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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Viagem a um Porto de outro tempo .8

por Nuno V. Cruz, em 16.08.18

Com esta oitava publicação termino a transcrição dos excertos do livrinho de Manuel Pinheiro Chagas sobre a viagem que este, ainda jovem, fez ao Porto em 1865. O livro tem mais, bem mais... Agora que os meus caros leitores o ficaram a conhecer talvez se sintam motivados para o encontrar, ainda que não seja fácil dado ser uma raridade e quase esquecido[1].

 

 

*

O droguista da Praça Nova

« (...)

Quem há que, não vindo ao Porto, não procure logo o túmulo de Soares de Passos, para ir meditar junto da pedra, que cobre o cadáver de um dos maiores poetas portugueses?

 

Não seria eu decerto quem deixasse de cumprir tão piedosa romaria. Para mim Soares de Passos é mais do que um talento, é um coração. Junto da loisa não esperava respirar unicamente eflúvios de glória, mas também de afeto. Se génios como o seu, são vencedores da morte, coração como o dele

 

a tumba fria
É pequena demais para conte-los.

 

Fui. Lembro-me que estava uma tarde linda e melancólica, uma tarde, como ele as desejaria. O sol, mergulhando-se já no extremo do horizonte, afogueava as nuvens em pudibundo rubor. Os campos exalavam essas vagas harmonias do crepúsculo. (...)

 

Lembro-me também que lá ao longe, ao longe, havia uma janela, cujos vidros o sol incendiava teimosamente, entre-mostrando-ma cintilante, esplêndida, e obrigando-me a distingui-la das suas irmãs, que o acaso mergulhava nas sombras crescentes da noite. O astro moribundo ainda irradiava luz bastante para tirar do nada o objeto, onde poisava um raio, e quando a sua área coroa se desfizesse nas ondas, ainda esses pobres vidros, prediletos do seu derradeiro capricho, haviam de conservar o reflexo do seu esplendor, e lutar com as trevas invasoras.

 

E o génio é o sol. Ao sumir-se no ocaso ilumina com um dos seus raios a pedra lisa, sob a qual se oculta, e a humilde campa prende durante séculos a atenção de quem pára um instante a ler o nome nela inscrito.

 

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i1 Entrada do cemitério da Lapa na atualidade. Na placa de mármore existente na padieira do portal podem ser lidos uns versos que vejo atribuído a Soares de Passos, mas que não consegui confirmar de fonte segura. São estes: Eis ossos carcomidos, cinzas frias, / Em que param da vida os breves dias, / Mortal se quanto vês te não abala / Ouve a tremenda voz que assim te fala, / Lembra-te homem que és pó, e que dest'arte / Em pó, ou cedo ou tarde, hás-de tornar-te.

 

 

Chegávamos ao cemitério da Lapa. A noite aproximava-se rapidamente, e era necessário descobrirmos a todo o custo o túmulo do grande poeta. Principiamos a exploração.

 

Subimos ao cemitério de cima, e percorremo-lo em todos os sentidos. O acaso, que muitas vezes se obstina maliciosamente em desviar-nos os olhos do objeto que procuramos, e que logo nos devia dar na vista, frustrou-nos as tentativas.

 

Descemos desalentados. Conversavam dois sujeitos bem trajados, com o coveiro; iluminou-me um raio de esperança.

 

Aproximei-me, e disse, dirigindo-me ao que me parecia mais capaz de me dar a indicação desejada:

 

- Desculpe-me incomoda-lo. Não me poderá dizer onde é aqui o túmulo de Soares de Passos? 

- Soares... de... Passos - respondeu-me o sujeito cortesmente, levando aos lábios o dedo indicador em atitude pensadora - esse nome não me é inteiramente desconhecido.

 

- Ah! - tornei eu - não lhe é... completamente desconhecido? 

- Não senhor... mas não me recordo bem. Ele o que era?

 

Confesso que esta pergunta atrapalhou-me. Efetivamente o que seria Soares de Passos? O autor do 'Firmamento'? É verdade, mas o homem, se eu lhe dissesse isto, punha as mãos nas ilhargas e desatava a rir como um perdido. Ora eu não queria por em risco a gravidade de quem me atendia tão obsequiosamente. Dei tratos à imaginação. Quem era Soares de Passos? Eis a frase que me zunia nos ouvidos, e me perseguia despiedosamente. Oh! se ele tivesse sido regedor! Cabo de polícia ao menos! Sacristão! Andador das almas! Nada! Nada fora, nem mesmo barão.

 

E eu estava ali diante do homem, boquiaberto, aterrado, fulminado. Erguia os olhos ao céu, tossia, engulia em seco, e não dizia palavra. O sujeito principiava a fitar em mim um olhar desconfiado. Era forçoso decidir-me. Não havia remédio. Armei-me de energia, e aventurei-me a dizer, com os olhos baixos:

 

- Era... poeta!

 

O sujeito olhou para mim com espanto. Encolhi-me todo. O que me iria ele responder? Prender-me-ia por suspeito? Acharia plausível a razão que eu dava para percorrer todo o cemitério, à procura de uma pedra tumular?

 

- Poeta! - repetiu ele - mais nada? 

- Mais nada! - respondi com voz quase sumida.

 

Bebera até às fezes o cálice da humilhação. Só um baronato me poderia reabilitar no conceito daquele honrado homem.

 

- Eu contudo - acrescentou o meu interlocutor - lembro-me de ter visto esse nome. Parece-me que o túmulo está cá em cima.

 

E dirigiu-se para as escadas. Seguiu-o.

 

Efetivamente, apenas deu dous[2] passos, encontrou-o logo. Chamou-me, indicou-mo, e retirou-se depois de ter correspondido friamente à profunda cortesia que lhe fiz em sinal de agradecimento.

