século, mas por ser o sítio onde acabam os granitos e principiam os xistos, e o país vinhateiro do Aldo Douro.
 
O Douro faz bastantes voltas entre o Piar e a Régua – as suas margens são muito elevadas e cobertas de vinhas, entre as quais se notam alguns pomares e grande número de sabugueiros. O rio leva mui pouca água – não se vêm pedras algumas, ainda que enormes bancos de areia estão depositados sobre grandes açudes de pedra de lousa. Na margem direita notam-se os povos de Barqueiros, Mesão Frio, Cedadelhe, Oliveira, Fontelas, Caldas de Moledo, Salgueiral, Jugueiros, Régua e Peso. Na margem esquerda temos Portagens, Vilar, Barô, Valonguinho, Moledo, Penajóia, Corvaceira, Samodães, Cambres e Portelo meia légua distante de Lamego.
 
Barqueiros é a primeira terra dos arrais e marinheiros – é abundante em vinhos e frutas mas a povoação é miserável e os habitantes pobríssimos. Mesão Frio é uma vila bastante grande, situada no cume da montanha, tendo excelentes casas e a sua rua principal a mais bem calçada possível, formando parte da nova e excelente estrada real de Amarante à Régua. Sendo esta vila a principal entre Canaveses, Amarante e Lamego, já em 1097 o Conde D. Henrique e a piíssima rainha Dª. Teresa compraram nas suas vizinhanças umas casas para albergaria dos pobres, enfermos e peregrinos, e vê-se no citado Elucidário que a mesma rainha Dª. Teresa: “coutara a Gonçalo de Eriz a Quinta de Oseloa, e que de mão comum estabeleceram uma Albergaria em Meigomfrio, junto da mesma quinta, de cujos rendimentos se satisfariam os encarregados da dita albergaria,” – da mesma forma que “esta santa rainha estabeleceu a barca de Por Deus, a albergaria no lugar de Moledo, a de Amarante e Canaveses.” A ideia vulgar por todos estes sítios, é que foi a rainha Santa Mafalda a fundadora destes pios estabelecimentos, porque lê-se nos documentos de Arouca, onde tanto a rainha D. Mafalda e a sua santa neta Mafalda ainda se veneram, que estas albergarias já eram velhas, quando a santa estava no princípio da vida.
 
 
O lugar das Caldas defronte de Moledo deriva o seu nome das águas sulfúricas que ai nascem perto do Douro e até no próprio leito do rio. Há mui poucos anos que apenas existiam aqui umas casinhas muito ordinárias e poucas ou nenhumas comodidades para os enfermos que frequentavam as águas, porém agora há uma boa hospedaria, bons quartéis para famílias, lojas de peso bem sortidas, e como a posição é bela, o ar saudável, e a estrada magnifica, a afluência de gente irá cada vez em progresso aumento. Cedadelhe, Oliveira e Fontelas, nada têm de extraordinário, sendo simplesmente povos pequenos cercados de vinhas, porém vale bem a pena que o viajante suba até aos cumes das serras de S. Silvestre e S. Gonçalo de Mourinho por ser da primeira onde ele poderá gozar belíssimas vistas das margens graníticas do rio, e da segunda de onde se pode descobrir todo o país vinhateiro de baixo Corgo. De S. Silvestre vê-se toda a natureza em toda a sua majestade: em quanto que de S. Gonçalo de Mourinho, não há um palmo de terra que não fosse levantada três vezes por ano pela enxada do cultivador. Salgueiral e Jugueiros estão situados num belíssimo vale onde em outro tempo não se cultivava senão trigo e frutas por ser a terra muito pesada demais para vinhas, mas depois da lei de 1843 cobriu-se de videiras.
 
