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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Onde era a Boca do Inferno?

por Nuno Cruz, em 14.04.18

A maioria da informação divulgada nesta blogue é subsidiária dos muitos livros e artigos já existentes que nos dão elementos preciosos para a reconstrução de fases pretéritas da nossa cidade. Mas de quando em vez surgem nos documentos que consulto quer no AMP, quer no ADP, quer mesmo (mais raramente) na TT; elementos para a história da nossa cidade que reputo inéditos mas bem interessantes. O que se segue é um desses pedaços de história que não estão perdidos como a esmagadora maioria dela está, mas sim apenas guardado, escondido em manuscritos amarelecidos à espera que alguém por eles se interesse.

 

Há uns tempos atrás, pesquisando nos livros que chegaram aos nossos dias do convento franciscano sobre locais e acontecimentos que os ligam aos dominicanos, encontrei uma referência curiosa a uma estrutura a que chamavam Boca do Inferno. Sem mais delongas apresento o texto tal como escrito pelo reformador do cartório no início do século XIX. A explicação virá a seguir:

 

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«A BOCA DO INFERNO

Era este lugar da Boca do Inferno o sítio em que estava uma espécie de depósito de água em que se repartia a Manuel Cirne, senhor das casas que ficam mais chegadas a este convento, por trás da capela-mor.

Aquele depósito ficava sendo a bacia de um muito alto poço de pedra que tem a sua superfície na altura do segundo dormitório da parte do nascente, ao lado esquerdo do principio das escadinhas que antigamente serviam para ir ao campanário, e também para o telhado da igreja; como servem ainda hoje [c. 1820]. Este poço corre bem por trás da capela de Santa Luzia, ou altar da Trindade, e se observa pela frente do lado do evangelho da capela de Santo António.

Com o andar do tempo se fez inútil para todos este poço que em toda a sua altura tinha vários postigos ou frestas para lhe comunicar luz, e ar, e por fazer-se assim inútil e também perigoso, se entulhou todo em 1816 até ao lugar com que hoje se acha na superfície um passadiço para se compor quando é necessário, o telhado da dita capela de Santo António, ficando ainda à vista cousa de dez palmos [2,2m] que mostram qual é a extensão e forma do referido poço entulhado cuja bacia ficava na mesma altura, pouco mais ou menos, do atual plano da sancristia da nossa igreja.»

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Perguntarão os leitores onde ficava então a Boca do Inferno. Melhor do que palavras talvez a imagem que aqui coloco nos dê uma ideia do local onde estava este poço; e não será de estranhar se parte dele ainda lá estiver, bem fundo, entulhado na sapata que sustenta a capela-mor da igreja conventual!

 

capt2.png

i1 1 - Capela de Santo António; 2 - O que resta das escadas para ir ao telhado; 3 - alinhamento antigo do convento; o X marca o local onde creio existia este poço (fonte: googlemaps).

 

Porque foi colocada esta descrição explicativa no tombo dedicado à água do convento? Bem, ela surge a seguir a um documento de 1704 que o refere, em que os frades cedem a um António Pereira Chaves a água que fora da casa de Manuel Cirne (este Manuel Cirne é um famoso portuense feitor na Flandres e um bom artigo sobre ele podem os interessados encontrar AQUI).

 

Contrariamente por exemplo aos seus congéneres dominicanos, o convento da Ordem dos Frades Menores foi sempre alimentado por uma boa nascente de água que provinha desde lá de cima do campo do meloal, sensivelmente onde existe hoje a zona da Trindade. Por canos vinha ela até ao convento e nessa Boca do Inferno infiro que fosse armazenada. Realmente essa fonte deveria ser abundante e de boa qualidade, pois os franciscanos para além de cederem uma pena dela a Manuel Cirne também o fizeram aos padres lóios e aos dominicos; conventos por onde passava o seu cano. Mais tarde cederam também água à sua Ordem Terceira, nomeadamente para o lavatório da sacristia e para o seu hospital na rua Comércio do Porto.

 

As casas de Manuel Cirne estiveram localizadas junto ao lado sul da cabeceira da igreja e englobaram o terreno que se encontrava por trás da capela-mor, cedido em 1529 por ser «lugar estéril e que não aproveitava cousa nenhua ao dito mosteiro, antes fazia dano e fedor, por assim se fazer ali monturo e se poderia fazer outras cousas ilícitas e deserviço de Deus».