 

 

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i2 Também eu andei uns bons 15 minutos procurando o túmulo do poeta, tal como Manuel Pinheiro Chagas há 153 anos (e nem o funcionário do cemitério me soube dizer o local). Em 2018 o sepulcro está como se pode ver na imagem; e as Camélias há muito que desapareceram.

 

 

Ali, sobre aquela pedra, estava o cadáver de Soares de Passos, gelado o coração que tanto sentira, vazio o crânio, onde se abrigava tamanho talento. A vista espraiava-se desafogada por um panorama, a que as sombras do crepúsculo davam um tom suave de melancolia. A brisa começava a gemer o seu cântico plangente, curvando as hasteas das camélias, que florescem em torno do túmulo. Colhi uma, ainda não de todo desabrolhada, como o anjo da morte colhera o poeta. Rosas brancas! Como ele se há-de sentir bem ali, quando o vento lhe acamar sobre a loisa as suas queridas flores.

 

Eu amo a rosa branca das campinas,
A branca rosa, que, ao soprar do vento,
Lânguida verga para o chão pendida!

 

Aquele sepulcro exalava um perfume de tristeza despida de amargura. Os versos de «Amor e Eternidade», gravados na loisa, casavam-se tão bem como a hora, com o sítio, com o murmúrio dos vales, com a luz frouxa do sol que

 

ao descair lá no Ocidente
Quão belo lhe fulgura
Na campina solitária!

 

Riam-se embora os que não compreendem os gozos da tristeza, zombem de mim os que só procuram esquecer-se da morte no turbilhão da vida, hei-de confessar o que senti. Senti um inefável prazer em escutar a voz misteriosa, que saía da campa, que eu só ouvia, e que me falava de amor, de eternidade, e de glória! Invejei a serena poesia, o puro recolhimento daquele... sepulcro não, santuário! E quando, no meio do revolto golfão, da existência social, me lembrar do meu passeio de tarde ao cemitério da Lapa, do túmulo de Soares de Passos, da beleza do crepúsculo, das camélias que se debruçavam sobre a loisa, hei-de demorar o pensamento nessa recordação e hei-de esquecer o que me rodear para voltar em espírito a esse sítio e a essa hora.

(...)

Descemos as escadas. Confesso que já não pensava no sujeito, que me indicara o túmulo. Ele lá estava encostado à parede, conversando com os outros dois. Falavam em voz baixa com uns certos ares de indignação. Quando eu passei, olharam para mim de revés. O meu oficioso «cicerone» conservou um silêncio cheio de dignidade, mas o coveiro, segundo parece, menos senhor de si, não pode deixar de me dizer com um certo tom de desprezo:

 

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i3 Soares de Passos, o droguista da Praça Nova.

 

 

- Se o senhor tivesse dito que procurava o droguista da Praça Nova, logo lhe ensinava onde era o túmulo!

 

E, depois de me ter fulminado desta maneira, voltou-me as costas. Os outros fizeram o mesmo, depois de me terem dirigido um olhar de compaixão.

 

Eu fiquei estupefacto, atordoado, calculando com horror a imensa profundidade do abismo da minha ignorância!


Janeiro-Fevereiro de 1865 »

*

 

___ 

1. Também eu apenas o conheci indiretamente, graças a um escrito de Magalhães Basto.

2. É muito curioso aparecer no texto de um lisboeta esta forma arcaica mas ainda viva na zona do Porto nos meados do século XIX, como aliás se pode comprovar pelos livros impressos na cidade na mesma época. Deve tratar-se de um lapso pois em todo o restante texto a forma dois é a usada. O dous arcaico subsiste ainda nas gentes mais velhas do distrito de Bragança, ainda que o ditongo se aproxime mais de âu e não ou.

Viagem a um Porto de outro tempo .7

por Nuno V. Cruz, em 03.08.18

Prosseguimos na companhia do jovem jornalista Manuel Pinheiro Chagas, na sua viagem pelo Porto e arredores. De Matosinhos ao Freixo, vejamos as impressões que este lisboeta recolheu, algumas delas não tanto lisonjeiras...

 

*

No Senhor de Matosinhos

« (...) Espero que se lembrarão ainda do sítio, em que nos separamos, do cocheiro preto e da romaria que íamos empreender, com o piedoso fim de visitarmos a milagrosa imagem do protetor dos navegantes.

 

Esmoreciam já os resplendores do sol, desmaiavam os vivos tons das campinas, perdiam-se os horizontes nas esfumadas brumas do crepúsculo, quando me vi obrigado a separar-me do leitor. Transportemo-nos de novo ao mesmo sítio, e à mesma hora, e aproveitemos a luz que nos resta para visitarmos a igreja.

 

Apeemo-nos à porta do adro, e deixando para a saída as capelinhas, que nos ficam de um e de outro lado, entremos na igreja, que, por um feliz acaso, se acha aberta.

 

A tíbia luz do sol, que iluminava frouxamente a nave, o leve murmúrio dos campos que se escutava ao longe, tudo predispunha o espírito para receber a impressão religiosa, que flutua na atmosfera dos templos. Infelizmente a igreja de Matosinhos é completamente incapaz de inspirar nos mais crentes esse sentimento poético, que salteia os próprios incrédulos nos majestosos recintos das velhas catedrais, ou na singela nave da igreja campesina.

 

O deplorável gosto, cujo domínio notei nas poucas igrejas do Porto que vi, campeia desassombrado neste templo, a que seria tão fácil dar um tom de mística poesia. Bastava que lhe não tocassem, e que dessem por santuário à tosca imagem do Salvador a simples capela das aldeias. Para desgraça nossa, espalhou-se a notícia de que este Cristo fazia milagres, e a interesseira devoção dos que tomam Deus por um negociante não se julgou segura enquanto não forrou de oiro as paredes e o teto do pobre templozinho. As colunas caiadas aparecem no meio desta opulência pesada, como uns tamancos na sala de um burguês enriquecido.

