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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Museu Portuense

02.02.19

«O Patriotismo dirigindo o Museu Portuense

[Communicado]

O Director deste Estabelecimento, não contente com have-lo formado em local improprio, por muito humido e por não ter luz conveniente, fez prolongar aquella Galeria, apezar de taes inconvenientes: para isso, reconheceu-se, logo no acto de arrematar a obra, a necessidade de praticar um grande arco que ligasse a Galeria já existente á que se havia de seguir: devia esse arco fazer parte da obra arrematada; porem de tal sorte foi lavrado o auto d'arrematação que o arco foi feito não á custa do arrematante, como devia ser, mas sim á custa da Fazenda Publica, do que resultou ficar esta lesada em cento e tanto mil réis.

 

Lembra-se tambem o benemerito Director de fazer construir uma especie d'Estufa, a que deu o nome de Salla d'Estudo. A inutilidade de tal Salla é bem reconhecida, mas não é disto que pertendo fallar; porem do prejuizo que á Fazenda Publica resultou de tão ridicula obra. Apenas acabada a tal Salla (ou Gaiola) d'Estudo, abateu o tecto, e foi preciso construi-lo de novo; porem, em vez de ser á custa do arrematante, como culpado na falta de solidez necessaria na armação, foi á custa da Fazenda Publica, pagando-se ao mesmo arrematante o custo da segunda armação, e vindo assim a Fazenda a perder uns 400$ réis. Não pára aqui: quantos tem ido presencear aquela maravilha tem notado a inferioridade do solho, bem como a de toda a ferragem e da madeira das portas, portadas, e caixilhos das janellas; e tal tem havido que notou serem muitos dos caixilhos feitos de madeiras velhas do antigo edificio, e por isso pintados apenas postos.

 

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Imaginou o Director arrancar o lageamento de toda a antiga Galeria com o pretexto de o dispôr segundo outro desenho; do que se seguio não só consideravel prejuizo, mas ficar a Galeria com um lageamento ridiculo, muito ordinario, e de nenhuma duração; tudo a fim de que o da nova Galeria não fosse tão dispendioso para o arrematante, como seria se irmanasse com o antigo. O lageamento da antiga Galeria era todo de lousa d'Ançãa (vindo da igreja da Serra do Pilar) a qual lousa custa a 240 rés por palmo quadrado; a que se empregou em lugar della é de Valongo, que custa a 5 réis o palmo quadrado; e de mais a mais, cada uma foi rachada em laminas da grossura d'um pataco; assim, por exemplo, o que deveria custar ao arrematante 240$000 réis, vem-lhe a ficar por menos de  5$000 réis!!

 

Destes e de outros muito importantes serviços ainda o Director não pediu recompensa: tal é o seu patriotismo, que se lhe contenta que lhe remunerassem uma pequena parte do muito que tem feito a favor do Estado tendo tido apenas uma Commenda e tres Directorias: eu porem desejo que a Nação lhe seja grata: e assim como recordo estes, recordarei mais quando chegarem ao meu conhecimento.

(Um amigo dos verdadeiros Patriotas

 

In O Periódico dos Pobres no Porto de 22 de novembro de 1837 (ortografia original).

 

Nota: o Museu Portuense localizava-se nesta época no refeitório do antigo Convento de Santo António da Cidade dos frades Capuchos, a S. Lázaro; local húmido, impróprio e com pouco potencial de expansão.