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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Elevador dos Guindais: dissecando um desastre

15.06.19

O elevador dos Guindais, foi inaugurado a 3 de junho de 1891, teve curta vida uma vez que dois dias após ter completado o segundo ano de funcionamento sofreu um acidente sem fatalidades, o que levou a que a cidade ficasse durante muito tempo sem permitir a existência de outro qualquer transporte do mesmo género. E apesar da rapidez que os seus promotores garantiam na reparação daquele equipamento para de novo ser colocado em serviço, tal nunca veio a suceder.

 

O que abaixo se pode ler é um extrato do relatório apresentado em 1893 pela comissão nomeada pela Câmara para sindicar «da causa que motivou o sinistro ocorrido no elevador dos Guindais no dia 5 do corrente, e também para examinarmos o estado do material e indicar as precauções a tomar para o futuro». Para isso foi visitado o local do desastre, examinados o carro destruído bem como os outros dois restantes, o material da via e instalação das máquinas. Foram também inquiridos «o pessoal da exploração, maquinistas, condutores, azeitador etc. com exceção do condutor doente no hospital», para averiguar «tanto dos factos ocorridos na ocasião, como da forma como era feito ordinariamente o serviço». Para aqui transcrevo apenas os parágrafos referentes à averiguação ao acidente, uma vez que na verdade aquele elevador nunca mais foi reativado nem outros foram instalados nos diferentes locais para onde se planeavam.

 

***

«No dia do sinistro, e quando se fazia a 54ª viagem, estando o carro n.º 2 da linha principal próximo a chegar na descida ao extremo da viagem nos Guindais, e ao mesmo tempo o carro que lhe faz contrapeso próximo a chegar na saída ao extremo da sua carreira junto à casa das máquinas, o maquinista que estava de serviço e que pouco antes tinha entrado de turno, tendo notado que o mostrador, que na sua frente lhe indica a posição que os diferentes carros vão sucessivamente ocupando na linha, não estava dando indicações rigorosamente exatas, como já tinha notado na viagem imediatamente anterior (a primeira do seu turno), e que precisava de ser acertado ou corrigido, operação que os maquinistas costumam fazer ao entrar de turno, lembrou-se irrefletida e inoportunamente de o fazer com os carros em marcha, e saindo do seu lugar foi a três ou quatro passos à frente molhar a corda que da árvore da máquina transmite o movimento aos ponteiros do regulador.

 

Talvez pela precipitação com que fez este serviço, ao molhar a dita corda transmissora que estava frouxa pelo calor, impediu a transmissão do movimento, atrasando ainda mais a marcha dos ponteiros, de forma que, ao chegar ao seu lugar, o mostrador indicava-lhe que o carro n.º 2 em descida ainda estava a 6 metros da distância do extremo da carreira, isto é ainda 1 metro distante do ponto onde ele devia começar a fechar o regulador do vapor para reduzir a velocidade da máquina, e portanto dos carros, de maneira que a paragem se fizesse, como se deve e é costume, gradual e insensivelmente.

 

Não fechou pois o regulador a tempo, por errada indicação dos ponteiros, e foi disso advertido imediatamente pela paragem abrupta da máquina em resultado do choque do carro n.º 2 contra a muralha que limita na parte inferior o extremo da carreira.

 

 

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o elevador dos Guindais em funcionamento, vendo-se igualmente a casa das máquinas que o fazia mover, com a sua alta chaminé de cerca de 30 metros de altura

 

Mais contribuiu ainda para este sucesso a falta de aviso das campainhas elétricas que nesse dia estavam desarranjadas, e que de outra forma teriam automaticamente advertido o maquinista de que o carro estava próximo do extremo da carreira, pois que tocando, como deviam, a 5,5m e a 1,5m, o poriam de sobreaviso contra a falsa indicação do mostrador.

 

Não tendo pois o maquinista afrouxado a velocidade, o carro n.º 2 chocou-se contra a muralha inferior e parou abruptamente, enquanto o carro de contrapeso, animado da velocidade adquirida, ainda avançou qualquer coisa além do ponto superior onde teria de estacionar em paragem normal, produzindo assim um afrouxamento da tensão do cabo no seu extremo oposto que estava engatado por meio da tranquilha no colchete o gancho do carro n.º 2 que se chocou; e esta porção do cabo estendida sobre roletes ao longo da linha principal, em que rolava na descida o carro n.º 2, animada também da mesma velocidade, quando este foi obrigado a parar pela resistência da muralha com que se chocou, avançou além dos limites do colchete do engate que não te peça alguma que obste a tal avançamento.

 

Avançando pois a extremidade do cabo, como dissemos, ainda além do comprimento do colchete, que é relativamente pequeno, caiu ao chão, ficando assim completamente desfeito o engate.

 

Começou portanto o carro do contrapeso a descer, arrastando consigo todo o cabo estendido na linha principal e desligado na sua extremidade inferior do carro n.º 2 a que estivera engatado.

 

É talvez devido à ação em sentido contrário do peso importante desta porção do cabo com a extensão de 110 metros, que o carro de contrapeso tinha de arrastar e fazer subir no princípio da marcha, que não se disparou o freio automático, como se deveria disparar e funcionar no caso das fraturas previstas do cabo, em que uma mola em sentido contrário à sua tensão, quando completamente livre da ação dele, dispara o freio automático para que este possa atuar.

 

Tivemos ocasião de averiguar na nossa inquirição que os freios automáticos estavam suficientemente sensíveis à tensão do cabo, pois que se averiguou que algumas vezes, e mesmo ainda recentemente, eles tinham feito imobilizar os carros que estavam em andamento, quando por acaso acontecia, por manobra menos bem regulada, afrouxar-se rapidamente a velocidade da máquina.

