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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

O edifício do cunhal do largo dos Loios com a rua de Trás

30.06.19

Hoje no largo dos Loios praticamente todas as habitações ali existentes encontram-se recuperadas apresentando um aspeto exterior novo e fresco que desejo que se mantenha; um deles é o bonito edifício de habitação oitocentista existente à entrada da rua de Trás. Nos arquivos da Câmara Municipal do Porto está ainda em depósito o seu "risco", elaborado por Teodoro de Sousa Maldonado, o primeiro Arquiteto da Cidade[1]. Na i1, trata-se do edifício atrás do obelisco - ali erguido aquando das comemorações henriquinas de 1894 - com os seus arcos já fechados e convertidos em loja de venda a retalho.

 

obel.png

i1

 

Mais abaixo, a i2 é a planta de Maldonado. É curioso notar que embora na planta não surja qualquer data, a sua ficha apresenta a de 9 de Outubro de 1799, talvez a data de aprovação. Assim sendo, esta terá sido porventura uma das derradeiras plantas executadas por Maldonado, pois que elaborada no ano da sua morte.

 

 

mald.png

i2

 

Na realidade o edifício não foi construído conforme o projeto, sendo bem notórias algumas diferenças ao nível do número de arcos, da ornamentação do segundo andar e do próprio telhado. Também a arcaria de elevado pé direito existente no rés-do-chão fora idealizada para que aí se pudesse fazer a venda de pescado que vinha das localidades de Vila do Conde, Matosinhos e São João da Foz; estando prevista nos planos da Junta das Obras Públicas. Se realmente esse mercado foi ali instalado não o sei (quem sabe algum meu leitor mais informado me possa elucidar?).

 

E se o edifício ficou com apenas quatro arcos na fachada que caí para o largo dos Loios, na verdade o quinto arco chegou a ser erguido. Isto se vê por uma planta que acompanha um pedido de abril de 1862 do proprietário da casa que lhe fica adjacente; que pretendendo reedificar a sua arruinada propriedade, desejava demolir esse arco englobando o espaço por ele ocupado no edifício a construir. O documento refere: «como esta antiga fachada não foi concluída no todo, parece que metendo a pilastra na letra B [i, é, aproveita-la para a sua propriedade] fica em harmonia simétrica a propriedade BC [a casa que estamos a estudar], o que era de muita utilidade ao suplicante o meter duas portas regulares» (ver i3).

 

oera.jpg

i3

 

Em resposta, os técnicos da câmara Joaquim da Costa Lima Junior, José Luís Nogueira e António Lopes Ferreira, declararam ser tolerável aquela intervenção pois «a fachada geral é igualmente regular com quatro ou cinco arcadas». Deduzo contudo que, como os arquitetos da câmara alertavam para que a manutenção da fachada ocorresse «muito preciso será para a regularidade da fatura do prospeto estabelecer uniformidade nos níveis de travejamento [os sobrados] entre a antiga e a nova edificação, por evitar nesta parte a desunião e anomalia que a nova planta oferece». Pela observação do que ali se encontra edificado, constata-se que o pedido do suplicante terá sido atendido. Com a eliminação do quinto arco ficou para sempre anulada a conclusão do edifício na forma que havia sido idealizado.

 

act.jpg

i4 o edifício em 2014, com uma ajudinha do Google Maps

 

 

1 - Nascido no Porto em 1759, formou-se em matemática na Universidade de Coimbra e exerceu o cargo de arquiteto na edilidade portuense de 1789 a 1799, ano da sua morte. O seu legado, além das plantas mais técnicas, consiste sobretudo numa bonita vista do Porto executada em 1789 bem como a da barra do Douro que nos apresenta também a (ainda) vila da Foz.

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Publicado originalmente no blogspot em 09.01.2016 e agora revista.

O lago no largo dos Loios

21.07.17

Quem diria que já existiu um pequeno lago no Largo dos Loios? Pois foi o que descobri lendo respostas a uma pergunta colocada num volume da 3.ª série da revista O Tripeiro, n.º 7 (127) de 1 de Abril de 1926:

 

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1) «Existiu, na verdade, há muitos anos, mas por pouco tempo, um pequeno lago no meio do Largo dos Lóios. Era circular, quase com o dobro do diâmetro do refúgio que, a circundar a base do poste da iluminação eléctrica, que hoje lá se encontra, e apenas tinha a resguardá-lo, sem qualquer relvado, uma grade igual à que cerca o lago do jardim da Cordoaria. Da parte de cima, o rebordo do lago ficava ao nível do pavimento, mas, do lado oposto, como o largo forma declive, tinha uma altura tão grande e de tão péssimo efeito, que principiaram a chamar-lhe o Alguidar dos Lóios, e certo é que... com a mesma rapidez que foi feito, assim foi desfeito. Suponho que não deixou saudades a ninguém!» (Alberto Augusto Guedes Vaz)

 

2) «O tal lago dos Loios desapareceu sobre as ondas da gargalhada e do ridículo. Foi mandado construir pelo antigo presidente da Câmara Municipal do Porto, Lima Junior, falecido há poucos anos. Era de dimensões tão pequenas, e tão mau efeito produzia naquele local, que o povo o alcunhou logo de nomes feios. E a troça foi tal que fizeram desaparecer em curto prazo. Dizia-se que o bom do Lima Junior, mandando construir ali o pequeno lago o fizera a pedido dum amigo íntimo dele, que no largo tinha um estabelecimento comercial. O nome deste amigo não vem para o caso». (Careca)

 

largoloios.jpg

 O largo dos Loios na atualidade (imagem wikimedia)

 

3) «Aí por 1888 ou princípio de 1889, a Câmara do Porto teve a desastrada lembrança de pretender embelezar o Largo dos Loios com um lago. A ideia foi a mais infeliz possível, porque a sua execução só serviu para provocar as censuras mais acerbas, o riso escarninho dos transeuntes e as vaias e dichotes do rapazio. "Bidet dos Loios" foi o nome porque desde logo foi designada a deplorável obra de arte, que os animais, na sua passagem, utilizavam como bebedouro. Não tardou que o lago aparecesse povoado por grande quantidade de rãs, cujo coaxar era uma uma grasnada insuportável, que não podia tolerar-se no centro de uma cidade, como a nossa, especialmente. Caíu no mais profundo ridículo, mas, ainda assim, teve alguns meses de duração; um dia porém, ao anoitecer, apareceram cercando o lago, grande quantidade de operários, com ferramentas, o que deu a certeza que o seu fim tinha chegado; efetivamente, quando no dia seguinte abriram os estabelecimentos, os operários assentavam as últimas pedras do pavimento; o lago tinha desaparecido». (Tripeiro Adotivo)

 

 

Num outro registo, no número anterior a este surge:

4) «(...) Diziam que era utilizado pelos moradores para demolhar o bacalhau das sextas-feiras. Outros aventavam ser bacia para lavar os pés dos vereadores que perto moravam (...). Não era lago, era um lagozinho, inferior em diâmetro a um dos actuais refúgios da Praça da Liberdade (..)»

in O Tripeiro de Abril de 1926

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Enfim, parece ter sido uma obra de embelezamento(?!) de vida efémera, que realmente não terá deixado saudades a ninguém e onde a câmara gastou por duas vezes dinheiro público: a fazê-lo e a fazê-lo... desaparecer!

 

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Nota: Publicado originalmente em 24/OUT/2009 no blogspot. Aumentado em 14.05.2019