 

É interessante cruzar esta informação com a tese do Dr. Manuel Real, antigo Diretor do Arquivo Histórico, de que os arcos que se vêm nas traseiras da capela-mor na célebre imagem desenhada em 1839 de James Holland, seriam possivelmente remanescêcias de um criptopórtico, localizando ali o Forum da Cale romana. Humildemente confesso não partilhar a mesma convicção, crendo que o documento de aforamento a Manuel Cirne da sua casa, a existência desta cisterna e a descoberta em 1871 de umas sepulturas medievais em frente à porta principal do Palácio da Bolsa, contribuem - como que pistas forenses - para o estudo deste mistério.

 

capt.png

i2 1 - Arcos em questão; 2 - "segundo dormitório" (ainda não existe o Palácio da Bolsa); 3 - início das casas da rua Infante D. Henrique (onde hoje está a entrada do parque de estacionamento do Infante); 4 - Rua Ferreira Borges (aquando da elaboração desta imagem a rua fora completamente rasgada havia um ano).

 

 

capt3.png

i3 A - local onde em 1871 foram encontradas sepulturas medievais; 3 - local do ponto 3 da imagem anterior; o círculo indica a área onde terá estado a Boca do inferno.

 

A i2 representa uma realidade uns anos posterior à i3, que é um extrato de uma planta de 1835, quando o traçado da rua Ferreira Borges estava ainda em discussão.

 

 

ADITAMENTO

Após ter escrito a publicação que acabou de ler, encontrei numa pasta de documentos avulsos do cartório do convento de S. Domingos um manuscrito que refere uma "outra" Boca do Inferno. Trata-se de um documento de 1845, já portanto de uma época posterior à extinção dos conventos, referente à água que pertenceria a uma casa da rua do Infante D. Henrique, onde vinham cair as vertentes da água do antigo convento dominicano. Curiosamente, os depoimentos das diversas testemunhas (que me parecem concertados) referem a Boca do Inferno como sendo a arca que albergava a nascente da água que vinha ao convento franciscano, e não na outra ponta do encanamento: ou seja, no tal campo do Meloal, lá em cima no Laranjal. Quase todas as testemunhas são unânimes em dizer que a água saía «de uma cisterna chamada Boca do Inferno, situada em uma casa da rua do Laranjal ... passava encanada por baixo de propriedades diversas da mesma rua com direção aos extintos conventos de St. Elói, S. Domingos e cerca de S. Francisco até entrar na dita propriedade»; uma das testemunhas, pedreiro de profissão, conhecera mesmo o colega que fizera a demolição da «Pia de Registo  que existia dentro da cerca de São Domingos, donde saía a água para S. Francisco».

 

Temos portanto a mesma nomenclatura, o mesmo tipo de estrutura, mas referindo-se aos extremos opostos do encanamento! Qual a correta versão? Pessoalmente tendo-me a inclinar para a versão do convento, uma vez que esta parece representar uma cisterna de elevada altura ao passo que a outra aponta para uma simples arca que resguardava a nascenta de uma fonte. Poderá dar-se igualmente o caso de em 1845 já se ter perdido a noção do lugar original da tal Boca do Inferno, mas saber-se que estava associada ao cano da água dos franciscanos... ou quem sabe, poderão ambas representar uma designação válida, cada uma no seu local. São meras hipóteses que só outra documentação que venha um dia a ser revelada, poderá responder.

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Publicação originalmente colocada no blogspot em 31.12.2016; agora revista e aumentada.

2 de fevereiro de 1387: Um casamento real no Porto

por Nuno Cruz, em 02.02.18

Um dos mais importantes passos dados na aliança anglo-lusa pouco depois da celebração da mesma, deu-se com o casamento de D. João I, fundador da 2ª dinastia portuguesa, com a inglesa Phillipa of Lancaster, filha do primeiro duque de Lencastre, John of Gaunt.