 

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neste postal do início do século passado vê-se já a rampa do elevador ocupada por casario e hortas em socalco. A chaminé da antiga casa das máquinas também já desaparecera

 

Não atuou pois no princípio da descida do carro contrapeso o freio automático que o imobilizaria e evitaria o sinistro.

 

O condutor tinha ao seu dispor o freio de mão de que devia fazer uso, e cuja manobra facílima, que pela inquirição averiguamos saberem bem todos os condutores, e que se limita a carregar por uma só vez num braço da alavanca, o condutor, repetimos, desvairado com a eminência do perigo não a executou a tempo, limitando-se a agarrar-se ao primeiro apoio que encontrou.

 

O azeitador que estava na linha, viu passar por ele o carro, e gritou ao condutor que soltasse o freio, quando o carro ia proximamente no primeiro terço da sua carreira.

 

É possível que ele então o soltasse, mas a velocidade já devia ser tal que a fricção deste freio não era suficiente para imobilizar o carro.

 

É provável e até muito natural que, a meio da carreira, quando metade do cabo de suspensão já estava para o lado do carro que descia, então se disparasse o freio automático, por ter assim desaparecido completamente a tensão do cabo no respetivo engate; mas então é que a velocidade já devia ser vertiginosa, e este freio de grandíssima potência, firmando o carro à via, ou arrancaria esta ou se fraturaria, pois que para descidas daquela inclinação e depois de adquiridas tais velocidades, não há freios que evitem despenhar-se o carro por qualquer forma.

 

Ou os freios atuam quando a velocidade é ainda pouco superior á normal ou atuando mais tarde são inúteis.

 

Nos destroços deste carro, que despenhando-se veio amolgar-se de encontro à muralha do extremo inferior da carreira, encontramos os freios automáticos em posição indicativa de se terem disparado, como era natural que acontecesse, mas, como devia ser, tinham partidas as correntes que transmitem o movimento de rotação dos eixos das rodas ao mecanismo de aperto das chapas de fricção, inutilizando-os assim completamente para o seu funcionamento; e isto de certo se deu, como acima dissemos, por não poderem as referidas correntes resistir ao esforço correspondente a tão excecional velocidade.

 

O cabo que ligava este carro ao da linha principal encontra-se partido junto à extremidade a que estava ligada a tranquilha do engate.

 

Mas tal fratura deu-se necessariamente depois do desengate; e isto não se averiguou pela prova testemunhal, mas evidenciou-se pelos vestígios encontrados na via, resultantes de fraturas importantes dos ferros dela, em pontos onde a extremidade do cabo desarmada da tranquilha as não podia fazer, e sobretudo pela posição onde a própria tranquilha foi encontrada junto à casa das máquinas depois de ter percutido um dos carris a alguns metros abaixo, onde, amolgando-o profundamente, deixou bem impresso o seu choque anterior.

 

É para nós fora de dúvida que o cabo, em seguida ao desengate, veio subindo pela linha principal com a velocidade sucessivamente crescente do carro contrapeso a que estava ligado e que se despenhava pela outra linha.

 

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traseiras dos edifícios da casa das máquinas do antigo elevador, hoje adaptados a bem diferentes funções, vistos do local onde se encontra a estátua de Arnaldo Gama

 

 

A massa de ferro da tranquilha que tinha na extremidade, vinha batendo e fraturando as peças metálicas em que se apoia a linha e que dela fazem parte, até que, entalada a mesma tranquilha em qualquer delas que lhe fez maior resistência, e isto já muito próximo do extremo do seu curso quando a velocidade tinha atingido o seu máximo, foi o cabo sujeito a tão forte tensão que se despedaçou, indo então a tranquilha chocar-se com o carril que se encontra amolgado, para daí recochetar para o ponto junto à casa das máquinas onde foi encontrada.

 

Resumindo diremos que a causa do desastre foi complexa; e, tendo origem na irreflexão ou leviandade do maquinista em se desviar do seu posto inoportunamente para acertar o regulador, se agravou com a circunstância casual de estarem desarranjadas nesse dia as campainhas elétricas de aviso automático, e se completou com a falta duma peça, que se deve inventar para completar o sistema de engate, de forma que em casos daqueles se não possa dar o desacolchetamento da tranquilha; e finalmente não lhe poderem ser atenuados ou anulados os efeitos pela circunstância extraordinária e imprevista do desengate naquelas condições não deixar funcionar oportunamente o freio automático, como funcionaria no caso das fraturas previstas do cabo, e de nem mesmo o condutor conservar a serenidade bastante para executar a simplíssima (sic) manobra de empurrar a tempo, logo no princípio da descida, o freio de mão que tinha ao seu lado».

***

 

Este relatório não refere os feridos, com exceção feita ao condutor causador do acidente. Essas pessoas foram um passageiro do carro contrapeso que foi projetado a grande distância e uma criança cujo pai se preparava para a tirar ao colo do mesmo carro, quando este começou a sua descida desalmada rampa abaixo. A criança, tendo-se colocado debaixo de um banco, sofreu apenas ligeiras escoriações.

 

Iremos numa próxima publicação voltar ao tema do Elevador dos Guindais; para já, cabe referir que apesar de mais de uma centena de anos se terem passado (2004) o Porto tem de novo um funicular precisamente no mesmo local onde em 1893 se dera o desastre que vimos atrás. A este desejo uma futura e prospera vida, sem percalços!