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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Sobre a livraria Lello & Irmão

por Nuno Cruz, em 17.06.18

O texto que abaixo transcrevo foi publicado no jornal O Porto[1] de 4 de julho de 1911. Trata-se de uma resenha histórica sobre a origem da formosa livraria Lello & Irmão. No jornal, por baixo de uma fotografia da fachada que tão bem conhecemos deste estabelecimento estão, em destaque, as palavras com as quais inicio a transcrição.

 

*

«LIVRARIA CHARDRON - Rua das Carmelitas - FIRMA LELLO & IRMÃO

Aí por 1868 estavam em princípio de decadência as duas mais importantes livrarias do Porto: a do Moré, na esquina da Praça de D. Pedro, e a do Podestá, aonde se acha agora o café Chaves[2].

 

Estacionavam perante o progresso, sem coragem para divulgarem entre o povo a leitura variada e barata, que então inundava a França, pelas penas de Montepin, Kock e Ponson de Terrail.

 

Alguns destes livros, publicados em folhetins nos jornais daqui e do Rio de Janeiro, despertavam a cobiça da burguesia, que almejava te-los sobre a cómoda, para os ler devagar, nas noites de inverno, ou nas tardes calmosas, sem esperar pelo continua do dia seguinte.

 

Ernesto Chardron, que viera de França, para a primeira daquelas livrarias, conhecendo o desejo do público e a negação da casa, que servia para essa iniciativa, abalançou-se a deixa-la e a estabelecer-se, por sua conta, a fim de tentar a experiência.

 

Fê-lo, e logo desde o princípio viu desenvolver-se o consumo das suas edições, e aplaudida a escolha da literatura, que lançara no mercado.

 

Desde então, a maior parte dos autores portugueses trabalharam para ele: traduziam; ele negociava os manuscritos, e o Teixeira, da Cancela Velha, imprimia tudo.

 

Não havia, ali, uma hora de descanso.

 

Como iniciara a publicação às cadernetas, todas as semanas, aquela casa era um verdadeiro armazém a contar, a empacotar, a expedir, a escriturar e a guardar dinheiro!

 

Atrás da literatura ligeira, importada da França, veio outra mais suculenta e séria, como as obras de Camilo, o Dicionário de Fr. Domingos, e depois Eça, a literatura religiosa, Teófilo Braga e outros, uma interminável lista, que abrange todos os nomes mais evidentes da literatura do segundo quartel do século XIX.

 

Por esse motivo, tornou-se aquela livraria, às tardes, o centro de conversa de todos esses autores, os que viviam nesta cidade, e os que, por aqui, passavam, a espairecerem, ou a tratarem de negócios.

 

Um dia saturou-se o mercado dessa literatura de tradução barata, que cansara o Chardron, resolvendo por isso, abandonar as obras de fancaria e dedicar-se, apenas, às de mérito.

 

A saúde também se lhe abalara, e tão intensamente que a vida se lhe escoou, ainda no vigor da idade[3].

 

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Fachada da livraria Lello & Irmão antes do restauro de 2016 (imagem Wikimedia Commons).

 

Passou, por isso, a casa à firma Lugan & Genelioux, que, pouco tempo depois, a transmitiu aos atuais proprietários, a respeitável firma Lello & Irmão[4].

 

O negócio tinha, nessa data, um fundo respeitável, de obras próprias, adquiridas; os novos proprietários aspiravam a concentrar em si o mercado editorial, estendendo ao Brasil a sua ação, para o que resolveram construir um prédio novo e apropriado, nas Carmelitas, especialmente adaptável a esse género de indústria.

 

Levantou-se, para esse fim, a elegante construção, representada na nossa gravura, e cujas instalações internas são dignas de ser visitadas, pois é um dos poucos prédios do Porto, propositadamente instalado para o fim a que se dedicou[5].

 

Entramos ali, e logo sentimos a impressão de estarmos numa casa, que conhece minuciosamente o artigo do seu comércio, e não num armazém de livros, em que tudo se amontoe péle méle sem critério, sem ordem e sem gosto.

 

Conhecem-a nacionais e estrangeiros; ali se encontra ou fornece tudo o que se procurar, com a vantagem de se colherem esclarecimentos prontos e exatos do que quisermos, - um requisito apreciável para quem dispõem de pouco tempo e, às vezes, deseja informações rápidas.

 

Apesar de estarmos quasi em frente, um do outro, não tomem os Srs. Lellos estas palavras, como lisonja de quem deseja ser bem visto pelos vizinhos; são expressões sinceras, de homenagem ao trabalho, à honestidade e ao mérito.[6]»

*

 

Hoje um ícone do Porto, esta livraria é um local de visita incontornável dos roteiros turísticos, sendo visitada por milhares de pessoas todos os anos. Igualmente merece que o portuense com o gosto pela história da sua cidade a visite e comprove que o seu interior é tão agradável à vista e digno de menção como a sua bonita fachada.

 

______

1 - Este jornal, que se definia como monárquico e extra-partidário, existiu entre dezembro de 1909 e o mesmo mês de 1911. Foi seu fundador e proprietário o Visconde de Sousa Soares e diretor Henrique Batista, capitão de Infantaria n.º 18. Era «excelentemente redigido e magnificamente impresso ... com larga informação, abundância de gravuras de acontecimentos, retratos de homens do dia, etc., e com interessantes e bem colaboradas secções» (Alberto Bessa in O Tripeiro, Série IV, p. 138).

2 - A primeira na esquina do Largo dos Lóios e a segunda no gaveto da rua do Laranjal com a rua de D. Pedro, um pouco acima do local onde agora podemos ver, na Avenida dos Aliados, a estátua da menina nua.

3 - Faleceu com 45 anos.

4 - Dos irmãos José e António Lelo.

5 - Foi no dia 13 de janeiro de 1906 que a livraria Chardron, inaugurou a sua nova casa na rua das Carmelitas. Presentes estiveram, entre muitos outros: Guerra Junqueiro, Afonso Costa, Duarte Leite, Abel Botelho, João Grave, João Arroio, Bento Carqueja, Júlio Brandão, Rocha Peixoto, Marques de Abreu, José Leite de Vasconcelos, Aires de Carvalho, Germano Martins, Bartolomeu Severino, Justino de Montalvão, Adriano Pimenta, Graça e Cruz, Sá de Albergaria, Xavier Esteves, M. Lugan, etc. O edifício foi construído em estilo neogótico inglês, projetado por Xavier Esteves e conta também com pinturas de José Bielman e medalhões em baixo relevo de Romão Júnior (O Tripeiro, Série V, n.º Ano XI, p. 284).

6 - Ainda segundo Alberto Bessa, os seus escritórios e oficinas situava-se « na Galeria de Paris, às Carmelitas, e na então rua da Rainha D.ª Amélia» e eram «das mais luxuosas e elegantes, não tendo havido até aí empresa jornalística alguma que se avantajasse».