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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A cheia de janeiro de 1821

19.02.19

O rio Douro era até meados do século XX regularmente atingido por cheias e creio que alguns dos meus caros leitores ainda puderam presenciar a sua ocasional fúria. Ora, durante todo o século XIX, na verdade toda a população conheceu esta realidade e várias foram as cheias catastróficas.

Uma grande cheia ocorreu em janeiro de 1821. O jornal Patriota Portuense publicava o seguinte curioso relato a 13 do mesmo mês:

 

«Na madrugada do dia 7 do corrente (dizem alguns) sentiu-se um tremor de terra violento, mas de pouca duração; foi este tão impetuoso no mar que saindo fora dos seus limites, fez na povoação de Matosinhos não pequenos estragos, demolindo vários pedaços de muro, calçadas novas e cunhais de casas, lançou por terra alguns valados; quebrou alguns barcos e alguns peões novos de calçadas; arremessou com metade de um à distância de 40 a 50 braças: às marinhas que neste sítio estão construídas não fez dano algum. Na noite de 8 para 9 tornou a maré a ser extraordinária, causando nos edifícios contíguos à praia algumas ruínas.

 

O Rio Douro de tal maneira engrossou a sua corrente, como há muitos anos não se recorda.

 

No ano de 1788 houve uma considerável cheia que não foi menor à que presentemente aconteceu. Os prejuízos que se experimentaram foram imensos. No dia 11 a galeota hanoveriana Anna Margarida, capitão J. M. Kramer despachada para Génova com carga de açúcar, atanados, sola, e cacau, foi pela barra fora; nada por ora desta se sabe. O Bergantim inglês Mathilde, Mestre Fernando Anley, carregado de vinhos para Dublin, arribou a S. Paio; a carga deste salva-se: O bergantim também inglês Minerva, Mestre Miguel Moore, carregado para Londres, está no cais de Santo António coberto de água. O bergantim inglês Fair Hibernian, Mestre Diogo Dillow, carregado para Londres, virou-se no meio do rio, seriam 10 para 11 horas da manhã, três homens que se achavam dentro venceram a dificuldade de montar a quilha, onde estiveram até às 4 horas da tarde, tempo prefizo (sic) em que eles e o navio desapareceram.

 

O iate Senhora de Paula, Mestre Francisco Luís de Oliveira, carregado para Lisboa com vinhos e outras fazendas, foi a pique sobre a amarração, sendo tão formidável o impeto da cada que desmastrou e arruinou os iates Senhora das Neves, e Piedade. O iate Triunfo da Inveja, Mestre Manuel Rodrigues de S. Paio, foi pela barra fora com a carga que ia para Lisboa: igualmente foram mais uma Vasca Espanhola e algumas barcas da ponte. Os demais navios, que a muito custo se puderam segurar com as possíveis amarras, acham-se bastante danificados não só na mastreação, mas até nos próprios cascos. Uma grande parte do muro que servia de ancoradouro às embarcações, sofreu grande ruína com especialidade no parapeito: alguns edifícios situados na margem direita do rio foram arruinados no seu cume com o choque dos mastros das embarcações: a demasiada corrente da água levou algumas varandas dos mesmos edifícios e muita quantidade de madeira: os armazéns de vinhos de Vila Nova tiveram bastante prejuízo. Todos os prédios edificados nas bordas do Douro desde o Peso da Régua até o Porto ficaram em grande estrago. Afirma pessoa de crédito que, na arribação do bergantim Mathilde a S. Paio fora uma catraia da Foz a socorre-lo, na ocasião que na quilha do Fair Hibernian estavam esses infelizes pedindo socorro, porém era impossível acudir-lhes pela maré encher, sendo depois igualmente impraticável em consequência da vazante. Prometeram-se grandes prémios a quem, se expusesse ao perigo, mas ninguém se aventurou. No dia de hoje [12] tem diminuído bastante a enchente».