 

É esta a verdadeira impressão que produz a igreja!
(...)
(...) Artista e crente são igualmente repelidos.

 

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Igreja do Senhor de Matosinhos. Ao seu lado, um pouco recuado, o edifício que alberga o Museu de Arte Sacra da Irmandade. (imagem http://www.matosinhoswbf.pt/)

 

É muito conhecida a lenda da aparição da imagem, que ora campeia no altar-mor dessa igreja-barão. Arrojou-a o mar à praia; haviam-lhe apenas as ondas roubado um braço. Uma pobre mulher, que andava pelos rochedos colhendo lenha para a sua pobre cozinha, encontrou um madeira que lhe serviu, e levou-o para casa. Mas o fogo repelia constantemente o alimento que lhe ofertavam, e o pedaço de pau saltava para fora das labaredas que o respeitavam (...). Espantada de tamanho prodígio, a pobre velha foi pedir a solução do enigma a um sacerdote, que lha deu imediatamente. O bem aventurado madeiro não era senão o braço do Senhor naufrágo.
(...)
Dos repetidos milagres, que este senhor tem efetuado, dão clara prova os quadros da sacristia, que conseguimos ver, depois de algumas dificuldades rapidamente superadas. COnvencem-se os mais incrédulos à vista das telas, em que ignorados Rafaeis exposeram, com um notável vigor de colorido, as cenas patéticas do alto mar. Estão os navios colocados em posições por tal forma arrojadas, que seriam necessários dois milagres, o primeiro para arranjar um naufrágio assim, o segundo para livrar dele uns baixeis tão anormais. Saem os mastros das quilhas, os barcos vão de encontro a uns rochedos azuis banhados por ondas amarelas, e a imagem do Senhor de Matosinhos aparece providencialmente, ocupando só por si metade do quadro e deixando a outra metade ao oceano, ao navio, aos cachopos, à equipagem, e ao dístico. Notemos de passagem que são os dísticos unicamente que ficam maltratados pela procela. Aí é que não houve remédio senão alijar gramática, e ortografia! Mas se tudo isto nos desperta um sorriso, o sorriso fenece imediatamente nos lábios, quando pensamos no sincero e ingénuo sentimento, que inspirou aquelas toscas ações de graças, que guiou o rude e inexperto pincel do piedoso artista.

 

Saimos da Sacristia, e dirigimo-nos para a carruagem, porque a noite aproximava-se rapidamente, e no horizonte via-se apenas o purpúreo listão, que o sol deixa após si, quando desaparece no seu leito aquoso. Apesar disso, não podemos deixar de relancear a vista para uma das capelinhas do adro. Havia dentro um grupo, que representava uma das cenas da paixão. Cristo subia ao Calvário, levando aos ombros a cruz ignominiosa. Torturavam-no os soldados romanos, cuja feia catadura era de inspirar pavor. O cinzel do artista entregara-se a um tal delírio de indignação, que eu não desejo tormento maior a todos os algozes do Divino Jesus, do que ter no inferno um escultor destes a modelar-lhes eternamente imagens deste feitio. (...)

 

O nosso preto impacienta-se. Vamos para a carruagem, e voltemos ao Porto.

 

Não julgue, leitor, que o deixo descansar por muito tempo. Trata-se de visitar a casa do Freixo, por conseguinte de subir a corrente do rio.

 

Entremos pois a porta do Sol, desçamos, porque não há outro remédio, as escadas do Codeçal, e vamos ter à Ribeira.

 

Saltemos para qualquer dos barcos, que se nos oferecem. Segundo vê, pode escolher barqueiros ou barqueiras. As denodadas portuenses não se temem das iras do Douro, e com o chapéu de varina na cabeça, em pé nos botes, prometem-nos resistir com intrepidez às fúrias da corrente. Lança-nos o acaso num bote tripulado por dois homens. Resignemo-nos!

 

Não oferece ao princípio muito interesse a nossa navegação. O rio, apertado entre os empinados rochedos em que assentam de um lado o Porto, do outro lado as eminências de Vila Nova, opõe o nosso barco a força da corrente, e não nos oferece em compensação alguma perspectiva deliciosa. Parece que navegamos no fundo de uma caverna, e, servindo provavelmente de espetáculo muito interessante a quem nos estiver contemplando das Fontainhas, ou do Prado do Repouso, não gozamos coisa alguma. Porém o rio continua nas suas sinuosidades, e dentro em pouco oferece-se-nos à vista a graciosa bacia, que tem numa das suas margens a quinta da China, na outra o Areeiro, se me não falha a memória.

 

Este ponto é delicioso, e nunca vi uma paisagem mais suave, e que mais se aproximasse da ideia que formo de um desses lagos encantadores da Suíça, com que enlevam os viajantes. Uma doce luz ilumina o quadro. O rio, que, depois de se espraiar neste sítio, volta bruscamente à direita, favorece a ilusão, porque parece terminar de repente, de forma que o prolongamento da margem esquerda fica-nos fronteiro, e finge lá ao longe ligar-se com a margem oposta, encerrando por esta forma a superfície liquida, que parece dormir sossegada em tão formoso leito. No último plano do quadro divisam-se vagamente uns montes cobertos de neve, que o sol tinge de reflexos rosados. As casas brancas de Avintes trepam pelo outeiro verdejante, que se ergue à beira do rio, e dispõem-se naturalmente em gracioso anfiteatro. Mais em baixo a caso do Freixo, com as suas torres laterais, banha os pés no Douro. Por toda a parte verdura, luz a jorros, casas brancas disseminadas, ou agrupando-se em aldeias garridas, um céu sem nuvens, azul, tão azul que faria estalar de inveja o formoso firmamento italiano. Murmúrios campestres, vozes que se erguem ao longe de uma e de outra margem, e que quem vai pelo rio ouve quasi distintamente, um perfume de tranquilidade na atmosfera, tudo sereno, tudo risonho! O próprio Douro parece sorrir-se e salta de contentamento nas pedras, onde faz redemoinhos e cachões, que talvez o divirtam muito, mas que nos contrariam a nós horrivelmente. Os barqueiros, remando de pá nos barcos como os gondoleiros venezianos, um bote, levado pela corrente, que vai em sentido oposto, que se deixa ir ao som da água, e a cujo bordo vai uma mulher cantando com voz fresca e suave uma trova popular, que a pouco e pouco esmorece com a distância; tudo isto contribuía para produzir em mim esse estado de deliciosa indolência, em que os sentidos dormitam, e em que a alma se deixa ir também como que à tona da água, embalada por alguma vaga e deliciosa canção, que um rouxinol desconhecido nos está gorjeando na fantasia!

