Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Fragmentos visuais (3) : O que resta do palacete Barroso Pereira ?

05.02.19

Estupidamente demolido nos anos 60 do século passado, este edifício pertenceu a uma família de magistrados inseridos na pequena nobreza - que lhe deu o nome - e terá sido construído nos meados do século XVIII. Há quem atribua a sua traça a Nasoni, não sei se com algum fundamento ou bastante liberdade, uma vez que muito lhe é atribuído sem a comprovação da sua real autoria. Sobre o portal da entrada encontrava-se uma pedra de armas: «um escudo partido de Pereiras e Barrosos, com o seu elmo e seu timbre.» Esta família acabou por alienar o edifício em 21 de maio de 1874, sendo que nas últimas décadas da sua existência esteve o mesmo subdividido em escritórios e lojas de comércio, ainda que sem perder «ao menos exteriormente, na fachada principal, o seu ar de nobreza setecentista.». Devo acrescentar a estas palavras que era naquele edifício que se localizava a Fotografia União, responsável pela famosa imagem dos Vencidos da Vida[1].

 

Screenshot_1.png

i1 O palacete da praça Guilherme Gomes Fernandes nos derradeiros anos da sua existência (esq.) e o brasão que o encimava (dir.) - imagens do Arquivo Municipal do Porto

 

As palavras que atrás escrevi são quase todas elas parafraseadas do pequeno artigo que Eugénio de Andrêa da Cunha e Freitas insertas n' O Tripeiro de dezembro de 1962 a pp. 364. Eis as últimas linhas desse mesmo artigo:

«Diz-se que vai brevemente desaparecer, para nos seus chãos se edificar um desses grandes, horríveis, rendosos galinheiros, que estão manchando e desvirtuando o carácter portuense, da arquitectura da cidade. Esperamos que as entidades responsáveis pelo nosso património artístico, já tão escasso, não deixem cometer mais esse feio pecado. Pecado feio e inútil... salvo para os que se propõem usufruir dos correlativos benefícios financeiros.»

 

pilar.jpg

i2 Fotografia tirada pelo autor aquando da publicação no blogspot em 2016. Aquela fiada de pedras ao alto é hoje tudo o que resta da habitação apalaçada, que tantas histórias teria para contar.

 

Pois é, mas a demolição foi mesmo avante e no seu local nasceu um desses monstros de betão, feios desde o dia da sua inauguração e garantidamente uma menos valia para a cidade. Do palacete nada ficou, ou quase nada... encostado ao vizinho prédio oitocentista, está ainda um seu pilar que quem sabe serviu para escorar aquele, enquanto se construía o mamarracho. E sirva ele para recordar os senhores vereadores do urbanismo que crimes daqueles simplesmente não valem a pena pois não ajudam a escrever o seu nome na memória da cidade.

 

-ggf.jpg

i3 O mesmo pormenor se pode ver nesta imagem com poucos dias e de uma forma mais abrangente (em outro registo: como pode o busto de Guilherme Gomes Fernandes e seu pedestal apresentar aquele miserável aspeto, senhores vereadores?)

 

Devo aqui acrescentar um comentário interessante de um Anónimo colocado na antiga casa deste blogue, em 23.02.2016:

«Ainda conheci o antigo edifício, na altura ocupado por alguns consultórios médicos, se não me engano. Era triste e sombrio, mas não merecia o fim que teve. Hoje o quarteirão está votado à desertificação. Os habitantes não resistiram aos comércios efémeros e noturnos que lá se instalam. O centro da cidade necessita cada vez mais de pessoas. Uma cidade sem habitantes é como a carcaça de um navio abandonado. Ainda há muita coisa que me magoa nesta cidade...»

 

1 - Eça de Queirós, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro.

________________________

Publicado originalmente no blogspot em 13.02.2016