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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A Companhia União Fabril Portuense em 1911

por Nuno Cruz, em 08.08.18

Nesta publicação trago aos olhos dos meus estimados leitores um texto quase perdido para o mundo, sepultado por entre páginas e páginas de jornais amarelecidos que quase ninguém lê. Na verdade, se os três grandes do jornalismo portuense são bastante consultados na BPMP[1], a maioria dos jornais menos conhecidos e de menor duração passam muitas vezes despercebidos. Isso é precisamente o que acontece com um periódico de curta vida mas boa qualidade, que dava pelo incomensuravelmente grande nome de O Porto.

 

Já recentemente trouxe a estas páginas um texto daquele periódico relacionado com a livraria Lello & Irmão. Desta vez o tema é a fábrica de cerveja da Companhia União Fabril Portuense e as suas novas instalações da rua da Piedade. Sem mais delongas, deixo-vos com este singelo mas informativo texto. Notar que em algumas palavras mantive a forma escrita do texto original, escrito aliás, no preciso ano da grande reforma ortográfica portuguesa.

 

*

«A pretexto de abrirmos de novo esta secção[2], vamos hoje referir-nos ligeiramente à fábrica de cerveja cá do burgo, à União Fabril Portuense.

 

Ao Porto, que vive principalmente do comércio e da indústria, devem interessar estes ramos de atividade de que sucintamente vamos falar.

 

Fomos, pois, em rápida visita aos armazéns e ás várias dependências da União Fabril e tivemos ocasião de ver ali, a série interminável de engrenagens e maquinismos duma fábrica de cerveja, Juntamente, há também uma fábrica de gelo, cuja fabricação é interessantíssima. Entramos nos longos corredores das adegas, onde o frio é intenso e que, de mistura com a sombra, nos dá a impressão de alguma coisa de misterioso e diabólico.

 

Miramos os depósitos onde grandes pipas repoisam umas sobre as outras, silenciosamente, à sombra, para sairmos dali em direção a outras dependências.

 

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i1 Fachada constante no projeto submetido á Câmara em 1909, onde o edifício a construir é criteriosamente descrito. Teria 40 metros de frente para a rua da Piedade e 15 metros de frente para uma rua «em projeto» (futura rua Júlio Dinis). Ali se lê igualmente que: «a parte destinada à fabricação do gelo e depósito ocupa o corpo central e lateral, lado poente, e o corpo lateral, lado nascente destina-se ao engarrafamento e depósito de cerveja, escritório e dependências». De referir que o projeto é mais abrangente, mostrando a totalidade das frentes e a disposição das várias repartições no interior da fábrica.

 

Atravessamos as casas do engarrafamento da cerveja, curiosíssimo por sinal, e das gasosas, refrigerantes, etc, bem como os lugares onde a cerveja fermenta e onde em grandes caldeirões é preparada.

 

Depois de visitarmos a casa das máquinas, que, só para a fabricação do gelo, são três, derigimo-nos ainda para os depósitos da garrafaria e do encaixotamento, vimos as cavalariças, etc. Um nunca acabar de depósitos, armações, maquinismos que nos levam quasi a não perceber como um pobre copo de cerveja, pacatamente servido por um garçon, no primeiro botequim, leva tanta volta, passa por tanta metamorfose desde que, ainda simples grão de cevada, entra no moinho e é lançado ao caldeirão, até ser bebida, loira e espumante que nós bebemos em tardes de calor.

 

Esta fábrica, desde a sua fundação, em março de 1890, (já lá vão vinte e um anos!) até hoje, tem tido um considerável avanço, graças à magnífica qualidade da cerveja ali fabricada, à reputação adquirida em anos de incessante trabalho e à boa direção.

 

Sabemos também que o fabrico do gelo foi uma das grandes causas do seu avanço. Dezenas e dezenas de navios, fazem ali o sortimento para o exercício da sua indústria de pescaria. Casas sem número fornecem-se largamente ali, dando assim um grande impulso àquela empresa.

 

Sem competidores, e de reputação feita, tem conseguido impor-se, em prejuízo da cerveja estrangeira muito mais cara e, quantas vezes pior!

