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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A rivalidade entre o Porto e Lisboa

por Nuno Cruz, em 18.09.18

Recupero hoje uma publicação que se encontrava na casa antiga d' A Porta Nobre. Curiosamente ela não foge muito no tempo ao que lemos mais atrás na companhia de Manuel Pinheiro Chagas; mas este escrito é de caráter bem diferente...

 

A rivalidade entre Porto e Lisboa não é do nosso tempo, e muito menos se limita ao futebol. Não tendo pergaminhos para discorrer sobre a sua origem, causas e desenvolvimento, deixo aqui um pequeno texto que saiu em 14 de Setembro de 1855, no jornal O Comércio (primeiro nome d' O Comércio do Porto) que brinca com o lisboeta que vêm de visita ao Porto. Notar que nos situamos em meados do século XIX...

 

 

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'As festas da aclamação em Lisboa prometem ser brilhantes, o que estimamos porque se não somos da capital somos portugueses. Sentimos porém que os festejos nos privem das visitas que às vezes se dignem fazer-nos os nossos compatriotas da metrópole.


É sempre para nós um prazer o ver na nossa província um lisbonense. Não se tenha medo de que o não conheçamos: denunciam-no aqueles meneios, aquela nonchalance e ar de superioridade que constitui o capitalista ou leão de água doce. Estropia, a propósito de qualquer coisa, algumas palavras francesas que ouviu no teatro de D. Fernando, e desce a calçada de Santo António cantarolando Les filles de Marbre. Vota o mais profundo desprezo aos nossos edifícios e sente o mais santo horror pelas Fontainhas e S. Lázaro. Conta as mais romanescas aventuras da Floresta Egípcia e para mostrar até que ponto chega a nossa insipidez aponta a falta do inebriante espetáculo dos touros.


Quando não fala, nem por isso se deixa de conhecer a sua terra natal. É esta a ideia que o domina. Chamem-lhe parvo e pretensioso, mas digam que é lisbonense, que não é provinciano, e ficará satisfeito.


Ele vai à noite ao Guichard, e sente a mais viva indignação ao ver que os garçons dos cafés do Porto não tem os mesmos nomes que os do Marrare e Martinho. Admira sobremodo que o Matta não tenha uma sucursale (sic) nesta retrógrada terra.

 

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Quando passa pela Batalha, acomete-o uma saudade pungente pelas noites de S. Carlos, para falar de Alboni que lá esteve e da Grisi que nunca lá foi.


A falta da açorda que papava em Lisboa lembra-lhe a estátua equestre de que se ufana; e a seriedade dos frequentadores do Portuense traz-lhe à memória aquelas noites do Marrare tão cheias de espírito que só há ali, que é perfeitamente da capital. O capitalista fala de tudo com a frivolidade que o caracteriza, e tudo lhe serve para comparar o atraso da província com a alta civilização da capital, porque, seja dito entre parêntesis, raramente o Leão fala em Lisboa, mas sempre na capital. Enfim debaixo da pele do leão, que vestiu, facilmente se descortina a orelha que é sua.


O provinciano reconhece e confere ao lisbonense a superioridade... no ridículo. É por isso talvez que não tem a pretensão de imita-lo. Vanitas, vanitatum, alfacia, alfaciarum.'

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Este texto, diga-se, surgiu no jornal uns dias depois de um outro mais curto, escrito com certeza por um capitalista, sobre o provinciano que visita Lisboa. Mas quanto a esse deixo que algum 'lisbonense' que visite a Biblioteca Nacional o procure e traga a lume no seu blog sobre Lisboa...

 

Como nota final devo referir que não sou anti Lisboa nem coisa que se pareça. Amo a minha cidade sem ser fundamentalista. O Porto é uma cidade soturna, granítica, cinzenta, por vezes encoberta por um nevoeiro que lhe confere um sublime carácter londrino. E por isso acredito que não seja, mesmo para o lisboeta com coração aberto, fácil de gostar. Já Lisboa tem uma natureza luminosa: gosto particularmente da imensa luz que inunda a baixa pombalina e dos edifícios que a compõem. Após o terramoto, a cidade pode em boa parte renovar-se e assumir um plano mais regular de ruas e praças que sinceramente me agrada.

