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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Uma publicação muito pessoal

16.09.19

Tive o privilégio de ser criado no centro histórico do Porto, no 4º andar do portal n.º 76 da rua Nova da Alfândega, na freguesia de S. Nicolau. A minha paisagem de todos os dias era o cotovelo que a muralha ali faz bem como a horta do mosteiro/tribunal de S. João Novo, isto não contando com o rio e mais ao longe o monte do castelo de Gaia: tudo, como se vê, repleto de história! Irão por isso os meus caros leitores perdoar esta publicação de caráter mais pessoal. Mas não se preocupem, à boleia de um desastre e da saudade vou abordar fases pretéritas da cidade. Digo desastre pois aquela casa foi recentemente afetada no incêndio ocorrido na madrugada do dia 17 de julho. Assim pude ver, através das televisões e com bastante tristeza, as janelas daquele edifício já devoluto escancaradas por forma a permitir o acesso dos bombeiros à sua vizinha envolvida em chamas.

 

Este edifício foi construído na década de 70 do século XIX, tal como quase todos restantes daquele correr, que ainda hoje apresenta um aspeto oitocentista não devassado pelo betão. As suas casas não são obviamente muito antigas e apresentam sensivelmente duas tipologias diferentes, fruto da uniformidade que a câmara municipal impunha a quem construísse. Ocupou um terreno anteriormente preenchido por uma escadaria do lado interno da muralha bem como algumas das casas demolidas, implementadas em estreitas vielas medievais igualmente desaparecidas. A estrutura mais notável nas redondezas terá sido a Porta Nova, sacrificada em 1871 para a construção da rua Nova da Alfândega a uma cota superior (dela já me ocupei aqui).[1] O que quer que reste de tal porta jaz agora escondido pela sapata da nova rua, sensivelmente na área onde se encontra a entrada do parque de estacionamento.

 

A i1 deverá corresponder à época da construção do ramal da alfândega (1881/88) e nela podemos ver vários pormenores interessantes. Pormenor curioso: o 3º andar do edifício a que me refiro não tinha ainda perdido a sua varanda.[2]

 

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i1 A) muralha fernandina : B) águas-furtadas onde foi criado o autor : C) o que resta do fortim de S. Filipe, mais conhecido por fortim da Porta Nova, prestes a ser engolido pela sapata que sustentará a ferrovia (à sua direita ainda se vê um pano de muralha) : D) casas que hoje se encontram ao topo das escadas do Recanto mas que tinham frente para a rua do Forno Velho de Baixo : E) antiga rua das Barreiras, agora incorporada na rua Arménia

 

A i2 é outra panorâmica tirada na mesma altura, que nos permite observar de um ângulo diferente a forma como as casas novas se alinhavam com o fortim.

 

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I2 esta imagem mostra-nos os pormenores acima descritos mas deixando ver as casas que sobreviveram à destruição necessária à construção da nova rua: F) esta casa existiu, pelo menos, até aos anos 50 do século XX[3] : G) as escadas do Recanto que ainda apresentavam um grande desnível face ao aspeto que agora tem. Por ele, creio, se pode inferir o quão irregular deveria ser o bairro dos Banhos, recebido pela cidade moderna com todos os sobe e desce a que a ocupação medieval daquela encosta se adaptara.

 

Em junho de 1872 foi aprovada pela Câmara a planta modelo para os edifícios a reedificar entre as escadas do Caminho Novo e a rua do Comércio do Porto (à época rua da Ferraria). Logo em janeiro do ano seguinte um Manuel dos Santos Preguiça submeteu o seu pedido de aprovação da planta da casa que pretendia construir, estando para isso já a demolir a que possuia no mesmo local pelo lado do sul das escadas do Caminho Novo. Aquela planta ficou servindo de modelo às restantes por ser conforme com a que fora aprovada pela Câmara.[4] Para a trazer ao novo alinhamento foi o mesmo proprietário forçado a adquirir à edilidade uma porção de terreno de 27,5m2. Esse edifício é hoje o alojamento local Seventyset.