 

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a Régua no início do século passado

 
Régua, como as Caldas, vai cada vez em aumento, especialmente na margem do rio onde se têm construído muitos e belos armazéns para o depósito de vinho. A principal casa é a da Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto Douro – na qual se fazem as reuniões das provas. Antigamente era muito curioso estar no Peso ou na Régua na época da feira, quando os lavradores vinham vender e os negociantes comprar os vinhos novos. Então como sempre acontece debaixo de monopólios, a companhia tinha grandes privilégios e entre eles o de comprar todo o vinho que quisesse, pelo preço da taxa por ela mesmo imposta – enquanto que o comércio em competência uns com os outros, muitas vezes tinham de pagar o dobro destes preços sendo o excesso da referida taxa chamado, maioria, pagável em dinheiro de metal sonante (com exclusão de papel moeda) à factura do escrito. Também as leis do marquês do Pombal estavam em pleno rigor – não podendo haver introdução de vinhos de fora da demarcação, nem tão pouco o sabugueiro podia existir no distrito nem o seu fruto ser usado, debaixo de grandes penas. Neste último ponto a companhia prestou muito serviço aos principais consumidores do vinho do Douro, e como tinha o poder de apartar arbitrariamente os vinhos que quisesse para embarque, limitava-se o comércio entre poucas mãos. Depois teve o subsídio dos 150 contos e a produção aumentou espantosamente para melhor poder suprir a compra das 20 mil pipas que ela era obrigada a fazer anualmente. Nestes últimos anos, ainda que a companhia não fosse abolida, a lei do subsidio forçosamente teria de o ser pela razão da escassez que ao principio resultou de estações desfavoráveis e agora ultimamente pelos efeitos da moléstia que tão terrivelmente flagela todos os países vinhateiros. A companhia deixou pois de ter privilégios e autoridade, porém no seu lugar se estabeleceu uma comissão com quase idênticos poderes da extinta Companhia para regulamento das provas e separação dos vinhos, facilitando porém o uso da baga na sua composição, em razão da continuada exigência de imensa cor, dos vinhos intitulados de primeira qualidade para o embarque.
 
Como o meu fim, por ora, é só descrever as margens do Douro, reservar-me-ei para uma próxima ocasião para descrever o interessante país que se estende para o interior, e que é tão rico por natureza, mas cuja produção não é permitido desenvolver-se em razão das curtas e interessadas vistas das sucessivas administrações que Portugal tem tido e parece continuará a ter. Há muito boas casas tanto na Régua como no Peso, e entre elas há fortunas colossais. Todos os habitantes tem mais ou menos vinhas, e as pessoas principais são comissários de várias casas de comércio do Porto. Graças ao digno administrador do correio central do Porto, e do seu delegado no Peso da Régua, há correio todos os dias entre o Porto, Vila Real, Lamego e Régua.
 
Na margem esquerda, desde Vilar até Cambres, apenas há o sítio de Barô digno de especial menção, em razão do seu antigo convento situado no alto da montanha de onde se descobrem vistas tão vastas como as de S. Silvestre e com a vantagem de ser num país cultivado e abundantíssimo em vinho e frutas. Acima da Régua, o rio Corgo e defronte o rio Barosa, formam os limites do pais vinhateiro conhecido pelo distintivo de Baixo Corgo, cujos vinhos são mais palhetes que os do distrito contíguo. As margens do Corgo não deixam de ser pitorescas, mas para vistas magnificas e sublimes, e que talvez seria difícil encontrar iguais em parte alguma do mundo, é forçoso que todo o viajante de bom gosto dê o seu passeio a cavalo pelos sítios da Valdigem, Sande e Serra de Balsemão até á antiga cidade de Lamego, voltando pela estrada real por Portelo, outra vez para o Douro.
 
Quanto ao estado das vinhas entre Mesão Frio e Régua pode dizer-se que a moléstia tem estragado as uvas todas, enquanto que apesar das asserções feitas por pessoas interessadas, a moléstia não fez grandes estragos na zona de Penaguião e se não fossem os grandes e continuados calores destes últimos dias que secaram muitas uvas a novidade de 1854, apesar de escassíssima em alguns sítios, noutros teria produzido dobrada quantidade do vinho da colheita do ano passado conforme escrevi neste jornal na minha carta de Pinhão. Na estrada da foz do Barosa até à quinta de Val de Lage, propriedade do nobre visconde de Várzea, notei com muito interesse que em algumas vinhas deste fidalgo a moléstia tinha feito grandes estragos, porem que no meio delas havia uma única vinha em que as videiras não tinha sinal algum da moléstia, e as uvas eram abundantes, bem criadas e perfeitas. Tão extraordinária era esta vista que por três vezes tentei copia-la fotograficamente, porém, em razão do sol ardentíssimo todas as minhas tentativas foram malogradas.
 