Creio ser geralmente sabido que essa união teve lugar na Sé Catedral do Porto. Fernão Lopes transmite-nos em suas páginas, vívidas memórias de como tudo se terá passado. E é precisamente esse episódio que pretendo recordar nesta publicação - hoje que se completam 631 anos da efeméride - com a transcrição parcial do capítulo da crónica referente ao casamento real.

 

Notar que no dia 2 D. João I veio ao Porto para casar, como casou. Contudo a cerimónia e boda só ocorreram quase dez dias depois, motivado pelo seu périplo pelo país a mobilizar tropas para a causa do (agora) sogro. Phillipa contudo esteve mais tempo na cidade: chegara em novembro do ano anterior e desde essa altura até ao seu casamento ficou alojada no paço episcopal (não o atual mas o medieval que ficava no mesmo espaço). Durante este tempo conheceu finalmente o seu futuro esposo:

 

Os noivos conhecem-se

« (...) foi em tanto trazida mui honradamente de mandado de seu padre a Infanta Dona Felipa à cidade do Porto (...) u[1] foi recebida com gram festa; e prazer, vindo muito acompanhada de ingreses, e portugueses (...), e pousou nos paços do bispo, que som muito perto da Sé deste logar.

El-rei partio de Évora, e o Condestabre com ele: e quando chegou ao Porto achou hí a Infante Dona Felipa, sua molher que havia de ser, e pousou em S. Francisco, e em outro dia foi ver a Infante, que ainda não vira, e falou com ela, presente aquele bispo, per um bom espaço, e espedio-se, e foi jantar[2], e depois que el-rei comeo, mandou à Infante suas jóias, e ela a ele, (...) : e el-rei esteve ali poucos dias, e foi-se caminho de Guimarães »

 

Só agora, na verdade, se vai dar o acontecimento do dia 2, o casamento, feito à pressa por causa da Quaresma que iria ter início e que inviabilizaria a cerimónia, por isso:

 

O casamento

« (...) escreveu logo el-rei ao bispo do Porto, que em outro dia tivesse todo prestes pera lhe fazer as benções: o bispo feze-o assi. El-rei cavalgou [desde Guimarães] este dia à tarde, e andou toda a noite, em guisa que, andadas aquelas oito légoas, amanheceo na cidade. O bispo D. João já estava prestes revestido em pontifical, e seus beneficiádos como compria. A infante foi trazida mui honradamente dos paços, u pousava, à Sé: e ali em nome do senhor Deos a recebeu el-rei (...): e esto foi a dous dias de fevereiro em festa da purificação da Benta Virgem: e havendo entom el-rei vintenove anos, e a infante sua esposa vinteoito, e esto acabado, ordenou logo el-rei de fazer sua voda, e tomar casa da quinta-feira seguinte a oito dias (...) »

 

E agora chega a descrição das festas do dia 11, que Fernão Lopes pinta com todo o seu colorido verdadeiramente medieval:

 

Os dias festivos

« (...) encomendou el-rei a certos oficiais de sua casa, e aos oficiais da cidade o encarrego, que cada um desto tivesse, e com gram diligência, e sentido, tinhom todos cuidado do que el-rei lhes encomendara, uns para fazerem praças; e desempacharem as ruas, por u haviam dandar as gentes, outros de fazer jogos, e trebelhos, e matinadas de noite, e fizerom mui à pressa uma ũa grande praça ante S. Domingos, e a rua do Souto, que era entom tudo hortas, u justavom, e torneavam grandes fidalgos, e cavaleiros, que o bem sabiom fazer, e outra gente nom[3]. Assi que toda a cidade era ocupada em desvairados[4] cuidados desta festa. E todo prestes para aquele dia, partio-se el-rei à quarta-feira, donde pousava, e foi-se aos paços do bispo, u pousava a Infante, e a quinta-feira forom as gentes da cidade juntas em desvairados bandos de jogos, e danças per todalas praças, com muitos trebelhos[5], que faziom.

 

marc.jpg

 Quadro francês representando o casamento real na Sé do Porto, pintado já no século XV. Embora oficializado no dia 2 de fevereiro, a cerimónia realizou-se apenas no dia 11 (ver mais abaixo).