 

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"As rodas que serviam para descarga das embarcações ficaram destruídas"

 

No mesmo jornal, dois dias depois, é publicado o rescaldo da cheia:

«A enchente tem diminuído consideravelmente; porém a rapidez da água ainda é extraordinária. Todos os edifícios onde chegou a inundação sofreram graves prejuízos; os armazéns de sal perderam-se inteiramente. Um bergantim inglês que encalhou sobre a casinha do Despacho, situada no cais da Alfândega, conseguiu, a custo de muito trabalho, lançar-se ao Douro, deixando de todo arruinada a casinha sobre a qual se tinha conservado. As rodas que serviam para descarga das embarcações ficaram destruídas. O iate S. Torcato ficou com o mastro grande em baixo, e com a taje da popa quebrada pelo grande baque que lhe deu o iate S. António e Almas; ficando este igualmente arruinado na borda falsa, o béque fora, e alguns cabeços partidos. O bergantim Carlota ficou a seco em cima do cais de Monchique encostado ao cunhal do muro do convento; o navio Conceição de Matosinhos ficou com a proa em cima do mesmo cais e com a popa na água: estes dous vasos estão em grande dificuldade para se lançarem outra vez ao rio. As lanchas dos navios Delfina e Fama quebraram-se de encontro ao cais de Massarelos; perdeu-se igualmente um bote destes navios. A Inocência ficou com o mastro da gata partido e a batacadura de todos os lados. O brigue S. Manuel ficou com o grupés arruinado. Alguns edifícios na praia de Miragaia acham-se em considerável ruína. Grande parte do muro da cerca dos religiosos de Santo Antonio de Vale da Piedade se demoliu, ficando no cais deste mesmo sítio algumas barcas da ponte em seco e outras no rio quebradas. Uma quinta que confina com a mesma cerca também ficou com o muro todo destruído. O cachemarim S. José Vencedor foi a pique em Lordelo do Ouro, atravessando-se diante das barcas da pedra da Companhia dos Vinhos, às quais quebrou cinco correntes de ferro. O cais de Sobreiras, ainda há pouco construído, com a força da corrente da água está em parte aluído. O Triunfo da Inveja acha-se espedaçado na praia de S. João da Foz, defronte de N.ª Sr.ª da Luz. O paredão que está em frente do Castelo só ficou uma parte dele. Na praia se encontra várias reliquias de catraias, barcas e outros pertences marítimos. A lancha do navio Lusitania foi a pique. Salvou-se alguma carga do hiate Senhor da Palma que se acha em depósito em alguns armazéns do Bicalho. A galeota hanoveriana Anna Margarida ficou entre duas fragas perto de Azurara, onde se está descarregando. O brigue inglês Fair Hibernian, onde o Marechal de Campo Sir Carlos Ashwort levava o seu precioso para Londres, apareceu arruinado ao pé de Vila do Conde com a maior parte das pipas, com que ia carregado, vazias e ainda com algumas em bom estado.

 

A ponte de Vila do Conde (de pedra) ficou demolida, em consequência do princípio de sua ruína se ocasionar pelos alicerces. Duas casas com sete azenhas, que pertenciam às freiras desse sítio, diz-se, também se destruíram. Também se diz que fugiram pela barra dous iates (...)»

 

E assim terminava o relato daquele jornal. Muitas se seguiram e com efeitos tão ou mais devastadores do que esta (ainda se lembra o autor destas linhas da última grande cheia do Douro pois que quando miúdo a viu e dela guarda a imagem de um rabelo e de um iate a flutuar sobre o Cais da Estiva). Agora que o rio se encontra represado estaremos por ventura completamente a salvo delas e no futuro este cenário não se repetirá. Mas se tal vier a acontecer os efeitos serão devastadores para o comércio ribeirinho, não só pelas consequências naturais destes eventos mas igualmente porque se encontram já completamente desabituados de uma realidade antigamente sazonal.