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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Fragmentos da cerca velha da cidade do Porto

10.12.18

Todos os portuenses que gostam da história da sua cidade sabem que existiu uma 'muralha fernandina' da qual ainda podemos apreciar trechos mais ou menos longos nos Guindais e nas escadas do Caminho Novo. O que nem sempre se tem presente é que o burgo teve anteriormente a esta, que é do século XIV, uma outra cerca que a cingiu durante séculos e que foi alvo de ampliações e melhoramentos ao longo da sua vida útil.

Na i3 abaixo, que está disponível no Arquivo Histórico do Porto, vemos um dos dois panos da cerca velha ou muro velho, que foram encontrados aquando das demolições na calçada da Vandoma nos meados do século passado.

 

 

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i1 a letra A indica o local do resquício em questão e a B o cubelo e pano que ainda hoje se vê; a estrela vermelha - colocada por mim - indica a localização da desaparecida porta da Vandoma.

 

 

Contudo, embora um desses panos tenha ficado exposto, constituindo ainda hoje o mais notável resquício de muralha românica e pré-românica que abarcou o pequeno burgo portuense do século X a XIII (ver i2); o outro foi soterrado em virtude dos planos urbanísticos que para aquela zona existiam, e assim permaneceu até esse mesmo arranjo ruir nos anos 50. Exposto por um curto período de tempo, na atualidade ele encontra-se novamente escondido bem perto da estátua de Vimara Peres, o dux asturiano que em 868 colocou a cidade definitivamente em mãos cristãs.

 

 

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i2 Pequeno pano de muralha e cubelo que se encontravam escondidos atrás dos edifícios demolidos aquando do arranjo urbanístico desta área, nos meados do século XX. As fiadas superiores do cubelo e as ameias são obra de reconstrução dessa mesma época, quando a política de restauro dos monumentos era bem diferente da que agora temos.

 

 

A i1 é o desenho incorporado na monumental obra coordenada por Damião Peres dedicada à história da cidade, que nos mapeia a localização destes veneráveis restos.

Outros haverão ainda escondidos pelo casario das ruas da Sé, que serão expostos, ainda que temporariamente, conforme as obras de requalificação das habitações forem decorrendo. Mesmo estes dois trechos só foram descobertos graças às obras efetuadas na calçada da Vandoma e adjacências, que desvirtuaram completamente o local deixando (a meu ver) como único ponto positivo o trazer à luz do dia estes parcos restos da muralha que nos ensina que o Porto já foi outrora um quase insignificante burgo empoleirado no topo de um monte.

 

 

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i3 O pano de muralha dentro do círculo tem por cima, à esquerda, a Catedral e à direita - as pedras mais claras - a construção do paredão por onde se acede, em túnel, à rua Escura.

 

 

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i4 outra imagem do troço de muralha que vimos em i3 e que hoje se encontra sensivelmente por baixo da estátua de Vimara Peres

 

 

A i4 mostra-nos uma fotografia do Boletim Cultural da CMP de junho de 1939 (pp. 260/1) - cuja legenda é pertinente transcrever: «Este lanço de muralha primitiva foi posto a descoberto durante a execução duns trabalhos a que procederam, de 15 a 30 de abril do corrente ano, os serviços de Obras e Urbanização da 3ª Direção da Excelentíssima Câmara Municipal do Porto. Esses trabalhos tiveram por fim regularizar o adro da Sé. Porque havia necessidade de aterrar de novo o local, foi fotografado o lanço da muralha então posto a descoberto e levantou-se uma planta donde consta a sua localização. Na gravura n.º 2 notam-se ainda os buracos abertos para o travejamento de uma casa demolida e que tinha por uma das suas paredes a referida muralha».

 

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Originalmente publicado no blogspot em 02.11.2014, agora revisto e aumentado.

Como era a Porta Nova ou Nobre

30.09.18

Esta deveria ter sido a publicação de abertura do blogue aqui no Sapo, tal como o foi na sua casa anterior no blogspot. Contudo e porque pretendia desenvolver um pouco mais o tema e corrigir/modificar o registo anterior, acabou por se estender no tempo a sua publicação que apenas agora se dá. Assim, faço-a mesmo coincidir com o aniversário d' A Porta Nobre, trabalho que melhor ou pior iniciei em 30 de setembro de 2009.

Ora após este breve mas pertinente comentário, vamos ao assunto em mãos.

 

A Porta Nova ou Nobre era uma das entradas medievais na cidade do Porto situada grosso modo a meio da atual rua Nova da Alfândega, ainda que a uma cota inferior. Inicialmente um simples postigo da muralha que abraçava a cidade, foi supostamente alargada e elevada à categoria de porta durante o reinado de D. Manuel I[1]. Por diversas vezes por ela entraram os mais altos dignitários que demandavam esta cidade, vindos da outra banda, atravessando o rio e acostando os barcos de passagem no areal que desapareceu com a construção do edifício da alfândega (fazendo a sua entrada no burgo pela rua dos Banhos). Existiu até 1871, ano em que foi sacrificada em nome do progresso e com ela um pouco mais da história e da memória da cidade.

