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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

As litografias de Joseph James Forrester (1835)

15.11.19

Abaixo transcrevo um pequeno texto que descobri quando folheava um dos primeiros periódicos da cidade, o quase desconhecido jornal O Artilheiro, que no dia 4 de março de 1836 publicou o seguinte texto:

 

«BELAS ARTES

É com o sentimento do mais entusiástico amor da pátria, que lançamos mãos da pena para noticiar que a heroica cidade do Porto principia a desenvolver de si o gosto particular de fazer conhecer os magníficos pontos de vista, que a fazem saliente entre as mais pitorescas cidades da Europa. De gravuras representando algumas paragens do Porto, só temos notícia da grande e antiga estampa, de antes de 1790, de toda a elevação da cidade, vista do Choupelo, a qual foi depois resumida para a Descrição de Agostinho Rebelo da Silva [sic]; bem como de uma vista de S. João da Foz, na mesma descrição.

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i1

Há seis anos pouco mais ou menos, que numa obra periódica publicada em Londres, das principais cidades da Europa, se incluiu a cidade do Porto em um dos folhetos, contendo somente 4 vistas - de quatro diferentes pontos, duas ao nascente, e duas ao poente dela. Estava porém reservado para esta época, que Mr. Joseph James Forrester, mancebo inglês pertencente à casa comercial da firma aqui estabelecida com este sobrenome, principiasse a dar uma regular descrição de todas as belezas pitorescas do Porto, de que acabam de publicar-se duas partes, em 9 finíssimas estampas, gravadas primorosamente, e tiras em papel da China.

 

Os objetos escolhidos para princípio dessa coleção são: O Porto visto do alto da Serra da Arrábida, olhando para o nascente [ver i6]. O convento da Serra, visto do lado do sul fora da estrada que fechava a posição militar deste baluarte da liberdade no sítio de 1833, em um momento de ataque e defesa. A vista do anfiteatro de toda a cidade, desde as Escadas do Codeçal até à Porta Nobre, tomado o ponto de vista do sítio das Alminhas nos Guindais de Vila Nova. A vista de todo o lado da Serra, desde a Bateria da Eira, até à Bateria do Castelo de Gaia tomada do sítio em meio caminho da Corticeira [i2].

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i2

A vista do cais, e frontispício da escadaria e igreja de Vale da Piedade, tomada da barreira que lhe fica contígua[i1]. Uma vista tomada do muro do Jardim do Freixo, olhando pelo rio abaixo até às Baterias no alto e no Cais do Prado [i3]. Uma vista tomada do alto de Avintes, sobre a margem oposta, desde Valbom até ao Freixo [i4].

 

Além destas sete estampas, de cenas pitorescas em agradáveis pontos de vista, juntou-lhe o habilidosíssimo autor duas cenas domésticas, de merecimento igualmente distinto. O interior da paroquial igreja de S. Nicolau em ocasião da celebração da missa do dia[i5]. Uma cena no Mercado da Cordoaria, em ocasião de dia de Feira.

 

Por certo, que tudo quanto disséssemos de correção de desenho, beleza de edição, e merecimento geral da obra, seria gastar palavras supérfluas em elogios, que num lance de olhos se podem prestar vendo-se obra tão primorosa e tão lisonjeira para os portuenses, e seus admiradores. O autor juntou a estas 9 vistas do Porto, um do Castelo da Figueira, tomada da parte da terra, em posição que mostra abranger três ou quatro milhas de costa.

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i3

Nós não sabemos que Mr. Forrester tenha de venda estes dous cadernos, que abrangem as 10 mencionadas vistas: sabemos só que muitos dos seus amigos foram subscritores (em cujo número tivemos a honra de entrar) e que a subscrição foi de 4$800 reis. Não há nada mais barato, nem que tanto mostre o gosto e independência do autor, do que tratar ele de dar à luz estes ensaios de seu génio tão distinto em pintura de perspetiva, sem mais algum interesse, porque estamos certos de que estampas iguais, e do mesmo cunho, custam ordinariamente muito mais do dobro.

 

Como portuense, é nosso único fim agradecer por este modo publicamente ao Sr. Forrester este tributo da sua afeição a uma cidade, em cujo seio ele foi nosso companheiro no tempo do memorável sitio, defendido debaixo das ordens do imortal Duque de Bragança.»

