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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

O 'mogno do Laranjal' e outras memórias

por Nuno Cruz, em 13.03.18

A ideia para esta publicação surgiu após me deparar com memórias dos anciãos de 1946, quando folhava casualmente um volume d' O Tripeiro. A reboque da imagem que abaixo se apresenta, vários portuenses da época recordavam com saudade aquele largo do Laranjal, tão próximo de um outro topónimo já desaparecido de sonoridade romântica, a Cancela Velha. Decidi contudo levar mais longe esta retrospectiva e aproveitando que o local chegou a ser fotografado rodeado de edifícios que nos são familiares, recupero aqui várias imagens antigas, ensaiando o seu enquadramento com a atualidade.

 

chlaranj1.png

Img.1 Legenda: a > rua de D. Pedro IV (rua de Elias Garcia após o advento da república); bb > direção por onde corria a rua do Laranjal (que passava por trás da casa em primeiro plano); c > entrada da viela do Cirne; d > rua Adriano Machado (que até ao fim permaneceu sem saída); o círculo vermelho mostra-nos as casas da rua do Bonjardim ainda existentes (ver imagem abaixo).

 

Excertos do comentário de R. Machado:

«Trata-se do largo do Laranjal e característico tanque-chafariz, muito perto da Cancela Velha e da antiga rua de D. Pedro, O pequeno largo, quasi quadrado, atravessado (ou ladeado) pela rua do Laranjal, a então conhecida e movimentada rua das alquilarias e cocheiras, entre as quais as do Zé Galiza, ficava situado próximo da actual Praça do Município ... no cimo da Avenida dos Aliados, em frente do monumental edifício dos novos Passos do Concelho.

Da água potável do chafariz abasteciam-se os moradores do populoso local, e o tanque cilíndrico continha a água que dessedentava o gado cavalar e servia, também, para lavagem dos trens, tipóias e carroças que, muitas vezes, pejavam a pequena praça e ruas próximas.

Na gravura vêm-se as frontarias, ao fundo, dos prédios, ainda existentes, da rua do Bonjardim, com frente para o quarteirão onde actualmente se projecta a construção do grande edifício dos Correios, integrado no plano de urbanização que, recentemente, foi tão discutido na imprensa diária portuense.»

 

bonjardimformosa.jpg

Img.2 Esta foto atual mostra-nos o entroncamento da rua do Bonjardim (1) com a rua Formosa (2) e a rua Guilherme Costa Carvalho. A rua da Cancela Velha correria a partir dos edifícios assinalados com o círculo vermelho (a) - os mesmos da Img.1 - para diante, isto é, acompanhando a entrada das traseiras do Palácio dos Correios, onde se encontram alguns veículos estacionados.

 

Excertos do comentário de João Moreira da Silva:

«Ainda estou a ver o velho José Galiza, alquilador, com as suíças grisalhas e com os seus carros e carroças, a mandar o seu pessoal lavar os rodados.

Ao lado, quasi em frente, havia umas oficinas de louzeiros (sic) e ao fundo os fabricantes de cadeiras e outras mobílias de madeira de pinho, que, no engraçado dizer do saudoso Guedes de Oliveira, era mogno do laranjal!!! - e mais ao fundo a velha cervejaria Bastos, que nas noites calmosas, oferecia aos seus frequentadores cerveja de pipa, muito fresca.»

 

plantal.jpeg

Img.3 Perdoará o leitor esta montagem muito rústica que fiz de duas folhas da planta de Teles Ferreira, mas com ela pretendo apresentar, melhor contextualizada, a área de que falamos. O circulo vermelho representa as casas da rua do Bonjardim que surgem nas fotos acima, e o azul o largo do Laranjal com o seu chafariz. As letras representam: a* - rua do Laranjal, b* - viela do Cirne, c* - rua de Adriano Machado, d - rua do Bonjardim, e* - rua da Cancela Velha, f* - rua de D. Pedro (depois Elias Garcia), g - rua Formosa, h - rua do Almada (as ruas assinaladas com asterisco já não existem).

