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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Entretenimento nas ruas e cafés em 1870

14.05.19

Este blogue pretende também centrar-se em textos, revivalistas ou contemporâneos, que nos façam pensar e imaginar como seria o mundo do século XIX. O que abaixo convido o leitor a ler é mais uma janelinha que se nos abre diante dos olhos para tempos idos, que por isso mesmo são recordados com saudade mesmo por quem já não os viveu. Este texto em particular ilustra-nos com o colorido habitual dos exímios colaboradores do jornal O Comérico do Porto (talvez o melhor jornal que circulou na cidade em qualquer tempo) o mundo dos entretenimentos ambulantes que durante muito tempo vaguearam pelas cidades, muitos deles expondo cruamente a miséria do viver dos seus performers.

 

*

 

«Apesar da estação correr pouco favorável para as diversões nas ruas e praças, o Porto está actualmente inçado [sic] de um enxame de arlequins, tocadores ambulantes, e outros indivíduos de igual género, que todos à porfia empregam os melhores meios de arranjar alguns vinténs. O povo reúne-se, gosta, diverte-se e também paga, às vezes. São pois de todos os géneros e classes esses passatempos, verdadeiramente populares, e para enumera-los todos seria necessário dispor de mais espaço do que podemos. No entanto aí vai uma ligeira resenha deles:

 

Principiando pelos arlequins, mencionaremos em primeiro lugar a companhia do Cavalo, como lhe chamam. Compõem esta de dous ginastas, ou o que quer que seja, um dos quais executa jogos malabares e outro dá cabriolas, e faz dançar nos pés uma tranca. Faz parte da companhia um cavalo amestrado, que, sob a indicação do mestre, diz as horas que são e indica a mulher mais bonita do grupo que se forma em torno, o que é sempre uma honra galhofeira para a indicada, que às vezes cora e baixo os olhos, quando o cavalo para defronte dela a fazer-lhe cumprimentos na cabeça. Há grande risota entre os espectadores, algumas mordidelas de beiços de inveja das excluídas e tudo isto acompanhado ao som da orquestra, que se compõem de um cornetim e um tambor.

 

Segue-se outra companhia, composta de dois arlequins e dois garotos, que acarretam, o primeiro um tambor e o outro uma mesa e todos os aprestos precisos para as sortes. Esta companhia nada oferece de notável, senão as figuras, quasi horripilantes, dos dous artistas. Ao vê-los, dir-se-iam mais dous esqueletos movidos por desconhecidas molas, do que seres viventes. Estes desgraçados, para conseguirem fazer alguma cousa, chafurdam-se na lama da rua, e ao levantarem-se, tornam-se ainda mais horrendos pela desordem e hediondez dos vestuários.

 

Vem em seguida a companhia da mulher das forças, de que já tivemos ocasião de falar em tempo; desde então a companhia não sofreu alteração, a não ser uma criança que a mulher das forças traz sempre ao colo, e que parece ser seu filho, companheiro já dos trabalhos dos seus pais, e herdeiro das lantejoulas e farrapos vermelhos dos mesmos, com que um dia se adornará talvez para honrar a arte dos seus progenitores.

 

Sucedem-se uma série de especuladores, entre os quais ocupa o primeiro lugar a dos pássaros sábios.
Este procura sempre pelo teatro das suas exibições as entradas dos mercados, e os lugares de mais trânsito. Os pássaros, que são todos canários, acham-se engaiolados, estando as gaiolas montadas sobre uma tripeça. Próximo da gaiola há uma pequena caixa de folha, cheia de papéis impressos e fechada, contendo, em 4 linhas, as sinas ou a revelação do futuro de qualquer indivíduo. Chega-se, e este é o caso mais ordinário, uma criada de servir, dá 10 reis ao homem, produto quasi sempre da economia que fez nas compras, aquele abre a porta da gaiola, sai um pássaro e com o bico tira um dos papelinhos da caixa de latão, que o homem entrega à criada, dando depois alguns grãos de painço ao sábio passarinho. Esta recompensa, é o segredo do engenho das pequenas aves. A criada, com o papel na mão, como quasi sempre não sabe ler, pede a alguém que lho leia e acha sempre quem se encarregue de lhe explicar as misteriosas palavras do conteúdo no bilhetinho. Feito isto, lá vai, ora risonha, ora triste, conforme a revelação ministrada pelo inocente canarinho. Esta especulação produz sempre bons lucros para os donos dos pássaros, o que quer dizer que há sempre um crescido número de parvos a consultar o oráculo.