 

Na i1, colhida no googlemaps de há uns anos atrás, podemos ver a área da rua Nova da Alfândega que abarca o antigo correr da muralha e a zona da porta em estudo. O lanço que ainda hoje vemos nas escadas do Caminho Novo continuava uns poucos metros mais para abaixo em direção ao rio e ligava com a porta que se abria para poente. Logo a seguir a ela teríamos o baluarte que lhe fazia companhia e depois, invertendo para nascente, o antigo caminho de rolda da muralha passava a chamar-se rua de Cima do Muro que em 1871 à custa da demolição do bairro dos Banhos perdeu grande parte da sua extensão, permanecendo apenas um troço conhecido como muro dos bacalhoeiros.

porta nobre0000.JPG

i1 

 

Aquando de umas sondagens arqueológicas prévias naquele local motivadas por um projeto da REFER que não chegou a avançar, foi encontrado em 2004 um troço desse velho muro (visíveis na imagem onde a linha vermelha se interrompe). Isso permitiu constatar o que já parecia muito plausível quando se observavam as fotografias da época das demolições: que os nossos bisavós não destruíram aqueles muros por completo! De facto, parte da muralha ainda lá se encontra in situ, talvez por ficar demasiado dispendioso, mesmo desnecessário, demolir pedra a pedra dado que a rua a abrir seria a uma cota superior; deixando parte do passado ali enterrado à guisa de sepultura.

 

São muito poucas as fotografias que nos mostram a Porta Nova, e ainda assim sempre ao longe e sem grande definição. A i2, preparada por mim, é uma montagem de duas dessas imagens.

 

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 i2 Na imagem da esquerda é perfeitamente visível a abertura da Porta Nova ou Nobre, ao centro da estrutura assinalada pelo retângulo branco. O retângulo amarelo assinala o edifício construído por cima dela no século XVIII. É importante ter em mente que todas as casas que estão à sua frente, no areal de Miragaia, já não existem e no seu lugar a uma cota superior está agora o largo Artur Arcos. A imagem da direita mostra-nos um outro ângulo do mesmo edificado: o B assinala a pequena viela que dava ingresso às escadas do Caminho Novo: a letra A i ndica as casas que se encostavam à muralha pelo lado de fora que sobreviveram à hecatombe de 1870/71; apenas para serem demolidas nos anos 50 do século XX (ver i3)

 

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i3 Escadas do Caminho Novo nos anos 30 do século passado. Ao fundo o retângulo amarelo assinala as casas que se vêm ainda nas fotos onde consta a Porta Nova, assinaladas na I2 com a letra B e na i8 com o n.º 5 (os portais delas lá permanecem, entaipados).

 

 

Henrique Duarte Sousa Reis ainda conheceu esta porta e descreve-a da seguinte forma:

'Consta a Porta Nobre de um edifício fortemente construído com toda a solidez, quasi quadrado em forma de torre feita de pedra assente: é alta e nela praticado está um elegante arco liso e sem adornos ou maineis; olha ao poente para onde é voltada a fachada principal exterior, e sobre ele se vêm duas ordens de janelas de peitoris (sic), que correspondem aos andares, de que esta torre se compõem, contendo cada um deles duas janelas, e no espaço das primeiras lá se encontra no centro o escudo com as reais quinas portuguesas.
Na face interna deste primeiro andar, e logo sobre a porta estava aberto um oratório, aonde se venerava a imagem de «Nossa Senhora das Neves» que todo era voltado para a rua dos Banhos; acha-se hoje [c. 1865] tapado de pedra e cal. (...)[2]
O segundo andar desta torre era reservado para residência de alguma autoridade civíl ou militar, ou finalmente para qualquer repartição pública, como demonstra a grande porta inferior a outro escudo real que sobre a sua padieira se conserva, e é voltada para o lado do sul, e tem comunicação pela escada de pedra fabricada para o cimo da muralha, e próximo ao fortim (...).
Para o mesmo lado do sul corre, desta torre, um pouco mais recuado da linha do frontispício dela, um lanço de muralha lisa, que sobe até à altura da soleira da porta do segundo andar, de que já falei, e pelo lado superior do mesmo lanço foi delineada através de toda a sua grossura a escada, que facilita a entrada para esse andar, mas só por cima do muro de defesa da cidade ao qual se sobe por outro lanço de escadaria também de pedra praticada pela face externa da muralha, de encontro à parede das costas do fortim (...).'

 

Aport.JPG

i4 Neste extrato da planta de 1852 para abertura da rua que viria a denominar-se Nova da Alfândega, podemos ver o que parecem ser dois maciços torreões da Porta Nova que nos dá uma boa ideia da sua robustez (n.º 1). O n.º 2 indica o fortim, o 3 a praia de Miragaia, o 4 é a rua das Barreiras, 5 a rua dos Banhos e 6 as escadas do Caminho Novo (parte desaparecida).

