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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Os edifícios da confraria de S. Crispim e S. Crispiniano

01.12.18

A confraria de São Crispim e Crispiniano é uma das mais antigas instituições vivas da cidade e manteve por vários séculos um hospital que se dedicava - sobretudo no seu início - em acolher os peregrinos que rumavam a Santiago de Compostela. Sofreu algumas vicissitudes ao longo da sua já longa vida, entre elas a transferência para o lugar antigamente denominado da Póvoa de Cima(1), que definitivamente a deslocou para bem longe do seu local de origem. Uma outra, bastante anterior, foi a resistência que opôs à anexação por parte da Santa Casa da Misericórdia do Porto que na sua formação aglutinou vários outros hospitais da cidade.

 

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i1 Área ocupada pelo complexo capela/hospital, junto à antigamente denominada cruz de S. Domingos que ligava a rua da Ponte de S. Domingos e a viela da Palma com a rua da Biquinha e rua das Congostas. (imagem do GoogleMaps)

 

 

Quando ainda no seu local original (ver i1) teve a confraria pelo menos duas capelas. A primeira, medieval, terá existido até aos meados do século XVIII. A segunda adveio de uma reforma promovida pela demolição parcial que este instituto sofreu a mando da Junta das Obras Públicas. Uma descrição da primeira capela existe, e apresenta-se abaixo.

 

 

A PRIMEIRA CAPELA

Ficava na rua da Ponte de S. Domingos indo do convento de S. Domingos para baixo fazendo frente por um lado à rua das Congostas. A casa de S. Crispim e S. Crispiniano era composta de capela, sacristia e hospital(2).

 

A capela dividia-se da casa do hospital por umas grades de ferro e um arco e tinha a mesma largura da do hospital medindo 22m comprimento (medidas por dentro e pelo meio da parede) e de largura cerca de 8m. Havia nesta um retábulo dourado em que estavam as imagens de vulto: no meio a de Nossa Senhora da Natividade, dos lados a dos Santos Crispim e Crispiniano e no cimo as de S. João Batista e S. Pedro Gonçalves. Tinha também um coro e por trás deste havia uma sala com alcova e cozinha em que viviam os enfermeiros. A porta principal media 7,7m e dava acesso tanto à capela como ao hospital. Ficava no alçado poente e tinha umas escadas de pedra lavrada com grades de ferro que dava descida, de um lado, para a rua da Biquinha e do outro lado, para a rua que vem dos arcos de S. Domingos para as Congostas. As escadas e o pátio mediam de largura 1,65m (entrando na medição as guardas) e ocupavam toda a largura da casa do hospital.


A sacristia ficava pegada à capela na parte norte e tinha uma janela virada a norte. Media de comprimento de nascente a poente cerca de 4m e de largura pelo lado nascente 2,2m e pelo poente o mesmo (refere o documento que esta medição é feita livre das paredes e fica fora das medidas da capela).


O hospital tinha sete alcovas com sete camas e por cima mais três perfazendo dez. Por baixo do hospital capela e sacristia ficavam cinco lojas pertencentes ao hospital que tinham de comprimento a largura dos mesmos; alugadas a mercadores. Na empena sul tinha uma porta sobre a qual tinha um nicho com a imagem de S. João Batista e também na mesma empena, de frente da rua das Congostas, um nicho e varanda de ferro em que está a imagem de Nossa Senhora da Natividade. Tinha ainda nesta parede umas armas em pedra com três flores de lis que se dizem ser as armas dos instituidores do hospital. Confrontava a sul com a rua que vem de São Domingos para as Congostas e Pé-das-Aldas(3). Na empena norte, tem a casa do hospital uma chaminé que vem de baixo até meio da parede defumando para um chipre ou saída das casas vizinhas (...) para onde também tem duas janelas com grades de ferro e mais a da sacristia como já se referiu. O alçado principal ficava virado a poente com a rua da Ponte de S. Domingos e serventia da Biquinha.

