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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Um 'favor' a Gaia e a fonte do Bonjardim

por Nuno V. Cruz, em 27.12.18

Vasculhando velhos jornais dou sempre de caras com algumas notícias, artigos de opinião, ou simples notas bastante interessantes. Algumas que desconhecia, outras que conhecia por terceiros em obras sobre a história da cidade (e que já por algumas vezes comprovei que a informação prestada estava parcial ou totalmente errada!).

 

Não foi diferente com o Periódico dos Pobres no Porto de julho e agosto de 1846, que consultei. O leitor mais atento à data verá que está muito próxima a guerra civil da Patuleia[1] (a segunda guerra civil num espaço de uma dúzia de anos) mas já depois da revolta da Maria da Fonte. Pelos relatos dos jornais se vê que por toda a cidade existiam caceteiros, termo usado contra os indivíduos ou grupos de indivíduos que agrediam gratuitamente os seus opositores[2]. E no meio desta convulsão um jornal diz-nos que tudo está calmo, o outro que não se pode andar na rua por causa dos ratoneiros e caceteiros... Enfim, a luta entre Cartistas e Setembristas estava ao rubro e o pavio já quase todo queimado...


Chega a altura da eleição para a comissão municipal. Dirigia-a José Passos, irmão do mais célebre Passos Manuel, comprometido em gerir as contas da Câmara com muita cautela dado a penúria que existia nos cofres do concelho. Foi reconduzido no cargo em agosto sendo o mais votado, com menos de 800 votos. Durante o período que antecede esta votação, surgem no periódico referido (e opositor) umas pequenas achegas sobre a gestão da Câmara, a seu ver más decisões, tratadas com ironia. Eis alguns excertos:

 

'Quem não senão ele [vereador Pinto da Silva] compreenderia a necessidade da fonte do Bonjardim? Quantas pessoas ou bestas tem sido vítimas de sede por não poderem alcançar uma gota de água das fontes da Praça de D. Pedro, largo de S. Bento das Freiras, e rua da Madeira pela desmesurada distância em que se acham?! Pode-se ter inveja aos habitantes desde o Bolhão para cima, que vivem na abundância d’água: queira Deus que eles não sejam tão ingratos da solicitude do Sr. Pinto da Silva, no dia 30 deste mês, com os visinhais da fonte do Bonjardim conta ele seguro, e muito mais porque o sr. Fiscal projeta macadamisar essa rua, e faça-lhe justiça, é um plano gigantesco, depois do qual ninguém se atreverá a borrar o nome do Sr. Pinto, o ela ter sido calcetada há muito pouco tempo, o ter-se gasto nisso bons e muitos patacos; o haverem muitíssimas outras em muito pior estado, isso são cousas que não entram em linha de conta: em fim é a rua do Bonjardim, e há-de parecer-se com o seu nome, ou o Sr. Pinto da Silva não há-de morar nela!'

 

font.jpg

1 - Será esta a fonte do Bonjardim do artigo de opinião? Ficava na esquina da Rua do Bonjardim (à esquerda, agora Rua Sá da Bandeira) com a Rua de Sá da Bandeira (à direita, agora Rua de Sampaio Bruno). [3]  2  - Por curiosidade, ao fundo não vemos "céu aberto" pois ali encontra-se a fachada nascente do antigo edifício da Câmara Municipal. Logo ao virar dessa esquina e fora da imagem, se pudessemos fazer tal percurso, veriamos a capela dos Reis Magos

 

O anónimo continua a apontar a gestão, a seu ver ruinosa, do município pela comissão municipal, nomeadamente à extinção do imposto dos carros que de Gaia entravam na cidade e dos que da cidade para Gaia iam. Assim 'a casinha da ribeira levantou-se, e com ela um prejuízo para o município do Porto de 60$ a 70$ - que rendia semanalmente'. E ironiza com o facto de a Câmara de Vila Nova não ter levantado o mesmo imposto para os carros que ali entravam vindos de Ovar.


Convém esclarecer que a supressão deste imposto advém de um acordo entre os dois municípios em que ambos se comprometeram a suprimir as casinhas onde o mesmo se taxava, à entrada da ponte pênsil. Contudo, e aqui está a queixa de quem escreve, esse imposto rendia bastante aos cofres portuenses, bem mais do que aos gaienses por razões óbvias, pelo que não compreendia a decisão. Embora José Passos tenha explicado quando tomou posse, que a taxação dos carros quando entravam nas barreiras da cidade era já suficiente não havendo por isso necessidade de os sobretaxar.