 

Mas afinal qual era o verdadeiro aspeto desta anciã entrada da cidade? Já Mário de Menezes no artigo publicado n' O Tripeiro - Vol. XII/6.ª série - havia colocado em dúvida qual a sua real forma face às hipóteses que na sua frente se lhe apresentavam. Contudo este autor parece não conhecer qualquer imagem fotográfica dela (ou pelo menos, não lhe faz referência). A gravura que serve de base a todos nós para ajuizar da sua forma e dimensão - i5 - foi apresentada na revista O Tripeirio de março de 1926; acompanhada de um texto que aparentemente lhe dá bastante credibilidade. Creio contudo que é preciso olhar com olhos bem críticos para esta gravura[3] e não a creditar como definitiva - muito pelo contrário - pois na verdade as datas não estão de acordo com o que seria real. Ora o texto que acompanha a gravura, a certa altura, diz-nos: 'Graças à boa ideia que teve o nosso amigo Sr. Francisco José de Sousa, antigo e abalizado professor de desenho, de fixar no papel o desenho da Porta Nova, copiando-a do natural, na sua mocidade, é que O Tripeiro pode hoje fornecer aos seus leitores a interessantíssima ilustração que acompanha esta artigo'.[4]

 

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 i5 A Porta Nova ou Nobre, conforme representada por quem ainda a conheceu, mas certamente não com esta forma tão primitiva.

 

Não posso estar plenamente de acordo com aquelas palavras. Não duvidando que o autor do desenho o tenha feito a partir do original, estou igualmente convicto que o fez interpretando o que via, transpondo para um possível espeto dela no antigamente. De facto, aquela velha entrada na cidade nunca poderia ter aquele aspeto quando o autor a desenhou. Por todo o século XIX as ameias já se encontravam ausentes e a alvenaria de granito que a compunha não apresentaria certamente aquela forma no 'segundo andar', uma vez que este fora substituído nos inícios de setecentos por um edifício de dois pisos. Também o esguio torreão do lado direito me levanta, por essa mesma caraterística, bastantes dúvidas sobre a sua real existência...

 

Ainda sobre qual seria o aspeto original desta fortificação, na i6 mostro dois estudos de Gouveia Portuense, claramente contrastantes. Quer um quer outro se aproximarão eventualmente mais da realidade nuns pontos enquanto se afastarão radicalmente dela em outros. Qual deles o mais verdadeiro?

 

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i6 Imagens apresentadas na revista O tripeiro, da autoria de Gouveia Portuense.

 

 

Também Artur Arcos, no seu belíssimo painel da Miragaia ribeirinha, pintou esta estrutura, certamente como a viu numa panorâmica bastante antiga e que lhe deve ter servido de inspiração[5]. Embora seja, no meu entender, a melhor interpretação daquela entrada da cidade que conheço, mantenho a convição de que necessitaria de correções.

 

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i7 Interpretação de Artur Arcos da área da Porta Nova.

 

Queria também eu apresentar a minha humilde contribuição para ajuizarmos do aspeto daquela porta, cuja designação escolhi para dar nome ao blogue. Ainda assim, não o faço por agora: prefiro dar a conhecer uma outra fotografia que não obstante a fraca definição, é bastante interessante por ter sido tirada numa altura em que o sol não projetava grande sombra sobre o local. Nela procurei igualmente colocar mais pontos de referência modernos, por forma a ajudar o leitor a realmente ver onde a porta se encontrava (hoje soterrada por baixo da entrada do estacionamento do Parque da Alfândega).

 

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i8 1. À direita é visível o topo da abertura praticada na porta / 2. Casa construída no século XVIII, entre as duas janelas pode-se ver as armas lá colocadas. / 3. Casa atualmente ocupada pelo Grupo Musical de Miragaia (na antiga rua das Barreiras, hoje incorporada na rua da Arménia) / 4. Casa atualmente ocupada pelo Mirajazz (nas escadas do Caminho Novo) / 5. Última casa a ser demolida, já no século XX, que se encontrava encostada à muralha, onde agora a mesma faz o seu último cotovelo e finaliza (ver i3) / 6. Casa atualmente ocupada pela Escola de S. Nicolau, no topo das escadas do Recanto (aquele pequeno correr é o que resta da antiga rua do Forno Velho de Baixo).

 

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i9 Esta imagem pretende contrapor a anterior, mostrando a atualidade do local: os números assinalados são precisamente os mesmos locais, na imagem i8: 3. Grupo Musical de Miragaia, 4. Mirajazz, 5.último cotovelo da muralha antes de a mesma finar na Porta Nova, onde se encostavam as casas assinaladas com 5 na i8.

 

 

Em novembro de 1870 o arco da Porta Nova foi entaipado 'até meio das pedras' uma vez que era já muito perigoso transitar por ali dado o grande amontoado de entulho e as demolições em curso. Ainda no mesmo mês n' O Comércio do Porto é referido que se andava à procura de nova casa para a 3.ª Esquadra de Polícia que se encontrava na que ficava 'sobre o arco da Porta Nobre', que ia ser demolida[6]. Ao contrário do que surge escrito em alguns números da revista O Tripeiro na sua 3ª, 5ª e 6ª séries, a Porta Nova não foi destruída em 1872 mas sim em 1871. Eu próprio tive ocasião de o verificar nos jornais da época (este erro de um ano é corrigido no seu último volume da 6º série, mas não o mês que continua a ser indicado como sendo o de fevereiro).

 

Na atualidade tudo o que dela nos resta são as armas fernandinas, que possuem a curiosa característica de desenharem onze castelos ao invés dos atuais sete, bem como umas suas congéneres do século XVIII, ambas guardadas no Museu Nacional Soares dos Reis. Mas há também a grande possibilidade de pelo menos os primeiros metros em altura desta porta ainda se encontrarem no seu local original, ali, debaixo da rua que a sepultou para sempre...

