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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Como era a capela do Senhor Salvador do Mundo em 1755

30.09.19

Caríssimos leitores, este blogue celebra hoje dez outonos. A maior parte da sua vida passou-a no blogspot, tendo em 2017 sofrido uma trasladação para esta casa lusitana, no sentido sobretudo de melhorar a sua qualidade visual, ao mesmo tempo que as suas publicações vão sendo para aqui reaolocadas, após uma revisão ou mesmo pontual correção, do seu conteúdo. Enquanto tal ocorre, novas publicações vão sendo intercaladas com as suas irmãs mais velhas. Aquando do fecho no blogspot, o número de visualizações ultrapassava os 181.000. Desde 2017, quando A Porta Nobre mudou de casa e o contador voltou a 0, esse número foi drasticamente reduzido, não ultrapassando hoje as 25.000 visualizações.[1]

 

A todos os que me leem, especialmente os que o fazem desde o início, o meu muito obrigado! É meu desejo ter força para prosseguir neste trabalho que executado com carinho, mas que, como qualquer atividade, tem dias mais motivadores do que outros... Quem corre por gosto não cansa, diz-se popularmente, e é por isso que, não tendo em vista o lucro material, por cá me pretendo manter, divulgando pedaços da história da cidade de uma forma um pouco diferente da habitual, apresentando documentos e factos desconhecidos, ou, pelo menos, pouco conhecidos, de todos os interessados pela história desta urbe.

 

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Não fosse a mensagem acima, e esta publicação não seria assim tão extensa... Hoje trago-vos a medição de uma capela que atualmente quase passa despercebida, mas que durante vários séculos foi bastante conhecida. No século XIX, porém, esteve quase para desaparecer, transformada em algum armazém ou, quem sabe, numa casa de habitação para alojar os numerosíssimos galegos, sem os quais a vida da cidade não fluía (é preciso que se lembre!).[2] Mas, como dizia, o que hoje vos pretendo dar a conhecer é a medição da capela pertencente à Confraria do Senhor Salvador do Mundo, sita nas Congostas. Esta capela vem, pelo menos, desde os finais do século XV, quando os habitantes da Rua das Congostas se reunirem em confraria após a peste que assolou a cidade os ter poupado. A primitiva capela ruiu no ano de 1656, tendo sido reedificada no ano seguinte à custa de esmolas. Já no final do século XIX, a dita capela sofreu as obras de ampliação necessárias para a trazer ao alinhamento da Rua Mouzinho da Silveira, ficando nessa época com o aspeto exterior que ainda hoje apresenta.

 

Screenshot_1.jpg

capela do Senhor Salvador do Mundo em maio de 2016

 

Sobre a capela anterior, no entanto, existe um curioso documento de maio de 1755, pouco anterior ao grande terremoto, onde aquela estrutura - e não só - é cuidadosamente medida. Medição essa que foi lançada no Tombo da confraria, de onde B. Xavier Coutinho[3] a extraiu e colocou no incontornável arquivo portuense que foi a revista O Tripeiro. Peço ao caríssimo leitor que leia o texto que se lhe apresenta diante dos olhos, e vá tentando imaginar, já que é essa a única hipótese que hoje temos, como seria aquela capela antes de chegar o mundo moderno, ávido de ruas espaçosas. Diz-nos, então, o documento:

 

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«Ele Dr. Juiz do Tombo mandou ao louvado que a medisse, e medindo-a ele com efeito, achou que a dita capela na loja em baixo tinha de comprido dez braças, com a parede, e livre da parede menos três palmos e quatro dedos da parte do poente ao nascente, de norte a sul cinco palmos e meio. E que a medida da parte do sul ao norte tinha mais um palmo livre das paredes e que pela parte de fora tem de largo sete braças, cuja loja da dita capela tem sua porta para a Viela do Salvador, e sua janela com sua grade de ferro para o poente, e dita Rua do Salvador; e tem mais na dita loja e armazém da capela uma porta que se acha tapada de pedra e cal, que vai ter às casas que ficam na traseira da dita capela para a parte do nascente, que hoje são de António Caetano José de Sousa Magalhães, filhos que ficaram de Manuel de Sousa Dias.

 

E medida a capela em cima do sobrado se achou ter nove braças e meio de comprido do nascente ao poente, livres das paredes, e de largo, de norte a sul, medida da parte da nascente, tem mais seis varas menos um quarto, e medida da parte do poente tem de largo seis varas e uma mão travessa.