 

No dia seguinte, o mesmo periódico publicava a seguinte adenda publicada no dia seguinte: «No artigo a respeito do merecimento das estampas da cidade do Porto por Mr. Forrester, escapou-nos mencionar, que também tínhamos notícia de uma vista da entrada do Rio Douro pelo Sr. Kopke.». E no dia 24 de Março surge também:

 

«Já n' O Artilheiro demos conta da publicação de várias vistas do Porto, pelo Sr. Forrester. Para que se não julgue que o nosso juízo foi apaixonado no todo, sabemos que uma das pessoas inteligentes e de gosto desta cidade, a quem foram mandadas, por se achar ao presente numa quinta, escreveu a um amigo o seu juízo crítico parcial sobre cada uma das estampas, o qual é o seguinte:

"Restituo as vistas e agradeço o obséquio: resta-me dizer o juízo que faço delas. Quanto ao desenho está bom - a litografia é da melhor que se faz em Inglaterra, mas de algumas Vistas não sei se foram escolhidos os pontos para as tomar.

A Vista da Arrábida para cima, não faz grande efeito: o ponto junto ao rio para dar a mesma vista, abrangendo ambas as margens, parecia-me melhor escolhido: se o A. tomasse o ponto para esta vista de cima da montanha da Torre da Marca, em forma que abrangesse a linda vista do Candal até ao rio, e para cima, parte de Vila Nova &c seria de muito melhor efeito.

A do interior da igreja de S. Nicolau, está muito exata e linda: é pena que não fosse antes o interior da antiga e bela igreja dos frades de S. Francisco, ou a de S. Bento.

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i4

A perspetiva do Freixo, apresenta o Seminário e a China, demasiado pequenos, e nada mais dos muitos cotages que seguem para cima: esta vista seria melhor toada da Pedra Salgada, abrangendo o Freixo quase na sua totalidade, o esteiro de Campanhã e suas imediações.

O convento da Serra no tempo do cerco, está excelente em todo o sentido.

A da cidade tomada do princípio da calçada da Serra, igualmente está muito boa: porém precisava para complemento, de outra vista da cidade tomada do alto da Bandeira, para abranger até à Lapa etc e outra tomada do castelo de Gaia, para abranger de Miragaia, às Virtudes, Hospital Novo, etc. Certo estou que quem tão bem soube desenhar as duas precedentes, igualmente o faria a estas, que em parte viriam a completar os três lados principais, donde o Porto precisa ser visto, e donde apresenta perspetivas diferentes.

A da feira da Cordoaria está linda e exata, mas se fosse tomada mais de longe, e não tanto no centro do local, talvez fizesse melhor efeito: talvez que do mercado do peixe, ou mais no Norte donde a vista abrangesse melhor espaço, seria melhor.

A de Santo António de Vale da Piedade está muito exata e boa.

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i5

A do Freixo parece demasiado pequena, e que se podia tirar mais partido deste belo edifício e local.

O Castelo da Figueira não o conheço; porém a vista é bela; só lhe acho lá um pescador, que me fez lembrar os napolitanos na bela peça do Massaniello: os portugueses não trazem botas, nem se ataviam tanto; ao menos os que tenho visto na maior parte das costas.

A Serra vista das Fontainhas está muito exata e linda."»

 

Creio, caro leitor, que as imagens serão conhecidas da maioria dos apaixonados pela história da cidade; não creio contudo que os textos  que aqui as acompanham sejam assim tão conhecidos (se o eram de todo!). São eles, principalmente, que aqui pretendo divulgar, no sentido de ancorar às imagens um esboço de uma contextualização das mesmas na época exata em que foram publicadas. Espero ter sucedido.

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i6

 

§ Originalmente publicado no blogspot em 29.07.2016, agora revisto.

O 'macadam' segundo Arnaldo Gama

31.08.19

Esta publicação poderia perfeitamente encaixar no blogue que extingui denominado O Porto de Oitocentos[1]. Trata-se de uma passagem de um famoso livro de Arnaldo Gama intitulado Um motim há cem anos. Nesta obra Gonçalo Antunes é um antiquário e investigador, amigo fictício(?) do narrador que este visita no Hospital do Carmo onde o Sr. Antunes residia havia dois anos. Na parte introdutória da história que o mesmo irá contar, discorre a personagem sobre a inovação do macadam que chegou às ruas do Porto por meados do século XIX e que nunca acolheu o agrado geral. Pelos anos 80 do mesmo século iniciou-se finalmente a sua substituição gradual por paralelepípedos de Canelas, sistema ainda hoje utilizado.