 

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I2 ... um desses lagos encantadores da Suíça ...  (pormenor de um postal)

 

Distraiu-me a atenção neste instante um espetáculo verdadeiramente pitoresco. Um bote, que ia também lutando com, o rio, metera-se imprudentemente num passo difícil, e não conseguia, por maiores esforços que intentasse, continuar o seu caminho. A tripulação era numerosíssima, e toda feminina, à exceção de um homem, que parecia ser o diretor da companha. (...) as boas das mulheres remavam com a maior energia, fazendo ao mesmo tempo uma algazarra capaz de meter medo ao próprio Douro. Mas, por maior bulha que fizessem, por mais vigor que empregassem, o barco permanecia impassível. Era um espetáculo interessante ver aquele grupo curvado sobre os remos, agitando-se e berrando, e colhendo tantos resultados como os que nadam em casa em cima de uma cadeira. A bulha é que me causava admiração. (...)

 

É necessário contudo atendermos ao que vai pelo nosso lado, porque estamos em risco de imitar involuntariamente as valentes, mas infelizes remadoras. Não houve remédio senão saltar um barqueiro para terra, e ir-nos puxando com uma corda, afim de podermos atravessar um sítio, em que fervia a água por tal forma, e corria com uma velocidade tal, que a simples ação dos remos não seria bastante para nos fazer ultrapassar esse obstáculo. Com o auxílio da corda podemos progredir, não sem o bote ter andado a passear por cima dos rochedos, passeio que me demonstrou a utilidade da ausência da quilha nestes barcos destinados à navegação no Douro.

 

Abordamos finalmente ao Freixo, depois de termos afrontado de rosto sereno muitos perigos, que não enumero por miúdo, para não fazer descorar o leitor, e desmaiar a leitora. Dir-lhes-ei apenas que estivemos horas e horas naquele delicioso sítio, encostados à muralha do jardim desta casa, propriedade outrora do visconde de Azurara, atualmente do Sr. Comendador Velado[1]. O Douro passava sussurrando ao sopé dos muros, e desfilava com toda a galhardia por baixo das primorosas janelas dessa agradável residência.

 

Tão enlevados estávamos a namorar o torvo rio, que se mostrava neste sítio gracioso e meigo, (...) que nem nos lembrávamos que o fim principal da nossa ida ali fora visitar a casa, de que nos haviam dito no Porto maravilhas. Resolvemo-nos finalmente a fazer a visita, pretexto oficial da nossa viagem.

 

Depois de algumas dificuldades, provenientes de estar então em Lisboa o dono da casa, conseguimos, graças à oficiosa e delicada intervenção de dois visitantes autorizados, a realização do nosso desejo.

 

É realmente uma sumptuosa residência, cheia de riqueza, mas principalmente de um apuradíssimo bom gosto. Ali não se descurou a mais pequenina minuciosidade; em tudo se revela a acertada iniciativa de pessoa instintivamente artista.

 

Entre muitas coisas, que ali há a admirar, temos principalmente os trabalhos de estucador. Neste género há verdadeiras maravilhas, e é de espantar a habilidade destes rudes trabalhadores portugueses, que fazem com a mão grosseira brotar prodígios ou da cantaria da Pena, ou do estuque do Freixo. São deveras os descendentes dos artífices de Belém e da Batalha. Como eles lavram, cinzelam, torneiam, a pedra, tão maleável, como a cera, nos seus hábeis dedos!

 

O que há no Freixo, como não pode deixar de haver em todas as casas portuguesas, é a ausência completa de quadros e de estátuas. É infelicíssima a pintura mural de uma das salas, e mais infeliz, segundo me consta, ainda fora a primitiva. Os olhos desviam-se dela naturalmente, e procuram de novo deliciar-se com os primorosos ornatos, em que falei, e que o dono da casa preferiu muito acertadamente.

 

A casa ainda não está completa, e tem a lutar com a grande dificuldade de se sujeitar mais ou menos ao risco da que existia. É isso provavelmente o que dá à fachada o aspeto desgracioso que tem. Uma escadaria, que se não espraia majestosamente, mas que se empina aferrada a palácio, oculta metade da frontaria, e produz um efeito desagradável.

 

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O Freixo numa litografia(?) do século XIX (Arquivo Municipal do Porto)

 

Saímos desta deliciosa casa, que está destinada, pela posição que ocupa e pelo bom gosto do seu proprietário, a ser uma das mais belas residências de Portugal, e dirigimo-nos ao ponto de embarque. De passagem notamos uma casa trivial e suja, que destoava horrorosamente das magnificências que tínhamos visto. Era a saboaria do Freixo!

 

Estes contrastes encontram-se no Porto mais do que fora para desejar. É um dos senões da formosa cidade, e é o que lhe lançam mais ao rosto.