 

E mais poderia dizer, mas por aqui me fico.

 

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Publicada originalmente no blogspot em 24.11.2013.

A descrição do Porto na crónica de Fr. Manuel da Esperança

por Nuno Cruz, em 08.07.17

Frade franciscano, «leitor jubilado na santa teologia, e examinador nas três Ordens militares», Frei Manuel da Esperança nasceu no Porto no final do século XVI, tendo falecido em Lisboa em 1670. Foi o responsável pela notável crónica da sua Ordem intitulada História seráfica da Ordem dos Frades Menores da província de Portugal, com o primeiro tomo publicado em 1656.

Nesta postagem recupero parte da sua saborosa descrição da cidade do Porto, com a ressalva que ela não é fidedigna, sobretudo quando se reporta a factos bastante recuados. Na verdade, algumas estórias lendárias circulavam por aquela altura com maior ou menor grau de desvio da realidade; algumas simplesmente estapafúrdias sobretudo quando o assunto era a fundação e os primeiros séculos da cidade. É precisamente essa ausência de realismo que me fez abster de transcrever o primeiro capítulo de descrição da cidade, que quase mais nada faz do que atribuir a sua fundação aos refugiados da guerra de Tróia, segundo a hipótese que o autor considera mais verosímel! Fr. Manuel da Esperança era da opinião que a cidade do Porto nascera em Miragaia, «ũa colónia nova» dos primitivos habitantes do «castelo de Cale [que] era no monte de Gaia». Só depois «mudou de sítio pera maior segurança, escolhendo por assento a cabeça de um monte, o qual não distava muito»: o morro da Penaventosa.

 

Na integra, transcrevo abaixo o outro capítulo dedicado incialmente à descrição da cidade, com alguns comentários no final de cada número. (Todas estas transcrições levam a ortografia atualizada exceto nos pontos onde as diferenças não deverão ser meramente ortográficas).

 

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Das qualidades, e sítio desta cidade do Porto

1. Quando ela [a cidade] quis pregar, pera que não desandasse, a roda da incostante fortuna, que de presente a ia engrandecendo, subiu dos baixos de Miragaia pera o alto de um monte, como já temos escrito, onde ficava senhora da terra, e mais do rio(1). É o monte por partes despenhado, mas alegre, e muito acõmodado à defensam dũa praça. Ainda hoje ostenta sobre a sua cabeça ũa coroa de muros, cerca da cidade velha, abertos por quatro portas com tribunas, e altares, onde se oferece a Deus no sacrifício da missa a imaculada hóstia. Em um deles está a venerável imagem da Senhora de Vandoma, a qual aí colocou D. Onego Bispo, ou natural da cidade deste nome em França, por memoria do favor particular, e visível que ela lhe tinha feito, e a os outros Franceses, quando por esta porta entraram, e lançaram fora dela os mouros. Na mesma ocasião foi achada num silvado outra imagem desta senhora puríssima, que ficara do tempo dos cristãos, a qual se chama da Silva, e na Sé, onde está, a veneram os fiéis por imagem milagrosa.

1. Como vimos atrás o autor dá a cidade como tendo sido primeiramente estabelecida em Miragaia, após a passagem dos "colonos" da margem sul para a margem norte.

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2. Tomando depois co a idade mais forças, desceu a o vale, e subiu por outro monte com tanta conformidade da natureza, e arte, que tudo junto parece um jardim de edificios, ũa cidade de árvores. Desceu também a vizinhar com o Douro, seu contínuo ministro, em muitas embarcações, naturaes, e estrangeiras, de quanto é necessário pera a vida humana. Suas águas mais copiosas, do que as outras do Tejo,(2) arrastando nas areas grãos de ouro, cançadas de rodearem longas terras de Espanha, meia légua abaixo, e não mais, onde fazem ũa barra, a melhor daquela costa, se misturam co as salgadas do mar. Os muros, com que agora se cinge, começando a faze-los El-Rei D. Afonso IV. ajudando algũas condenações, e trabalhado na obra os Concelhos, e Julgados da Comarca, por ela ser tão notavel, ainda El-Rei D. Afonso V os achou por acabar(3). Concorreram muitos em seu acrescentamento com edifícios nobres, como foi El-Rei D. João I. o qual fez a rua Nova, a que chamava a minha rua fermosa. Mas o remate de toda a sua gloria é o brasão, que tem tomado por armas: a saber, ũa imagem da Senhora Mãe de Deus no meio de duas torres com esta letra â roda, Civitas Virginis, ou Cidade da Virgem,(4) em português. As rezões seriam muitas, e por ventura todas juntas: ou a respeito das duas santas imagens, de que fizemos memória: ou porque na sua restauração lha ofereceram logo os mesmos restauradores: ou por que por amor dela, ob amorem Beatissimae Virginis Mariae, deu o seu senhorio a os bispos a rainha D. Tereja, mulher do Conde D. Henrique.