 

Finalizo esta publicação com umas curiosas notícias respeitantes aos últimos dia daquele imponente entrada na cidade que por quase 500 anos campeou, na paisagem da praia de Miragaia:

1. «Arco da Porta Nobre - Conforme já informamos os leitores, anda-se procedendo à demolição do antigo arco da Porta Nobre e do edifício que lhe ficava por cima para abertura da rua da nova alfândega. No edifício a que nos referimos havia umas armas e uma inscrição que a Exma. Câmara, com louvável desvelo, fez remover para o Museu Municipal da rua da Restauração. A inscrição diz o seguinte: GOVERNANDO AS ARMAS DESTA CIDADE E SEU PARTIDO, O CORONEL ANTONIO MONERO DE ALMEIDA, SE FEZ ESTA OBRA NO ANO DE 1731[7]. No andar que ficava ao nível do pátio do mesmo edifício, apareceu também um letreiro toscamente feito em uma pedra, a qual, segundo se pode entender, diz: 17 DO 6º DE 1410. No espaço que ia de uma a outra janela conhecia-se que havia brechas iguais às de inclinar as peças.» In O Comércio do Porto de 28 de abril de 1871 

2. «Rua da Nova Alfândega - Principiaram ontem os trabalhos para a construção da rampa do lado da antiga Porta Nobre para a carga e descarga dos barcos, (...). O Arco da Porta Nobre já está todo desfeitoIn O Comércio do Porto e 17 de agosto de 1871 (o sublinhado é meu)

 

E em jeito de remate, recordo uma notícia de 15 de agosto de 1871 do O Jornal do Porto sobre um acontecimento que se dera dois dias antes. Embora irrelevante, serve aqui para contrapor um registo mais leve, para o leitor descomprimir da densidade da matéria acima estudada. Recordemos que por aquela altura andava em construção a rua Nova da Alfândega, e o arco da Porta Nova iria ser dentro de dias demolido, pelo que a paisagem em redor dela seria de um caos de pó, buracos, terra e pedra:

'Ante-ontem, ao cair da noite, voltavam da Foz quatro cavalerias (sic) da Guarda Municipal, e chegavam à Porta Nobre quando já a vozeria dos barqueiros lhes anunciava que tinham de retroceder até à Restauração, por causa do tapume que obstrue o arco.

Quando os cavaleiros conheceram o engano, já a vozeria era estrepitosa e acerada de motejos desta laia:
    - Para trás!
    - É tornar pela Restauração!
    - É ter paciência!
Os cavalerias (sic), de repente, como se se tivessem passado palavra, cravam os acicates nos cavalos e arremetem denodadamente contra as escadas de Cima do Muro[8].
    Num momento desapareceram cavalos, e cavaleiros diante da multidão que, de motejadora, ficou boquiaberta.'

 

_____________________________

1 - Facto que carece de esclarecimento. Por exemplo, J.P. n' O Tripeiro de Agosto de 1910 diz que a porta foi alargada por ordem de D. Manuel I em 1522, juntamente com o fortim. Mas D. Manuel I morreu em 1521 e o fortim foi apenas construído anos depois, fazendo parte da linha de defesa da cidade como último reduto de defesa após o forte de S. João da Foz.

2 - Segundo Pinho Leal seria a Nossa Senhora do Socorro. Mais à frente na sua obra refere Sousa Reis sobre este oratório: «primitivamente esteve sobre o arco de S. Domingos, e depois foi transferido para cima do arco da Porta Nobre, onde ainda pelo lado da rua dos Banhos, se vêm os restos»; mas relembro o leitor que este último autor não é contemporâneo do arco de S. Domingos, que mais nada era do que a Capela de Nossa Senhora das Neves, demolida em 1758.

3 - Um pouco à semelhança do que fez Magalhães Basto com as gravuras da Porta da Vandoma, artigo quem um dia recuperarei neste blogue.

4 - Francisco José de Sousa tinha, aquando da publicação destas linhas em 1923, mais de 90 anos; pelo que à data da demolição da Porta estaria perto dos 40.

5 - Artur Arcos nasceu em 1914, 43 anos após a demolição do monumento, e começou a pintar em 1959. A outra pintura onde o autor representa esta entrada da cidade é um fausto de pompa e cor ainda que o anacronismo impere (a ação tem lugar no século XV sendo-nos apresentada com o edificado do século XIX) e seja, a meu ver, irrealista na forma quer da porta quer do fortim.

6 - Esta casa é precisamente a que Sousa Reis descreve e que se encontrava por cima do torreão da porta em estudo.

7 - Num manuscrito guardado na Biblioteca Pública Municipal do Porto da autoria de Joaquim Manuel Teixeira Marinho, encontram-se o desenho desta inscrição que nos permite ver que o nome Monero apresentado pelo jornal é de facto Monteiro. A inscrição, como se comprova no mesmo desenho, abrevia ou omite algumas letras sobretudo os ii, que aparecem apenas como um ponto por cima de uma das suas adjacentes.

8 - A Câmara designara como alternativa à rua dos Banhos enquanto se ia abrindo a rua Nova da Alfândega,a calçada da Esperança; hoje rua de Tomás Gonzaga.