 

O andar do tempo deve convencer os portuenses da necessidade de colocarem cada coisa no lugar que lhe compete. Gloriem-se, porque justamente se gloriam, da blusa do operário, mas, por amor de Deus, não a vistam quando forem a um baile.»

 

 

[1] Recebeu há pouco o título de Barão do Freixo (...)

*

 

 

Na próxima publicação, fInalizará!

Viagem a um Porto de outro tempo .6

por Nuno Cruz, em 20.07.18

Prosseguindo na transcrição de uma (grande) parte do livrinho de Manuel Pinheiro Chagas, iremos desta vez acompanhar o autor numa viagem à Foz e a Leça, num registo breve mas recheado de curiosas referências.

 

*

«(...) Prometi-lhes, caros leitores, acompanha-los numa digressão pelo rio acima, e podem estar certos que realizarei a promessa. Antes, porém, que o faça, convido-os a um passeio para o lado oposto: passeio que terá por fim ver a Foz, Leça da Palmeira e Matosinhos.

 

A viagem e um "insólito"

Já ninguém se lembra do inverno, e o sol, rindo no céu azul, faz esquecer a todos as carrancas das nuvens. O magnífico panorama, que se desfruta descendo a rua da Restauração, revela-se em todo o seu esplendor, despido dos véus espessos do nevoeiro, em que muitas vezes se envolve. Ou seja, porque a rainha do Douro queria fazer a corte aos ingleses, que abundam no seu seio, ou seja simplesmente por uma prosaica razão meteorológica (...) é certo que as brumas, que acompanham muitas das manhãs do Porto, pouco terão que invejar à cerrada neblina de Londres. (...)

 

Felizmente, o spleen não acometera os filhos da pérfida Albion no dia, que destinamos à romaria da Foz, e o céu meridional ostentava-se com todo o seu brilhantismo encantador. Saímos do hotel da Europa (...), e depois de nos termos persignado, e termos feito uma solene promessa ao Senhor de Matosinhos, cuja capela íamos visitar, se voltássemos a salvamento, aventuramo-nos, guiados por um cocheiro preto, nessas ruas do Porto, ruas democráticas, que castigam a ambição de quem tem o atrevimento de meter num caleche com a ameaça perene de lhe partirem as costelas, ou pelo menos de o estatelarem na lama, onde ficará servindo de exemplo a todos os peões refratários.

 

Digamos já, para não quebrarmos depois o fim da narração, o motivo, porque apesar de poder escrever são e salvo estas linhas, não cumpri a solene promessa feita ao Cristo milagroso, que, prestemos-lhe essa justiça, nunca fez maior milagre do que este (...). Confesso, que, em boa hora, nos devíamos ter pesado a cera, a nós, à carruagem, aos cavalos e ao preto. Mas, exatamente neste último ponto está o intrincado do negócio. Um preto de cera é um caso não previsto no código dos ex voto! (...)

(...)

Seria forçado a repetir-me, se quisesse descrever-lhe a estrada da Foz. Já percorremos uma boa porção dela, quando fomos ao Palácio de Cristal, já divisamos uma outra parte, quando da eminência da Torre da Marca relanceamos a vista para o cenário que se desenrolava aos nossos pés. Contentemo-nos por conseguinte em saborearmos a doçura destes raios de sol, e em nos enfeitiçarmos silenciosamente com a perene verdura, e pitoresca disposição das casas da margem fronteira.

 

Não nos enlevaremos porém tanto, que não reparemos na lisonjeira atenção que nos prestam todos os que vão passando junto de nós. Reparo que ficam por muito tempo a olharem-nos, pasmados, que chamam uns pelos outros, que se reúnem em magotes, que vêm correndo para nos verem melhor. A que será devida tamanha popularidade? Pensei modestamente em me fazer eleger deputado, e olhei com modos afáveis para as pessoas que nos rodeavam. Meditava no meu programa, quando notei que eram as crianças os admiradores mais obstinados e entusiásticos que tínhamos. Soltavam, gritos de alegria, assim que nos viam, davam cabriolas em sinal de regozijo, mostravam enfim sincero desejo de nos fazerem uma ovação delirante. Admirei de mim para mim a precoce inteligência dos portuenses infantis, e contemplei com enternecimento os exercícios ginásticos a que se entregavam. Isto de saltos mortais, da cabriolas e reviravoltas é de bom agouro para uma eleição. São quasi sempre os candidatos que se entregam a esses exercícios. A mímica das crianças não podia querer dizer outra coisa senão: «Serás deputado.» (...)

 

Confesso que tive uma atroz desilusão, quando me vi obrigado a reconhecer que a pessoa a quem eu devia aquele espetáculo, a pessoa, que me iluminava com um reflexo da sua popularidade, era o cocheiro preto! O homem, habituado segundo parece, àquelas manifestações, conservava-se impassível, e ouvia sem espanto as mulheres do Porto chamarem-se umas às outras, para se colocarem diante dele em contemplação extática.

 

A Foz

Foi debaixo desta impressão que eu cheguei à Foz. Deliciei-me em estar ali, não porque a foz seja um sítio muito bonito, nem muito pitoresco, mas porque eu enlevo-me sempre com o espetáculo imutavelmente sublime do oceano, porque fico horas e horas sentado nas fragas, vendo a meus pés quebrarem e espadanarem as ondas. os que se enlevam com estas belezas devem ir à Foz. A costa, eriçada de rochedos, irrita a fúria do leão dos mares, e obriga as ondas a desfazerem-se num verdadeiro delírio de espuma. É um espetáculo majestosamente belo ver essa extensa praia, beijada por uma onda, que se empina lá ao longe, que enrola a sua fita verde, corda-se a um tempo de um diadema de espuma que o sol doira logo em todos os pontos, curva graciosamente o solo, como corcel garboso, que se prepara para a investida, corre modulando o seu cântico magnífico, depois dá num rochedo, solta um grito de raiva, quebra com medonho estampido, como que ergue os espumantes braços ao céu para o ameaçar, blasfema, por lhe ter colocado ali aquela pedra, mudo e impassível obstáculo, afinal salpica as fragas, desfaz-se em catarata alvejante, que cintila ao sol como um montão de pedras preciosas, e cede o lugar à que se lhe segue imediatamente.