 

As principais ruas, por u estas festas haviom de ser, todas erom semeadas de desvairadas verduras e cheiros. El-rei saiu daqueles paços em cima de um cavalo branco, em panos douro, realmente vestido, e a rainha em outro tal mui nobremente guarnida: levavom na cabeça coroas douro mui ricamente obradas, de pedras, e a jofar de grande preço. Os moços dos cavalos levavom as mais honradas peças, que hí erom de grande preço, não indo arredos um do outro, mas ambos a igual, e todos mui bem corregidos, e o arcebispo levava a rainha de rédea diante íam pipias e trombetas, e outros instrumentos, tantos que se nom podiom ouvir, donas filhas dalgo, e isso mesmo da cidade, cantavom indo detrás, como é costume de vodas. A gente era tanta, que se nom podiom reger, nem ordenar: por o espaço, que era pequeno, dos paços à igreja: e assi chegarom às portas da Sé, que era dali muito perto, u D. Rodrigo[6] bispo da cidade já estava festivalmente em Pontifical revestido esperando com a cleresia, o qual os tomou pelas mãos e demoveo a dizer aquelas palavras: que a Santa Igreja manda, que se digom em tal sacramento.

 

Entom disse missa, e pregaçam, e acabado seu ofício tornarom el-rei, e a rainha aos paços, donde partirom com semelhante festa, u haviom de comer.

 

As mesas estavom ja mui guarnidas de todo o que lhe compria: nom somente onde os noivos haviom destar, mas aquela, u era ordenado de comerem bispos, e outras honradas pessoas de fidalgos, e burgueses do lugar, e donas e donzelas do paço, e da cidade. O mestre-sala das vodas era Nuno Alvarez Pereira condestabre de Portugal, servidor de toalha, e copa: e doutros ofícios erom grandes fidalgos, e cavaleiros, u houve assaz de iguarias de desvairadas maneiras de manjares. Enquanto o espaço do comer durou, faziom jogos à vista de todos homens, que o bem sabiom fazer; assi como trepar em cordas, e tornos de mesas, e salto real, e outras cousas de sabor: as quaes acabadas alçarom-se todos, e começarom a dançar: e as donas em seu bando cantando arredor com grande prazer.

 

El-rei se foi em tanto pera sua câmara, e depois de cea, ao serão o arcebispo, e outros prelados com muitas tochas acesas lhe benzerom a cama daquelas benções, que a igreja pera tal auto ordenou, e ficando el-rei com sua mulher, foram-se os outros pera suas pousadas. (...) »

 

Agora que muitas localidades vão tendo e promovendo a sua feira medieval, não vejo memória mais feita à medida para também o Porto ter a sua do que a recreação deste casamento e de tudo o que lhe foi subjacente. É uma história que tem tudo: uma princesa instalada num paço, um rei que viria saíndo de um convento subindo a Sé ao encontro dela, todos os cónegos, bispo, homens bons e povo aguardando pelos noivos... e claro depois da solenidade, a festança regada com jogos, comida e vinho!

Não se pense que as feiras medievais são para alegrar localidades de média e pequena dimensão. Creio que não. Tendo em conta o tema, um evento destes tem tudo para dar certo, sobretudo numa cidade como o Porto onde o peso da história se sente no ar. E aquele Terreiro da Sé parece ter sido feito à medida para todo o aparato. Fica dada a ideia...

 

NOTAS:

1 - O u é português antigo para onde.

2 - Naquela época o jantar tinha lugar por volta da atual hora do almoço.

3 - O convento dominicano estava ainda praticamente rodeado de hortas. O local a que Fernão Lopes alude corresponde ao atual largo de S. Domingos e o troço sul da rua das Flores; onde apenas uma azinhaga existia que levava à rua do Souto. Lá em cima, onde agora temos as traseiras da igreja da Vitória, ficavam as barreiras onde os besteiros praticavam a arte da besta para estarem prontos se o rei os chamasse para a guerra.

4 - Desvairado corresponde ao atual diverso.

5 - Difícil é, atualmente, encontrar uma palavra que traduza na perfeição trebelho. Ela relaciona-se com as danças e folguedos como o próprio contexto parece indicar. É também usada para designar as peças do xadrez, o que claramente não é o que pretende Fernão Lopes. Talvez se refira aos objetos utilizados nos jogos e danças que o cronista refere(?).