Na Régua ainda se registam todos os vinhos produzidos no distrito, concedendo guias para a sua condução para baixo – guias que têm de ser conferidas e rubricadas no cais do Bernardo, Perto do sítio do Piar.
 
Sou de VV.
J.J. Forrester
 
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SETIMA CARTA
 

Apesar de se não poder fazer sempre a viagem da Régua ao Pinhão num dia, eu a farei nesta carta para que a descrição se torne mais interessante.


Já disse que os rios Corgo e Barosa separam o Baixo do Cima Corgo – o rio Pinhão separa este do resto do distrito vinhateiro, que eu chamo o Alto Douro. O Corgo, chamado Corrugo pelos romanos, nasce nas vizinhanças de Vila Pouca, passa por Vila Real, recebe as águas do Tanha ao pé da Vila da Persegueda e caí no Douro entre a Régua e Canelas. Os rios tributários do Douro entre o Corgo e o Pinhão são o Tedo, o Távora, e o Torto.

O Távora, ou Soberbo, tem origem numa fonte de Trancoso e aumentado por diversos ribeiros e regatos, divide os dois bispados de Viseu e Lamego, passa pela Vila de Távora e o Lugar de Tabuaço e daí caminha para o Douro. Este rio deu o seu nome à ilustre família dos Távoras, e mandou-se chamar Soberbo, depois que o último marquês daquele título padeceu ignominiosa morte no Cais da Belém a 13 de Janeiro de 1759, por alegarem ter ele parte na conjuração contra El-Rei D. José I; porém o rio é ainda vulgarmente conhecido pelo seu antigo nome. Na marca actual do Douro, os rios Corgo, Tua, Barosa e Távora, apenas são pequenos regatos – e os rios Tedo e Torto estão secos de todo.

Há poucas propriedades nas margens do Douro, desde o Piar até à Barca d’Alva que eu não possa descrever com a mesma exactidão como se fosse seu próprio dono – porém se eu declarasse que uma grande parte do vinho oferecido à venda nas adegas mais bem situadas, indicando estas uma por uma, não é produzido dentro da demarcação da Feitoria, mas trazido de muitas léguas de distância em odres – se mencionasse os nomes daqueles que em outro tempo não se envergonhavam de declarar que não havia baga nem mixórdias no Douro, sendo eles os principais cultivadores de sabugueiros e praticantes de adulterações – se indicasse a extensão de outras propriedades mencionando o número de alqueires de centeio que levam de semeadura – se enfim eu marcasse os sítios dos mais finos vinhos brancos ou tintos, notando quem se mostra mais amigo das castas de bastardo arvarilhão, e quem prefere as de Touriga e Souzão, dizendo só a verdade e desmascarando os maiores inimigos da prosperidade ao seu país, iria contudo ofender interesses particulares e embrulhar alguns inocentes com culpados, e por isso, por enquanto, limitar-me-ei a descrever o que como viajante vi e presenciei ou o que por muitas vezes tenho visto mas sem me ocupar com individualidades.

 

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o Pinhão no início do século passado


Ambas as margens do rio nesta extensão de 4 léguas são muito elevadas e estão cobertas de vinhas – havendo entre elas bastante azeite. Agora não se pode falar nesta propriedade, porque pertence ela a um dos actuais ministros, logo as más-línguas haviam de dizer que eu pretendia dele algum crachá. Na Folgosa e no Pinhão costuma ás vezes haver bom carneiro, mas geralmente o carneiro deste país e muito magro e rijíssimo. O pão de Lamego e Portelo é o que se gasta na Régue e Folgosa: - no Pinhão acha-se a vender pão de Provesende a Favaios. É digno de se notar que até aqui todo o pão é de trigo e milhão, e só daqui para cima é que principia a haver pão de centeio. Numa estalagem do Pinhão onde mandei recolher três cavalos meus, por uma noute, em razão da escassez de palha e grão, custou-me a sua ração dous mil e trezentos reis.