 

E tem a dita capela suas janelas rasgadas para a Rua das Congostas e tem duas janelas de peitoril para a parte do sul.

 

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parte de uma planta anterior a 1865 que nos mostra a Viela do Salvador e o edifíco da capela, provavelmente na versão descrita neste texto. Com o alargar da Rua das Congostas (1), depois Mouzinho da Silveira, tornou-se necessário chamar a sua fachada ao novo alinhamento

 

Tem seu alpendre com suas escadas de pedra para a viela chamada do Salvador, com seu campanário e sino; e confronta da parte do nascente com casas dos ditos António Caetano José de Sousa Magalhães e seu irmão o Dr. Vicente José de Sousa Magalhães, que ficam encostadas à dita capela; e da parte do sul com a dita Viela do Salvador, e do norte com casas dos herdeiros do Padre Domingos Tavares, de que é direto senhorio a Santa Casa da Misericórdia desta cidade, e do poente com a dita Viela do Salvador que é larga; e sendo medida, se achou ter de largo três varas, menos uma mão travessa, a qual era muito estreita; e declarou o louvado medidor e os oficiais da confraria da Irmandade da capela, que para efeito de fazerem a dita viela mais larga, compraram as casas na frente da rua para a parte do sul, de Juliana de Jesus, e as desfizeram, tomando terras delas para alargar a dita rua, e depois as tornaram a vender: e quas [sic] as ditas casas dos herdeiros do Padre Domingos Tavares tem para a dita viela cinco janelas de peitoril; a saber: duas no sobrado de baixo pequenas, e três no sobrado de cima, sem que tenha sacada alguma para a dita viela.

 

E as casas que ficam defronte desta, da parte do sul da dita Juliana de Jesus, que são de dous sobrados para a Rua das Cangostas, e tem uma (?) soleirinha (?) para a parte de trás, tem uma porta pegada ao chão confrontando com a mesma capela, com três janelas de peitoril para a parte da mesma capela e para a Viela do Salvador tem também duas janelas de peitoril sem varanda nem sacada; e que a parede da mesma capela tem de grossura três palmos menos uma polegada».

*

 

Também Sousa Reis, um século mais tarde, nos dá uma imagem ainda que muito breve, da frontaria desta capela: « ... e logo no princípio deste mesmo beco ou viela [do Salvador] e em frente da sua entrada, está o oratório e pequena Capela de S. Salvador, a qual posto ter a sua frontaria talhada e aberta em arco espaçoso, que a atravessa em toda a largura, e a porta ampla e inferior a [=à?] balaustrada assente nesse arco, me parece ser em épocas remotas o santuário pertencente ao Hospital das Velhas, que consta existiu naquela rua das Congostas... ».[4]

 

E agora que chegamos ao fim, questiono-o caríssimo leitor: conseguiu imaginar aquele lugar naquele ponto do passado? Certamente que sim. E certamente que a sua imagem é diferente da que eu ou outro leitor formou. Ainda assim, elas só devem divergir em questões de pormenor, limitados à nossa capacidade de, melhor ou pior, integrar a totalidade das formas que se nos apresentam descritas. Espero, que não tenha dado o exercício como perdido! E que volte já na próxima publicação, dando-me a alegria da sua leitura, que desejo sempre agradável.

 

 

1 - Os motivos para tal são, a meu ver, dois: o facto de não existirem 8 anos de publicações que pudessem atrair a atenção do leitor casual, bem como o método de contagem do blogspot, que sempre me pareceu algo desgarrado e por isso enganador.

2 - Muitas casas deste tipo existiram espalhadas pela cidade. Nelas, estes pobres homens eram empilhados em condições desumanas, bastando, para isso comprovar, a consulta aos jornais de meados do seculo XIX. Um exemplo desse tipo de habitações, foi a casa que existiu no local do bonito hotel que há poucos anos veio substituir a Araújo & Sobrinho. (demolida em 1845 e conhecida por A ilha). Ou anos mais tarde, quando a polícia foi obrigada a despejar uma casa que se encontrava a ameaçar ruína na Rua das Congostas, de onde retirou pelo menos 11 galegos que ali 'viviam'.

3 - O Tripeiro,. Série 6, vol. VIII, p. 312.

4 - Apontamentos para a verdadeira história..., vol. 4, p. 346.