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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Viagem a um Porto de outro tempo .8

por Nuno V. Cruz, em 16.08.18

Com esta oitava publicação termino a transcrição dos excertos do livrinho de Manuel Pinheiro Chagas sobre a viagem que este, ainda jovem, fez ao Porto em 1865. O livro tem mais, bem mais... Agora que os meus caros leitores o ficaram a conhecer talvez se sintam motivados para o encontrar, ainda que não seja fácil dado ser uma raridade e quase esquecido[1].

 

 

*

O droguista da Praça Nova

« (...)

Quem há que, não vindo ao Porto, não procure logo o túmulo de Soares de Passos, para ir meditar junto da pedra, que cobre o cadáver de um dos maiores poetas portugueses?

 

Não seria eu decerto quem deixasse de cumprir tão piedosa romaria. Para mim Soares de Passos é mais do que um talento, é um coração. Junto da loisa não esperava respirar unicamente eflúvios de glória, mas também de afeto. Se génios como o seu, são vencedores da morte, coração como o dele

 

a tumba fria
É pequena demais para conte-los.

 

Fui. Lembro-me que estava uma tarde linda e melancólica, uma tarde, como ele as desejaria. O sol, mergulhando-se já no extremo do horizonte, afogueava as nuvens em pudibundo rubor. Os campos exalavam essas vagas harmonias do crepúsculo. (...)

 

Lembro-me também que lá ao longe, ao longe, havia uma janela, cujos vidros o sol incendiava teimosamente, entre-mostrando-ma cintilante, esplêndida, e obrigando-me a distingui-la das suas irmãs, que o acaso mergulhava nas sombras crescentes da noite. O astro moribundo ainda irradiava luz bastante para tirar do nada o objeto, onde poisava um raio, e quando a sua área coroa se desfizesse nas ondas, ainda esses pobres vidros, prediletos do seu derradeiro capricho, haviam de conservar o reflexo do seu esplendor, e lutar com as trevas invasoras.

 

E o génio é o sol. Ao sumir-se no ocaso ilumina com um dos seus raios a pedra lisa, sob a qual se oculta, e a humilde campa prende durante séculos a atenção de quem pára um instante a ler o nome nela inscrito.

 

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i1 Entrada do cemitério da Lapa na atualidade. Na placa de mármore existente na padieira do portal podem ser lidos uns versos que vejo atribuído a Soares de Passos, mas que não consegui confirmar de fonte segura. São estes: Eis ossos carcomidos, cinzas frias, / Em que param da vida os breves dias, / Mortal se quanto vês te não abala / Ouve a tremenda voz que assim te fala, / Lembra-te homem que és pó, e que dest'arte / Em pó, ou cedo ou tarde, hás-de tornar-te.

 

 

Chegávamos ao cemitério da Lapa. A noite aproximava-se rapidamente, e era necessário descobrirmos a todo o custo o túmulo do grande poeta. Principiamos a exploração.

 

Subimos ao cemitério de cima, e percorremo-lo em todos os sentidos. O acaso, que muitas vezes se obstina maliciosamente em desviar-nos os olhos do objeto que procuramos, e que logo nos devia dar na vista, frustrou-nos as tentativas.

 

Descemos desalentados. Conversavam dois sujeitos bem trajados, com o coveiro; iluminou-me um raio de esperança.

 

Aproximei-me, e disse, dirigindo-me ao que me parecia mais capaz de me dar a indicação desejada:

 

- Desculpe-me incomoda-lo. Não me poderá dizer onde é aqui o túmulo de Soares de Passos? 

- Soares... de... Passos - respondeu-me o sujeito cortesmente, levando aos lábios o dedo indicador em atitude pensadora - esse nome não me é inteiramente desconhecido.

 

- Ah! - tornei eu - não lhe é... completamente desconhecido? 

- Não senhor... mas não me recordo bem. Ele o que era?

 

Confesso que esta pergunta atrapalhou-me. Efetivamente o que seria Soares de Passos? O autor do 'Firmamento'? É verdade, mas o homem, se eu lhe dissesse isto, punha as mãos nas ilhargas e desatava a rir como um perdido. Ora eu não queria por em risco a gravidade de quem me atendia tão obsequiosamente. Dei tratos à imaginação. Quem era Soares de Passos? Eis a frase que me zunia nos ouvidos, e me perseguia despiedosamente. Oh! se ele tivesse sido regedor! Cabo de polícia ao menos! Sacristão! Andador das almas! Nada! Nada fora, nem mesmo barão.

 

E eu estava ali diante do homem, boquiaberto, aterrado, fulminado. Erguia os olhos ao céu, tossia, engulia em seco, e não dizia palavra. O sujeito principiava a fitar em mim um olhar desconfiado. Era forçoso decidir-me. Não havia remédio. Armei-me de energia, e aventurei-me a dizer, com os olhos baixos:

 

- Era... poeta!