 

Esta medição e descrição são adaptadas da original que se encontra no livro do Tombo da confraria, de 1701(?). Segundo as Memórias Paroquiais de 1758, a igreja sofreu uma reedificação em 1733, posterior portanto a esta descrição; pelo que podemos estar na presença de dois edifícios no mesmo local, o que é convergente com tantas outras igrejas e capelas espalhadas pelo nosso país cuja obra atual resulta de remodelações setecentistas(4). Uma planta que ainda mostra o local da capela original pode ver-se abaixo.

 

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i2 Nesta planta de 1774, usada pela Junta das Obras Públicas para planear novos alinhamentos, assinalei a área do hospital original dentro do quadrado vermelho (a letra a assinala a escadaria que lhe dava acesso, referida nas medições). Nela vê-se também um corte assinalado com o nome S. Crispim: trata-se do terreno adquirido pela Junta das Obras Públicas em 1775 com o fim de alargar aquela passagem mas também com a grandiosa ideia de levar a rua Nova de S. João a desembocar em frente à igreja da Misericórdia.

 

 

Após tudo isto, veio o tempo dos Almadas e a construção da rua de S. João que obrigou ao corte que se mostra na i2. As obras ao nível do hospital e capela deverão ter sido mais profundas do que simples realinhamentos porque as estruturas que dele emergiram foram na verdade uma capela nova e um edifício do hospital em harmonia com o restante edificado que ainda hoje podemos ver na rua de S. João. E aqui entra a descrição desta segunda capela que nos é dada pormenorizadamente por Henrique Duarte Sousa Reis.

 

 

A SEGUNDA CAPELA

«É assente no cimo da rua nova de S. João em face da calçada de S. Crispim e vulgarmente conhecida de S. Domingos, à entrada da rua da Biquinha, aonde corre o rio da Vila, por isso mesmo que atravessa nesta parte a cidade, e sobre o qual estava uma ponte para servidão da passagem pública, do santuário e do hospital. Nada tem digno de reparo o frontispício desta capela, que mostra uma porta com proporções bem talhadas, e uma janela igualmente rasgada com elegância logo na parte superior da mesma porta, sendo seus mainéis guarnecidos de frisos nos seus vivos para lhe dar melhor aparência, sendo necessário para a entrada transpor alguns degraus de pedra talhados em meia laranja, que estão cercados de gradaria e cancela de ferro; finaliza o prospeto deste templo um triângulo acompanhado de pequena cornigem e assim formar a corrente das duas águas no telhado deste edifício; a torre fica-lhe pelo lado do norte, e ainda não se acha concluída mas isso não obsta a ter já montado, um sino no seu improvisado campanário, a fim de convocar os fiéis à oração. Junto desta torre ainda mais ao lado do Norte e faceando com a rua da Biquinha mostra umas casas, que indicam velhice, bastante desaprumadas, o que prova menos cuidado pelo passado assento do Hospital dos Palmeiros, que nelas em outro tempo permaneceu (...) 

 

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i3 Esta é a famosa vista de Joaquim C. V. Vilanova da frontaria da capela e edifício do hospital, com a sua frente corrida para a travessa da Bainharia. Notar, no topo desse edifício mas na frente voltada a S. Domingos, que foi executado o arranque da cornija para uma possível nova capela ou edifício de continuidade arquitetural dos restantes daquela rua, que prosseguissem a planeada continuação da rua de S. João até à igreja da Misericórdia; plano posteriormente abandonado.

 

 

O interior desta capela é lindo e otimamente executado, e de certo o arquiteto que riscou a sua planta era inteligente e conhecedor da arte, pois não se notam desigualdades ou desarmonias em toda esta formosa obra, que apesar dos estragos do tempo e uso conserva a flor da novidade e o bom gosto dos irmãos, que deliberaram e a edificação de tão apreciado templo, não o sendo pela riqueza das suas alfaias ou adornos, mas sim pelo escolhido do risco e plena observância dele, granito sem defeitos, igual na cor e no trabalho e esta uniformidade se é possível aumenta a sua beleza e preço.

