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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

CSI à moda do Porto de oitocentos...

29.01.19

Confesso, caro leitor(a), que hesitei em colocar esta publicação, uma vez que ela nada traz de relevância para o conhecimento da história da cidade. E só a posso inserir na rubrica O Porto de oitocentos... pois a nada mais se presta do que a mostrar-nos o quão atrasada estava a sociedade da época em variadíssimos aspetos. Passou-se o caso em maio de 1838, por essa altura nos jornais portuenses esgrimiam acusações cartistassetembristas sobre os apupos e a pateada ao ex-deputado Morais Mantas, que veio ao Porto a negócios, no vapor do mesmo nome (com ele viera igualmente Manuel da Silva Passos)[1].

 

Assim, nesses anos de profundas convulsões, a política e os seus faits divers tem quase o exclusivo das discussões nos jornais. Esta correspondência é uma pequena janela para a sociedade da época fora da política. Ora o caso dá-se junto ao cemitério da Ordem da Trindade, cujo largo naquela altura - tirando os dias de feira - era muito sossegadinho... Ao contrário do habitual transcrevo o artigo com a sua ortografia original.

 

 

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«Correspondencia

O exame do cadaver d'um ourives da rua dos Caldeireiros desta Cidade, que morreo na Botica da Trindade, e que parece indubitavel ter sido envenenado.

 

Sr. Redactor, desejava que no seu periodico fosse inserido o seguinte.

 

Passava eu por acaso na Trindade quinta feira dez deste mez depois d'uma hora da tarde, e vendo á porta do cemiterio um grupo de gente aproximei-me e observei um cadaver, e junto delle um homem enfiando n'uma agulha d'albarda um barbante grosso. Soube dos circunstantes que, na quarta feira, entrára na Botica daquella Irmandade o individuo, que se autopsiava, em gritos, pedindo cousa que o fizesse vomitar, e azeite, e que, nesta situação horrivel, procurando com os dedos provocar o vomito o que nunca conseguiu, morrêra passados poucos minutos. Tambem nos dizem os visinhos que este individuo estivera de manhã fundindo ouro, que logo depois de jantar se queixara suppondo-se envenenado, e que, por ser conhecido na Botica da Trindade se dirigira alli a pedir algum remedio. A justiça competente veio inspeccionar o cadaver, e trouxe para esta analise ao sugeito que eu vi enfiando a agulha d'albardeiro, e que me disserão se chamava Aniceto, que também diz alguem ser cirurgião.

 

O ventre do cadaver tinha uma abertura que póde assemelhar-se a um T ás avéssas, cujo ramo horisontal estivesse lançado transversalmente por baixo das costelas e por cima do embigo e o ramo vertical descesse do apendix xiphoideo até encontrar o primeiro. Atravez desta abertura via-se o estomago muito cheio e vermelho, o epiplon (vulgo redenho) estava desviado para um lado e vião-se algumas circunvoluções dos intestinos cheias de gazes. No resto do cadaver ninguem tinha mexido. Julgava eu que a necropsia não tinha ainda começado, quando vi que o individuo que enfiava a agulha d'albarda principiava a coser com ella a abertura, que já mostrava bem a capacidade de quem a tinha feito! Perguntei então a este.. (nem sei o que) o que tinha apparecido? Respondeu-me - nada - (O que me não admirou porque elle nada tinha procurado). E então de que morreria? - d'apoplexia - (Certamente conheo-lha [sic] pelo pulso!!..) E o estomago não foi aberto? - mas não tinha senão liquido sem cheiro - (O jantar que, pouco antes da morte, tinha sido introduzido no estomago, e de onde nunca mais pôde sair, provabelmente tinha voado!) Admira-me, lhe disse eu, ter elle sido aberto e ainda estar tão cheio de gazes e tão volumoso?! - isso é porque eu lh'injectei agoa para o observar - (Por onde faria elle a tal injecção?.. pela boca não, porque estava cheia bem como os narizes d'escuma aonde ninguem tinha mexido; talvez seria pelo....) Mas a que será devida a vermelhidão do estomago? - isso não vale nada é porque já aqui está ha muito em contacto com o ar - (Ah! e não cahio alli um raio! Pobres defuntos, guardai-vos do ar que vos inflamma!...) Neste tempo estava terminada a sutura, que, por ser nova, podia chamar-se sutura d'albardeiro (não é do nome do seu autor..) e em quanto lavava seus resiveis instrumentos perguntou-lhe o Escrivão da diligencia, se a gordura teria sido a causa da apoplexia? ao que teve de resposta - sim, foi a gordura - bravo, disse o Escrivão, então eu que sou magro não tenho de morrer apopletico, ao que o tal inventor da nova sutura annuiu, e pouco depois se foi deixando estes sitios, que, póde ser, ainda agora écôão as muitas asneiras que ouvírão, sitios que tiverão o nojo de ver a um homem reputar albarda o cadaver d'um seu similhante!