 

Ocupa o segundo lugar a especulação dos barquilhos, verdadeiro engodo da rapaziada, que acha meio de arranjar os cinco reis, para os empregar naquela gulodice. O homem dos barquilhos para em qualquer lugar mais concorrido, e põe diante de si uma caixa, que tem na tampa uma espécie de roda da fortuna. O rapaz dá cinco reis, move a roda que faz girar uma pequena esfera; esta vai cair em uma cavidade, e segundo o número que ela tem pintado, ganha outros tantos barquilhos, que ele bem depressa faz chegar ao estômago. Os barquilhos são umas pequenas pastas feitas de massa de obreias [sic] com açúcar. Este petisco é a suprema palavra de pastelaria para o rapazio.

 

Há finalmente os músicos dos cafés, entre os quais merece o primeiro lugar a orquestre do Boca Seca. A orquestra do Boca Seca compõem-se de uma família; pai, mãe e uma filha. Aquele e a filha tocam ambos rebeca, e a mãe viola francesa. Entram todas as noutes nos principais cafés e tocam diversos trechos de óperas, marchas e músicas de dança, algumas pelos papéis que trazem. Chamam-lhe a orquestra do Boca Seca em consequência do regente, que é o chefe da família, estar a cada passo a dizer que tem a boca seca, mesmo depois de beber dez ou quinze, e às vezes mais, copos de cerveja, que os ouvintes lhe oferecem. Torna-se notável este homem senão pelo género musical, pela quantidade de cerveja que bebe em cada noute. Toda a família traja com bastante decência, e como alem disso se extremam do vulgar no que tocam, tem entrada em todos os cafés.

 

Seguem-se ainda dous outros músicos ambulantes espanhóis, pai e filha, que tocam, o primeiro bandolim e a segunda violão. Esta chama-se Manuelita e também canta. Além destes vagueia pela cidade uma multidão de crianças que onde quer improvisam concertos de harpa e rebeca, tormento tão flagelador como o dos realejos».

 

in O Comércio do Porto de 13 de Janeiro de 1870

 

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Originalmente publicado n'A Porta Nobre, no blogspot, em 13.12.2009

Um duelo que acabou num repasto e outro que não chegou a começar.

02.04.19

Eis uma curiosa notícia que saiu no Periódico dos Pobre no Porto, em 9 de Janeiro de 1845:

 

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«Ontem às 8 da manhã teve lugar no sítio do reduto do Covelo, subúrbios desta cidade, um duelo a tiro de pistola entre os Srs. Marquês de Chardonnay e António Augusto de Passos Pimentel, alferes de infantaria 6 (…) o n.º de espectadores seria 20 pessoas, a maior parte estrangeiros, ingleses, franceses e espanhois.

Tendo chegado ao sítio apresado (sic) as duas seges em que iam os desafiados, cada um com o seu respectivo padrinho, e apeando-se os padrinhos, e à vista dos espectadores, mostrando os cartuchos com as balas, carregaram as pistolas, as entregaram aos seus afilhados, marcaram o terreno e a 20 passos de distância os contendores descarregaram!!

Nenhum ficou ferido; a pistola do Sr. Passos errou fogo, não batendo o fósforo, e ele não quis segundar, e tendo-se anteriormente convencionado que qualquer que fosse o resultado se dariam por satisfeitos, os contendores se abraçaram e tornaram para casa da mesma forma que tinham ido, dizendo o Sr. Chardonnay - ficamos amigos, sirva-nos isto de lição a ambos.

Pouco depois o Coronel Passos almoçava com a família Chardonnay em casa desta por convite desta senhora. – o motivo desta estranha pendência foram certas ocorrências desagradáveis que em uma das noites passadas tiveram lugar numa soirée, e na presença de algumas famílias respeitáveis que ali se achavam.

O Sr. Chardonnay aceitou o desafio que lhe propôs o sr, António Augusto, e lhe deixou a escolha de armas.»

*

 

Daqui, deste nosso imberbe recanto do século XXI, estas pequenas notícias permitem-nos abrir uma acanhada vidraça colorida para aquele século que se escreve com as mesmas letras mas numa ordem diferente. E embora não seja relevante para a história da cidade, o pitoresco dela torna-a, a meu ver, minimamente interessante.