 

 

*

«- Antes de lhe chamar a atenção para a localidade, onde, ainda há pouco tempo, existia uma das mais importantes antigualhas do Porto, deixe dizer-lhe duas palavras a respeito do sistema de calçar as ruas usado em 1757. Nesse ano o Porto ainda não tinha a felicidade de ter ruas macadamisadas. Os pobres diabos dos tripeiros ainda não haviam tocado aquele grau de perfeita civilização, que lhes deu em resultado um sistema de pavimentar ruas, que, chovendo, os faz caminhar por entre lama até o joelho, e, fazendo vento, cospe de si turbilhões de poeira que os suja, e que os cega[2]. Em 1757 as ruas do Porto ainda eram calçadas por grandes e lisas pedras do magnífico granito, com que a natureza lhes fecundou o solo. Era um salão continuado; o pavimento das ruas atestava a opulência desta rica cidade. E assim se conservaram por mais trinta anos seguidos, até 1787, em que a câmara, em atenção à comodidade das carruagens, substituiu a obra majestosa dos nossos passados por um pavimento de seixos roliços, que no Porto se chamavam então burgos, e hoje se chamam bôgos. Deles ainda restam vestígios em algumas ruas menos importantes da cidade. Ficou-lhe à câmara desse tempo o juízo a arder com a lembrança; mas ainda mais lhe arderia a reputação, se a atualidade lhe não justificasse o tolo alvitre com o pulverulento macadame. Este então rematou a obra; foi oiro sobre azul. Que os ingleses preconizem o macadame como o mais económico e cómodo pavimento de estradas, e que nós lhes abracemos por este motivo a ideia, vá; é justo, é sensato. Que as nações, que não têm granito para pavimentar as ruas, as cubram de macadam tão perfeitamente combinado, que consigam por esta forma empedrá-las artificialmente, é natural, naturalíssimo. Mas que nós, que abundamos em granito, que o trazemos aí aos pontapés diante de nós, macadamisemos as nossas ruas só por tolo espírito de imitação, isto brada ao céu. E dizem que é por causa das carruagens e das bestas que as puxam! Pois a comodidade de cem, duzentos, mil trens, se quiserem, vale porventura a pena de estragar uma grande cidade e de incomodar uma população de cem mil habitantes? Que lucram eles com a comodidade de trezentas ou quatrocentas pessoas que podem andar de sege? E que direito têm, os que podem ter a comodidade duma sege, a incomodar as cem mil pessoas que a não podem ter, unicamente com o fim de juntar ao cómodo de ser levados nas pernas de outrém o gozo de ser doce e suavemente levados? Ah! Bom arrocho! E depois dizem que é por filantropia, por amor pelos pobres animais que arrastam as seges! Esta humanidade exemplar pela comodidade das bestas é perigosa para a reputação dos caridosos camaristas. Que homens! Que cabeças! A ideia faz-lhes honra; em nome dela a posteridade há de decretar-lhes as glórias do panteon da asneira.

O antiquário parou de novo, meneando gravemente a cabeça.


— Desafogada — continuou, finalmente — esta minha justa indignação.. (justa e justíssima porque sou uma das vítimas mais ofendidas do maldito macadam, em razão duma oftalmia que, por causa dele, sofri um ano a fio, e que me deixou, como vê, sem metade das pestanas que tinha nas pálpebras) ...»

 

*

 

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pormenor da rua das Taipas ainda macadamisada

 

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1 - Cujas publicações foram trasladadas para A Porta Nobre.

2 - Por este sistema as ruas necessitavam de manutenção permanente. Ficaram famosos os pipinhos da câmara municipal: funcionários que tinham por obrigação regá-las no tempo seco para que a poeira não tornasse impossível o trânsito de pessoas e animais. Outra queixa frequente nos jornais era a do constante pó que se metia dentro das casas nas ruas calçadas por este sistema.