 

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Imagem de meados do século XX mostrando o entrocamento da rua do Alferes Malheiro com a rua da Trindade e traseiras da igreja da Trindade (onde agora temos o edifício hospitalar da mesma Ordem). Seria por aqui o cemitério daquela instituição, onde póde ser, ainda agora écôão as muitas asneiras que ouvírão... ?[2]

 

 

A que conhecimentos não foi confiada uma parte tão importante da medicina? Com que facilidade se diz morto de apoplexia um homem, que disse por sua propria boca que estava envenenado, que lhe dessem azeite, e que conservou o juizo, movimento e sentimento até ao seu ultimo momento; e aquem finalmente só, e muito mal, foi inspeccionada a cavidade peritoneal!!.. Ah! Porto, Porto! Tens homens, e homens muito dignos que professão em Anatomia, e Medicina forense, e porque não os consultas em similhantes casos?..

 

A que terriveis consequencias não póde dar lugar o juizo d'um practico similhante, quando decida a causa de uma morte? o culpado, se existe algum, que dirija encomios ao autopsiante de sua victima! O Juiz, a quem o caso pertence, conheça a insufficiencia do practico a quem incumbio tão ardua tarefa!! O público aprenda a ser cauto contra o charlatanismo que ainda, não sei porque fatalidade, exerce destes encargos no Porto, aonde abunda esta praga contrária á saude,  e tão nociva á sociedade.

 

Sou Sr. Redactor de V.

Manuel Joaquim Alves Passos

Aluno do 4º ano Médico Cirúrgico do Porto»

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Extraído de A Vedeta da Liberdade de 14 de maio de 1838.

 

 

Pequena nota biográfica: Segundo o Dicionário Bibliográfico Português (tomo 6), Manuel Joaquim Alves Passos nasceu no concelho de Cabeceiras de Basto, tendo-se formado na escola Médico-Cirúrgica do Porto. Era, em 1862 quando o Dicionário foi impresso, professor no Liceu de Braga. Publicou em 1840 o curioso volume Estudo sobre alguns sinónimos da língua portuguesa.

 

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1 - Ocorrera o caso em S. Lázaro e na Batalha junto ao hotel onde se hospedava, na volta do passeio que este fizera até ao Prado do Bispo [agora Prado do Repouso]. Nos apupos estiveram envolvidos, entre outros, o verredor do Banco de Portugal e o famoso Barbeiro do Periódico dos Pobres no Porto. Notar que em 4 de abril havia-se jurado a nova Constituição de 1838 (de curta vida), na elaboração da qual colaborara.

2 - A imagem é meramente ilustrativa uma vez que todo o edificado que ali se vê, à exceção da igreja, ainda não existia à época a que se reportam os factos descritos.

Um Outeiro em S. Bento e uma notícia sobre nada

25.12.17

Caros leitores, neste dia de Natal, que espero esteja a ser agradável a todos vós, deixo-vos duas "notícias" do século XIX colhidas de dois jornais distintos. Vêm trasladadas do blogue O Porto de oitocentos que tem de ficar brevemente devoluto.

A primeira, muito possívelmente escrita por Camilo Castelo Branco, refere os célebres outeiros das freiras de S. Bento, também mencionados por vários outros autores e onde os poetas da altura se enamoravam das jovens ocupantes daquele mosteiro fundado por D. Manuel I.

A segunda é uma notícia banal; aliás, será notícia mesmo? Apenas aqui a coloco pelo pitoresco da história, pela pequena fresta que abre para aquele tempo. Talvez que quando foi publicada tivesse uma conotação subjacente que hoje não seja possível captar...

 

É enfim, para o leitor, uma publicação de "fácil digestão", própria para entreter cinco minutos enquanto se come uma rabanada! Bom Natal a todos!

