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A Porta Ŋobre

Contributos para a história da cidade do Porto

Uma inovação da era pré-SMAS na fonte da 'Araújo & Sobrinho'

por Nuno Cruz, em 22.02.18

Eis uma notícia que recuperei d' O Comércio do Porto de 10 de abril de 1870 com uma pequena informação que não sendo relevante, é interessante para a história de uma fonte cuja existência terá rondado os 80 anos...

 

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«Acham-se terminadas as obras de melhoramentos na fonte do largo de S. Domingos mandadas fazer pela Exma. Câmara.
Estas obras consistiram em adaptar aquela fonte a um novo sistema, em virtude do qual a água, em vez de correr permanentemente, como até agora, está represada, fazendo-se a extracção dela, quando é precisa, por meio de umas válvulas que se abrem puxando uns botões de metal amarelo, colocados um pouco abaixo das bicas e fora dos tanques.
Para este fim foi substituído o antigo tanque, que tomava toda a largura da fonte, isto é, as duas bicas, por dous pequenos, em arco de circulo, aos cantos, por baixo de cada uma das bicas.
Estas não estão completamente estanques, deitam, porém, apenas a porção de água necessária para encher os pequenos tanques, a fim de servir quando seja necessária para os incêndios ou outro qualquer uso não proibido pelas respectivas posturas.
É a primeira fonte deste género no Porto e constitui de certo um melhoramento de grande vantagem para o abastecimento regular de um dos elementos mais indispensáveis à vida.
A transformação das fontes da cidade segundo o novo sistema parece ser o que asseguraria uma regularidade a todos os habitantes.
Com efeito é como tentativa para esse fim, segundo nos informam, que a Exma. Câmara mandou proceder à inovação que noticiamos.
Oxalá que esta produza os resultados que se tiveram em vista, e os quais se tornem a mais persuasiva prova da vantagem de a adaptar geralmente.
Como tudo que tem o sabor da novidade atrai os curiosos, a fonte de que nos ocupamos, com as alterações que se fizeram, tem sido o ponto de reunião de um não pequeno número deles, a verem como funciona o novo sistema.
Os aguadeiros é que, totalmente alheios à combinação dele, dão ao démo a engenhoca, atribuindo aos defeitos do sistema o que apenas é efeito do desajeitado modo de se servirem dele.»

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fontedomingos.jpg

 i1 - A fonte na obra Contribuição para a higiene do Porto, de 1908. O rapaz em pé ao centro está encostado à porta de entrada para a arca da água. 

 

Esteve esta fonte embutida no prédio hoje ocupado pelo hotel A.S. 1829, na montra com moldura trabalhada em cantaria, adorno da própria fonte. Dela resta apenas o brasão da cidade, colocado à entrada do jardim do Edifício do SMAS.

 

Um curioso apontamento colhe-se na obra referida na legenda da imagem. Com efeito, o cano para esta fonte «marcha na rua das Flores e no lado poente da rua de S. Domingos até atingir uma pequena pia de pedra da qual a água caí para um grande reservatório também de pedra, que alimenta as duas bicas (... ) uma das mais caras e elegantes da cidade; notamos-lhe de particular também a existência de dous puxadores semelhantes aos de certas campainhas de portais (...) e destinados a levantar uma válvula obturadora do orifício posterior da bica e a evitar que na estiagem a água corra constantemente»; ou seja, a modernização que a notícia do jornal refere.

fonteas1829.jpg

i2 - Nesta imagem podemos ver o local onde esteve a fonte, com a sua moldura ainda embutida no edifício da antiga papelaria Araújo e Sobrinho, atualmente ocupado pelo hotel AS 1829 (foto do autor).

 

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Originalmente publicada no blogspot em 17 de janeiro de 2010, agora revista e aumentada.

Em 20.03.2018 foi alterada a imagem i2.