 

 

NOTAS: 1) Esta publicação é uma revisão e ampliação das publicadas originalmente no blogspot em 30 de setembro de 2009, 26 de novembro de 2009, 18 de dezembro de 2013 e 18 de abril de 2016 ; 2) o ponto 7 foi acrescentado em 01.07.2019 bem como o ponto 2 foi melhorado.

A Porta do Sol

22.08.18

Reinicio a trasladação das publicações que se encontravam alojadas na casa antiga d' A Porta Nobre, no blogspot. A presente publicação agrega uma originalmente dividida em três partes publicadas sucessivamente em 22, 23 e 24 de janeiro de 2014. O primeiro artigo aqui transcrito vem do segundo ano da primeira série da revista O Tripeiro (1909-1910). Ele torna-se ainda mais interessante, a meu ver, por ter sido originalmente publicado na revista Porto Illustrado de 1863; portanto numa altura em que a Porta do Sol ainda existia. No segundo, da mesma revista mas já bastante truncado, continua a descrever-se a Porta do Sol e suas imediações, agora da memória de um portuense (1926). Na última parte da republicação, coloco algumas gravuras, que se bem que conhecidas, vêm acompanhadas com comentários e notas. Finalmente uma quarta parte, mais curtinha, onde transcrevo um documento que julgo ainda inédito, naquela que é uma pequena surpresa para os meus leitores...

Espero que gostem!

 

 

I - «A ANTIGA PORTA DO SOL

 

Da muralha que circundou o Porto, construída durante os reinados de D. Afonso IV, D. Pedro e D. Fernando, poucos vestígios existem hoje, dignos de especial menção. O único, talvez, é a Porta do Sol. Porém, a Porta do Sol, elegante construção que ela é, e que bem se mostra despida do caráter dessa antiguidade, a que pertence a muralha; tal como ela existe e como se vê na nossa gravura, não é contemporânea da grande obra que ocupou, diz-se, os reinados dos três soberanos.

 

Além das portas que costumavam ter todas as muralhas das terras afortalezadas, que eram as portas principais para o serviço publico, havia também outras portas mais pequenas, de somenos construção e pequeno concurso, a que batisaram com o modesto nome de postigos, como o dos Banhos e do Pereira, que ainda se vêm de pé, estes com saída para o rio. Pela parte da terra havia outros, e um destes era o do Sol.[1]

 

Porém, sobre o velho Postigo do Sol, por se achar extremamente arruinado, se levantou em 1768 o arco atual, que custou a quantia de 960$306 reis, sendo feito por ordem do general e governador das justiças que então era João d'Almeida [sic] e Melo, pai do grande Francisco d'Almada. Os mestres pedreiros Caetano Pereira e José Francisco foram os que arremataram e levaram a cabo esta obra, que ficou concluída no mês de agosto do dito ano de 1768; mas só a 28 de fevereiro do ano seguinte é que foram embolsados da sua importância.

 

DSC_398.jpg

 i1 - a Porta do Sol num desenho apresentado no artigo d' O tripeiro

 

Eis aqui a conta, conforme se vê no livro competente, que se acha no cartório da câmara desta cidade:

 

 

Liquidação do que importa a obra da Porta do Sol feita por ordem do Il.mº e Ex.mº Sr. General e Governador das Justiças. 

- 4982 palmos de esquadria lavrada de escada de soco, que corre em volta por baixo de toda a obra, superfície das pilastras, e na superfície da imposta, arquitrave e friso, em rústico, e superfície do arco, tudo feito e acabado, posto em seu lugar conforme arrematação e plano - a preço de 79 réis ... 393$578

- 2475 palmos de moldura nas bases das pilastras, capiteis e friso, compreendendo tudo em volta e seus membros particulares, como também o coronamento do tímpano, tanto pela parte interior como exterior, e acabado conforme a arrematação, o palmo pelo preço de 130 rés ... 321$750

- 70 braças e mais 22 palmos no interior da porta no cheio de alvenaria argamassada, a braça de 200 palmos, conforme arrematação, pelo preço cada uma de 2$280 ... 159$765

- 1140 palmos de lajeado no pavimento da empena, o palmo a preço de 18 réis ... 20$220

- 3 braças e mais 175 palmos de alvenaria na parte que uniu o muro à porta da parte do Convento[2], a preço cada braça de 1$400 réis ... 4$997

- 42 braças e mais 250 palmos no muro que fizeram no sítio onde foi a torre, cada braça a preço de 1$400 réis ... 59$716,6/9

 

-----------------------

960$306/9

 

 

Soma a conta toda a quantia de novecentos e sessenta mil trezentos e seis reis, mais seis nonos de real, que tanto se deve aos mestres.

Porto, 29 de agosto de 1768

 

 

Isto dizia o Porto Illustrado, de junho de 1863; mas o camartelo do progresso, de então até hoje, encarregou-se de suprimir estas relíquias do velho Porto. Qual mal fazia à cidade a conservação do arco do postigo do Sol?»

*

 

 

II - Uma memória de 1926

 

«Queira o leitor acompanhar-me. A visita é perto e não o cansarei. Sairemos da Praça da Batalha, enquanto não vem o carro eléctrico da linha 17, cuja chegada está para demora, passaremos ao lado do sul do teatro de S. João e pela frente do Quartel General e Casa Pia e, deixando ao nosso lado esquerdo a Rua do Sol e o Recolhimento das Meninas Desamparadas, encaminhar-nos-emos para a Avenida Saraiva de Carvalho, e em frente ao Dispensário faremos alto. Terminou o passeio.