 

Mais adiante outra porção da mesma onda espraia-se com voluptuosidade no areal, presenteia-o com limos verdes e cinzeladas conchinhas, foge murmurando, ou antes arrulhando um adeus, deixa ficar atrás gotinhas de espuma, que a seguem pesarosas, e se vão arrastando languidamente até se prenderem num seixo, e ali ficarem escondidas, abrigadas do temeroso combate.

 

No mais a Foz de inverno não tem encantos especiais que a recomendem ao viajante. No tempo dos banhos creio que há uma animação inexcedível naquelas praias, naquelas ruas. Agora só se encontram pescadores fumando indolentemente à porta das casas, ou dormitando com uma tranquilidade, que contrasta singularmente com a azáfama incessante em que andam os portuenses.

 

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O rio Leça num registo da Photo Guedes preservado pelo AMP, ao fundo Leça da Palmeira. No centro da imagem descortina-se um pedaço da ponte de pedra construída no século XVII, arrasada aquando da demolição da Doca n.º 2 do porto de Leixões. O fotógrafo estará, segundo creio, posicionado não muito longe do local onde agora existe a ponte móvel.

 

Leça da Palmeira

Não assim Leça da Palmeira. Esta graciosa aldeia tem em se mesma os atrativos, que namoram os olhos de quem vai vê-la, ao por do sol, com as suas casinhas brancas banhando os pés no mar. Faz gosto viver ali; há como que um perfume de sossegada poesia na atmosfera. O oceano, o próprio oceano parece abrandar os seus rugidos, para que a sua voz não destoe das serenas melodias da terra. Animado por essa meiguice do gigante, o rio, que dá o nome à povoação e que a separa de Matosinhos, entra afoitamente nas suas águas, e dá-se ao prazer de ter uma foz em miniatura, bonitinha, tranquila, que o mar respeita mais do que a barra do Douro. (...)

 

Passei momentos deliciosos na janela do hotel Estefânia, por baixo da qual vem o oceano, de concerto com o rio, entoar uma serenata, onde os rugidos do baixo profundo se casam harmoniosamente com os flébeis murmúrios do tenor.

 

No horizonte, perdidas no imenso mar, viam-se umas velinhas brancas que pareciam gaivotas imóveis, a espanejarem as asas doiradas pelos raios de sol. Ali, a pouca distância, o areal onde expiravam meigamente as ondas. Lá ao longe a coroa de espuma, que cingia momentaneamente a fronte das rochas, denunciava a luta das vagas com os fraguedos da Foz. Para trás espreguiçava o rio Leça as suas águas por entre margens viçosas e verdejantes, onde sobressaia a alvura das duas aldeias vizinhas. Uma capelinha em forma de arco triunfal, em cujo centro se via de perfil a cruz de Cristo, majestosa ali mais do que em qualquer outro sítio, erguia-se a dois passos do mar, onde a colocou a poética devoção dos pescadores, que desejam poder divisar entre os escarcéus a imagem daquele que só os pode domar. E o sol, já declinando para o acaso, iluminava com os seus esmorecidos resplendores esta cena verdadeiramente pitoresca, distribuía, como hábil artista, a luz e a sombra, doirava a imensa extensão das ondas, purpureava o horizonte, incendiava com os seus fogos os vidros de uma janela distante, fazia realçar num ponto a verdura, noutro amarelecia o arvoredo.

 

Uma celebridade...

Mesmo à beira mar, sentado numa pedra, que as vagas lambiam, vi um anão, um anão de cabeça disforme, baloiçando frenético as pernas pequeninas, que a espuma borrifava de vez em quando. Era o anão de Leça, que nenhum dos leitores que ali tenham ido, desconhece de certo. A qualquer hora do dia que se entre no hotel Estefânia, encontra-se o anão, implorando com infindos trejeitos a caridade dos visitantes. A praia é a sua residência predileta. Gosta de fazer caretas ao oceano, de o apupar, e não sei mesmo se o apedreja. O mar está costumado com ele e não lhe faz mal, estima-o até, chega a considera-lo como um enorme búzio, que um dia arrojou à praia distraído. (...)

(...)

(...) A glória não é para ele coisa nova. É considerado como uma curiosidade de Leça, figura nos álbuns fotográficos que se vendem no Porto, e não há miss, nem lady de loiros cabelos, que, ao passar por este sítio, se não tenha sentado diante do ufaníssimo anão, e não o tenha desenhado no mimoso velino do seu sketch-book.

 

O que é certo é que me roubou tempo, amigo leitor, que o sol está quasi a atufar-se nas águas, e que ainda não visitamos a capela do Senhor de Matosinhos. Não temos remédio pois, senão considerar isto como uma peça teatral, onde se respeite a regra das três unidades, e aprazaremos a curiosidade dos leitores para o segundo ato, que principiará no mesmo sítio e à mesma hora.

 

Caiu o pano.»

*

 

Relembrando que os pequenos títulos intercalares do que atrás se leu são de minha autoria, é com prazer que vos informo que esta viagem prosseguirá...

Viagem a um Porto de outro tempo .5

por Nuno Cruz, em 02.07.18

E eis que vos trago mais um capítulo do livrinho de Manuel Pinheiro Chagas. As suas descrições são deliciosas de ler, embora provindas de uma alma ainda jovem e em início de carreira. É o prazer que obtenho na sua leitura que me move nesta partilha convosco, caros leitores; de um texto que é praticamente desconhecido.