Já tenho dito que, ainda que no Piar principiem os xistos, não há pedras no rio, (exceptuando algumas de pequena dimensão no sítio da Sermenha, Corvaceira e Salgueiral) até ao Corgo: porém há-de ser difícil acreditar que exista nos países menos civilizados rio algum que se ache em tal estado do maior abandono, com tantas pedras à vista e tão fáceis de tirar como as que actualmente existem entre o Corgo e o Pinhão.

Quantas leis e decretos se têm feito ordenando impostos para melhorar a navegação do rio e tratar das obras da barra! Desta mesma barra em que os cartagineses de Himilcão naufragaram no ano do mundo 3531. Tenho todos esses decretos na minha colecção de papéis curiosos, mas por mais diligências que tenha feito não vinte e tantos anos que conheço o rio Douro, ainda ninguém me tem podido informar do destino que se tem dado aos impostos do rio e aos da barra. É verdade que 200 reis em pipa "para as pedras" não havia de render mais do que uns vinte contos anuais; porém em 10 anos importaria em duzentos contos e com tal soma muitas e importantíssimas obras se poderiam ter feito; muito preciosas vidas se teriam salvado e grandes valores de fazendas se não haveriam perdido.

Sobre estradas achamos de bastante interesse o Alvará de 13 de Dezembro de 1788, em que a Soberana declara que "sendo plenamente informada de que havendo-se dificultado pelas ruínas em que se acham as estradas que decorrem por uma e outra parte do Alto Douro o beneficio de todos que comerceiam em vinhos daquele distrito e sendo deste inconveniente também uma das causas principais, a de não haver na longitude daquele distrito uma estrada que sirva de auxilio à navegação dos barcos que sobem e descem pelo Rio Douro, nos tempos em que a nímia abundância ou a grande falta de águas dele dificultam, a sua pronta navegação, sou servida ordenar que se construam as referidas estradas, na forma mais pronta e perfeita, de que os respectivos terrenos forem capazes etc, etc." Tem decorrido 66 anos e as estradas ainda ficam em projecto!!!

Os arrais chamam pontos ou galeiras, aos obstáculos à navegação e em uma das minhas obras já publicadas menciono que existem tem todo o rio 210 destes pontos, todos os quais estão actualmente à vista. Os pontos do Corgo, Baguste, Outeiro de Covelinhas, S. Martinho, Moreirinha, Seco do Ferrão, ponto novo do Ferrão, Canal de Moura, Cachucha, Chanceleiros, Oliveirinha, e Sopas ou Buxeiro, são objectos que envergonham o actual governo de Portugal, por serem estes de fácil melhoramento. Quanto ao ponto do Canal das Marcas, o seu concerto seria mais custoso. Julgo, Srs. Redactores, que os seus dignos compatriotas não levarão a mal as impressões de que me tenho servido, filhas do vivo interesse que tomo na prosperidade deste país, escrevendo na minha barquinha estas cartas e subindo estes mesmos pontos à força de trabalho dos infelizes marinheiros, trabalho que bem podia evitar-se.

Sou de VV.
J.J. Forrester

 
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Publicado originalmente em 25.05.2013 e 10.06.2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (3)

19.04.19

Nesta terceira apresentação das cartas de Joseph James Forrester, aproveito para fazer uma ressalva: não estou a respeitar os "parágrafos" dados pelo jornal onde elas foram publicadas, pois que nele cada frase estava como que transformada em parágrafo. Nesta conformidade decidi formatar o texto por forma a torná-lo visualmente mais apelativo e menos maçudo: terei conseguido?

 

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«QUARTA CARTA

O Convento de Ancede situado num belo vale, ainda que em posição elevada, a um quarto de légua de Porto Manso, é digno de atenção: mas o seu estado actual de abandono e a ausência dos frades, contrastam de uma maneira singular com o seu aspecto ordinário em outros tempos. O lugar de Porto Manso muito sente a extinção destas corporações religiosas, pelas esmolas que os frades distribuíam diariamente aos pobres – e quanto ao terem acabado os dízimos, dizem os povos que este benefício resultou só a favor dos proprietários. Conheço um indivíduo que ganhou com a mudança e é o meu compadra e arrais, António de Oliveira Dias (mestre o mais hábil no Douro) que tem aqui seu casal, e que costuma nas ocasiões da minha chegada empregar os serviços do ex-cozinheiro do dito extinto convento de Ancede.