 

duel.jpg

 

Igualmente refiro, também por curiosidade e porque o tema é o mesmo, que neste mesmo volume do periódico, em 23 de janeiro, surge um outro duelo em que foi desafiado nada mais nada menos do que o futuro Barão de Forrester. Eis a descrição daquele jornal:

 

«Duelo Malogrado

Consta-nos que no Sábado se malograra um duelo entre o Sr. José James Forrester, e o Sr.  Wright, ambos súbditos britânicos. Houve quem denunciasse as intenções dos dous cavalheiros: o cônsul procurou dissuadi-los, mas debalde; então foi informado o Sr. juiz da Policia Correcional do acontecimento que ia ter lugar, e este magistrado deu logo as providencias de forma, que às 7 horas da manhã foram ambos presos, no momento em que saíam de suas casas para o lugar do combate.

A questão dos vinhos do Douro parece haver sido a causa da desavença.»

(NOTA: O PPP informa que extraíra esta notícia do seu concorrente, A Coalisão).

 

Estaria esta "questão" relacionada com o trabalho apresentado de forma anónima por Joseph James Forrester no ano anterior, onde este criticava os que adulteravam o vinho? Fosse essa razão qual fosse, ainda bem que este duelo não teve lugar, pois dessa forma a sua vida poderia ter sido interrompida aos 36 anos de idade. Não sei se este acontecimento da vida de tão distinta personalidade será conhecido. Mas aqui fica registada, para que possa pelo menos figurar como uma nota de rodapé num possível trabalho biográfico sobre este distinto inglês que tanto amou o Douro e que por ironia do destino por ele foi morto.

 

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Publicado originalmente n' A Porta Nobre (blogspot) em 08.11.2013 e 11.06.2016 : a imagem é meramente ilustrativa.

Reflexão sobre educação da mulher portuense

07.02.19

«DA EDUCAÇÃO DAS SENHORAS PORTUENSES

As damas do Porto teem em geral uma educação mui appoucada e mesquinha - Injustamente consideradas escravas dos homens, forão sempre olhadas como uma parte secundaria da Socidade, e havidas pos instrumentos passivos dos seus deleites e paixões - Assim impossivel era que estes cuidassem de as fazer devidamente educar; ao contrario pensavão, que era eminentemente decoroso ás familias e congruente com a utilidade publica o total desprezo da educação de suas espozas e filhas. É este um dos preconceitos populares, que em verdade se torna já escandaloso no actual estado da nossa civilização. Hoje que nós principiamos a concorrer em companhias e sociedades, hoje que folgamos de conviver uns com os outros em reuniões amigaveis, será por ventura hoje airoso aos pais, aos esposos e aos irmãos ouvir dizer de suas consortes, manas e filhas.... = São bellas senhoras, teem excellentes qualidades, tornão-se estimaveis por suas virtudes; mas são senhoras sem nenhuma educação intellectual, não sabem ler nem escrever, não pódem sustentar uma conversação sobre objecto nenhum que não sejão modas, enfeites, arranjos domesticos, intrigas de visinhas, &c. &c.=?

 

mulheres.jpg

 

Se os Portuenses gostam de ouvir isto, que realmente é verdade, então cumpre-lhes continuar a desprezar a educação das Senhoras; mas se pelo contrario, estas verdades os fazem córar de pejo, cuidem de imitar os povos cultos da nossa Europa; olhem para os cuidados que os Francezes e Inglezes desenvolvem na de suas filhas: estas são alli desde a infancia tratadas com um disvelo em nada inferior ao que se tem com os meninos, além dos primeiros elementos que em toda a parte são indispensáveis a uma Senhora, que um dia hade governar a sua familia, aprendem as meninas a leitura, a escripta, a contabilidade simples, a musica e alguns de seus exercicios instrumentaes, as linguas Franceza e Ingleza, a dança, a moral religiosa e civil &c; de maneira que tendo chegado aos 18 annos de idade está naquelles dois Paizes uma Senhora tão bem educada e desenvolvida no fisico e no moral que, mesmo não sendo mui rica, se enlaça facilmente com um homem, que é depois bom esposo e excellente cidadão - De proposito fallamos aqui ás Senhoras Portuenses, porque, em verdade, muito sentimos que as nossas virtuosas e bellas compatricias estejão ainda tão atrazadas na sua educação fisica e intellectual, e que sejão n'isto tão inferiores ás Lisbonenses - Em Lisboa causa já muito prazer ao viajante estrangeiro conversar com as Senhoras da classe meia, são geralmente sufficientemente instruidas e bem prendadas; reina alli no seio das sociedades uma jovialidade, ingenuidade e doçura, que realmente agradão; a par de muitas virtudes tem as Senhoras de Lisboa, todas as boas qualidades, que tornam aprasiveis companhias = Porque razão não hãode as mãis de familias educar no Porto as suas filhas com o justo disvelo que merecem? Quererão os Portuenses continuar a receber dos habitantes de Lisboa o amargoso mas justo sobrenome de Provincianos? O Porto é uma cidade eminentemente activa e industriosa; os seus habitantes são naturalmente bem morigerados e dados ao trabalho; existe entre elles um amor decidido pela liberdade e prosperidade nacional; estão hoje na estrada dos melhoramentos e do progresso: cumpre que se deem com toda a attenção e cuidade á educação dos seus filhos, e que d'ora em diante cuidem de lhes prestar todos os meios d'uma decente civilização.»