 

*

«Há tanto tempo que os leitores, recostados comigo à beira do Douro, estão tomando forças para empreender a ascensão que nos deve levar à eminência da Torre da Marca, que os julgo capazes já de treparem até aos píncaros mais elevados do Himalaia, quanto mais ao aprazível outeiro, onde campeiam a Capela de Carlos Alberto e o Palácio de Cristal. (...)

 

Para evitarmos demoras, permita-me o leitor que o leve num vôo ao cume do monte, o que lhe poupa a fadiga, e lhe permite gozar mais depressa a dilatada e esplêndida perspetiva, que dali se desfruta.

 

Como o sol brilha alegremente inundando com os seus raios a mais pequena minuciosidade desse quadro magnífico! Lá em baixo agrupam-se as casas brancas de Massarelos por trás das árvores da alameda, verdejante mantilha, que de verão as protege contra a curiosidade indiscreta do sol, mas que o inverno rasga e dispersa, deixando-as ficar todas vergonhosas, quando o astro radiante surge e as surpreende, como hoje, até que o sopro verificador da primavera renove o aéreo tecido da folhagem. Para o outro lado estende-se em gracioso anfiteatro a casaria de Entre Quintas e Vilar. Entre essas casas obscuras avulta uma, não pela magnificência do edifício, não por ser minimamente pitoresco o sítio em que poisa, mas porque aí residiu Carlos Alberto, porque foi o mosteiro de S. Justo de um monarca não saciado de ambição, não farto de deleites, mas desalentado do seu combate heróico e incessante contra os ímpios decretos do destino (...).

 

Depois, se estendermos a vista para a margem fronteira, depara-se-nos o viçoso e perene tapete de verdura, que já lhes descrevi, por onde se espreguiçam as casas do Candal, e que se dilata sem perder o matiz até ao longínquo horizonte, onde se fecha no cortinado dos pinheirais, dispersos como vedetas, imóveis como elas, e parecendo como elas atentos aos vagos ruídos, que lhes leva a aragem. Depois Vila Nova, e no último cotovelo oriental do rio o morro imponente da Serra do Pilar, visível de todas as eminências da cidade, como se a Providência nos quisesse por sempre ante os olhos a memória dos feitos heróicos, praticados pelos nossos pais para nos legarem o sistema liberal, que tão degenerado vai, quanto esquecidas já estão essas façanhas, e olvidados os que as levaram a cabo.

 

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Se as pedras pudessem rir e chorar!

 

Não podem, felizmente para os atores de tantas comédias, cujo vergonhoso enredo se desenrola diante desses silenciosos bastidores. Eia pois! Sejamos como Cilas, e não perturbemos o majestoso esplendor desta admirável natureza com a recordação das misérias da humanidade.

 

Se prestarmos bem o ouvido, escutaremos ao longe o ruído do mar, aqui mais perto o murmúrio do rio, além o sussurrar da brisa nas árvores da serra. Por cima de nós o dossel azul do firmamento, o doirado pavilhão do sol, em torno o ambiente salutar das eminências! (...)

 

Enfastiado de tantas digressões, já o leitor me está chamando: «E o Palácio de Cristal?».

 

Aqui o temos, esse documento da energia, e da vigorosa iniciativa da segunda cidade do reino. Quisera também dizer: e do bom gosto artístico de quem o construiu, se essas desgraciosas torrinhas, que flanqueiam o edifício, me não desmentissem formalmente. Bem situado está ele; talvez em todo o reino se não encontrasse um ponto tão apropriado; e de certo que os seus irmãos de Londres e de Paris dariam uma boa porção dos seus esplendores em troco desta inexcedível posição. Os jardins hão de formar um lindíssimo passeio, a que nenhum outro se poderá equiparar, e que resgatará magnificamente a pasmosa insuficiência do jardim de S. Lázaro, onde se atropela aos domingos a sociedade elegante do Porto.

 

Os vidros de cores, colocados no fundo da sala grande do palácio, hão de dar aos visitantes um magnífico espetáculo, quando se incendiarem com os vívidos fogos do sol meridional, e entornarem por todos os pontos do vasto salão uma chuva de rubins (sic), topázios e esmeraldas. A natureza preparou aquele terreiro para uma festa da humanidade, e comprovou-se em agrupar ali todos os encantos, todas as magnificências que podem lembrar ao homem, no orgulhoso delírio produzido pela vista das obras primas da sua indústria, quanto elas são pequenas e imperfeitas perante os esplendores das obras de Deus.

 

Crítica à exposição de 1865 

Supõem o leitor por isto que eu sou fanático da ideia da exposição universal. Acho-a prematura, incrivelmente prematura.

(...)

É digno desta nobre cidade o patriótico pensamento de chamar sobre nós a atenção da Europa, e de nos fazer colher os benefícios que resultam sempre da afluência dos estrangeiros. Mas o patriotismo levado a esse ponto é um patriotismo egoísta. Não podemos dizer aos outros povos: "Venham, porque a sua vinda é para nós uma felicidade e um provento." E contudo, que outro motivo se pode alegar?

 

É o Porto por acaso uma cidade central, cuja posição cómoda para os expositores do mundo inteiro desculpe a completa falta de comodidades, que encontrarão aqui? Não. É por acaso uma cidade tão adiantada em indústria, que todos os inconvenientes se dissipem diante do desejo de visitar, de estudar as suas fábricas? Não. (..) É forçoso não o dissimularmos.

 

Mas nesse caso, como tenciona o Porto receber a Europa? Dando-lhe céu azul, fulgido sol, panoramas admiráveis? A receção é barata, consoladora para ânimos poéticos, mas não sei se será suficiente (...).