 

 

DOIS ECLIPSES

«Para ontem à noite estava anunciado um outeiro e um eclipse: a lua não fez descortesia ao Borda d'Agua; as freiras de S. Bento deixaram por mentiroso o noticiador. Foram dous eclipses totais ao mesmo tempo. A nova abadessa, já nos constava, fez um protesto solene contra a poesia, receiosa de que, envolta em algum soneto, fosse hervada frecha de Deus vendado varar o peito de alguma das jovens seculares agasalhadas na casa do Senhor; mas quando anunciávamos a festa, tomávamos o papel do articulista do Times na questão de Nápoles, e incitávamos o público a ir com a sua presença no pátio, fazer o que dizem irá fazer a esquadra; obrigar aquele soberano absoluto, cujo ceptro é o báculo, a dar mais liberdade às suas subditas; deixa-las vir à grade; que mortas por isso estavam elas.

A pressão foi, porém, ineficaz; a abadessa mais política do que Fernando 2º deu-lhes uma festa, e em quanto os Manricos davam provas de que não eram bem cisnes, fugindo do pátio inundado por um aguaceiro, cantava-se lá dentro o miserere do Trovador.

Abstraindo desta pequena contrariedade, as filhas espirituais de S. Bento estão contentes com a abadessa, e posto que antecipadamente se falasse muito na candidatura desta e daquela, chegando-se mesmo a dizer, que uma estava em eminente risco de ser eleitora, sem para isso trabalhar, nem o saber e mesmo sem querer, votou tudo a carga cerrada, como se também lá por dentro houvesse chapéu mágico e lista de chapa.

Deus lhe conceda vida larga para dirigir aquelas ovelhas recolhidas no aprisco do Senhor.»

 

De O Clammor Publico de 14 de Outubro de 1856

 

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MORA AÍ PARA OS LADOS...

«Mora aí para os lados da rua Chã um sapateiro, que é, na frase do vulgo, mesmo o que se chama um larachista, quer dizer, um homem que conta muitos carapetões, que tem muito palavreado, que é o primeiro a rir-se daquilo que diz.

Ao pé dele mora um empregado público, que é casado com uma delambida que faz versos à lua, e não sabe deitar uns fundilhos numas celouras (sic), nem apontar uns coturnos. Ora, o pobre do empregado público, cujo chefe vai para a repartição logo pela manhã, e quer que os empregados entrem infalivelmente às 9 horas, tem muitas ocasiões em que quer ir para a repartição por serem horas, e não tem ainda almoçado(1), porque a cara metade está ainda deitada, sonhando com o sol e as estrelas. Acontece pois que o nosso homem sai sempre de casa com muito mau humor, porque se lembra que o chefe lhe dará algum sabonete se for mais tarde do que o costume.

O mesmo lhe acontece quando sai da repartição, porque então vai meditando o pobre do homem na grande tolice que faz um homem em casar com uma poetisa, que é cousa insuportável, muito mais para um empregado público.

Tanto à ida para a repartição como à vinda, passa ele pela porta do sapateiro, de que falamos no princípio do verídico facto que estamos narrando; e para ser perfeito o contraste, o sapateiro está sempre a rir-se quando o infeliz marido passa cabisbaixo.

Durava isto há muito; mas um destes dias disse o bom do homem de si para si:

- Isto é comigo.

Não me bastam as aflições que tenho; ainda o meu vizinho sapateiro escarnece de mim, rindo quando eu lhe passo pela porta! Mas deixa, que eu te ensinarei.

Foi direito ao regedor, e queixou-se do sapateiro. Este foi intimado e compareceram os dous contendores diante da autoridade, no dia seguinte.

O empregado público formulou a sua acusação, dizendo que vivia muito apoquentado pelas causas que o leitor já sabe, e que de propósito para lhe causar ferro, e atormenta-lo mais, o seu vizinho se ria dele.

- Há-de pois dizer-me, exclamou ele com violência e agarrando o sapateiro pela gola do casaco; há-de dizer-me para que se ri quando eu passo em frente da sua loja!

- Sim, sim, respondeu o sapateiro no mesmo tom; há-de você também dizer-me porque passa em frente da minha loja, quando eu me riu!

- Muito bem, disse o regedor, dirigindo-se ao empregado público; isso são apreensões suas, e bem se vê que este homem não se ri de V. S.ª mas, como ele diz, e diz muito bem, a questão é passar pela porta dele quando ele se ri. Ora, o remédio, é V. S.ª mudar de caminho quando vai para a sua repartição, e quando sai dela para se dirigir a casa.