 

Excertos do comentário de F.M.N.J.:

«Em um dos prédios do referido largo [do Laranjal] estavam instalados os conhecidos armazéns de vinhos Morêda. E nos altos do mesmo prédio foi a sede durante bastantes anos do célebre e muito recordado ginásio Paul Lauret... Vê-se na gravura, no primeiro plano depois do chafariz, a rua do Laranjal, mais acima, do lado esquerdo e ao fundo a rua do Bonjardim. Na casa que faz esquina para a rua Adriano Machado, em que se vêm os toldos descidos, eram os escritórios da velha companhia do Gás, e na casa mais alta que se vê na rua do Bonjardim e que também tem os toldos descidos, era a farmácia Rica, propriedade do saudoso poeta Maximiano Rica.

Em época muito mais recuada e quasi em frente á rua de D. Pedro existiu um teatro que desapareceu, parece destruído por um incêndio. O nome do teatro não me recordo (...) Isto vai talvez há mais de 65 anos!... Muito mais tarde começaram a construir, mais para o lado da rua do Bonjardim, um novo teatro de grandes proporções, mas não chegou a concluir-se e depois foi demolido para a abertura da rua de Adriano Machado - abertura é como quem diz, pois a rua era .. tapado, um autêntico beco sem saída...»

glanraj.jpg

Img.4 Com a ajuda do googlemaps podemos ver uma imagem aérea, bem reconhecível, que nos mostra as casas da rua do Bonjardim com o circulo vermelho e o local onde esteve o largo do Laranjal (aprox.) com o circulo azul. A linha branca é uma hipótese, creio que bastante fiável, da orientação da rua da Cancela Velha. Curiosamente, funcionárias de um consultório que frequentei nos anos 80 e 90 na rua Guilherme Costa Carvalho ainda se referiam àquela zona como a Cancela Velha!

 

Excertos do comentário de V. Alves Moreira:

«Lembro-me muito bem que era nesse largo que existia a afamada casa de vinhos e destilações "O Alambique" (fundada em 1860), bem como o alquilador José Galiza, que no mesmo largo fazia, diariamente, grande estendal de cavalos, muares, carros e carroças; e ainda o Café Primavera, com um pequeno palco, música e bailarinas.

A casa de três andares que se vê na gravura, do lado direito, ao cimo da calçada, creio que era a que fazia esquina para a rua de D. Pedro IV, desaparecida na mesma época em que foram demolidos os prédios das ruas dos Lavadouros, Laranjal, e Viela do Cirne, passeios favoritos da rapaziada de então e as de Adriano Machado e Cancela Velha.»

 

Outras memórias avulsas se colhe, por exemplo o Sr. J. Gonçalves: «Aquele chafariz estava situado no centro dum terreno que marginava a rua do Laranjal e em frente à rampa da Cancela Velha. Ao fundo havia um bom prédio, onde estava instalado "O Alambique", armazém de vinhos que ainda hoje existe. Dos prédios contíguos, da parte de cima, saia um cheiro terrível a amoníaco e outras perfumarias das grandes lojas iluminadas a candeias de petróleo e habitadas pelas chamadas mulas do Galiza. Ou a de Augusto Coelho Pereira de Araújo, que refere: «A fonte, antes de transformada em chafariz, existiu mais abaixo, constando de uma fonte rasa, para a qual se descia por degraus abertos no pavimento da rua, a qual era conhecida pela fonte do Olho do c., e para que o povo perdesse o hábito do chamadoiro, a Câmara mudou-a para o local agora mostrado na gravura, transformando-a num artístico chafariz».