 

Aqui os estrangeiros têm ruas, onde as carruagens mais fofas e suaves causam maiores torturas do que a sege de Nicolau Tolentino; iluminação que se fia mais na lua e nas estrelas do que nos recursos da companhia de gás, polícia suficientíssima para uma cidade sossegada como está é, mas impossível com a população flutuante que se há-de aqui acumular. Cidade eminentemente trabalhadora, não teve ainda tempo de cuidar nos regalos da vida. E contudo faltam cinco meses e meio para a abertura da exposição[1], e neste pequeno lapso de tempo hão de se criar hospedarias confortáveis, tornar luminosas as noites, fazer sair do nada um modo de se não andar sempre a pé[a], [e] todos os outros melhoramentos de que o Porto precisa! Nada é impossível com a vigorosa energia desta cidade, mas há-de ser difícil.

(...)

Avante leitor, que isto não é vida. (...)

(...)

(...) Aqui tem o Palácio dos Carrancas, onde D. Pedro IV residiu por algum tempo na época do assédio, e que é atualmente residência real, pequena, mas graciosa. A sua fachada simples, mas nobre e regular, é superior à do absurdo Palácio das Necessidades. Aqui tem mais adiante o hospital da Misericórdia, edifício magnífico mas incompleto, com muito boas condições arquitetónicas, mas com péssimas condições higiénicas. (...) Atravessamos o vasto largo da Cordoaria, que se chama oficialmente Campo dos Mártires da Pátria, e onde se vendem tachos de barro, que não sei se são os tais mártires da pátria, mas que julgo estarem antes predestinados a serem mártires dos garotos. Silêncio, musa folhetinistica! Neste campo, agora tão prosaico, foram enforcadas as vítimas do absolutismo em 1829. Honra aos manos ilustres!

 

Ali têm a Cadeia da Relação. Leiam as Memórias do Cárcere de Camilo Castelo Branco, e a sua negra fachada iluminar-se-á com os esplendores da poesia.

 

Para a esquerda está o edifício de todas as academias do Porto. Eu havia de dizer muito mal dele, se a Escola Politécnica e a Academia de Belas Artes de Lisboa me não tapassem a boca. Aí ao lado tem uma imensidade de feiras, da , do pão, dos sapatos, porque tudo aqui se vende em feiras, menos as consciências, que essas concorrem à feira central de S. Bento. Aqui ao pé a airosa Torre dos Clérigos, e a sua igreja, uma das melhores do Porto, talvez uma das poucas onde se vêm mármores. Nas que tenho visto, há muito oiro e muita cal. Paremos agora, estamos na Vitória.

 

Que admirável panorama! O que dá ao Porto um aspeto inexcedivelmente pitoresco é a situação original das colinas, em que está construído, que se levantam logo da beira do Douro, e ficam empinadas sem transição alguma, inundadas de casario, que parece aferrar-se à rocha, para evitar o despenhar-se. Lá em baixo o magnífico edifício da Bolsa; além a Sé erguida desassombradamente num píncaro, e arrojando ao céu as suas duas torres, um pouco mais abaixo, o Paço do bispo, e no fundo os intermináveis e deliciosos meandros do rio, que a cada instante nos estão preparando surpresas que nos arrancam gritos de admiração.

 

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Avante, leitor, não me esteja pasmado nem parado, que o sol já se não entretêm com estas coisas, e continua implacavelmente o seu caminho. Vamos; aqui tem Santo Ildefonso, e o hotel da Europa, onde estabeleci os meus novos arraiais. Não lhe ofereço entrar, porque não tenho tempo. Aqui tem a Batalha, onde um gracioso pedestal espera a estátua de D. Pedro V. Nós somos a nação dos pedestais. Na minha vida, que não é muito longa, tenho visto quatro; estátuas, ainda estou reduzido à de D. José, no que não sou mais feliz que o meu bisavó (...). Ali tem o teatro de S. João, que é em algumas coisas superior, noutras inferior ao de S. Carlos. Aqui está a Porta do Sol, espantadíssima de se ver metida no centro da cidade, quando outrora lhe era limite. Junto da Porta do Sol, o convento de Santa Clara, tão célebre pelos seus pastéis, quanto o de Odivelas pela marmelada; porque isto de fazer doces é uma ocupação ascética, que me fez sempre ter uma alta ideia da poesia dos mosteiros, e que me tem mostrado em beatificas visões as esposas de Cristo em torno das fornalhas, a calcularem o peso do açúcar! (...)

 

Avante, atravessemos as Fontainhas, onde se poderia fazer um delicioso passeio, e, passando pelo cemitério do Prado do Repouso paramos finalmente junto do edifício arruinado do Seminário.

(...)

E há quem viaje fora do reino, antes de ter visto esta admirável perspectiva, antes de ter visto o espetáculo verdejante, que nos fica fronteiro, as aldeias agrupadas graciosamente como gentis camponesas, umas a mirarem-se no rio, outras fugindo dele, como que assustadas, e parando a meia encosta! E o Douro, em contínuos torcicolos, assaz tranquilo aqui, e parecendo não poder desprender-se do admirável espetáculo, em que se enleva, Que mais lindo pode ser um lago da Suíça, onde se poderão encontrar mais deliciosos efeitos de luz e sombra, onde mais suaves longes, mais campestre panorama? (...) Onde há um céu mais azul, para servir de dossel a estas esplêndidas cenas?

 

Mas o sol furta-se-nos decididamente. Desprendamo-nos daqui. Um dia voltaremos, e passeando pelo rio acima, poderemos admirar, pausadamente estes magníficos sítios.

 

1. Escrevia-se isto em janeiro de 1865. Nada do que se temia se realizou; porque foi pequeníssima ou nula a afluência estrangeira.»

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Prosseguirá...

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a - O Carro americano seria introduzido no Porto em 1872 e apenas na linha marginal. Só a partir de 1874 se construíram linhas no interior da cidade.