 

É enorme a exportação de cerveja desta fábrica para as províncias, não esquecendo as cervejarias da cidade onde o consumo é larguíssimo e lucrativo.

 

Como são insuficientes já as dependências da fábrica, várias vezes ampliada, a empresa vê-se obrigada a fundar nova fábrica, maior e mais cómoda, na rua da Restauração onde brevemente, por certo, funcionará. [3]

 

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i2 Nesta imagem, já de 1939, vemos o edifício da União Fabril Portuense construído em 1909/10 (3) na rua da Piedade. A seu lado um outro edifício, mais moderno, da mesma fábrica. Para nos ajudar na localização: o n.º 1 marca o cruzamento da rua da Piedade com a rua Júlio Dinis e o n.º 2 a área da futura praça da Galiza (nas costas do fotógrafo virá a estar a Escola Industrial Infante D. Henrique). A área ocupada pelo complexo fabril é hoje uma zona ajardinada também ela com a denominação de praça da Galiza.

 

É interessante que esta companhia, dispondo atualmente de um capital de 300.000$000 de reis, que cada vez mais amplia as suas dependências e vê o consumo da sua cerveja aumentar cada vez mais, principiou pela junção de várias fábricas deminutas que ao tempo havia no Porto [4]. Ligados os capitais e as pequenas fábricas, deram hoje a empresa forte que nós sabemos, competindo, vantajosamente, com as fábricas de cerveja estrangeira.

 

Orgulhamo-nos porque, sendo filhos do Porto e defendendo os interesses desta cidade, que é nossa, folgamos ver a prosperidade, com as suas asas cor-de-rosa, ondular por sobre esta terra gloriosa e boa.

 

Ao findar estas notas, ligeiramente tracejadas, não podemos deixar de agradecer ao senhor Fontana, consideradíssimo guarda livros da companhia, a amabilidade com que nos recebeu e esclareceu, bem como não podemos esquecer o Sr. José Esteves Fraga (...), diretor há 17 anos, da União, à qual tem prestado belos e relevantes serviços e a que tem dedicado todos os seus esforços. A ele deve a União Fabril Portuense a maior parte das prosperidades, e da reputação enorme que disfruta entre nós.

 

Não podemos, pois, deixar de louvar um homem que, pondo toda a sua boa vontade e todo o seu esforço no avanço da fábrica de que é distinto diretor, contribui, por sua vez, para aumentar o prestígio industrial da nossa querida e invicta cidade do Porto». 

*

 

Para saber um pouco mais sobre a União Fabril e o seu posterior (e anterior) desenvolvimento, convido os leitores a visitarem esta página do excelente blogue Restos de Coleção, bem como a página dedicada à história do agora denominado Super Bock Group, nesta página do seu sítio, onde aliás podemos ver uma imagem da modernização que as instalações da rua da Piedade/rua Júlio Dinis sofreram.

 

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1- Refiro-me é claro ao O Comércio do Porto, ao O Primeiro de Janeiro e ao ainda resistente O Jornal de Notícias.

2 - Uma secção a que o jornal dava o nome de O Porto Industrial e Comercial.

3- Este edifício, contrariamente ao da rua da Piedade, ainda existe. Trata-se da bonita construção que se ergue no cotovelo da rua da Restauração, abarcando os n.º 48 a 80. Arquivada n' O Tripeiro, Vol. 4 da 6º série encontra-se a noticia de junho de 1914 que refere: «28/29 - Inaugura-se a nova e modernamente apetrechada fábrica de Cerveja Leão, instalada num magnífico edifício para o efeito modernamente construído à Rua da Restauração pela Companhia União Fabril Portuense. (...)».

4 - Recorda o autor deste blogue que, ao consultar jornais de meados do século XIX, se deparou com queixas dos habitantes de Miragaia na zona dos armazéns, onde a fábrica de cerveja ali existente derramava os seus líquidos para a via pública.

 

NOTA: As imagens que ilustram esta publicação são do Arquivo Municipal do Porto.