 

O leitor, se é leitor costumado de O Tripeiro, está farto de saber que o Porto teve duas cinturas de muralhas de defesa: A mais antiga e menor - a do Burgo - (...) e a mais moderna, (chamada Fernandina, por se haver concluído no reinado de D. Fernando), de muito maior perímetro, porque a cidade tinha crescido em tamanho. [3]

(...)

A Porta da Batalha era à entrada de Cima de Villa; a Porta de Carros, no largo da Feira de S. Bento; o Postigo de Santo Eloi, nos Lóios; a Porta do Olival, na Cordoaria; a Porta Nova ou Porta Nobre, próximo a Miragaia, e a Porta do Sol, no ponto onde pedi para nos determos, isto é, em frente ao Dispensário.

 

Repare o leitor para a gravura que acompanha estas linhas. Ao centro verá a Porta que uma Câmara de conspícuos vereadores entendeu mandar deitar abaixo em 1875 para se ampliar o edificio da Casa Pia. [4]

 

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i2 A Porta do Sol aqui devidamente acompanhado com estruturas ainda hoje existentes: ao seu lado esquerdo o mirante de Santa Clara, uma antiga torre da muralha que ainda hoje existe à face da Rua Saraiva de Carvalho; à direita o edifício da antiga Casa Pia portuense (ver uma mais completa descrição mais abaixo).

 

Chamava-se Porta do Sol, por que numa das faces do tímpano tinha esculpida a figura de um sol com os raios respetivos. (...) Primeiramente chamou-se Postigo do Carvalho ou dos Carvalhos e depois de Santo António do Penedo, por causa de uma ermida deste santo que aí se construiu.

 

Em 1768 achava-se em completo estado de ruína. O governador D. João de Almada e Melo fê-la demolir e mandou edificar em seu lugar, uma nova, tal como a representa a gravura, ornamentada com o sol em que falei e com esta inscrição latina:

 

SOL HUIC PORTAE

JOSEPHUS LUSITANO IMPERIO

JOANNES DE ALMADA E MELLO

PORTUCALENSE URBI FINITIMISQUE

PROVINCIIS AETERNUM

JUBAR GANDIUM PERCUNE

 

A gravura que ilustra esta página [ver i2] é a reprodução de uma outra feita a lápis pelo antigo e muito considerado professor de desenho Snr. Francisco José de Sousa, e copiada a crayon, para O Tripeiro, com a sua bem conhecida aptidão artística, pelo meu querido amigo e colaborador artístico Snr. José Augusto de Almeida.

 

Por ela poderemos muito bem ficar fazendo uma ideia da disposição do local em 1859.

 

(...) Do lado esquerdo, ao fundo, vê-se uma parte do Convento de Santa Clara, no qual funciona presentemente o Dispensário; mais à frente, o mirante das freiras, que ainda lá existe, actualmente sem cobertura, e no primeiro plano um barracão baixo. Como, ao tempo, na cidade não havia quartel para cavalaria permanente, era nos barracões do Largo da Policia que se recolhiam as praças e os solípedes dos destacamentos de cavalaria vindos, de quando em quando, de Bragança e Chaves, para aumentar a guarnição do Porto. No do lado esquerdo aquartelavam-se as praças e no da direita os animais.

 

Junto à Porta do Sol, do lado direito, vê-se uma parte do edifício da Casa Pia. Separada dele, por uma rua, a casa para alojamento dos oficiais de cavalaria, nos baixos da qual existia um depósito de palha, e à frente as cavalariças. Um cruzeiro com a imagem do Senhor dos Aflitos, cruzeiro que, mais tarde, foi mudado para junto da capela de Santo António do Penedo, completa o quadro.

 

Basta de maçada, leitor. Quando quiser pode voltar à sua vida e ir contemplar o chavascal onde se ergueu a Capela da Batalha, se não preferir ir tirar o retrato á la minute ou tomar um copo de cerveja gelada à Cervejaria Bastos, enquanto espera pelo elétrico n.º 17. (...) »

H.P. in O Tripeiro, 1926

 

 

III - O local e a sua evolução, visualmente falando...

 

Eis algumas imagens sobre a evolução do lugar onde a Porta do Sol se implementava, comparativamente com a nossa época.

 

ab.jpg

i3

 

i3 Na primeira imagem vê-se a subida para a Porta do Sol quando a rua Saraiva de Carvalho ainda não existia, e uma rua mais estreita - a de Santo António do Penedo - ligava a rua Chã à dita entrada e saída da cidade. Assinalo a laranja com um retângulo o Palacete do Visconde de Azevedo (ainda existente) e com uma seta verde um outro edifício que fora de um Miguel Brandão da Silva. Este último estava encostado à Capela de Santo António do Penedo, que foi também ela demolida por esses anos. Iniciada a destruição de toda esta área em 1875 - precisamente com a demolição da Porta do Sol - em 1886 desapareceria quase tudo o resto. Motivo: criar novo e desafogado acesso ao tabuleiro superior da Ponte D. Luíz, ficando como se apresenta na atualidade na segunda imagem.

