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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Uma imagem intrigante e única do passado

por Nuno Cruz, em 16.05.18

A imagem que abaixo se apresenta bastante me intrigava uma vez que nada do que surge em primeiro plano parece reconhecível, pese embora a silhueta da Sé Catedral, Paço Episcopal e Igreja de S. Lourenço não abra brecha para dúvida: é o Porto! Mas, aqueles barracões e traseiras de casas que surgem em primeiro plano nada parecem ter que ver com o ângulo de onde a foto poderia ter sido obtida. Só olhando para plantas antigas da cidade, tentando descortinar esse mesmo local e comparar com o que lá se encontra agora, é que me dissipou alguma dúvida que ainda pudesse ter de que esta vista foi captada daquele que é agora o Palácio da Bolsa, talvez no primeiro ou mesmo segundo andar do seu ângulo voltado à rua Ferreira Borges.

 

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Legenda: A - casa da rua das Congostas adjacente àquela em que se encostava a fonte, B - madeira empilhada referida pela notícia de 1860, C - barracões do pequeno mercado que ali temporariamente existiu, D - janelas e porta rasgadas nas traseiras das casas das Congostas / E - casas do lado nascente da mesma rua.

 

Aquilo que nos surge em primeiro plano, e analisando a planta existente no ADP bem como uma outra foto onde se vê o dormitório do convento dominicano visto de sul para norte (recentemente utilizada numa crónica do Sr. Germano Silva) indicam que se trata da parte mais a sul da antiga cerca dos dominicanos. Aqueles barracões estavam, grosso modo, onde agora corre a rua da Bolsa até ao gaveto da esquadra policial, nos baixos do mercado Ferreira Borges. As madeiras que se vêm depositadas no canto inferior direito ocupam a área onde agora encontramos o monumento ao Infante D. Henrique (essas madeiras estarão provavelmente relacionadas com uma pequena notícia que encontrei n' O Comércio do Porto de 1860 que refere que «um particular ocupou indevidamente grande parte da cerca do extinto convento com carros e carros de madeira que todos os dias servem de latrina pública, indo completamente contra as posturas municipais». As traseiras das casas que vemos são as da rua das Congostas (ou Cangostas), completamente arrasada para abertura da fase 2 da Rua Mouzinho da Silveira. Pormenor curioso é o das janelas e mesmo uma porta de acesso que naquelas paredes foram rasgadas; facto proibido na altura em que os dominicanos eram donos daquele espaço para não devassar a clausura (apenas se podiam construir pequenas aberturas e frestas como as restantes que ainda se vêm também na imagem).

 

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Excerto da planta acima mencionada: para além das letras já referidas, temos: F- fonte das Congostas, 1 - rua das Congostas, 2 - rua de S. João, 3 - rua do Ferreira Borges. O circulo e seta colocados no Palácio da Bolsa indicam a direção da objetiva fotográfica.

 

Para os meus caros leitores que ainda apresentam reservas, logo abaixo poderão ver uma foto tirada não há muitos anos, e que nos mostra com alguma aproximação o mesmo local nos nossos dias. Dever-se-á levar em conta que aquele terreno foi rebaixado em 1866 no local do edificado do convento bem como em 1871 na parte afeta à sua cerca; tendo sido terraplanado e alinhado em altura com a rua Ferreira Borges, aberta entre 1835 e 1839.

 

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(2012 - foto do autor)

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Originalmente publicado no blogspot em 29.05.2013 com o nome Uma imagem intrigante; agora revisto e aumentado.