Assim se fez. O empregado público mudou de caminho, e o sapateiro continua a rir-se quando tem vontade.»

 

In Jornal de Noticias (2) de 27 de Junho de 1865

 

1 - O almoço do século XIX corresponde ao nosso pequeno-almoço. Jantava-se aí pelas 14h, a meio da tarde havia a merenda e à noite a ceia (ainda hoje em galego almorzo e xantar tem os significados originais da palavra, tal como no Portugal do século XIX).

2 - Este não é o periódico que todos conhecemos e que ainda existe - fundado em 1888 - mas sim um outro que existiu apenas em 1865 e que está, em parte, na base do O Primeiro de Janeiro.

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Nota: Originalmente publicadas no blogspot em 24 de dezembro e 29 de dezembro de 2013, respetivamente.

O Porto em 1883 (n.º 4)

24.11.17

E eis que chegamos à conclusão da divulgação do texto de Ramalho Ortigão sobre o Porto, tal como o encontrou vinte anos depois de o ter deixado. Tenho para mim que esta é a melhor parte de um texto já de si bom.

 

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«É certo que na ordem intelectual, e na ordem industrial igualmente, o progresso da cidade está em muitos pontos de vista longe de condizer com o seu desenvolvimento material, no decurso dos últimos anos.


O comércio dos vinhos finos, por exemplo, esse grande veio da riqueza local, decai lamentavelmente de ano para ano, de dia para dia. A probidade impecável, a honradez proverbial que presidia a esta indústria, passou a ser matéria hipotética, ponto de contestação. Observa-se este fenómeno contrastante: por um lado a filoxera diminuiu consideravelmente a produção, por outro lado aumentou o consumo; entre estas duas influências combinadas para diminuir a oferta e para aumentar o valor deu-se precisamente o facto contrário: o preço desceu e a produção subiu! Que quer isto dizer? Que há duas espécies de filoxera, uma nos vinhedos do agricultor e outra nos armazéns do negociante; a primeira diminui e encarece a uva, a segunda embaratece e aumenta a droga. O bicho destinado a destruir dentro de poucos anos o famoso comércio dos vinhos do Porto não é o que ataca a videira, é o que ataca o vinho. A ruína não vem da cepa, vem da pipa. O flagelo mortal não está nas terras do Douro, está na Rua dos Ingleses. Compreende-se o mal enorme desta situação, perfeitamente declarada e manifesta, com relação ao comércio de um produto de condições especialíssimas, como o vinho, tanto mais difícil de acreditar quanto é mais fácil de corromper. O vinho adulterado, como o homem doente de nascença, tem a vida curta. A maior parte da beberagem que hoje se negoceia sob o nome de vinho do Porto não é suscetível de envelhecer. Como os relógios baratos, tem apenas equilíbrio para dois ou três anos. É preciso bebê-lo enquanto ele regula, isto é, imediatamente depois de pronto, como a sopa. Se o fazem esperar, por pouco que seja, ele embaça e transtorna-se. Mais alguns anos de experiência — o tempo preciso para os colecionadores de garrafeiras começarem a provar como velhos os vinhos presentemente novos —, e hão de ver que ninguém mais quererá vinho da véspera, e que os negociantes terão de o mandar pelas portas fresco do próprio dia, precisamente como o pão!


Antigamente os negociantes de vinho, no Porto e em Vila Nova de Gaia, constituíam verdadeiras dinastias burguesas, em que a honra do negócio e o respeito da firma passavam em brasão de pais a filhos e de filhos a netos. Esta aristocracia mercante acabou com o advento da nova aristocracia política. Antigamente contentavam-se em ser nobres pela probidade e criavam os filhos para mercadores como eles. Agora quase todos querem ser viscondes pela intriga e apelintram os filhos pedagogicamente para deputados. Enquanto ao vinho, dizem-me que as novas camadas sociais ainda sabem, no geral, bebê-lo; mas já não sabem negociá-lo.

 

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Outra indústria em decadência, como a do vinho, é a tão simpática indústria caseira da ourivesaria de Valbom. Os antigos feitores habilidosos que faziam ao alicate, em casa, às noites, depois do trabalho dos campos, as bolsas para dinheiro, os cordões de ouro e de prata, ou passaram a trabalhar na joalharia fina, à francesa, ou abandonaram o ofício, ou emigraram. As bolsas e os cordões ficaram apenas para os aprendizes, e são cada vez mais mal feitos, até que deixem de se fazer de todo, por não haver mais quem os queira.