Entretenimento nas ruas e cafés em 1870

14.05.19

Este blogue pretende também centrar-se em textos, revivalistas ou contemporâneos, que nos façam pensar e imaginar como seria o mundo do século XIX. O que abaixo convido o leitor a ler é mais uma janelinha que se nos abre diante dos olhos para tempos idos, que por isso mesmo são recordados com saudade mesmo por quem já não os viveu. Este texto em particular ilustra-nos com o colorido habitual dos exímios colaboradores do jornal O Comérico do Porto (talvez o melhor jornal que circulou na cidade em qualquer tempo) o mundo dos entretenimentos ambulantes que durante muito tempo vaguearam pelas cidades, muitos deles expondo cruamente a miséria do viver dos seus performers.

 

*

 

«Apesar da estação correr pouco favorável para as diversões nas ruas e praças, o Porto está actualmente inçado [sic] de um enxame de arlequins, tocadores ambulantes, e outros indivíduos de igual género, que todos à porfia empregam os melhores meios de arranjar alguns vinténs. O povo reúne-se, gosta, diverte-se e também paga, às vezes. São pois de todos os géneros e classes esses passatempos, verdadeiramente populares, e para enumera-los todos seria necessário dispor de mais espaço do que podemos. No entanto aí vai uma ligeira resenha deles:

 

Principiando pelos arlequins, mencionaremos em primeiro lugar a companhia do Cavalo, como lhe chamam. Compõem esta de dous ginastas, ou o que quer que seja, um dos quais executa jogos malabares e outro dá cabriolas, e faz dançar nos pés uma tranca. Faz parte da companhia um cavalo amestrado, que, sob a indicação do mestre, diz as horas que são e indica a mulher mais bonita do grupo que se forma em torno, o que é sempre uma honra galhofeira para a indicada, que às vezes cora e baixo os olhos, quando o cavalo para defronte dela a fazer-lhe cumprimentos na cabeça. Há grande risota entre os espectadores, algumas mordidelas de beiços de inveja das excluídas e tudo isto acompanhado ao som da orquestra, que se compõem de um cornetim e um tambor.

 

Segue-se outra companhia, composta de dois arlequins e dois garotos, que acarretam, o primeiro um tambor e o outro uma mesa e todos os aprestos precisos para as sortes. Esta companhia nada oferece de notável, senão as figuras, quasi horripilantes, dos dous artistas. Ao vê-los, dir-se-iam mais dous esqueletos movidos por desconhecidas molas, do que seres viventes. Estes desgraçados, para conseguirem fazer alguma cousa, chafurdam-se na lama da rua, e ao levantarem-se, tornam-se ainda mais horrendos pela desordem e hediondez dos vestuários.

 

Vem em seguida a companhia da mulher das forças, de que já tivemos ocasião de falar em tempo; desde então a companhia não sofreu alteração, a não ser uma criança que a mulher das forças traz sempre ao colo, e que parece ser seu filho, companheiro já dos trabalhos dos seus pais, e herdeiro das lantejoulas e farrapos vermelhos dos mesmos, com que um dia se adornará talvez para honrar a arte dos seus progenitores.

 

Sucedem-se uma série de especuladores, entre os quais ocupa o primeiro lugar a dos pássaros sábios.
Este procura sempre pelo teatro das suas exibições as entradas dos mercados, e os lugares de mais trânsito. Os pássaros, que são todos canários, acham-se engaiolados, estando as gaiolas montadas sobre uma tripeça. Próximo da gaiola há uma pequena caixa de folha, cheia de papéis impressos e fechada, contendo, em 4 linhas, as sinas ou a revelação do futuro de qualquer indivíduo. Chega-se, e este é o caso mais ordinário, uma criada de servir, dá 10 reis ao homem, produto quasi sempre da economia que fez nas compras, aquele abre a porta da gaiola, sai um pássaro e com o bico tira um dos papelinhos da caixa de latão, que o homem entrega à criada, dando depois alguns grãos de painço ao sábio passarinho. Esta recompensa, é o segredo do engenho das pequenas aves. A criada, com o papel na mão, como quasi sempre não sabe ler, pede a alguém que lho leia e acha sempre quem se encarregue de lhe explicar as misteriosas palavras do conteúdo no bilhetinho. Feito isto, lá vai, ora risonha, ora triste, conforme a revelação ministrada pelo inocente canarinho. Esta especulação produz sempre bons lucros para os donos dos pássaros, o que quer dizer que há sempre um crescido número de parvos a consultar o oráculo.

