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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Uma foto que nos mostra mais do que parece...

11.10.19

Esta fotografia foi, provavelmente, tirada nos primeiros anos da década de 60 do século XIX. Embora a paisagem nos pareça a um primeiro olhar idêntica à de hoje, na verdade ela apresenta enormes diferenças em relação à cidade atual. O centro histórico que temos na nossa frente é (quase) ainda aquele que recebemos dos finais do século XVIII. No entanto, a partir dos meados do século XIX, a cidade velha entraria numa roda viva de transformações que em boa verdade só terminaria nos meados do século seguinte. Por tudo isso, esta imagem, mostra a um olhar um pouco mais atento, algumas vislumbres do passado edificado que já não volta. Eis as diferenças, mais notórias, para a atualidade:

 

02.jpg

 

Vê-se, em primeiro plano, a Casa do Infante (n.º2), que na altura ainda desempenhava funções alfandegarias. Observando-a, constatamos que o seu edifício se encontra em plena remodelação, sendo visíveis os fortes esteios que o sustentam; por onde se haviam de mover, mais de cem anos depois, todos os que pretendam explorar o manancial de documentação histórica que o arquivo da Câmara possuí.[1] Foi para esta empreitada que foi demolida a casa que fazia gaveto entre as ruas da Alfândega e da Fonte Taurina, onde uma bonita janela manuelina se mostrava a todos os que a quisessem ver. Felizmente preservada, esta janela encontra-se hoje depositada na Quinta da Aveleda, em Penafiel.

 

Ao cimo da rua do Infante, se a fotografia fosse posterior a 1896, veríamos, imponente, a estátua de D. Henrique e por trás dela o Mercado Ferreira Borges... mas aqui o que vemos? Vemos a fachada de um edifício! (n.º1) É que, nesta época, ainda existiam edifícios desde a esquina da Rua Ferreira Borges (onde agora se encontra a entrada do parque de estacionamento) até às Congostas (sensivelmente onde começa a Rua Mouzinho da Silveira); é a fachada de um desses edifícios, portanto, que ali vemos.

 

Screenshot_1.jpg

Excerto com os pormenores referidos no texto

 

Como nota de passagem, repare-se que esta fotografia deverá ter sido tirada no inverno, pelo menos é o que denuncia as árvores sem folhas da Bateria da Vitória (n.º4), que surgem bem verdejantes em outras imagens contemporâneas. Mas prosseguindo:

 

Atrás das casas mencionadas no número 1, embora não visível, o que por ali existia era um monte semiabandonado, que fora horta do convento de S. Domingos. Apenas em 1883 o local foi completamente terraplanado para dar lugar ao espaço público que todos hoje conhecemos como Praça do Infante D. Henrique[2].

 

Ainda mais atrás, já um pouco esbatido mas visível, apresenta-se-nos o topo da parede sul do dormitório abandonado e calcinado do antigo mosteiro de S. Domingos (n.º3), que ali esteve em pardieiro mais de 30 anos, como relíquia de um passado fradesco que não volta mais!

 

Para finalizar, dois outros pormenores me saltam à vista: o primeiro, é o arco embutido na muralha, junto à lingueta de carga e descarga (n.º5). Não sendo medieval, não deixa ainda assim de suscitar curiosidade quanto à época em que foi rasgado; o que presumo tenha ocorrido durante o século XVII.[3] Certo é que, com o altear do cais no final de oitocentos, uma nova porta foi aberta naquele local, aliás à semelhança de uma outra que já existia a seu lado. Para memória futura ficou-nos esta imagem bem como, aos que aquele sítio visitarem, algumas aduelas do arco original, ainda visíveis à altura dos nossos joelhos.

 

O último pormenor vai para a singela capela da Senhora do Ó, que ainda não apresentava o nicho que atualmente encima a sua entrada.

 

Na imagem vê-se igualmente, atrás do vapor, um inestético barracão que ocupava grande parte do cais. Esse barracão era parte integrante da alfândega e por ali acampou uns bons anos, tendo-o as autoridades finalmente removido em meados dos anos setenta do século XIX. Isto depois de, quer nos jornais quer na Câmara, choverem protestos dos moradores das casas contíguas por causa dos cheiros - por exemplo, de víveres podres - e animais que para ele eram atraídos, cujos dejetos pejavam o local.

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1 - pela minha parte, vão já para cima de muitas as horas em que por ali me perdi em busca de informação; à custa disso tropeçando em muitas mais!

2 - Ou melhor, daquela que ali existiu até se ter esventrado a terra para ali empilhar automóveis. O arranjo atual é, em minha opinião, uma versão muito pobre da praça original. Neste caso, me desculpem, andamos para trás ao querer andar para a frente.

3 - Atenção: este informe é só e apenas isso, uma presunção.

 

 


§ Originalmente publicado no blogspot em 04-08-2011