Uns dias depois o anónimo continua a sua crítica: 'E porque será que se planisão [sic] obras novas, deixando as principiadas e no coração da cidade! A obra de S. Domingos [rebaixe do murinho iniciado no ano anterior] merecerá desprezo, enquanto que a nova fonte do Bonjardim, próxima e muito próxima de outras, tantos obreiros contem que parece acabar-se antes da posse da Câmara a eleger!' Mais continua: 'Será decente aos olhos do público praticar a avilês com que ontem [23 de Agosto] se mudava a pedra do largo e da obra de S. Domingos para a fonte do Bonjardim? Será isto economia, ou andará a pedra fazendo via sacra por economia do cofre?'[4]

 

Não nos podemos esquecer que isto das opiniões de jornais, é sempre bom ouvir as duas partes. Neste caso a outra parte era o jornal O Nacional, que arrancara em maio, sendo na prática o mesmo que A Coalisão apenas com o nome mudado (ele próprio o diz no seu primeiro número); mas isso ficará para uma próxima publicação. Com estas linhas, o objetivo de abrir uma pequena fresta para bisbilhotar o Porto daquela altura está por ora cumprido. Outras mais irei abrindo por aqui se aos meus leitores interessar e eu as conseguir elaborar de forma concisa...

 

1- Que decorreu entre outubro de 1846 e junho do ano seguinte. A origem desta palavra deve ser procurada no castelho patulea (confira no Diccionario de la lengua española).

2- Chegaram a matar um militar de alcunha O fajardo.

3- Em determinado tempo, o proprietário do prédio a ela adjacente queixou-se à Câmara das inflitrações de água que os canos provocavam na sua casa!

4 - Esta última frase tem alguma importância histórica, pois revela o destino que se deu à pedra do célebre e centenar Murinho de S. Domingos.

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Publicado originalmente no blogspot em 08.01.2017 : agora revisto.

A praça da Liberdade à época da revolução de 1820

por Nuno V. Cruz, em 16.12.18

Nas primeiras décadas do século XIX, a imprensa começava a dar os seus primeiros passos e um pouco por todo o lado iam surgindo publicações periódicas, a esmagadora maioria delas de vida efémera. No Porto, um ano após a revolta de 1820 um dos jornais existentes era o Patriota PortuenseLonge ainda do tipo de publicação que veremos surgir nos anos 40 e sobretudo 50 daquele século, nele se notam contudo já algumas notícias locais e não apenas a publicação de Decretos ou notícias de carácter nacional do Reino Unido (de Portugal, Algarve e Brasil). E nele se começavam a ver também publicadas as correspondências de leitores que aproveitavam para mostrar o seu descontentamento com aspetos e modos como eram conduzidos os assuntos da cidade.

Nos dois artigos abaixo essas mesmas opiniões servem atualmente como pequenas janelas para um Porto que começava por fim a expandir-se para fora das suas muralhas medievais, mas onde Massarelos e Cedofeita eram ainda denominados de subúrbios. Neste contexto a atual Praça da Liberdade iniciava o seu lento processo de regularização e transformação, que só teria conclusão com a construção do edifício do Banco de Portugal e a demolição dos palacetes[1] do topo norte para abertura da Avenida dos Aliados, mais de cem anos depois.

 

praçanova.jpg

i1 a Praça Nova com o aspeto aproximado ao de 1821 (parcial de uma planta de 1790). O 1 assinala o palacete adquirido em 1819 para Paços do Concelho; o 2 indica e igreja e restante edificado dos Congregados ainda com a escadaria original demolida em 1838[2]. O 3 é a célebre Fonte da Natividade com o seu mercado em redor, tudo demolido em 1833. O 4 marca a viela do Polé, que ainda foi captada em foto (ver aqui) pois só desapareceu no início do século XX para dar lugar ao edifício do Banco de Portugal; e finalmente o 5 reporta ao convento dos Loios, acompanhado pela sua torre e pela muralha que naquele local fazia um curioso cotovelo.

 

Mas vejamos então quais eram as "polémicas" à volta da praça da Constituição, em 1821.