Artigo editorial do jornal de curta vida O Liberal Portuense, junho de 1837 (ortografia original).

 

Não nos escandalizemos com as palavras lidas atrás, pois que os tempos eram muito diferentes dos atuais. Para complementar aquelas palavras deixo umas outras, muito breves, da pena de um grande Estadista. Aliás um dos poucos que sempre soube estar acima de tricas partidárias ou interesses pessoais durante o conturbado período pós-1834, de seu nome José Xavier Mouzinho da Silveira:

 

«O grande é que o mundo moral acompanhe o desenvolvimento material, e para isto tudo depende de dar educação às mulheres, as quais têm muito maior importância do que se lhes tem dado - elas são o depósito do género humano, o princípio de toda a civilização e a base de todos os sentimentos benévolos e generosos, e antes dos filhos serem apreciados ou instruídos estão já por elas perdidos ou ganhos.»

(extraído do testamento de Mouzinho da Silveira, falecido a 4 de abril de 1849)

CSI à moda do Porto de oitocentos...

29.01.19

Confesso, caro leitor(a), que hesitei em colocar esta publicação, uma vez que ela nada traz de relevância para o conhecimento da história da cidade. E só a posso inserir na rubrica O Porto de oitocentos... pois a nada mais se presta do que a mostrar-nos o quão atrasada estava a sociedade da época em variadíssimos aspetos. Passou-se o caso em maio de 1838, por essa altura nos jornais portuenses esgrimiam acusações cartistassetembristas sobre os apupos e a pateada ao ex-deputado Morais Mantas, que veio ao Porto a negócios, no vapor do mesmo nome (com ele viera igualmente Manuel da Silva Passos)[1].

 

Assim, nesses anos de profundas convulsões, a política e os seus faits divers tem quase o exclusivo das discussões nos jornais. Esta correspondência é uma pequena janela para a sociedade da época fora da política. Ora o caso dá-se junto ao cemitério da Ordem da Trindade, cujo largo naquela altura - tirando os dias de feira - era muito sossegadinho... Ao contrário do habitual transcrevo o artigo com a sua ortografia original.

 

 

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«Correspondencia

O exame do cadaver d'um ourives da rua dos Caldeireiros desta Cidade, que morreo na Botica da Trindade, e que parece indubitavel ter sido envenenado.

 

Sr. Redactor, desejava que no seu periodico fosse inserido o seguinte.

 

Passava eu por acaso na Trindade quinta feira dez deste mez depois d'uma hora da tarde, e vendo á porta do cemiterio um grupo de gente aproximei-me e observei um cadaver, e junto delle um homem enfiando n'uma agulha d'albarda um barbante grosso. Soube dos circunstantes que, na quarta feira, entrára na Botica daquella Irmandade o individuo, que se autopsiava, em gritos, pedindo cousa que o fizesse vomitar, e azeite, e que, nesta situação horrivel, procurando com os dedos provocar o vomito o que nunca conseguiu, morrêra passados poucos minutos. Tambem nos dizem os visinhos que este individuo estivera de manhã fundindo ouro, que logo depois de jantar se queixara suppondo-se envenenado, e que, por ser conhecido na Botica da Trindade se dirigira alli a pedir algum remedio. A justiça competente veio inspeccionar o cadaver, e trouxe para esta analise ao sugeito que eu vi enfiando a agulha d'albardeiro, e que me disserão se chamava Aniceto, que também diz alguem ser cirurgião.