 

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i3 planta do edifício novo que o Sr. Preguiça construiu, sem o acrescento de um andar solicitado posteriormente

 

Em maio do mesmo ano, Gertrudes Magna da Purificação Monteiro submete à Câmara o pedido de aprovação para a construção de duas casas idênticas, geminadas com a do Sr. Preguiça, mencionado no pedido o termo reconstruir.[5] Por se encontrar no lado de dentro da muralha num local antes ocupado por edifícios e via pública e pelo facto de estarmos na presença de duas casas, a D.ª Gertrudes teve de adquirir dois pedaços de terreno. As suas confrontações deixam-nos vislumbrar alguns fragmentos de toponímia hoje olvidada.

 

O primeiro terreno ia desde a frente do seu prédio (o pré-existente) e a face da nova rua numa extensão de 14,5m do lado poente, 14,1m do nascente, 6,85m do norte e 3,85m do sul.  Confrontava a poente com a rua Nova da Alfândega, nascente com o prédio pré-existente, pelo norte com o edifício do Sr. Preguiça e a sul com terrenos públicos (cujos proprietários dos prédios contíguos teriam de adquirir para submeter os seus edifícios ao novo alinhamento). Já o segundo terreno, diz explicitamente o documento, era uma porção da antiga viela que ficava ao norte do prédio pré-existente, entre ele e a cerca fernandina. O terreno tinha sensivelmente 14,1m por 1,5m - que estreita viela! com as seguintes confrontações: a poente confrontava com o terreno que acima vimos, a nascente com a viela do Forno Velho de Cima (que dava servidão para o prédio pré-existente da D.ª Gertrudes e seus vizinhos), a norte com o antigo muro da cidade nas traseiras das escadas do Caminho Novo e finalmente a sul o próprio prédio que a requerente pretendia reedificar.[6]

 

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i4 planta submetida pela D.ª Gertrudes. O portal mais à esquerda é o do n.º 76, encostando à casa do Sr. Preguiça. Os portais da direita são da agora destruída mercearia Porta Nova. A platibanda difere da realmente construída, o que poderá relacionar-se com um pedido da requerente, de 1875, para modificar as almofadas da platibanda.

 

As casas construídas naquele local, pelo menos até às escadas do Recanto, são reedificações e adaptações do pré-existente, tendo os proprietários que as alinhar dado que agora deitavam para uma pequena escarpa à face da nova rua em construção. A i5 mostra-nos precisamente isso. Creio que não terá restado outra hipótese aos proprietários das casas poupadas à hecatombe a sua demolição se não da totalidade das paredes, pelo menos de todo o seu interior. A casa que conheci, por exemplo, foi certamente construída a pensar em alojar famílias dado que pelo menos o segundo e terceiro andares apresentavam uma enorme boca de extração de fumo na cozinha (a casa é anterior ao aparecimento da eletricidade); o que não joga com um simples acrescentar de paredes para trazer o edifício ao novo alinhamento.

 

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i5 parcial de uma fotografia mostrando o que foi demolido naquela zona: A) local onde existiu a Porta Nova, B) atual término da muralha fernandina, resultante das demolições, C) e E) mostram as casas e escadaria que ainda subsistem das escadas do Recanto e finamente D) serão as casas da D.ª Gertrudes com antigas frentes para a rua do Forno Velho de Baixo (traço amarelo na foto) e rua do Forno Velho de Cima (hoje em parte transformada em saguões das casas existentes)

 

Apelo à boa concentração do leitor para interpretar o parcial de uma planta que apresento abaixo, da altura em que se projetava chegar à nova Alfândega não pela rua que foi efetivamente construída mas pela rua de D. Fernando (atual rua da Bolsa). Ela é plena de pormenores a todos os que queiram melhor conhecer todas as escadinhas que existiam no quase completamente desaparecido bairro dos Banhos (não obstante esta planta apresentar um plano nunca seguido tal não tem afetação para o nosso tema).