Haverá talvez ainda, se procurarmos bem, um ou outro sinal de decadência nos costumes burgueses, no comércio marítimo, nas indústrias navais, na solidez da riqueza, no culto da arte.


A Sociedade de Instrução é, porém, um fenómeno significativo e consolador. Não sei até que ponto a simpatia do espírito público acompanha os esforços desta operosa associação, nem quais as forças de que ela hoje dispõe, mas creio que lucraria muito o engrandecimento da cidade e o futuro do seu comércio se uma liga de negociantes honrados e instruídos empreendesse na esfera prática uma renovação de movimento semelhante àquele que tão brilhantemente iniciou na órbita das ideias e nos domínios do ensino a associação a que me refiro.


Cumpre-me enfim consignar que o Porto perdeu esse bom e saudável cheiro provincial que tão especialmente embebe como de um aroma antigo a prosa dos seus grandes escritores — O Arco de Sant’Ana, de Garrett, e alguns dos romances burgueses de Camilo Castelo Branco e de Júlio Dinis.

 

Os antigos costumes locais desapareceram com as liteiras do Lopes e do Carneiro, com as cadeirinhas da Rua do Almada, com as tortas do pasteleiro da Rua de Santo António, com os carroções do Manuel José de Oliveira, com os Sanjoões da Lapa, do Bonfim e de Cedofeita, com as merendas pelo rio acima, com a política jacobina de José Passos, na sua casa da Viela da Neta, e com o velho botequim das Hortas, em que à noite se jogava o loto a vintém o cartão, e que, ao abrir-se uma das suas portas envidraçadas guarnecidas da cortininha de cassa branca, enchia de um picante perfume de calda de capilé e de café torrado a rua toda, sobre cujos lajedos dormiam estiraçados ao sol, entre os fardos de estopa e as molhadas de verguinha de ferro, os podengos cor de raposa e os galgos dos lojistas.


Aos domingos de Verão, o picheleiro do Souto, o guarda-soleiro da Bainharia, o ourives ou o mercador de panos da Rua das Flores, ia com o romper do dia à missa das almas a S. Francisco ou aos Congregados; comprava depois o melão, a melancia e as laranjas na Feira do Anjo, e, às seis horas da manhã, na frescura aquática do Cais da Ribeira, embarcava com a família em barco de toldo para a Oliveira, para Avintes ou para Quebrantões.

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O patrão, de quinzena de ganga e chapéu de esteira; as filhas à frente em toilette de musselina; a mulher ao lado, de saia de nobreza, luvas de retrós e a mantilha de lapim no braço, a jovem com as roupinhas novas de camponesa maiata; e o marçano atrás com niza de briche, camisa de linho caseiro, chinelas amarelas de grosso bezerro de Penafiel, e à cabeça o açafate dos víveres, discretamente cobertos com a alva toalha de olho-de-perdiz, e com o chapéu braguês, duro e afunilado, posto em cima, de remate ao festivo monumento campestre de gastronomia dominical: — o alguidar novo com a infalível sapateimda, as postas de pescada frita, as alfaces, as frutas e a inolvidável borracha de canada com o vinho maduro da Companhia, que há de ir refrescar ao fundo do poço, de borda ornada de craveiros e manjericos, debaixo dos álamos, enquanto a família em folga ripar a salada, sentada na erva.

 

 

 

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Bem sei caro leitor que estamos no final de um texto longo, nem sempre centrado na cidade, mas que nunca dela foge verdadeiramente pois tudo o resto é mero comparativo à realidade portuense. Finalizo sem mais enfastiar a sua paciência, até porque nada do que diga poderia substituir-se ao grande escritor que nos legou as linhas acima.