6 - Aqui deve ter havido lapso de Fernão Lopes, o bispo era D. João (III), tal como ele próprio refere anteriormente.

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Bibliografia:

Chronica DelRey D. Joam I de Boa Memoria e dos Reys  de Portugal o Decimo, de Fernão Lopes (edição de 1644) disponível na Biblioteca Nacional Digital

A Santa Água

por Nuno Cruz, em 15.11.17

Caro leitor, tomei a liberdade de atrasar uns poucos de dias a segunda parte da descrição oitocentista de Ramalho Ortigão, para aqui trazer à luz do dia um documento curioso, que se não for inédito não será muito conhecido.

Vivemos tempos cada vez mais perigosos de secas e incêndios severos, o ano de 2017 será comum daqui para a frente. Se o leitor não pensa tanto nisto, acredite que eu penso constantemente na fatal falta de água que um dia ocorrerá mesmo nas torneiras portuenses, alimentadas pela bacia hidrográfica com maior caudal da Península Ibérica. Posto isto, vamos arredar para longe do catastrofismo e entrar no assunto que aqui trago.

 

Antes da revolução da água distribuída ao domicílio[1], a maioria da população beberia água de pouca qualidade e em milhentas situações ela foi mais fonte de doenças do que fonte de vida. Sempre um bem preciosíssimo, quem a tinha não estava disposto a cede-la sem uma boa contrapartida. E assim foi com os franciscanos! Estes frades eram detentores de uma boa fonte de água que lhes vinha desde lá longe, fora da cidade, da quinta do Laranjal, que apenas no século XVIII com a dinâmica mobilizadora de João de Almada e Melo, começou a ver as suas laranjeiras, limoeiros e verdejantes hortas serem substituídas por casas e mais casas: ruas cortadas a régua e esquadro; enfim, antigos campos a que o homem deu o nome de rua das Hortas, do Almada, dos Lavadouros, Cancela Velha, etc...

Tirando os franciscanos, também os dominicanos tinham água própria (de má qualidade, diga-se) bem como, obviamente, o binómio Sé/Paço Episcopal e as freiras de Santa Clara. Isto para me ficar pelas instituições da cidade mais antigas que tiveram água canalizada; um luxo incomensurável à luz do mundo da época.

 

É um curioso documento franciscano que vos quero dar a conhecer. Ele vem lançado logo no início do Tombo da Água, volume que fazia parte do cartório do convento, e que hoje se encontra depositado no Arquivo Distrital do Porto, disponível a todos que tenham amor em redescobrir estes documentos esquecidos que ali estão à espera de nos falarem. A água franciscana era tão boa e abundante, que foi por eles cedida aos dominicanos e aos padres de Santo Eloi. À porta da igreja destes últimos estava uma arca de repartição, a primeira dentro de muros, que eles eram obrigados a conservar bem como o cano desde a nascente até ao seu convento no largo dos Lóios. Sem mais delongas, vamos lê-lo:

 

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« DECLARAÇOENS

(...)

 

Na primeira gaveta da Estante 5ª da Livraria, e dentro da grade dos livros prohibidos, está pregáda em huma taboa do tamanho de meia folha, hum papel, que contem o seguinte=

 

Anno de 1775. Advertencia sobre a Agoa

As tres peças de bronze aqui juntas saõ medidas da repartiçaõ da agoa, e se fizeraõ sendo Guardião o P.e M.e Fr. Aleixo de St.a Rita de Capua; porque achou que os P.es de Santo Eloi e do N. P. S. Domingos tinhaõ dobrada agoa, do que devem ter; e logo no Verão seguinte, em que houve grande falta de agoas, ficaria este Convento sem huma só gota, se o dito Guardião não tivera posto a repartiçaõ no seu equilíbrio.

A peça comprida, e delgada he a penna de agoa dos Padres Dominicos, e se chama = penna macho = Com esta se deve observar, de tempos em tempos, se entra justa na penna femea, que na pia da repartição por o referido Guardião.