 

Várias outras memórias pessoais e institucionais poderia aqui referir. Por ora deixo-vos com estes preciosos apontamentos e imagens ilustrativas, com a promessa porém, que volveremos a estas paragens. Quase finalizo com uma outra imagem muito semelhante à primeira, que nos mostra com mais pormenor o chafariz do Laranjal.

chlaranj2.png

Img.5 Neste chafariz, que se encontra atualmente na praça da Trindade, foram reutilizadas algumas pedras lavradas do medieval chafariz do largo de S. Domingos, que havia sido de lá removido em 1845 (notar o interessante pormenor do lajeado de granito em volta do tanque). Igualmente se vê, ainda melhor do que na Img.1, a entrada do trecho superior da rua do Laranjal que ia sair à praça da Trindade junto ao palacete do Ferreirinha.

 

E também com uma série de imagens que documentam as demolições das casas e ruas associados à área da Cancela Velha. Tivessem outras transformações urbanísticas tido pelo menos a sorte de ficarem documentadas desta forma...

 

C2.jpg

Nesta primeira foto podemos ver o traçado da rua da Cancela Velha (A) e algumas casas que tinham frente para ela. À direita, o edifício dos Paços do Concelho. Notar a diferença de cota (F) que o Palácio dos Correios obliterou.

 

C1.jpg

Esta segunda imagem precede no tempo a anterior, pois o prédio que ainda se encontra completo quase na extremidade direita desta já não existia naquela. Notar que ainda mais à direita desse prédio temos um outro quase totalmente demolido, que fazia gaveto para a rua de D. Pedro/Elias Garcia.

 

C3.jpg

E aqui vemos melhor o que restava ainda do traçado da rua da Cancela Velha, com as casas da rua do Bonjardim ao fundo (lembram-se da primeira foto desta publicação?). As casas viradas para o fotógrafo seriam, creio, da rua/beco Adriano Machado.

 

C4.jpg

E agora o fotógrafo subiu o que restava da rua da Cancela Velha e foi registar, para memória futura, uma vista olhando para a Avenida dos Aliados ao fundo, com as traseiras das casas da rua do Almada ainda mais ao fundo. O circulo azul representa a área do antigo largo do Laranjal. A letra B à direita a entrada da rua do Bonjardim. Atrás do fotógrafo está a rua Formosa. Como vemos este local fazia um pequeno largo, talvez fruto dos alinhamentos polémicos que a Câmara fez em 1874 para beneficiar a Companhia Carris de Ferro do Porto...

 

C5.jpg

Tirada do edifício dos Paços do Concelho, nesta interessante imagem mais recente do que as anteriores, a rua da Cancela Velha fora já suprimida; para a simbolizar assinalei o seu percurso com o traço branco. E lá estão, quase omnipresentes, as casas da rua do Bonjardim que nos tem servido de farol (circulo vermelho). A cota já foi muito rebaixada para dar lugar à execução do projeto do Palácio dos Correios.

 

C6.jpg

Esta fotografia é muito, muito interessante. Vemos nela: C a rua/beco Adriano Machado, D casas do lado nascente da rua de D. Pedro/Elias Garcia e o E são já os belíssimos edifícios da Avenida dos Aliados no seu alinhamento atual. Em primeiro plano está a construção dos Paços do Concelho (traseiras viradas para a Praça da Trindade).

C7.jpg

Para finalizar, uma foto que será a mais recente do lote. O H é a praça do Município/General Humberto Delgado, A a rua da Cancela Velha (ou o que resta dela...), G a nova rua de Rodrigues Sampaio e F o inicio do passeio nascente da Avenida dos Aliados, ainda sem o edifício do gaveto. Esta imagem é, das antigas, talvez a que melhor mostre a um portuense de hoje onde ficava a Cancela Velha e o largo do Laranjal.

 

Henrique Duarte Sousa Reis dizia sobre a rua da Cancela Velha: «É possível, que alguma cancela velha, que por aquele sítio houvesse para vedar o terreno particular desse ao povo o direito de assim chamar a esta rua, que sem dúvida conservará por séculos.» Como estava enganado! Não chegou a completar o segundo!

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Bibliografia: O Tripeiro, Vol. 1 da 5.ª Série. Imagens do arquivo Arquivo Municipal do Porto e de Domingos Alvão (as que apresentam a marca de água).