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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A capela do Calvário Novo e duas fotos intrigantes...

por Nuno V. Cruz, em 30.08.18

A capela do Senhor do Calvário erguia-se no local onde hoje se encontra a entrada do parque de estacionamento privado do Palácio da Justiça. Praticamente adjacente a ela encontrava-se a Roda dos Expostos - triste reflexo de uma expressão social felizmente erradicada - e ao lado desta esteve o Mercado do Peixe no local onde se haviam já erguido outrora os celeiros da cidade. Confuso o leitor? Nada que as fotos não resolvam!

 

 

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i1 Local onde esteve a capela do Calvário Novo (foto SIPA). À esquerda temos a íngreme rua Dr. António de Sousa Macedo (antes travessa do Calvário) e a rua Dr. Barbosa de Castro (antes rua do Calvário).

 

 

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i2 Pormenor de uma panorâmica anterior, pelo menos, a 1864. 1) Celeiros da cidade onde mais tarde existirá o Mercado do Peixe, também já desaparecido; 2) Roda dos Expostos (antigo Hospício dos Capuchos); 3) Capela do Calvário; 4) Reitoria da Universidade do Porto (em construção); 5) Paredão das Virtudes; 6) Igreja da Graça e Colégio dos Meninos Orfãos (demolido para dar lugar ao edifício da Reitoria).

 

 

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i3 Neste pormenor de uma outra panorâmica, esta já dos anos 20/30 do século XX, vemos quase os mesmos edifícios (mantive a numeração); contudo o n.º 1 é agora o Mercado do Peixe, demolido nos anos 50 do mesmo século.

 

 

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i4 Neste extrato de uma planta do Arquivo Municipal do Porto vemos os edifícios que tenho vendo a referir, onde indico para melhor localização do local, a Capela das Taipas (a) e o Hospital de Santo António (b).

 

 

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i5 Outro extrato de uma planta do Arquivo Municipal do Porto, desta feita a de Teles Ferreira (1892), onde se vêm os edifícios em questão.

 

Mas, centrando a vossa atenção na capela, pude consultar a obra de 1972 de Bernardo Xavier Coutinho (História documental da Ordem da Trindade) onde consta um documento curioso para a história desta capela e sua confraria. Diz assim:

 

«ORIGEM DA CAPELA E CONFRARIA DO CALVÁRIO NOVO

Teve princípio a capela e confraria do Senhor do Calvário Novo com o título do Bom Jesus de Bouças pela via sacra que principiava na Senhora da Esperança - o Calvário Velho foi onde hoje se acha a igreja e convento das Carmelitas [lado sul da praça Guilherme Gomes Fernandes] - havia uma simples cruz de pedra quadrada antiguíssima e nela uma imagem de Cristo pintada junto a uma cerca de terra dízima a Deus. Consta do prazo que fez à Câmara João Batista Ferreira, em 1683 haver já a Capelinha do Senhor, como se vê das confrontações, crescia em aumento esta confraria de sorte que, no ano de 1700, fizeram uns estatutos confirmados e sujeitos ao Ordinário. Tendo grande devoção, Madalena da Cruz Campobello, da Vila de Guimarães com o Senhor, fez o contracto de doação à Confraria, em 1703, com a obrigação de lhe fazerem uma casa junto à capela que julgo ser a terra da cerquinha da dita Madalena da Cruz, para a dita viver .... Consistia a capela naquele tempo ser pequena, baixa, com um alpendre de fora e uma casa ao pé da fábrica e ermitão...

 

Em o ano de 1703 emprazaram os Mordomos à Camera a terra para reedificarem o corpo da Capela com o alpendre por prazo fateuzim ... acabaramo o corpo da capela em 1705 e continuaram a obras de 1737 ... Em 1734 foram inquietados pelos religiosos vezinhos Capuchos[1], além das demandas, em pedirem a capela ao rei o Senhor D. João Quinto. Em 1737 fizeram os assentos ao redor da capela e outras obras, tudo à custa da confraria, como se vê de uma pedra nela esculpida que diz: Esta obra assim casas como pátio e assentos se mandou fazer à custa das do Calvário Novo ano 1737.

 

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I6 A capela e adjacências nos inícios do século XVIII

 

Em 1739 para 1740, se tirou a cruz de pedra e se pôs na Sacristia; se colocaram as imagens que tinham mandado fazer em vulto do Senhor Crucificado, e morto.

 

Não se descuidaram os Capuchos em verem de que modo hav[er]ião de usurpar a capela, de sorte que começaram a miná-la pela parte de trás que confina com a sua cerca, e movendo-se pleitos sobre isto se fez vistoria que se julgou por sentença ... e de que dipois resultou fazer-se o paredão. Da parte da viela intentou o Galvão fazer umas casas térreas encostado ao muro do passeio e logradouro da dita capella e fazendo-se vistoria, se julgou ser a terra do público ....

 

Em 1784 tornaram a pedir a capela os Capuchos à Rainha a Senhora D. Maria primeira, vindo a informar responderam até o ano de 1787 por motivo de que fizeram o contracto de transação com a Ordem [da Trindade].»

 

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 i7 A capela no fim do século XIX ou início do século XX, já reduzida a armazém.

 

Com efeito, a Ordem da Trindade foi ereta na capela da Batalha (também já desaparecida) em 29 de junho de 1781, transferindo-se para a do Calvário em 26 de Novembro de 1786. No processo aglutinaram a confraria do Calvário: «... por isso fizerão aquele contrato, com os da Confraria do Cálvario, de tomar conta, e posse da capela e todos os mais bens, ficando a confraria extinta, entrando para irmãos terceiros todos que eram, e possuiô a dita confraria ... declarando somento que no dia da festa da Santíssima Trindade no qual costumavam festejar o Senhor do Calvario fariam comemoração do mesmo Senhor....»