2. O rio Tejo é de facto o rio mais longo da Península Ibérica, contudo o mais caudaloso é o Douro.

3. Aqui uma dúvida: a muralha do Porto ocupou três reis: D. Afonso IV, D. Pedro I e D. Fernando. Para ainda estarem incompletas ao tempo de D. Afonso V teriam as obras de ter atravessado mais dois reinados (D. João I e D. Duarte) o que parece muito pouco provável.

4. Se o brazão antigo alguma vez ostentou a expressão CIVITAS VIRGINIS incorria em erro(!) pois o que aquela frase realmente diz é Cidade Virgem; o que é completamente diferente. Para estar corretamente escrito deveria dizer CIVITATIS VIRGINIS (Civitas = "cidade" (nominativo) e Civitatis = "cidade da" (genitivo); o que aliás surge, corretamente, no selo mais antigo da cidade que se conserva ainda no Arquivo Municipal.

 

3. Debaixo do seu emparo, e protecção clementíssima logra melhor o cuidado, que tem da mesma cidade o Mártir São Pantaleão, médico nobre, que fora de Nicodemia e seu insigne padroeiro, cujas sagradas relíquias se guardam na sua Sé, dentro dum cofre de prata, que El-Rei D. Manuel, comprindo o testamento d'El-Rei D. João II. mandou fazer com efeito. Vimos isto pelos anos de 1599. quando o reino ardendo todo em peste: abrasando-se vilas, e cidades: consumindo-se, não somente os povos vizinhos desta como eram Massarelos, Gaia, & Vila Nova, mas também os arrabaldes, que tocam em os seus muros: impedidos ũa vez, e outra todos, por estarem enfermos deste mal contagioso: ela sempre conservou inteira sua saúde por intercessão da Virgem Senhora Mãe, e santos merecimentos do dito seu padroeiro.

 

4. Fizeram muito os reis por meterem na Coroa o senhorio desta famosa cidade, e assi o alcançaram depois de largas contendas: mas queriam ter por sua ũa cidade insigne no amor, e lealdade, na nobreza, e comércio. Por isso foi das primeiras, que tomaram a voz do Mestre d'Avis, sendo defensor do reino, ajudando-o nesta, e noutras ocasiões de todo o seu reinado, como também a outros reis, com grandiosas despesas de dinheiro, de navios, de soldados. E isto tudo com tanta autoridade, que mandando o dito Mestre d'Avis pedir favor a El-Rei de Inglaterra pera resistir às forças do castelhano, três procurações bastantes, em cuja virtude se haviam de celebrar os contratos, que entregou a seu embaxador, ũa delas era sua: as outras, de Lisboa, e do Porto. E depois a estas cidades ambas, que mais o tinham servido, aventajou a quantas há neste reino nas mercês, e privilégios.