 
Abaixo (i4) temos uma planta do século XIX da área aqui tratada. Com as mesmas cores são assinaladas as edificações da primeira imagem. Contudo, agora é também assinalada a Capela de St. António do Penedo que, note-se, não era propriedade dos mesmos donos da casa que a ela se adossava (seta verde).
 

Planta_1830.jpg

i4

 

 

A i5 mostra a localização de: a laranja o mesmo ângulo que surge na primeira imagem, a vermelho, o lugar por mim estimado (aceito rebate) da existência da Porta do Sol, o circulo verde aponta o local do edifício adossado à Capela de Santo António do Penedo e a azul o da dita capela. Por curiosidade, marquei com a estrela rosa o local onde foi instituída a "Feira da Ladra" no Porto (à imitação da lisboeta), cujo terreno aparece delimitado por um muro na imagem da parte II.

 

2.png

i5

Na i6, que complementa a anterior, verificamos que a Porta do Sol ficaria junto ao local onde hoje se encontra o quiosque embutido no muro.

3sol.png

i6

 

Na i7 e i8 temos novamente uma planta do como era a área imediatamente fora da Porta do Sol (conhecida por séculos como Carvalhos do Monte), e tal como ela se encontra agora. O local onde estavam as cavalariças é actualmente ocupado pelo término do Eléctrico 22. Para que o leitor não se perca, assinalo a capela do antigo asilo das Desamparadas que servirá como ponto de referência para o resto.

 

Planta.jpg

i7 e i8

 

Finalizo com a "cereja em cima do bolo", isto é, uma fotografia - a única que conheço - da Porta do Sol. Aqui se pode vislumbrar, por entre a porta, parte dos edifícios mencionados acima (i9).

 

Porta do Sol_02.jpg

 i9

 

Compare o leitor com a i10, mais conhecida, onde se vê a base de um dos pilares da porta, assinalado em ambas as imagens. E por último faço a transição da i10 para a i11, assinalando a primeira torre ainda subsistente da muralha fernandina na paisagem atual.

 

carvalhosdomonte.jpg

i10 e i11

 *

 

 

IV - A arrematação da obra da Porta do Sol

 

Naquele que é um aditamento à publicação original de 2014, transcrevo devidamente adaptada para a ortografia atual, a arrematação da porta que temos vindo a estudar. Foi uma surpresa para mim descobrir esta pequena (e muitas outras) preciosidade num dos livros de arrematações de obras do Arquivo Municipal do Porto. Esta em particular vem lançada a fl. 25v e 26 do livro 4.

 

 

« Termo de arrematação da Porta do Sol que fez o mestre pedreiro José Francisco e o mestre pedreiro Caetano Pereira onde se acha o postigo de Santo António do Penedo.

Aos quinze dias do mês de maio de mil setecentos e sessenta e sete anos nesta cidade do Porto e Casa do Senado da Câmera onde assestiram o Doutor José Paulo de Souza Juiz de Fora do Cível e Vereadores atuais com assistência do Procurador da cidade e aí andando a lanços a Porta do Sol que de novo se abre em o postigo de Santa Clara, lançaram em a dita obra, depois de vários lanços em que tinha andado feita com as condições aqui declaradas abaixo o mestre José Francisco natural de Paranhos e o mestre Caetano Pereira natural da freguesia de Santo Ildefonso.

 

A saber:

- A alvenaria feita de pedra nova dando os ditos mestres cal, saibro, e tudo o mais por sua conta, a dous mil duzentos e oitenta reis a braça;

- Esquadria cada palmo a preço de setenta e nove reis;

- Molduras o palmo facial a cento e trinta reis;

- Palmo de roço cúbico a dez reis;

- Entulho a braça de mil palmos a trezentos reis.

 

E com estas condições se obrigaram os ditos mestres a dar a dita obra acabada por todo o mês de outubro dando-lha demolida, logo em o mês de maio, ou quando não depois da demolida a cinco meses; o que assinaram obrigando-se por sua pessoa e bens a satisfaze-lo, do que fiz este termo eu João de Faria de Sousa. »

[ASSINATURA DOS PEDREIROS]

 

Novo aditamento

Por ser igualmente relevante e porque se trata de uma complementaridade em relação à arrematação que lemos acima, poderá o leitor ler agora o termo de arrematação da demolição do postigo da muralha que antecedeu esta bonita porta, infelizmente também ela desaparecida (a pontuação é minha).

 

« Termo de demolição e desmancho da torre e muro do postigo de Santo António do Penedo que rematou o mestre pedreiro Manuel dos Santos

Aos vinte dias do mês de Maio de mil setecentos e sessenta e sete anos nesta cidade do Porto e casa do Senado da Câmara onde assestiram Dr.ª José Paulo de Sousa Juíz de Fora do cível e vereadores atuais com assistência do Procurador da cidade, aí andando a lanços a demolição e desmancho da torre e muro do postigo de Santo António do Penedo lançou nela Manuel dos Santos da freguesia de S. Martinho de Cedofeita e depois de vários lanços em que tinha andado a dita demolição da torre e postigo como também o arrumar toda a pedra que tirar de modo que não houvesse embaraço para a factura da nova porta que ali está determinado fazer-se, se lhe houve por rematada ao dito mestre pelo preço de quarenta e seis mil reis por tudo do que fiz este termo que ele assinou e eu João de Faria de Sousa o escrevi.