O Porto em 1883 (n.º 3)

21.11.17

Continuação da publicação anterior:

 

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«São espantosos os progressos do espírito de associação no Porto. Há ainda mais associações novas do que novas ruas. Perde-se a imaginação no abismo de tantas designações diversas: Sociedade Alexandre Herculano; Sociedade de Beneficência D. Luís I; Sociedade de Beneficência D. Pedro V; Associação Artística Portuense D. Maria Pia; Associação de Beneficência D. Fernando; Associação Humanitária Infante D. Augusto; Associação Liberal D. Pedro IV; Associação Liberal do Príncipe D. Carlos; Real Associação Restauradora de D. Maria Pia; Associação Vila-Novense Fé, Esperança e Caridade; Associação Católica; Associação Firmeza e Aliança; Associação Fraternal de Beneficência Universal; Associação Fraternal do Infante D. Afonso; Socorros Mútuos de Ambos os Sexos do Porto; Luz e Auxílio; Nova Euterpe; Sociedade Camoniana; Tecidos dos Operários do Porto; Amadores Vila-Novenses; Restauração de Portugal; Protetora do Porto; Beneficente Fúnebre Familiar; Sociedade Talma; Sociedade Parturiente Fúnebre; etc., etc., etc. Conto muito para cima de cem e afundo-me na voragem tenebrosa das mais devoradoras conjeturas ao querer interpretar o sentido dos títulos da maior parte delas.

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A de Socorros dos Sexos, Por exemplo, faz-me ourar a cabeça. A Tecidos de Operários arrepia-me os cabelos de horror. A divisa demagógica do sangue do último dos padres bebido pelo crânio do último dos reis parece-me aqui invertida para o lado dos conservadores, de um modo não menos canibalesco. Enquanto uns beneficiam toda a real família, desde o finado Pedro IV até à tenra vergôntea D. Afonso, apoiados na católica, nas três virtudes teologais de Vila Nova de Gaia, na luz e auxílio e, porventura, na própria firmeza e aliança, outros põem tabuletas de tecidos de operários e fornecem talvez dobrada de classes trabalhadoras com ervilhas aos restauradores da senhora D . Maria Pia!


Que fazem no entanto os beneficentes fúnebres familiares? Iluminam com lutuosos círios amarelos a agonizante bisca doméstica? Cantam aos pianos da Rua das Flores responsos de sepultura? Ensaiam no Jardim de S. Lázaro enterramentos simulados, de amadores, por companhias de defuntos curiosos? Organizam merendas de pingos de tocha pelo rio acima, em regatas de caixão à cova? Passeiam de corpo à terra, em berlindas de segunda classe, pela Rua de Trás da Sé? Ou cruzam os braços inertes no peito dos balandraus, hirtos, com dois rádios em X no laço da gravata, vendo circular os enganos e as ilusões da vida pela Calçada dos Clérigos em frente do António das Alminhas?!


Que devo pensar da Parturiente Fúnebre, ó meu Deus? Qual pode ser na terra a missão dos dignos sócios desta conspícua assembleia, adornada da sua respetiva presidência, dos seus dois secretários tesoureiro, cartorário e cobrador?... Desisto de o investigar.


Do número das sociedades recreativas desapareceu a velha Filarmónica, templo da antiga arte musical da cidade do Porto, santuário célebre onde receberam o primeiro batismo de semifusas tantos meninos prodígios e tantas donzelas que o Método Carpentier, manuseado com ardor, levou aos grandes triunfos da arte em convívio familiar na Rua da Fábrica, e onde se coroaram com os seus primeiros louros tantos músicos célebres, como o Francisco Eduardo da Costa, o Francisco de Sá Noronha e as grandes dinastias artísticas dos Ribas, dos Arroios, dos Napoleões.


Persistem ainda o Clube Portuense e a Assembleia Portuense, e há vários clubes novos, como o Real Clube Naval, o Real Clube Fluvial Portuense, o Clube Ginástico, o Clube dos Caçadores e o Clube dos Progressistas, assembleia de recreio fundada por operários e regularmente frequentada por eles e pelas suas mulheres.

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De entre todas estas associações, sintomas mais ou menos característicos do estado da civilização portuense, sobressai, como instituição de primeira ordem, em competência no País, a Sociedade de Instrução do Porto. Fundada para vulgarizar ideias e espalhar noções, a Sociedade de Instrução tem cumprido brilhantemente a missão que se propôs, e ela só, em quatro anos de existência, tem feito mais para o progresso dos conhecimentos do que os institutos oficiais de natureza análoga, todos juntos. No fim do primeiro ano da sua instalação, o presidente José Frutuoso Aires de Gouveia Osório resumia o movimento dos trabalhos empreendidos nos seguintes termos:

 