(...)
Falarei primeiramente da capela-mor, cujas paredes laterais tem de alto a baixo duas pilastras de pedra com seus capitéis pertencentes à ordem [ ] formando a mais próxima delas o arco cruzeiro sobre o qual se vêm de relevo em pedra o escudo de armas dos mesmos santos óragos (...). A pilastra mais remota nesta capela mor fica colocada justamente no centro do pano de cada uma das paredes laterais dela, e assim como que as divide ao meio, ficando-lhe de ambas as partes no claro uma porta rasgada ao rés do pavimento e logo por cima uma janela com sua varanda de madeira inserida dentro das ombreiras; na linha destas pilastras e superiormente aos seus capiteis corre a coronigem bem talhada, e na direção dessas mesmas erguem-se para o teto os arcos de cantaria que é costume formar para sólido encontro da abobeda de tejolo, que forma todo o referido teto da dita capela mor todo estucado de branco gesso e nele apresenta dous quadros pintados a fresco para assim melhor destacar a brancura do mesmo estuque.

O retábulo do altar-mor é todo pintado em um só plano, mas tão bem dado o claro e o escuro, que bem parece relevo, o que apenas tem as formas dele; figura uma semi-cúpula apoiada sobre colunas tendo na frente uma empena curva com coronigem dentada com o tímpano liso e pousam-lhe nos extremos sentadas duas estátuas e no cimo dessa cúpula como remate um grupo de anjos, e são tão delicadamente rescados todos estes diversos objetos e o colorido é com tal estudo,  que a ótica se ilude pela luz que buscaram para a pintura e crê-se realidade neles, quando na  verdade são apenas linhas traçadas em pano oleado; o camarim é vazado como se carecia, o altar saliente e de madeira: em dous pegões firmes nas paredes laterais, um a cada lado e junto ao retábulo e neles estão pousadas as lindíssimas imagens dos dous mártires S. Crispim e S. Crispiniano da invocação desta capela e confraria.

(...)

É o corpo desta capela prefeitamente circular, e sem que exceda a sua altura do pé direito aquele que foi marcado para a capela-mor vai a coronigem no mesmo estilo, gosto, feitio e forma, quasi encontrar-se e fechar com a outra se não fora cortada pelas pilastras faciais do arco cruzeiro, e do outro arco igual em tudo de que logo descreverei quando descrever o coro. Nascem do pavimento e por cada lado deste corpo quatro pilastras com capitéis que servem de apoio à mencionada coronigem: duas destas pilastras forma as facies nos extremos ou vivos do arco cruzeiro e do coro, e as outras duas ficam a cada lado centrais e de tal arte repartem três claros ou vãos, os quais são ocupados por outros tantos arcos de cantaria sendo o mais próximo do cruzeiro e o do meio vazados para conterem os altares, banquetas e retábulos para as imagen[s], o restante arco que está junto ao que forma o coro é tapado a pedra e cal e apenas lhe aparecem os mainéis para assim sustentar a simetria e igualdade do risco, is[to] é pelo que diz respeito ao do lado direito pois [n]o do lado esquerdo praticaram o púlpito para o pregador nas solenidades; a cada lado vê-se, sobre o arco do meio uma janela rasgada com sua varanda de balaústres de madeira embutida dentro da linha das suas umbreiras, e sobre cada um dos laterais aberto um óculo oval com a sua competente vidraça, o que tudo faz um conjunto de peças tão agradável à vista como ao embelezamento do interior deste santo templo do Deus vivo.

 

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i4 Esta imagem revela-nos em fotografia um pouco do que na i3 se viu em desenho. O n.º 1 é a fachada da capela, o 2 o seu zimbório e o n,º 3 a tal cornija que parece querer desenhar o arranque de uma magnifica nova capela que nunca surgiu. Para ajudar o leitor a situar-se assinalei estruturas ainda existentes atualmente: a letra A indica o edifício situado no topo da rua de S. João, gaveto com a travessa da Bainharia; a B o Palácio das Artes, antigo convento dominicano que também já foi banco e companhia de seguros e finalmente com a letra C o atual hotel A. S. 1829, (ex-papelaria Araújo & Sobrinho).