 

*
Patriota Portuense, 24 de Novembro
«CORRESPONDÊNCIA de um tal Brás Cata-cego

«Em 23 de dezembro no ano próximo passado é que se publicou a Portaria da Junta Provisional do Supremo Governo do Reino para que a Praça Nova se chamasse, para o futuro, Praça da Constituição; que, no lugar mais acomodado da dita praça, se levantasse um monumento, executado em pedra, com desenho que melhor possa exprimir o grande acontecimento do memorando dia 24 de agosto; e para que a praça se aformoseasse mais e tivesse extensão e capacidade necessária para este objeto, se demolisse o edifício da Natividade: recomendando-se à Ilma. Câmara que pusesse em prática tudo o que já dantes se achava determinado a este respeito, a fim de que esta utilíssima obra se não demorasse.

Tem decorrido quase um ano, e só vimos trocar-se a denominação da praça, sem solenidade alguma, porque o regime constitucional não admite cerimónias. Em quanto a monumento e demolição do edifício, fica para a ressurreição dos capuchos; pois que agora há falta de operários e ressurgindo aqueles haverá gente para tudo. Bendito seja Deus, que assim se executa o que um Governo determina!

Mas, sr. redator, como a obra está embarrancada não se há-de perder tudo, visto que se lhe deu começo in illo tempore que a pedra, daí tirada, dava para aquilo com que se compram os melões: bem haja quem é dotado de astúcia, que em ninharias faz dinheiro, e o tempo só está para pouquidades! Portanto lembro que se deve conservar aquela tapagem que se acha na obra (que é bem bonita!), e acabando-se de terraplanar o sítio da fonte, tem a cidade regeneradora um côrro para touros, cavalinhos, ursos e elefantes, com que os forasteiros nos armam ao dinheiro: desta sorte não nos incomodarão pelas ruas com os seus bicharocos e gaitas de fole, e jamais se irão hospedar com eles em casas de pasto, habitações impróprias para tal canalha: as janelas servem para as senhoras, como mais medrosas; e para os homens faz-se um tablado no lugar da varanda: esta lembrança não é para desprezar, porque além da comodidade destes aventureiros da santa conveniência, serve de chamariz para as lojas do bom e barato: e é de esperar que ela tenha a breve decisão que tem tido as memórias e modelos para a construção do dito monumento.

A Ilma. Câmara fez certamente o que devia em renovar e ornar os Paços do Concelho em quanto o cofre tinha churume: em verdade, o interior do edifício tem belíssimas pinturas, gosto delicado nos tetos estucados, magníficos reposteiros, portas com ricos entalhos, etc; o exterior (aqui torce a porca o rabo!) é justíssimamente como um homem vestido à sebastianista, com um chapéu de copa alta (à constitucional) com uma pluma em cima, que é a primorosa e excelente estátua do Porto que, na sua mão de obra escusava tanta delicadeza para tanta altura. Porém, Deus perdoe a quem fez tal judiaria; que, depois de feita a tal obrinha, deu peco no cofre da cidade, que não anda para trás nem para diante... (...)

 

«»


Patriota Portuense, 29 novembro
CORRESPONDÊNCIA de resposta ao tal Brás Cata-cego

Estranhei que no n.º 279 do seu Diário o correspondente Brás se apelidasse Cata-cego, quando ele tem olhos tão espreiteiros! Porém se todavia ele é pesquisador, ainda lhe escapuliu da lembrança advertir o seguinte:

Há meses afixou-se um Edital para derrubar as barracas da feira no tempo perentório de oito dias; mas o tempo determinado foi-se, e após ele decorreram meses, servindo o Edital só para oprimir esquinas!

Pode ser que estorvasse esta providencia alguma medida político-lucratoria que as descaradas regateiras arranjassem com seus embustes, pois que para isso são amestradas; porém dado que assim fosse são elas diabólicas feiticeiras, capazes até de virar o mundo com o debaixo para riba! Eu as esconjuro; porque temo mais seus feitiços do que suas pragas, baldões e bravatas. Mas, sr. redator, pela chibança das regateirinhas há-de valer um cominho o Edital dos srs. Juízes Almotaçés, e o seu conteúdo ter o privilégio do caranguejo? E nós se quisermos transitar naquele sítio, havemos de vêr-nos abarbados com encontrões, e alcançarmos indulgência plenária para sair dele!