 

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i6 eis uma grande fatia do bairro dos Banhos mostrando a área que nos interessa. O retângulo vermelho mostra-nos o atual Forno Velho, sobrevivência da rua do Forno Velho de Cima; o retângulo azul indica as escadas do Recanto, sobrevivência da rua do Forno Velho de Baixo e o castanho a Porta Nova. O verde, é claro, indica o local das casas que se reconstruiram junto à muralha, propriedade da D. Gertrudes. Quase tudo o resto foi destruído

 

Talvez já não se recordem os meus caríssimos leitores da publicação sobre uma rua já desaparecida e completamente esquecida pelos historiadores da cidade (salvo a não surpreendente exceção do Dr. Ferrão Afonso, a quem devo o conhecimento dela), chamada rua da Almea, ou rua da Boa Vista. Nela se falava igualmente na rua da Minhota (ou Munhota), também ela obscura mas mais conhecida por ser frequentas vezes citada como a rua onde existiu uma sinagoga. Ambas se situariam precisamente nesta área, mas ainda hoje nenhum historiador se debruçou sobre elas por forma a identificar com a precisão possível o seu traçado.[7] Ora a rua da Minhota poderá rer sido uma destas duas ruas; talvez com maior probabilidade a rua do Forno Velho de Baixo (hoje reduzida às escadas do Recanto). A rua da Almea situava-se na área agora ocupada pelo convento e já no século XVIII desaparecera da memória dos portuenses (dela ainda sobreviverão restos debaixo da sapata de S. João Novo...).

 

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i7 imagem do saguão da casa colhida em 2017 quando esta era ainda habitada. Para a captar posicionei-me dando as costas à muralha no mesmo local onde se encontrava antes das demolições a escada/viela que descia encostada à dita muralha, dando passagem do Forno Velho de Cima para o Forno Velho de Baixo (ver retângulo verde na i6). Se nos fosse possível ver através dos saguões, teriamos ao fundo o atual Forno Velho. Notar que estes saguões dos edifícios estão ao nível do segundo andar na face voltada à rua, consequência da ocupação da encosta (como vimos atrás na i2, letra G)

 

Na i7 não é percetível o desnível existente entre lado direito que encosta à casa e o lado esquerdo que encosta ao muro, preenchendo um patamar mais elevado no correr da porta entaipada. Estou em crer que esse patamar será tudo o que resta neste lote do solo da antiga viela, pois encontrando-se ele fora do terreno da casa não terá havido a necessidade de o destruir e numa primeira fase seria mesmo importante não o fazer, pois durante algum tempo mais a viela ainda esteve ativa sabendo o autor de viva voz que durante muito tempo por ali se acedeu ao edifício (ver mais abaixo). Uma segunda razão é o facto de aquele patamar ter sensivelmente a medida apontada na explicação do técnico da câmara para a largura do segundo terreno que a D. Gertrudes teria de adquirir - 1,5m - terreno que pela planta i6 se vê ser a continuação daquela viela. É apenas uma hipótese que a arqueologia talvez venha a confirmar ou desmentir.

 

A memória mais antiga que consegui oralmente recolher sobre este edifício ou o seu antecessor, remete-nos para uma escola que ali existiu cujos alunos usavam a porta entaipada visível na i7 para a ele acederem. Em 1955 o edifício era propriedade de uma senhora de nome Laurinda, que por sua vez o herdara do seu falecido marido. Naquela época o rés-do-chão e o primeiro andar já estavam ocupados por escritórios, o segundo por uma família e o terceiro pela proprietária. Em testamento, a D.ª Laurinda deixou o edifício ao Albergue da Mendicidade do Porto. Pela minha parte, nos anos 80/90, recordo que o primeiro e segundo andares estavam ambos ocupados por escritórios e o piso térreo desocupado. O terceiro ocupado pela antiga vizinha de meus avós (com quem emotivamente me reencontrei em 2017) e claro, no quarto pelos meus queridos avós já desaparecidos, que sempre estarão na minha memória.