 

O ventre do cadaver tinha uma abertura que póde assemelhar-se a um T ás avéssas, cujo ramo horisontal estivesse lançado transversalmente por baixo das costelas e por cima do embigo e o ramo vertical descesse do apendix xiphoideo até encontrar o primeiro. Atravez desta abertura via-se o estomago muito cheio e vermelho, o epiplon (vulgo redenho) estava desviado para um lado e vião-se algumas circunvoluções dos intestinos cheias de gazes. No resto do cadaver ninguem tinha mexido. Julgava eu que a necropsia não tinha ainda começado, quando vi que o individuo que enfiava a agulha d'albarda principiava a coser com ella a abertura, que já mostrava bem a capacidade de quem a tinha feito! Perguntei então a este.. (nem sei o que) o que tinha apparecido? Respondeu-me - nada - (O que me não admirou porque elle nada tinha procurado). E então de que morreria? - d'apoplexia - (Certamente conheo-lha [sic] pelo pulso!!..) E o estomago não foi aberto? - mas não tinha senão liquido sem cheiro - (O jantar que, pouco antes da morte, tinha sido introduzido no estomago, e de onde nunca mais pôde sair, provabelmente tinha voado!) Admira-me, lhe disse eu, ter elle sido aberto e ainda estar tão cheio de gazes e tão volumoso?! - isso é porque eu lh'injectei agoa para o observar - (Por onde faria elle a tal injecção?.. pela boca não, porque estava cheia bem como os narizes d'escuma aonde ninguem tinha mexido; talvez seria pelo....) Mas a que será devida a vermelhidão do estomago? - isso não vale nada é porque já aqui está ha muito em contacto com o ar - (Ah! e não cahio alli um raio! Pobres defuntos, guardai-vos do ar que vos inflamma!...) Neste tempo estava terminada a sutura, que, por ser nova, podia chamar-se sutura d'albardeiro (não é do nome do seu autor..) e em quanto lavava seus resiveis instrumentos perguntou-lhe o Escrivão da diligencia, se a gordura teria sido a causa da apoplexia? ao que teve de resposta - sim, foi a gordura - bravo, disse o Escrivão, então eu que sou magro não tenho de morrer apopletico, ao que o tal inventor da nova sutura annuiu, e pouco depois se foi deixando estes sitios, que, póde ser, ainda agora écôão as muitas asneiras que ouvírão, sitios que tiverão o nojo de ver a um homem reputar albarda o cadaver d'um seu similhante!

 

trind.jpg

Imagem de meados do século XX mostrando o entrocamento da rua do Alferes Malheiro com a rua da Trindade e traseiras da igreja da Trindade (onde agora temos o edifício hospitalar da mesma Ordem). Seria por aqui o cemitério daquela instituição, onde póde ser, ainda agora écôão as muitas asneiras que ouvírão... ?[2]

 

 

A que conhecimentos não foi confiada uma parte tão importante da medicina? Com que facilidade se diz morto de apoplexia um homem, que disse por sua propria boca que estava envenenado, que lhe dessem azeite, e que conservou o juizo, movimento e sentimento até ao seu ultimo momento; e aquem finalmente só, e muito mal, foi inspeccionada a cavidade peritoneal!!.. Ah! Porto, Porto! Tens homens, e homens muito dignos que professão em Anatomia, e Medicina forense, e porque não os consultas em similhantes casos?..

 

A que terriveis consequencias não póde dar lugar o juizo d'um practico similhante, quando decida a causa de uma morte? o culpado, se existe algum, que dirija encomios ao autopsiante de sua victima! O Juiz, a quem o caso pertence, conheça a insufficiencia do practico a quem incumbio tão ardua tarefa!! O público aprenda a ser cauto contra o charlatanismo que ainda, não sei porque fatalidade, exerce destes encargos no Porto, aonde abunda esta praga contrária á saude,  e tão nociva á sociedade.

 

Sou Sr. Redactor de V.

Manuel Joaquim Alves Passos

Aluno do 4º ano Médico Cirúrgico do Porto»

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Extraído de A Vedeta da Liberdade de 14 de maio de 1838.

 

 

Pequena nota biográfica: Segundo o Dicionário Bibliográfico Português (tomo 6), Manuel Joaquim Alves Passos nasceu no concelho de Cabeceiras de Basto, tendo-se formado na escola Médico-Cirúrgica do Porto. Era, em 1862 quando o Dicionário foi impresso, professor no Liceu de Braga. Publicou em 1840 o curioso volume Estudo sobre alguns sinónimos da língua portuguesa.

 

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1 - Ocorrera o caso em S. Lázaro e na Batalha junto ao hotel onde se hospedava, na volta do passeio que este fizera até ao Prado do Bispo [agora Prado do Repouso]. Nos apupos estiveram envolvidos, entre outros, o verredor do Banco de Portugal e o famoso Barbeiro do Periódico dos Pobres no Porto. Notar que em 4 de abril havia-se jurado a nova Constituição de 1838 (de curta vida), na elaboração da qual colaborara.

2 - A imagem é meramente ilustrativa uma vez que todo o edificado que ali se vê, à exceção da igreja, ainda não existia à época a que se reportam os factos descritos.