 

Em mui poucos países tenho assistido a jantares mais bem servidos e abundantes do que o foi um, que o meu compadre aqui me deu. Todas as cobertas foram servidas com delicadeza e asseio. Tivemos excelente caldo, vaca cozida e arroz – galinhas cozidas com presunto e salsichões – enorme peru assado com o seu picado à Ancede – dois gansos formidáveis – alguns frangos – uma perna de vitela – presunto de Melgaço feito em fiambre – boa cernelha de vaca assada – três coelhos bravos ensopados – dois excelentes guisados – um leitão muito tostadinho – e meia dúzia de perdizes mortas com toda a cerimónia da antiga lei, em 1 de Setembro. Depois seguiram pudins, pão-de-ló (ou cavaca fina), biscoutos, morcelas, melancia, melão, laranjas, limas, maças, pêras, pêssegos e doce de calda; - porém nem um só cacho de uvas, nem tão pouco uma garrafa de vinho! As uvas pela maior parte se perderam e tal será a escassez de vinho nestes sítios, que o velho que em outros anos se comprava a seis mil reis e moeda de ouro, já se está vendendo a 30$ooo réis.

 

Fiz os meus cumprimentos ao meu compadre pela sua pródiga hospitalidade e ele respondeu-me que muito estimava poder mostrar-me que nos vinte anos que me tinha servido, não somente tinha ganho para o sustento e educação da sua família mas também poupado bastante dos dinheiros que eu lhe tinha dado a ganhar, não somente para me fazer este pequeno oferecimento mas também para que tivéssemos um petisco para comermos na viagem que íamos seguindo.

 

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rosácea românica da igreja do mosteiro de Santo André de Ancede, reaproveitada para óculo da capela-mor aquando da reconstrução da igreja no final do século XVII

 

De Porto Manso fiz uma digressão até à antiquíssima vila de Canaveses, onde no Marco achei as videiras com a mais bela aparência e cheias de magnificas uvas – facto este o mais notável, quando nos arredores todas as uvas estão perdidas pela moléstia. O Tâmega em Canaveses, ainda trás bastante água e tem uns 400 a 500 palmos de largo. O sítio é tão belo, que apesar da falta de comodidades, achei bastante em que me entreter durante dois dias inteiros. Em todo o concelho de Baião, o pão está muito caro em razão do calor que tem perdido a maior parte do que estava na terra e que não servirá senão para o gado. A ribeira de Porto Manso, outrora mui produtiva e abundante em água, este ano produz menos que metade do usual e se as chuvas continuarem a faltar, as consequências poderão ser mui fatais.

 

O estado do rio Douro entre o ribeiro de Pala e o rio Bestança é digno de particular observação. O leito está todo descoberto e o rio é um mero canal que apenas tem 60 palmos de largura e cujo curso é entre enormes rochedos de granito de 25 a 35 palmos de altura. Estes rochedos estendem-se sobre um espaço de 800 palmos de largura em cada uma das margens, até á casa do açougue em Porto Manso e a casa do Souto no cais do rio Bestança – e ambos estes pontos estão na altura de 60 a 70 palmos da borda do rio. Mesmo quando estes rochedos se acham cobertos, é uma temeridade navegar no rio com barcos carregados – porém no Inverno acontece muitas vezes que as enchentes do rio trazem dentro do curto espaço de três dias tal quantidade de água, que o rio sobe até às duas casas indicadas, tendo pois 1600 palmos em lugar de 60 de largura, e 90 de altura. 