 

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i8 o edifício que temos vindo a estudar encontra-se agora em obras de remodelação/reconstrução. O que virá a ser?

 

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i9  pormenor das águas-furtadas daquele edifício onde passei os dias mais despreocupados da minha vida. 

 

E assim caríssimos leitores me despeço, agradecendo a todos que tiveram a amabilidade e paciência de ler esta publicação algo fastidiosa sobre uma simples casinha da rua Nova da Alfândega. Como se pode ver abaixo ela encontra-se agora em obras para ressurgir com uma nova vida. Mudam-se os tempos, muda-se os donos... que eu desejo possuam o bom senso de preservar alguma coisa do que ali existiu e não se renderam ao facilitismo de tudo demolir para erguer em betão. Mais feliz ficaria se aquelas paredes fossem ocupadas por famílias de habitantes em alternativa às famílias de hóspedes, para que o n.º 76 da rua Nova da Alfândega pudesse renascer como um novo berço memórias!

 

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1 - A ligação afetiva a toda aquela área juntamente com o facto de ter sido ali que comecei a verdadeiramente me apaixonar pela história da nossa cidade, foi a principal razão que me levou a dar ao blogue o "pomposo" nome A Porta Nobre. Devo contudo advertir que este nome, de origem ainda incerta, não era o oficial daquela entrada da cidade e ainda não logrei conhecer como e quando ele surgiu.

2 - Na janela mais a poente dessa varanda perdeu o autor destas linhas várias horas a observar a máquina Diesel a manobrar os vagões e a fazer um comboio para depois levar para Campanhã e a observar os elétricos que em baixo passavam de e para o términus da linha 1, no Infante.

3 - Minha mãe, nascida em 1950, ainda conheceu os últimos habitantes da casa cujo senhor tinha o ofício de sapateiro. Nitidamente uma casa com origens medievais, ocupava uma área muito estreita de solo, o que obrigava à existência de uma íngreme escadaria para aceder aos sobrados.

4 - Em  setembro daquele ano o Sr. Preguiça pediu lhe fosse autorizado o acrescento de mais um andar.

5 - O técnico da Câmara que analisa o pedido aplica o mesmo termo.

6 - Ao senso comum os pontos cardeais parecem estar mal orientados, contudo se observarmos a rua na carta da cidade veremos que não. Ainda assim, não sendo a orientação rigorosíssima, ela serve o propósito.

7 - Esta tarefa, árdua mas no final gratificante, poderia ser levada a cabo por algum estudante universitário que quisesse fugir aos estudos clichê sobre a rua Nova, Flores e outras. Para isso terá o mesmo de consultar imprescindivelmente o arquivo dos padres de S. João Novo e o da Câmara bem como, de uma forma mais ligeira, os das restantes congregações religiosas possuidoras de casas naquelas ruas.

A rua da Almea ou Boa Vista, artéria esquecida da cidade

19.10.17

Há ruas agora extintas que pela sua importância na construção da cidade ou pelo seu relativamente recente desaparecimento, ficaram melhor vincadas na memória coletiva do que outras. Basta lembrar por exemplo a rua das Congostas (que para mim ainda existe, mas isso são outros quinhentos...) ou a enorme mortandade de ruas ocorrida aquando do quase total arrasamento do bairro dos Banhos, que obliterou várias delas da memória da cidade ao ponto de algumas pessoas falarem por exemplo na rua da Minhota como se essa designação fosse oitocentista; assim misturando nomes mais recentes com os antigos sem ter em conta que a anterior desapareceu bem antes da rua em si. Outro exemplo bem ali perto é o da rua de S. Nicolau, anteriormente nomeada rua da Ourivesaria e em parte ainda existente. Portanto, esse cuidado urge para que não se misturem épocas de vida da cidade por vezes separadas por séculos.