Eu conheço que as tais barracas servem de embelezar a nossa cidade, pois que nos apresentam um retalho das ruas de Constantinopla; mas o Brigadeiro N. Trant[3], não lhe importando belezas, pespegou com elas em terra a despeito das mesinhas, caramunhas, e feitiços das guapas regateiras. Ele tudo podia; porque além de pouco se lhe dar que galrassem, não temia feitiços, por neles não crer como protestante e não católico: assim, fazia sempre o que premeditava. Ora, eu não quisera desmanchar prazeres: mas se os tais casebres de madeira, são próprios só para os Turcos, mandem-se-lhes para lá os donos dos de cá, e a Justiça que os consente; assim ficaríamos livres dos tais empecilhos, e não se embespenharia e nausearia o público contra a falta de execução do celebrado Edital!

(...) Bem lembrado catará de quando todos os vendedores e vendedeiras dos mercados andaram em bolandas; ei-los já para aqui, ei-los já para ali, ei-los outra vez para cá, ei-los outra vez para lá; até que por fim todos tiveram o seu paradeiro.

Na praça de Santa Teresa ficaram os padeiros de pão de milho (vulgo broa): tanto uns como outros foram despedidos da praça da Constituição, para aquele lugar ficar amplo, não só por ser de muito trânsito, mas para se fazer a parada, render-se a guarda principal, etc: muito boa providência, esclamaram todos; porém muitos dias não eram passados, quando atrás do tanque desta praça se viram encouchadas algumas padeiras do pão de broa; e como aí se demorassem algum tempo, sem que a justiça dos Almotacés as enxergasse (pois que todos andam cegos com estas cousas), foram-se plantar com toda a cachimonia no sítio donde tinham saído as padeiras do pão molete; e lá se conservam muito empertigadas nas suas tripeças. As vendedeiras da sardinha, do bacalhau podre, das quentinhas, e algumas de molete, como lhes não fizessem bom gasalhado onde estavam, mui arteiras se fincaram ao pé das outras; e aí temos a entrada da praça entulhada com hum mercado de mixtiforios! Como ali hajam filhos de muitas mães, chovem por conseguinte os impropérios, pulhas, chufas, pragas e tudo o que é contrario à decência e bons costumes: e isto no centro da cidade onde continuamente passam famílias e pessoas honestas!

(...) A Câmara (composta de Fidalgos!!) está quase a expirar-lhe o prazo de sua governança; veremos agora se, com estas viravoltas constitucionais, temos Câmara constitucional (...); então veremos, executando-se o que um Governo constitucional determinou, derrubar-se o encantado edifício da Natividade, e alevantar-se o esquecido monumento constitucional; veremos também publicar-se as contas do cofre da Cidade, porque, se ele lhe pertence, é inconstitucional ocultar-se sua receita e despesa (...).»

 

Veja-se portanto que a preocupação destes artigos de opinião, nome que modernamente lhes daríamos, residia na Fonte da Natividade ou mais propriamente no comércio que ao redor dela existiam. Uma vez que nós próximos dez anos iríamos entrar num período muito complicado da história de Portugal, o que se havia projetado fazer, isto é, a demolição daquela fonte e trasladação dos comerciantes para outros espaços da cidade, teria de aguardar por 1832-33 e bem assim o pagamento das indemnizações aos donos das barracas prolongariam-se ainda no tempo por mais uns anos. Mas essa situação será explorada mais à frente, numa publicação dedicada exclusivamente à fonte da Natividade. Por agora deixo o meu caro leitor com os pequenos apontamentos que atrás leu, que andavam esquecidos em jornais amarelecidos pelo tempo.

 

 

1. Um deles serviu quase cem anos como Paços do Concelho.

2. A demolição destas escadas foi decidida em Câmara em Janeiro de 1837 e ao mesmo tempo aprovada a planta para construir a nova entrada para a igreja. A obra foi concluída no ano seguinte.

3. Nicholas Trant, oficial inglês que governou as Armas do Porto entre 1814-1818. Mais conhecido por Nicolau Trant uma vez que naquela época ainda era costume corrente aportuguesar alguns dos nomes de estrangeiros (veja-se o exemplo máximo de Niccolò Nasoni), foi a ele que foi dedicada a célebre planta redonda de George Balck.

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Publicado originalmente a 11.01.2015 no blogspot, agora revisto.

Uma inovação da era pré-SMAS na fonte da 'Araújo & Sobrinho'

por Nuno Cruz, em 22.02.18

Eis uma notícia que recuperei d' O Comércio do Porto de 10 de abril de 1870 com uma pequena informação que não sendo relevante, é interessante para a história de uma fonte cuja existência terá rondado os 80 anos...