 

O motivo do rio levantar tanto neste sitio é bem óbvio: - nos pontos de Escarnidas e Fiéis de Deus, o aperto das margens e a altura dos rochedos impede que as águas desemboquem, e por isso espalham-se pelo cais de Porto Manso, da mesma maneira que em 1780 antes de se demolir o cachão de S. João da Baleira, as águas não achando expediente cobriram toda a Ribeira da Vilariça. Logo acima das pedras da Morteira, que são os mais altos rochedos no cais de S. Paio, defronte do Porto Antigo, existia no meio do rio a pedra nativa chamada da Seixeira, que tinha 20 palmos de altura sobre a actual margem do rio – mas não era prejudicial à navegação – antes era uma rica propriedade de um particular, que dela tirava bom rendimento pela pescaria que até 1828 rendeu seiscentos e tantos sáveis num dia. Apesar do dispêndio, inutilmente feito a meu ver, com a demolição deste rochedo – ele ainda tem seis palmos de altura fora de água. Se antes de empreender estas obras, se tivessem aconselhado com os homens práticos, haviam de ter-se informado que o princípio da resistência da água da Seixeira, nascia da Fisga para baixo – águas que não levam os barcos para a Seixeira, mas sim sobre o rochedo Gonçalo Velho, no cais do Souto do Rio, onde iam e ainda vão bater: e em prova desta nossa asserção a corrente que principia na Fisga ainda continua com a mesma força na marca do rio em que sempre é prejudicial.

 

A pólvora não está muito cara – o ferro não falta – a gente da terra tem sempre vontade de trabalhar, venha a ordem para a demolição somente de metade do assustador Gonçalo Velho, e em poucos dias e sem que se faça grande despesa, ele deixará de existir.

Sou, de VV. &c. J.J. Forrester»

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«QUINTA CARTA

Desde Porto Manso até o Ponto do Piar, distante cerca de três léguas, o rio actual passa entre rochedos e altas penadias. Na margem direita há os insignificantes povos de Lugar das Vendas, Mirão, Porto do Rei e a Vila de Barqueiros; na margem oposta apenas há o povo das Caldas de Aregos e algumas casas defronte de Mirão, Porto de Rei &c. Vê-se a cultura em alguns intervalos, porém com imenso custo em razão da natureza do terreno. Depois da demolição das azenhas, tem-se estabelecido moinhos em barcas sobre alguns pontos do rio, mas apesar dos ventos soprarem constantemente, não há moinho de vento algum desde S. João da Foz até à raia!

 

Logo acima do Portozelo, por exemplo no ribeiro de Cabrão, sítio lindíssimo e que produz azeite e algum vinho, há moinhos que, apesar da escassez geral das águas, são de certo, os melhores do rio; mas assim mesmo os habitantes precisam esperar alguns dias para lhes tocar a vez para moer o seu pão, em razão da grande concorrência dos povos vizinhos, que vêem aqui moer o seu pão trigo, bem como o milho e centeio enviado da cidade invicta de propósito para este fim. Ora neste século de progresso, depois de recebidos no Porto os cereais da raia, com, pelo menos, 30 léguas de carretos e frete, tem estes de tornar a voltar dez léguas e três quartos de caminho para serem moídos e depois de novo conduzidos para o Porto!!!

 

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uma barca de passagem, algures no Douro

 

Estávamos no cais da Rapinha, quando chegaram dous barcos, um dos quais carregado de sacas de milho e trigo vindas do Porto e conduzidas por um homem, sua mulher e filha. Trouxeram apenas três carros e meio em 20 sacas. O frete da condução do grão para cima, e para baixo, de farinha, apenas importava em sete mil reis, e por esta diminuta quantia, a família havia de gastar pelo menos 15 dias, pagando por sua conta as alagens e a algum homem para os ajudar a subir os pontos! O segundo barco era de passagem de uma para a outra margem do rio, e logo que chegou a terra debaixo de uma salva de trovões e relâmpagos, saltou na praia um sujeito vestido de chambre de riscado e chapéu de palha, com um pau argolado, o qual se dirigiu a mim exclamando: “dê cá esses ossos!” e conheci que quem me abraçava com tanta amizade, não era outro que o distinguíssimo Ministro de Estado honorário Dias de Oliveira. Este recto juiz tendo aqui as suas terras, veio há pouco ver as obras que trás, e tendo visto do alto da sua quinta passar a minha barquinha, apareceu na forma do costume sem aparato algum nem bazófia, a oferecer-me a sua hospitalidade.