[Assinatura do Pedreiro] »

 

solei.jpg

i12 Pormenor de uma panorâmica da cidade onde se vê o convento de Santa Clara (1), a torre da muralha que ainda hoje existe junto à estátua de Arnaldo Gama (2), o edifício chamado da Casa Pia (3) e finalmente o frontão da Porta do Sol (4) que é claramente visivel abaixo do 4.

 

___________

1 - O nome mais antigo que conheço para este postigo é o de Postigo dos Carvalhos do Monte. A zona do convento das clarissas, onde se encontrava este postigo/porta, era bem mais fragoso até ao século XVIII, época em que se iniciaram obras de desmonte dos grandes penedos que por ali existiam; aliás a capela de Santo António do Penedo já desaparecida, era pelo seu nome indicador disso mesmo.

2 - De Santa Clara.

3 - Na realidade à época da sua construção a muralha gótica ou fernandina abarcou muito espaço ainda não urbanizado certamente tendo em conta a futura expansão da cidade o que veio a verificar-se mais de cem anos depois, no final do século XV mas sobretudo princípio do XVI.

4 -  «...foi um vandalismo quasi escusado, por que o edifício era bastante vasto e o monumento (que em nada estorvava o trânsito público, porque o vão do arco era amplo) pela sua elegância, adornava o sítio e era um padrão comemorativo do varão a quem o Porto tanto deve». Pinho Leal, in Portugal Antigo e Moderno, vol. VIII, pag. 285. Crê o autor deste blogue que a porta não foi deitada abaixo para se aumentar ao edifício da Casa Pia, mas sim para alargar o acesso à mesma por aquele lado (é o que me é possível concluir pela observação da planta na i7 quando comparada com a i8 [imagem do googlemaps]).

 

Última modificação: 17/10/2018

Um troço ignorado da muralha pré-românica

30.08.17

Em Dezembro de 2016 referi na publicação do blogspot intitulada  "Prenditus est Portugale ab Vimarani Petri" que num arruamento desativado desde o século XVIII - a viela de São Lourenço - que circundava pelo exterior a muralha antiga da cidade a oeste e que terminava junto da porta de Santa Ana, havia sido recolocado à vista um pequeno troço de muralha de aparelho construtivo aparentemente pré-românico.

A se confirmar, como parece ser o caso, estas pedras são as mais antigas que se encontram expostas. Ainda mais antigas do que o mais conhecido cubelo que temos nas costas da rua de D. Hugo (embora englobadas na mesma cerca defensiva) e seguramente mais antigas do que a torre do Barredo (casa que é reputada como a mais antiga ainda existente na cidade).

 

Ilustrando esta pequena descrição coloquei a imagem que se vê abaixo, tirada umas semanas antes. Esse caminho é a antiga viela de S. Lourenço que deixou de ter saída, como referi, ainda no século XVIII. O seu aspecto degradado advém da utilização que os proprietários das casas da rua dos Mercadores (à esquerda na foto) fizeram desse espaço, aproveitando-o como extensão das suas propriedades. Na altura esta imagem foi captada através da porta que impedia a passagem para aquela área. Contudo, meses volvidos e por intermédio do portal PORTO, obtive a excelente notícia que o espaço havia sido recuperado!

DSC02438.jpg

Com efeito, foi em finais de maio deste ano que aquele espaço foi devolvido à cidade devidamente reabilitado. Agora, turistas ou simples portuenses com curiosidade pelas antiqualhas da sua cidade dispõem de um bom acesso através do miradouro junto à igreja de S. Lourenço, deixando assim de existir o que se efetuava por baixo de um edifício da rua de Santana, que estava aberto  apenas a determinadas horas do dia para acesso dos moradores aos lavadouros que ali existem.

As imagens ilustrativas desta nova realidade que tirei logo em junho falam por si (ver abaixo). Mas não há nada melhor, caro leitor, do que deslocar-se ali pessoalmente e depois de contemplar a vista magnífica, deitar o olhar para aquelas humildes pedras que se falassem nos contariam histórias de mouros, normandos e presúrias cristãs...

010.jpg

Embora as casas da rua de Santana neste local em boa parte assentem na antiga muralha pré-românica/românica, apenas aquele pequeno troço na imagem mais à direita parece apresentar o seu aparelho original intocado. Não obstante no restante troço surgirem vários silhares de aspeto idêntico que terão sido reaproveitados após o desmonte da estrutura original. Foi pelo menos o que me sugeriu a observação no local (aguardo com expectativa os comentários dos meus leitores cujo mester seja a arqueologia).

Este troço passa despercebido, é verdade; mas se a Câmara Municipal do Porto ali colocar um marco explicativo conforme se vê junto a muitos outros monumentos, em breve isso deixará de acontecer. Pelo contrário, será valorizado e assumido como uma mais valia para a cidade acrescentando-lhe valor patrimonial.

 

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Nota: A fonte e inspiração para esta publicação veio de uma fotografia patente na obra A imagem tem que saltar: a igreja e o Porto no século XVI (1499-1606), do Dr. José Ferrão Afonso publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian/Fundação para a Ciência e Tecnologia (2014).