 

5. Os fidalgos também, a maior parte dos quaes neste tempo se achava por Entre Douro, e Minho nos seus solares, e quintas, dentro dela, queriam fazer morada, convidados das muitas conveniências de frescura, e regalo. Mas aquele grande brio dos naturaes, e vizinhos, com que depois assolaram no tempo do dito Rei D. João o seu castelo de Gaia donde tinham procedido(5), por não quererem sofrer as grandes exorbitâncias, que a gente d'Aires Gonçalves de Figueiredo, em cujo poder estava, fazia pelas aldeas: este mesmo lhes embargou os intentos por meio dum privilégio d'El-Rei D. Fernando, que já temos citado em outra parte. Porque pera sustentar nobreza bastavam as muitas casas ilustres, que havia na cidade, e os fidalgos forasteiros, segundo a condiçom deles era, como disse o mesmo Rei, mais ofendiam co as suas liberdades, do que podiam honrar co a sua assistência. Pela qual rezão tambem os dous mosteiros antigos da Ordem de Santa Clara em Vila do Conde, e Entre-Ambos os Rios impetraram semelhantes provisões, pelas quaes se ordenou, que eles nos seus lugares não gastassem muitos dias. Mas já este privilégio do Porto está revogado por El-Rei D. Manuel.(6)

5. Lembrar que o autor dá o Porto como fundado por gregos, no castelo de Gaia...

6. Por estes dias a cidade celebra o Foral outorgado por D. Manuel, com exposições na Câmara Municipal e no Arquivo Histórico. Contudo o que a generalidade das pessoas não sabem é que esse foral, que decorre de uma reforma geral dos forais da primeira dinastia já desajustados da realidade no séc. XVI e mandada executar pelo monarca, acabou por impor um papel proponderante da Coroa, retirando privilégios à cidade como o aqui referido.

 

7. Não daria Anibaes Cartaginenses, porque o seu sangue nunca pode receber as tintas falsas de África: deu porém Heitores Gregos(7), e famosos Portugueses. Muitos vivem nas histórias do reino com esclarecido nome: outros andam celebrados no testemunho da fama. É impossivel nomea-los aqui todos; e escrever só de uns, será ofensa dos outros. Mas merece exceição o Infante D. Henrique, filho de El-Rei D. João I. que nasceu nesta cidade, onde seu pae se havia recebido(8), e como ela tinha vindo a o mundo pera senhora do mar, tambem ele, inclinado à sua navegação, fez descobrir ilhas novas, e costas desconhecidas, pelas quaes se foi achando a carreira tão dilatada da Índia. E sem descermos a outra pessoa, nem caso particular, pera crédito de tudo damos a grave sentença do doctissimo Gaspar Estaço, Cónigo da Real Colegiada da Vila de Guimarães, o qual diz, que os naturaes do Porto são homens generosos, magníficos, de alta virtude, e singular valor, que com honrosos feitos de prudência, de justiça, de fortaleza, e de amor da pátria acquiriram sempre muitas qualidades, que a o nome do Porto importaram todo o cabedal de honra, que possue.

7. Frei Manuel da Esperança estava mesmo convencido do sangue grego envolvido na fundação de Cale...

8. Temos de ser históricamente rigorosos: não há prova que o infante D. Henrique nasceu no Porto. Temos prova sim, de que foi aqui batisado por haver documentos para pagamento da despesa. Acredito que de facto ele aqui tenha nascido, pois a mortalidade infantil era tão grande por aquela época e era tão horroroso levar à terra uma alma por batisar, que as crianças seriam rapidamente levadas à pia, sobretudo as da nobreza que sempre tinham posses para isso. Mas aviso: é apenas um pensamento para mim próprio...

 

8. Se falara nas virtudes que tocam a o espírito, como é a devação, piedade, e grande amor de Deus, e aqueles, que o servem, por esse mesmo estilo houvera de escrever. Recolheram em treze casas com grande benevolência as Religiões sagradas(9): a saber, nove de religiosos, quatro de religiosas, depois das quaes se fundou ũa de mininos orfãos. E aventajado nisto, como em tudo, a nossa Ordem seráfica, a ela deu dous conventos de frades, e dous mosteiros de freiras, demais que ajuda a sustentar com esmola ordinária outro convento de frades, o qual é a Conceição de Matosinhos. Da devação particular, que nos tem, diremos em outra parte.»

9. Para quem não está muito habituado a ler crónicas de Ordens religiosas, o termo religião tem também o significado de Ordem (religiosa), e por isso surgem a toda a hora na crónica franciscana, dominicana, etc expressões como "a nossa religião".

 

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Bibliografia:
História Seráfica da Ordem dos Frades Menores de São Francisco na província de Portugal, de Frei Manuel da Esperança, Volume 1, publicado (1656)