 

O sujeito olhou para mim com espanto. Encolhi-me todo. O que me iria ele responder? Prender-me-ia por suspeito? Acharia plausível a razão que eu dava para percorrer todo o cemitério, à procura de uma pedra tumular?

 

- Poeta! - repetiu ele - mais nada? 

- Mais nada! - respondi com voz quase sumida.

 

Bebera até às fezes o cálice da humilhação. Só um baronato me poderia reabilitar no conceito daquele honrado homem.

 

- Eu contudo - acrescentou o meu interlocutor - lembro-me de ter visto esse nome. Parece-me que o túmulo está cá em cima.

 

E dirigiu-se para as escadas. Seguiu-o.

 

Efetivamente, apenas deu dous[2] passos, encontrou-o logo. Chamou-me, indicou-mo, e retirou-se depois de ter correspondido friamente à profunda cortesia que lhe fiz em sinal de agradecimento.

 

 

tumll.jpg

i2 Também eu andei uns bons 15 minutos procurando o túmulo do poeta, tal como Manuel Pinheiro Chagas há 153 anos (e nem o funcionário do cemitério me soube dizer o local). Em 2018 o sepulcro está como se pode ver na imagem; e as Camélias há muito que desapareceram.

 

 

Ali, sobre aquela pedra, estava o cadáver de Soares de Passos, gelado o coração que tanto sentira, vazio o crânio, onde se abrigava tamanho talento. A vista espraiava-se desafogada por um panorama, a que as sombras do crepúsculo davam um tom suave de melancolia. A brisa começava a gemer o seu cântico plangente, curvando as hasteas das camélias, que florescem em torno do túmulo. Colhi uma, ainda não de todo desabrolhada, como o anjo da morte colhera o poeta. Rosas brancas! Como ele se há-de sentir bem ali, quando o vento lhe acamar sobre a loisa as suas queridas flores.

 

Eu amo a rosa branca das campinas,
A branca rosa, que, ao soprar do vento,
Lânguida verga para o chão pendida!

 

Aquele sepulcro exalava um perfume de tristeza despida de amargura. Os versos de «Amor e Eternidade», gravados na loisa, casavam-se tão bem como a hora, com o sítio, com o murmúrio dos vales, com a luz frouxa do sol que

 

ao descair lá no Ocidente
Quão belo lhe fulgura
Na campina solitária!

 

Riam-se embora os que não compreendem os gozos da tristeza, zombem de mim os que só procuram esquecer-se da morte no turbilhão da vida, hei-de confessar o que senti. Senti um inefável prazer em escutar a voz misteriosa, que saía da campa, que eu só ouvia, e que me falava de amor, de eternidade, e de glória! Invejei a serena poesia, o puro recolhimento daquele... sepulcro não, santuário! E quando, no meio do revolto golfão, da existência social, me lembrar do meu passeio de tarde ao cemitério da Lapa, do túmulo de Soares de Passos, da beleza do crepúsculo, das camélias que se debruçavam sobre a loisa, hei-de demorar o pensamento nessa recordação e hei-de esquecer o que me rodear para voltar em espírito a esse sítio e a essa hora.

(...)

Descemos as escadas. Confesso que já não pensava no sujeito, que me indicara o túmulo. Ele lá estava encostado à parede, conversando com os outros dois. Falavam em voz baixa com uns certos ares de indignação. Quando eu passei, olharam para mim de revés. O meu oficioso «cicerone» conservou um silêncio cheio de dignidade, mas o coveiro, segundo parece, menos senhor de si, não pode deixar de me dizer com um certo tom de desprezo:

 

spas.jpg

i3 Soares de Passos, o droguista da Praça Nova.

 

 

- Se o senhor tivesse dito que procurava o droguista da Praça Nova, logo lhe ensinava onde era o túmulo!

 

E, depois de me ter fulminado desta maneira, voltou-me as costas. Os outros fizeram o mesmo, depois de me terem dirigido um olhar de compaixão.

 

Eu fiquei estupefacto, atordoado, calculando com horror a imensa profundidade do abismo da minha ignorância!


Janeiro-Fevereiro de 1865 »

*

 

___ 

1. Também eu apenas o conheci indiretamente, graças a um escrito de Magalhães Basto.

2. É muito curioso aparecer no texto de um lisboeta esta forma arcaica mas ainda viva na zona do Porto nos meados do século XIX, como aliás se pode comprovar pelos livros impressos na cidade na mesma época. Deve tratar-se de um lapso pois em todo o restante texto a forma dois é a usada. O dous arcaico subsiste ainda nas gentes mais velhas do distrito de Bragança, ainda que o ditongo se aproxime mais de âu e não ou.