 

Da mesma maneira que os meus patrícios da Escócia aparecem por toda a parte, também se encontram nacionais da Galiza. Na Rapinha, neste sítio tão remoto e pouco povoado, logo que chegaram os dous barcos indicados, apareceu um galego para conduzir os sacos para o moinho, e com efeito ele só os levou. Como cada saco trazia 7 alqueires e ele tinha de o levar até ao moinho, distante uns 180 passos, fez pelo menos de ida e volta, uma légua de jornada na condução dos 20 sacos, e por este trabalho recebeu 200 réis.

 

As perspectivas são belíssimas nestas três léguas até o Piar; mas a cada passo há uma galeira que torna a navegação perigosíssima em toda a marca do rio. O leito está descoberto e acham-se à vista todos os obstáculos à livre navegação: as enormes pedras que em certa marca do rio estão cobertas, vêem-se-lhes agora as raízes cercadas de erva infernal e de bichinhos, como lagartos e pequenas cobras que eu nunca imaginava encontrar em semelhantes sítios.

 

Na ínsua da Bula é onde os rochedos apresentam uma configuração mais curiosa e pitoresca, por causa da força das correntes das águas, e aqui o rio agora (25 de Setembro) junto à laje da Bula apenas tem 40 palmos de largura e 25 a 30 de profundidade, tendo os rochedos em cada margem pelo menos 40 palmos fora de água. Tem-se alteado e reformado o paredão da Bula – é uma bela obra esta, tão bem executada como concebida.

 

Não vi preparativo algum para o melhoramento do ponto de Louvagem – pois as pedras bem descobertas estão – mostrando claramente quão fácil seria a sua demolição. Bastante gente anda trabalhando no Cadão, a alargar a pequena estrada que existe na margem esquerda para a alagem dos barcos. Aqui vêem-se muitos rapazes e raparigas levando pedras e entulho em pequenas canastras à cabeça(!) e algumas pedras em terra se andam quebrando, porém nas pedras do ponto mesmo, não se tem bolido. É pois de recear que se deixe passar esta ocasião para talvez nunca mais voltar, em que o curso do rio podia tão facilmente ser temporariamente conduzido em outra direcção, enquanto se fizessem as obras necessárias, no sítio mesmo daquele ponto. No buraco do Cadão, existe uma pedra sobre a qual batem todos os barcos nesta marca do rio; - com meia dúzia de arráteis de pólvora, dentro de dous dias, podia desaparecer este obstáculo, porque agora apenas trás meio palmo de água por cima.

 

Igualmente na Figueira Velha não vejo andar obra alguma quando também em poucos dias e diminuta despesa, este ponto poderia melhorar-se. Canedo em que em outros tempo tão grossas somas se gastaram – ainda nesta marca do rio restam uma pequena obra a fazer-se, que dentro de 8 dias em se podia efectuar e com mui pouca despesa e que será quase impossível logo que venham as águas. Na Ripança andam obras para facilitar a descida dos barcos carregados quando a marca de trinta anda a descobrir e juntamente para a subida dos barcos. Esta obra não deixará de ser útil até onde ela chegar.

 

No Piar sentimos verdadeiro gosto por ver que finalmente se tinha tapado um dos canais neste ponto com uns poucos de sacos cheios de areia, de sorte que com a maior facilidade se podiam limpar as pedras soltas e entulho de calhau que ai se achavam depositados. Este ponto é um dos mais interessantes em todo o Douro, 1º por ser a chave das montanhas do distrito vinhateiro, e 2º por ser o único sítio em todo o rio onde se tentou fazer uma ponte de pedra. É evidente que esta ponte nunca se concluiu, ainda que, na margem esquerda existe a maior parte de uma coluna de pedra de cantaria, não há indício algum até de ter havido princípio da estrada. No Calhau da margem direita, havia há anos uma das colunas mui bem conservada e também se viam os alicerces das outras duas, porém agora estes estão cobertos de areia e a torre está quase desfeita.

Sou de VV.
J.J. Forrester»

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Publicadas originalmente em 12.05.2013 e 19.05.2013 na antiga casa da A Porta Nobre, no blogspot.