 

Mas os vizinhos Capuchos não deixaram de azucrinar a cabeça, agora à Ordem da Trindade. E assim pediram ao Chanceler Governador Roberto Vidal da Gama que lhes dispensasse a capela para nela poderem confessar. Este acedeu ao pedido e «...foram os Padres com ofeciais de justiça com um confencionário para entravar a capela ao que acodiu o reverendo capelão que nela se achava atualmente e a pontapés sacodiu tudo pela porta fora...»

 

A igreja da Trindade, na verdade, poderia nunca ter sido erguida no local onde hoje se encontra, caso os Capuchos não tivesse feito de tudo para ficar com aquela capela; pois que a Ordem, querendo construir uma igreja maior, obteve uma provisão para emprazar terreno até à face da rua e com esse espaço mais o seu terreno próprio, teria área suficiente para uma igreja de tamanho mais decente, em acordo com o número de irmãos. No entanto logo os Capuchos armaram desordem: «... e trabalhar já a respeito de votar pedra - na testada já com o embargo sobre o tilheiro da cal de firmar sobre a parede da parte do caminho, e no mesmo fazendo-se o alicerse saíram com paus nas mãos para darem em alguns trabalhadores e benfeitores que depois do dia andavam no alicerse a tirar entulhos para adiantamento da obra...». Os Capuchos vieram argumentar junto da rainha que aquela igreja era desnecessária por haver muitas à volta, que seria sumptuosa e assim esvaziaria os cofres da Ordem... E a ordem saiu para «que se conservasse tudo no estado antíguo».

 

E assim, querendo os da Trindade se defender, «tratou-se de mostrar a verdade porém como esta é mansa e anda de vagar» os irmãos já não conseguiram reverter a situação.

 

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i8 A antiga capela nos anos 30 do séc. XX, pouco antes da demolição. Notar que já se haviam rasgado quatro portais no seu rés-do-chão, fruto de uma utilização de décadas como edifício comercial. A seu lado a Roda dos Expostos (2) e o Mercado do Peixe (1) ao lado. Mais ao fundo vê-se um pouco do frontão do Hospital de Santo António (face virada à rua da Restauração)

 

Assim, o sonho de construir ali uma igreja, tão ampla como a da Trindade que agora temos, esfumou-se e após as últimas alegações dos Capuchos que diziam que na abertura dos alicerces já tinham morrido 3 homens, deu ordem para «entupir» esses mesmos alicerces o Juíz dos Orfãos da cidade e quando a Ordem da Trindade requereu um local para arrumar a pedra lavrada, «respondeu que a metesse pela igreja dentro...». Diz-nos Firmino Pereira a pp. 157-159 do seu O Porto d' outros tempos de 1914, que após o abandono deste edifício por parte da Ordem da Trindade estes profanaram a igreja vendendo «ao desbarato os altares e alfaias que  a adornavam, e alienando os terrenos que ali possuía[m] a Francisco José Gomes Monteiro». Mais à frente: «A capela da Cordoaria foi, há anos, transformada... em cavalariça, quando lá se estabeleceu a Companhia de Transportes Portuense, que liquidou em 1874. Depois foi padaria, taberna e... lupanar!

 

 

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i9 Nesta imagem - mas uma vez do Arquivo Municipal do Porto, vemos em destaque as traseiras do Mercado do Peixe e ao seu lado (2), o edifício da Roda dos Expostos, antigo Hospício dos Capuchos.

 

Finalizo com um enigma... As duas imagens que se mostram abaixo pertencem ao Arquivo Municipal do Porto e não estão identificadas quanto ao edifício que representa, mas onde se pode claramente verificar que foi na sua origem religioso. Se olharmos com alguma atenção, na parede interna visível existem muitos entalhes onde se colocaram traves por forma a sustentar um sobrado, algo muito inverosímil numa igreja sobretudo naquele, na aproximação à capela-mor. Assim, poderemos inferior sem grande margem de erro que aquele edifício terá desempenhado outras funções...

 

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Tenho para mim, que estas fotos representam a demolição capela do Senhor do Calvário. Ajudou-me também a pensar desta forma a ausência de edifícios atrás, bem como o desnível aparente que se vê para o edifício que surge na esquerda com a sua clarabóia, que parece ser o mesmo que se encontra do outro lado da rua na i2. Com certeza que nunca ou dificilmente terei certeza deste meu pensar, mas e já agora, pergunto aos meus caros leitores: Estarei a querer ver demais?

 

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1 - Os Capuchos referidos no texto eram os franciscanos do Vale da Piedade em Gaia, que resolvendo construir um estabelecimento para a cura dos seus doentes requereram à Câmara fazê-lo dentro da cidade. Em 1722 foi-lhes concedido um local na praça da Cordoaria, onde segundo Sousa Reis construiram «uma enfermaria ... e de tal forma a levantaram que veio a ser um bom Hospício bem assente com ótimas vistas, anexando-lhe dous soberbos armazéns de que colhiam pingues alugueres». Este edifício foi em 1833 escolhido para instalar a Biblioteca Pública Municipal do Porto; no entanto, concluindo-se que o mesmo era desadequado a este fim, acabou por nele tomar lugar a Roda dos Expostos.

 

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publicado originalmente no blogspot em 22.01.2017. Última modificação em 20.11.2018