As outras duas peças saõ annel macho, e annel femea da pia de repartição dos P.es de S.to Eloi, onde o dito Guardião pôz hum annel femea, irmaõ deste, e entregou aos ditos Padres outro annel macho, irmaõ do nosso, para tanto elles como nós de tempos em tempos poderem observar se o annel macho entre justo pela femea, que está na pia: e se os Padres Guardiaens acharem que o annel macho entra com franqueza, saibaõ que se franqueou com malicia (o que se poderá fazer em horas nocturnas); naõ obstante que o dito Guardiaõ pôz na pia uma fechadura com quatro feichos, ou linguas, com duas chaves; das quaes huma se entregou aos ditos Padres, e nós temos outra, que he a maior das quatro, que estaõ juntas na Procuração; e destas a chave pequena he da pia dos Padres Dominicos; as outras duas, huma he da Arca ou mai d'Agoa, e a outra he da porta larga, que fica junto da estrada, no quintal do Conego Joze Luis Campos Pirralho, e he a primeira porta, que se abre, para ir á arca: as mais portas naõ tem chave.

A taboa de páo preto que está ao lado, que tem furamen esferico, he a medida das agoas da Camara desta cidade. O furamen mais pequeno he a penna da agoa femea, que se pôz na pia da repartição para os Padres Dominicos: o ultimo furamen, que he o maior, he o annel femea dos P.es Loios.

01aguafranciscanos.jpg

Representações das medidas constantes no documento franciscano (legenda da esq. para a dir.): Dois anneis, que são 16 pennas; oito pennas que he hum annel; quatro pennas; duas pennas (são maiores que as da Camara); huma penna. No fundo: Foi tirado por hum que se tirou pelo que está na Camara).


O papel tem mais hum círculo, que saõ dois anneis de agoa: estes achou o dito Guardião que tinhaõ os Padres de S.to Eloi; e dentro do annel falsificado, ou aumentado meteo o annel que os ditos Padres devem ter, que he irmaõ do que está aqui junto.


A taboa de páo preto, de que se falla na taboa grande, está junto a esta no mesmo lugar; e os seus furamenes que saõ as quatro medidas mais pequenas atraz descritas, sao do mesmo tamanho destas.

Tambem estaõ juntas com a taboa grande as tres peças de bronze nella referidas.


Igualmente está junta com as tres peças de bronze huma de ferro pequena, que por huma extremidade he macho, e por outra he femea da penna de agoa dada na origem aos Dominicanos (...)

 


O concerto do aqueducto desde a Arca d'agoa no Laranjal até á pia dos P.es Loios, he todo, e sempre pago por estes. (...)


O concerto do aqueducto desde a pia dos Loios até ao nosso Convento, he todo pago por nós, e pelos nossos Terceiros; a saber: estes pagaõ a terça parte de toda a despeza, e nós o mais. (...)


O concerto do aqueducto desde a nossa Cozinha até á Sacristia dos 3ºs, he todo á custa delles. (...)

O concerto do Cano, ou Lugar por onde na rua das Flores passa o nosso aqueducto, he todo á custa do Senado (...) e isto desde onde o nosso aqueducto vem junto ao da agoa que vai pª a Ribeira, que he do pé da travessa dos Caldeireiros, até ao fim da Rua das Flores, por ao pé do Chafariz de S. Domingos, que onde se dividem os ditos dous aqueductos. (...)


Sucedendo os Religiosos Dominicos na posse da Capella que foi dos seus extintos Terceiros; porque não devem, suceder tambem nas obrigaçoens delles. (...) »

 

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Este documento, escrito já nos últimos anos daquela instituição conventual, é uma pequena janela para um tempo em que ainda não existia água canalizada como hoje a entendemos. Ela existia sim, vinda por canos de pedra, a fontes, alguns edifícios públicos ou religiosos e outros privilegiados particulares (não incluo no rol os poços). A juntar a esta raridade, muita se perdia por os canos estarem desconcertados ou falcatruas várias perpetradas por quem deles usufruía (como se viu no texto).

Na atualidade, em que vamos para tempos cada vez piores (não tenhamos dúvida disso!) porque não refletir um pouco naqueles tempos, quando o maior bem de uma população talvez fosse aquele que hoje em dia damos por adquirido sempre que se abre uma torneira de água, muitas vezes escusadamente...

 

1 - A distribuição de água ao domicílio só entrou em funcionamento regular em 1887, com água captada no rio Sousa.

 

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Bibliografia: Tombo da água, do cartório franciscano em depósito no ADP.