 

Mas vamos ao tema: então onde era a Rua da Almea? Creio que poucos amantes da história deste velho burgo terão ouvido falar nela pois desapareceu de uma assentada no início do século XVII. Os responsáveis foram os Ermitas de Santo Agostinho que no seu local construíram o convento de S. João Novo, agora transformado em tribunal. Com efeito, pelo ano de 1602 foi entregue a esta Ordem religiosa a igreja paroquial de Belomonte após extinção da freguesia com este nome que acabou retalhada entre as freguesias de São Nicolau e Vitória. A igreja estava ainda inacabada, mas depois de algumas obras e alguns anos de uso os frades optaram por a demolir e construir um novo templo naquele espaço. Obviamente que a rua não desapareceu apenas pela ação da construção da nova igreja, senão porque a máquina do convento a construir era grandiosa e à qual se deveria somar a área necessária para a cerca que qualquer bom convento deve ter: o resultado esta patente na enorme sapata que o sustenta. Foi todo este estaleiro que ditou o desaparecimento da Rua da Almeia, ou melhor, da Boa Vista, conforme era já conhecida naquele século. Para isso foram compradas vinte e uma casas e seus quintais bem como outros cinco quintais em separado, necessários à definição do perímetro conventual. É fácil concluir que a razia que disso resultou provocou a extinção daquela artéria, ao ponto de a extinguir da memória da cidade.

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O bairro dos Banhos e a localização da rua da Almea/Boa Vista. A atual Calçada do Forno Velho era no século XIX conhecido por Forno Velho de Cima e aquela que aponto como possível Rua da Minhota era conhecida por Forno Velho de Baixo, de que uma parte ínfima ainda existe no topo das Escadas do Recanto (planta do AHMP).

 

A rua correria na direção Norte-Sul sensivelmente paralela à muralha fernandina, desde a Porta Nova (ou Nobre) até ao pequeno rossio formado junto ao Postigo da Cordoaria, à entrada da Rua Tomás Gonzaga. Unia-se ao Bairro dos Banhos pela Minhota, a julgar por estas descrições de casas que os dominicanos possuíam nas redondezas no século XVI: "esta rua é abaixo de Belomonte entre a porta nova e o postigo de S. Pedro, perto do muro", mais à frente: "rua detrás da minhota ou almea" ou ainda: "rua da porta nova [Rua dos Banhos] ... da banda do norte, pegada com a escada que vai da porta nova para cima para a rua da almeia ao longo do muro" (pormenor curioso: foi pertença dos dominicanos a casa onde existiu o forno que originou a designação de Forno Velho).

A palavra Almea poderá advir de uma pequena torre situada um pouco abaixo do local onde hoje temos a capela de Nossa Senhora da Esperança, e que talvez tenha correspondido a uma almeara árabe, edifício destinado à sinalização marítima! Segundo o historiador Dr. Ferrão Afonso, de onde extraio estas últimas notas, a torre existia ainda nos finais do século XVI, posto que bastante arruinada.[ver nota final]

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localização (conjetural) da rua da Almea / da Boa Vista (imagem do bingmaps)

 

Mas são tão poucas as referências a este arruamento que ele não aparece mesmo na maqueta medieval presente na Casa do Infante, ainda que contudo a rua poderia ainda não existir na época a que o modelo reporta. E como prova de que nos finais do século XVII ela começava já a entrar na bruma do esquecimento, vejamos a vistoria que se segue, feita no sítio onde os Ermitas de Santo Agostinho possuíam duas casas de um conjunto de três que haviam comprado em 1604. A terceira, mais pequena, ficou incorporada na cerca enquanto as outras duas foram emprazadas ao seu antigo proprietário, Gaspar Pimentel. Mas por meados do século as casas acabaram por se arruinar, caindo em pardieiro e delas tomaram posse indevida duas famílias durante largos anos, até que finalmente o convento lhes moveu ação judicial. É de uma dessas ações, presente no cartório do convento depositado no Arquivo Distrital do Porto, que retiro o seguinte apontamento da vistoria feita ao local em 21 de Agosto de 1696:

 

«… e logo achou ele corregedor que as casas da contenda estavam sitas entre a rua da Minhota e a rua do Forno Velho fazendo faces para ambas as ruas pelo norte e pelo sul e defronte delas pela parte do Forno Velho fica a cerca dos autores metendo-se somente a rua em meio que terá doze ou catorze palmos em largo e confronta pela parte do nascente com as casas de que é direta senhoria a Misericórdia que foram de Isabel Nunes e pela parte do poente confrontam com pardieiros que diz ocupa António Pereira Roriz e entre umas e outras vai uma viela munto estreita que terá dez palmos e meio de largo ao poente destas casas que possuí António Pereira Roriz fica no andar da mesma rua em que vive o réu que diz são de Manuel Monteiro, tanoeiro». Ora o corregedor, com esta vistoria: «não achou noticia donde fosse a rua da Boa Vista mas entende-se pelo que as partes dizem que a Boa Vista era uma rua que se embebeu na cerca do mesmo convento e o padre procurador dos autores respondeu que não tem notícia onde era a rua da Boa Vista mas que se devia entender era esta do Forno Velho por não haver notícia em contrário e por as primeiras confrontações do lugar condizerem com a certidão ... do tombo da Misericórdia».

 

Por aqui se vê que menos de um século depois de ela desaparecer materialmente já o mesmo teria ocorrido na memória coletiva no que toca à sua exata localização. Faço votos que este despretensioso contributo possa fazer chegar a memória do que ali existiu a todos os interessados das fases pretéritas da cidade do Porto.

 

Nota final: Consultando o dicionário onomástico de José Pedro Machado, encontrei as seguintes definições para Almeia: a) Do ár. al-mai'â, em Pedro de Alcalá, 99, méaã, «almea, yerua». Séc. XVIII: «Das Indias de Castella a almeia e oleo della para as mãos», Floresta, I, 5, 179. // b) Do fr. almée, por sua vez do ár. 'ãlmii, «mundando, profano, laico». Séc. XIX: «Bailadeira e cantora entre os povos orientais que a mulher torna almeia...», Castilho, Outono, p.130, ed. de 1863; c) Em Almiar (topónimo de Águeda) temos: Do s.m. almiar, este do ár. al-miãr, pl. de al-mir, «aprovisionamento», «monte de cereal». O pl. tornou-se coletivo e, depois, s.m. Em Almiara (topónimo de Águeda, Montemor-o-Velho, Torres Vedras, V. N. de Gaia), temos: Nome de unidade do s.m. al-miãr; tornado nome comum. Séc. XIII: -... diuidit cum termino de Combrianos et de Camdelo et de Almeara...», Leges, p.662: em 1195 (Dissert., V, p.63); em 1482: - hũũa ponte que se chama d almeara que he açerqua desta villa [de Aveiro] ...», Desc., II, p.641. No dicionário etimológico, para Almeia, temos: a) do ár. ãlamii, sábia, pelo fr. almée. Dançarina egípcia cujas danças lascivas são entremeadas de cantos, a maior parte das vezes improvisados e b) do ár. al-mai'â. Árvore, o mesmo que Zimbro-da-cicília // Bálsamo natural dessa árvore, produzido no Oriente e preparado em Marselha. Apesar de tudo isto, não encontro nestas definições alguma que se enquadre melhor do que a proposta pelo Dr. Ferrão Afonso.

 

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Bibliografia: Documentos do cartório do convento dos Pregadores em depósito no ADP, documentos do cartório do convento dos Ermitas de Santo Agostinho no mesmo arquivo e A imagem tem que saltar: a igreja e o Porto no século XVI (1499-1606), de José Ferrão Afonso, publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian/Fundação para a Ciência e Tecnologia em 2014.

 

 

Publicado originalmente no blogspot em 3 de Agosto de 2016, agora revisto e aumentado.