 

 

Uma abobeda igualmente circular na sua base cobre este retundo corpo da capela, e é firmado na coronigem circular que o rodeia, mas para não ser desagradável o nascimento desta pesada cúpula, é ela na sua raiz guarnecida por um largo cintado de pedraria lavrada em escudetes e dali se eleva sempre redonda até encontrar o anel onde se firma o alegríssimo zimbório envidraçado que a remata e tão abundantemente espalha no centro da capela a claridade do dia. Nesta abobeda tão prefeita e em calculada altura do cintado e coronigem estão pintados a fresco seis quadros redondos representando os quatro evangelistas, e os dous centrais o Eterno Padre na ação de criar o mundo e a luz: são todos de meio corpo e os estuques cheios de florões de gesso para mais embelezar esta pela formosíssima.

 

Resta-me dizer, que o terreno ocupado pela entrada principal desta capela é um espaço prefeitamente igual ao da capela-mor, e como ela tem outro arco idêntico em dimensões, altura e largura ao chamado cruzeiro, ao qual fica fronteiro, diferindo apenas em ter no meio dele outro arco abatido que forma o coro do santuário esclarecido pela janela regral rasgada no frontespício e desta forma converge no centro desta lindíssima capela, aonde está o seu corpo de feitio retundo a luz do dia transmitida de reverbero da capela-mor, pois nela entra pelas suas quatro janelas abertas nas paredes, que a formam, a claridade vinda diretamente da vidraça do coro, a qual atravessa em toda a sua extensão e finalmente o imenso clarão do sol, que do formoso zimbório desce nesta parte do mesmo santuário; o jogo de luz assim junta no seu centro torna agradável a estada neste santo recinto da oração, pois não há parte alguma interna deste edifício, que não seja alumiada convenientissimamente sem os raios da mesma luz ferirem a vista, e gozam-se com ela os quatro altares laterais e o principal ou maior, quando adornados com velas de cera e alfaias a par dos filetes dourados que alguns deles tem e as boas imagens que aí colocaram sendo os da direita dedicados à Família Sagrada, e o outro a S. Roque, os da esquerda à Senhora da Soledade, e o imediato à Senhora do Pilar, todas de ótima escultura e cuidadosamente zelado o seu decoro, fazem um todo que se torna digníssimo da estima geral desta cidade, que neste templo possui uma peça de muito merecimento.

 

A sacristia e o hospital ficam à parte do Evangelho ou ao norte, aonde as edificaram por isso, que o frontespício da capela olha ao poente.»

 

Por esta descrição verificamos que a capela setecentista era digna de ser admirada e seria sem dúvida uma mais valia para a cidade se tivesse chegado aos nossos dias. Mas o progresso assim não o quis, e em 1874 tudo desapareceu para dar lugar à rua Mouzinho da Silveira(5).

 

Notas:

1 - Em frente à atual praça Rainha D. Amélia

2 - Esta palavra tem na idade média um significado mais concordante com o que hoje denominariamos de hospedaria; ainda que promovesse igualmente cuidados de saúde aos enfermos, com todas as condicionates próprias da época.

3 - Esta expressão foi por vários séculos utilizada para defenir a área da rua da Bainharia junto com o entrocamento da rua das Aldas e à própria rua das Aldas na parte abaixo da Porta de Santa Ana.

4 - O texto diz: «...redificouse este hospital no anno de 1733; he grande, e tem hua boa capela» (vol. 30 f.1641).

5 - No mapa das expropriações para abertura da rua Mouzinho da Silveira vemos lançada em 14 de agosto de 1874 a verba referente às propriedades desta confraria: «Casa e capela no largo de S. Crispim n.º 110 e 111 - casas na rua de S. Crispim, 7 a 11, 13 a 17, 19 a 23; e na rua da Biquinha, 1 a 8, 10 e 12»; tudo pelo valor de 18:806$000.

 

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Bibliografia:

A confraria de S. Crispim e S. Crispiniano e o seu hospital na idade média de Maria Helena M. R. Oliveira

Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da cidade do Porto de Henrique Duarte S. Reis.