«O conselho científico, fiel intérprete da nossa lei, tem procurado com a mais louvável assiduidade estudar todos os meios de preparar fáceis soluções para os problemas da pedagogia, que absorvem a atenção de todos os pensadores. Na sua solicitude organizou o regulamento interno; fundou a nossa biblioteca e o seu gabinete de leitura, que hoje conta cento e catorze gazetas e publicações periódicas, e muitas centenas de volumes, alguns valiosos e raros; criou a Revista, de que se publicaram já seis números com duzentas e dez páginas; ordenou a aquisição de uma coleção-modelo para os jornais de infância, segundo o método Froebel; encetou a formação de uma bibliografia portuguesa de livros de ensino; começou o estudo e análise dos compêndios geralmente adotados, recomendando os melhores, o que é certamente um dos maiores serviços que pode prestar-se à pedagogia nacional; apreciou minuciosamente e louvou o compêndio de geografia, original do nosso muito ilustre sócio Augusto Luso; encarregou à provadíssima competência do nosso zeloso secretário-geral, o senhor Joaquim de Vasconcelos, um projeto de organização do ensino técnico com aplicação às escolas de instrução primária; investigou e discutiu detidamente as condições do ensino primário e dos exames de admissão, nomeando uma comissão para formular o programa de um livro de leitura; considerou a importantíssima questão da ortografia nacional; finalmente, uma das duas secções prepara uma exposição de história natural, que será, como creio, o ponto de partida para a organização de um museu, onde se reunirão objetos e meios de estudo sempre necessários para os que pensam em alargar os limites da educação.

 

Depois deste discurso (1881) a Sociedade de Instrução do Porto levou a efeito, com grande êxito, a exposição de história natural, a exposição de cerâmica, a exposição de indústrias caseiras e a exposição de ourivesaria, factos de um interesse incomparável para o estudo da natureza em Portugal, para a história do trabalho industrial, dos costumes domésticos, das tradições artísticas e das aptidões plásticas da família portuguesa.


A magnífica exposição de louças nacionais e a das principais indústrias tradicionais do povo reuniram os mais numerosos, os mais raros, os mais importantes documentos do génio artístico e da filiação estética da raça lusitana. E todos ou quase todos esses documentos foram minuciosamente e zelosamente estudados por alguns membros da corporação e especialmente pelo secretário da sociedade e o seu principal boute-en-tain, o senhor Joaquim de Vasconcelos, o mais competente e o mais erudito dos nossos críticos de arqueologia e de arte. A Revista da Sociedade de Instrução publicou por ocasião de cada uma das exposições, organizadas sob a sua valiosa iniciativa, as mais interessantes e preciosas monografias sobre as rendas portuguesas, sobre a indústria da olaria, da faiança, da porcelana e da louça de barro grosso, sobre os estofos, sobre os móveis, sobre a joalharia, sobre as alfaias e sobre as vestimentas nacionais.

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Além de trabalhos originais contendo a análise de documentos inéditos e estudos de coisas novas, a Revista tornou conhecidas as mais completas bibliografias de todos os trabalhos correlativas esquecidos nas bibliotecas, nos arquivos e nos cartórios do País.

 

No tomo vastíssimo de informações preciosas prestadas aos estudiosos e ao público pela Sociedade de Instrução do Porto encontram-se ainda trabalhos especiais consideravelmente importantes sobre a reforma do ensino, especialmente do ensino artístico e industrial, sobre a organização das escolas, do professorado, das galerias e dos museus, sobre os costumes e as tradições nacionais, sobre a língua e sobre as formas populares da arte, sobre a aprendizagem por oficias, e enfim sobre todos os mais importantes problemas da pedagogia moderna.


Nem as duas casas do Parlamento na discussão das sucessivas leis de instrução primária e de instrução secundária, feitas, desfeitas, refeitas e contrafeitas durante os últimos vinte anos, nem a junta consultiva ou a Direcção-Geral da Instrução Pública, nem os ministros, nem os deputados, nem os chefes de repartição, nem as comissões de estadistas, de professores, de curiosos e de vadios, tantas vezes convocadas, reunidas e louvadas nas dependências oficiais do Ministério do Reino ou das Obras Públicas, produziram jamais coisa que se compare aos relevantes serviços despremiadamente prestados à educação pública pela livre e espontânea iniciativa da esclarecida e benemérita Sociedade de Instrução do Porto.»

 

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(continua)