 

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«Acham-se terminadas as obras de melhoramentos na fonte do largo de S. Domingos mandadas fazer pela Exma. Câmara.
Estas obras consistiram em adaptar aquela fonte a um novo sistema, em virtude do qual a água, em vez de correr permanentemente, como até agora, está represada, fazendo-se a extracção dela, quando é precisa, por meio de umas válvulas que se abrem puxando uns botões de metal amarelo, colocados um pouco abaixo das bicas e fora dos tanques.
Para este fim foi substituído o antigo tanque, que tomava toda a largura da fonte, isto é, as duas bicas, por dous pequenos, em arco de circulo, aos cantos, por baixo de cada uma das bicas.
Estas não estão completamente estanques, deitam, porém, apenas a porção de água necessária para encher os pequenos tanques, a fim de servir quando seja necessária para os incêndios ou outro qualquer uso não proibido pelas respectivas posturas.
É a primeira fonte deste género no Porto e constitui de certo um melhoramento de grande vantagem para o abastecimento regular de um dos elementos mais indispensáveis à vida.
A transformação das fontes da cidade segundo o novo sistema parece ser o que asseguraria uma regularidade a todos os habitantes.
Com efeito é como tentativa para esse fim, segundo nos informam, que a Exma. Câmara mandou proceder à inovação que noticiamos.
Oxalá que esta produza os resultados que se tiveram em vista, e os quais se tornem a mais persuasiva prova da vantagem de a adaptar geralmente.
Como tudo que tem o sabor da novidade atrai os curiosos, a fonte de que nos ocupamos, com as alterações que se fizeram, tem sido o ponto de reunião de um não pequeno número deles, a verem como funciona o novo sistema.
Os aguadeiros é que, totalmente alheios à combinação dele, dão ao démo a engenhoca, atribuindo aos defeitos do sistema o que apenas é efeito do desajeitado modo de se servirem dele.»

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fontedomingos.jpg

 i1 - A fonte na obra Contribuição para a higiene do Porto, de 1908. O rapaz em pé ao centro está encostado à porta de entrada para a arca da água. 

 

Esteve esta fonte embutida no prédio hoje ocupado pelo hotel A.S. 1829, na montra com moldura trabalhada em cantaria, adorno da própria fonte. Dela resta apenas o brasão da cidade, colocado à entrada do jardim do Edifício do SMAS.

 

Um curioso apontamento colhe-se na obra referida na legenda da imagem. Com efeito, o cano para esta fonte «marcha na rua das Flores e no lado poente da rua de S. Domingos até atingir uma pequena pia de pedra da qual a água caí para um grande reservatório também de pedra, que alimenta as duas bicas (... ) uma das mais caras e elegantes da cidade; notamos-lhe de particular também a existência de dous puxadores semelhantes aos de certas campainhas de portais (...) e destinados a levantar uma válvula obturadora do orifício posterior da bica e a evitar que na estiagem a água corra constantemente»; ou seja, a modernização que a notícia do jornal refere.

fonteas1829.jpg

i2 - Nesta imagem podemos ver o local onde esteve a fonte, com a sua moldura ainda embutida no edifício da antiga papelaria Araújo e Sobrinho, atualmente ocupado pelo hotel AS 1829 (foto do autor).

 

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Originalmente publicada no blogspot em 17 de janeiro de 2010, agora revista e aumentada.

Em 20.03.2018 foi alterada a imagem i2.

A fonte das Congostas e o triste fim do seu brasão

por Nuno Cruz, em 03.09.17

Esta publicação vem em sequência de uma anterior (ver aqui) onde é referida a fonte das Congostas. Tal como nela, não me perco em considerações e permito logo de início a Pedro Vitorino falar em pleno.

 

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EXCERTO

«Deve datar dos princípios do século XVIII a construção da Fonte das Congostas, que a abertura da rua do Mousinho da Silveira fêz desaparecer de 1882 para 1883.


As feições arquitectónicas do renascimento condizem com essa época. O alçado constava de um corpo central com uma forte cimalha apoiada em colunas canuladas, com capiteis de inspiração coríntia, sobrepujado por um frontão de remate circular, onde se encostavam, na frente e aos lados, três golfinhos de bocas hiantes; lateralmente, pequenos corpos, com tímpanos curvos de ligação, limitados por pilastras. As bicas eram rasgadas no meio de cartelas exuberantes, com contornos de feição flamenga. Conjunto de linhas muito equilibradas e de formoso aspecto.

fonteCongostas.jpg

O escudo real, do tipo adoptado por D. João III, não corresponde à época da construção. Deve ter pertencido a uma fábrica anterior, possivelmente mais modesta. Dêste brasão, ou de um outro igual, talvez de menor tamanho, há uma pequena história a referir. Tendo sido em tempos poupado da destruïção, houve a louvável ideia de o colocar numa pequena casa que servia de pôsto da guarda municipal no Bonfim, ao lado da escadaria da igreja. Com o advento da República, a febre insensata de abater os símbolos do antigo regime levou à barbaridade de lhe ser picada a coroa, mutilação que só numa terra de néscios poderia admitir-se, visto ser um documento arqueológico digno de figurar num museu.
 
Apesar da municipalidade possuir um estabelecimento dêste género, quando há pouco tempo se transformou a casa no nicho de uma imagem a Santo António, o Museu não foi lembrado, indo parar a pedra armoriada, com outras do pardieiro, às obras de uma nova rua, para as Antas, onde a converteram em cascalho. Isto passou-se em 1929. É bom recordar os inúteis esforços que Rocha Peixoto fêz, quando conservador do Museu Municipal (no período de 1900 a 1909), para que êste estabelecimento fôsse "convidado a emitir opinião" sempre que se tratasse de velhos edifícios a demolir, a fim de que a cidade do Pôrto não ficasse desconhecendo o seu passado. Se  isso se observasse, como convinha, de então para cá, seria o Museu um arquivo-documentário bem mais rico do que presentemente é.

A fotografia da fonte das Congostas mostra, na bica do lado esquerdo, insculpida, a palavra Paranhos, em concordância com a indicação já referida em 1669 pelo P.e Baltasar Guedes(1); mas não era só a água dessa origem que a alimentava, pois obtinha refôrço com água vinda do chafariz de S. Domingos, formada por uma mistura de Paranhos e do Laranjal.
 
Lembrarei que por portaria de 21 de Dezembro de 1821 se determinara que nas fontes públicas que tivessem duas bicas, uma fôsse destinada aos particulares e outra aos aguadeiros, para o que haveria dizeres indicativos. A fotografia mostra bem essa separação: junto de uma das bicas agrupam-se os longos canecos dos aguadeiros, que se enchiam por intermédio de um cano, móvel, de fôlha.

Os aguadeiros, na totalidade galegos, levavam a água às casas transportando-a nos seus característicos canecos. Como notou Alberto Pimentel no Guia do Viajante no Porto (1877), "os aguadeiros portuenses não andam pela rua oferecendo agua, como os de Lisboa. Estão afreguezados, e levam a agua todos os dias a casas certas. Usam chapeu desabado, ou boné, jaqueta com chapa [numerada, seguramente] e enormes sapatos, quasi redondos, presos com atilhos sobre o peito do pé". Para completar a descrição, direi que o aguadeiro, figura típica há muito desaparecida do Pôrto(2), prendia ao ombro esquerdo um pedaço de couro, onde o caneco assentava para o transporte.»

 

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fontecong.jpg

Acima podemos ver um pormenor da Terceira folha da planta entre a Porta Nobre e o Cais da Alfândega - guardada no ADP - onde se vê o local da fonte das Congostas. Como se pode constatar, encostado a ela estava um dos passos idênticos ao que ainda hoje vemos encrastado no muro que sustenta a igreja de S. Francisco (a uns 50 metros de distância deste local). Vemos também que quer a fonte quer o passo se encostavam a casas agora inexistentes e que corriam no seguimento das da margem norte da rua do Infante (margem onde se encontra a Feitoria Inglesa).

 

Abaixo, com a ajuda do googlemaps podemos ver sensivelmente onde a fonte se localizava em relação à atualidade.

local.jpg

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1) - O autor refere-se à obra de 1669 deste prelado intitulada Memória de todos os aqueductos, chafarizes e fontes da cidade, onde é referido que a água para as Congostas vinha pelo aqueducto de Paranhos.

2) - Para um melhor entendimento e contextualização da observação de Pedro Vitorino tenha-se em consideração que este escreve em 1931.

 

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Bibliografia:

A Fonte das Congostas de Pedro Vitorino, publicado n' O Tripeiro em Maio de 1931.