 

Ocupa o segundo lugar a especulação dos barquilhos, verdadeiro engodo da rapaziada, que acha meio de arranjar os cinco reis, para os empregar naquela gulodice. O homem dos barquilhos para em qualquer lugar mais concorrido, e põe diante de si uma caixa, que tem na tampa uma espécie de roda da fortuna. O rapaz dá cinco reis, move a roda que faz girar uma pequena esfera; esta vai cair em uma cavidade, e segundo o número que ela tem pintado, ganha outros tantos barquilhos, que ele bem depressa faz chegar ao estômago. Os barquilhos são umas pequenas pastas feitas de massa de obreias [sic] com açúcar. Este petisco é a suprema palavra de pastelaria para o rapazio.

 

Há finalmente os músicos dos cafés, entre os quais merece o primeiro lugar a orquestre do Boca Seca. A orquestra do Boca Seca compõem-se de uma família; pai, mãe e uma filha. Aquele e a filha tocam ambos rebeca, e a mãe viola francesa. Entram todas as noutes nos principais cafés e tocam diversos trechos de óperas, marchas e músicas de dança, algumas pelos papéis que trazem. Chamam-lhe a orquestra do Boca Seca em consequência do regente, que é o chefe da família, estar a cada passo a dizer que tem a boca seca, mesmo depois de beber dez ou quinze, e às vezes mais, copos de cerveja, que os ouvintes lhe oferecem. Torna-se notável este homem senão pelo género musical, pela quantidade de cerveja que bebe em cada noute. Toda a família traja com bastante decência, e como alem disso se extremam do vulgar no que tocam, tem entrada em todos os cafés.

 

Seguem-se ainda dous outros músicos ambulantes espanhóis, pai e filha, que tocam, o primeiro bandolim e a segunda violão. Esta chama-se Manuelita e também canta. Além destes vagueia pela cidade uma multidão de crianças que onde quer improvisam concertos de harpa e rebeca, tormento tão flagelador como o dos realejos».

 

in O Comércio do Porto de 13 de Janeiro de 1870

 

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Originalmente publicado n'A Porta Nobre, no blogspot, em 13.12.2009

Um duelo que acabou num repasto e outro que não chegou a começar.

02.04.19

Eis uma curiosa notícia que saiu no Periódico dos Pobre no Porto, em 9 de Janeiro de 1845:

 

*

«Ontem às 8 da manhã teve lugar no sítio do reduto do Covelo, subúrbios desta cidade, um duelo a tiro de pistola entre os Srs. Marquês de Chardonnay e António Augusto de Passos Pimentel, alferes de infantaria 6 (…) o n.º de espectadores seria 20 pessoas, a maior parte estrangeiros, ingleses, franceses e espanhois.

Tendo chegado ao sítio apresado (sic) as duas seges em que iam os desafiados, cada um com o seu respectivo padrinho, e apeando-se os padrinhos, e à vista dos espectadores, mostrando os cartuchos com as balas, carregaram as pistolas, as entregaram aos seus afilhados, marcaram o terreno e a 20 passos de distância os contendores descarregaram!!

Nenhum ficou ferido; a pistola do Sr. Passos errou fogo, não batendo o fósforo, e ele não quis segundar, e tendo-se anteriormente convencionado que qualquer que fosse o resultado se dariam por satisfeitos, os contendores se abraçaram e tornaram para casa da mesma forma que tinham ido, dizendo o Sr. Chardonnay - ficamos amigos, sirva-nos isto de lição a ambos.

Pouco depois o Coronel Passos almoçava com a família Chardonnay em casa desta por convite desta senhora. – o motivo desta estranha pendência foram certas ocorrências desagradáveis que em uma das noites passadas tiveram lugar numa soirée, e na presença de algumas famílias respeitáveis que ali se achavam.

O Sr. Chardonnay aceitou o desafio que lhe propôs o sr, António Augusto, e lhe deixou a escolha de armas.»

*

 

Daqui, deste nosso imberbe recanto do século XXI, estas pequenas notícias permitem-nos abrir uma acanhada vidraça colorida para aquele século que se escreve com as mesmas letras mas numa ordem diferente. E embora não seja relevante para a história da cidade, o pitoresco dela torna-a, a meu ver, minimamente interessante.

 

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Igualmente refiro, também por curiosidade e porque o tema é o mesmo, que neste mesmo volume do periódico, em 23 de janeiro, surge um outro duelo em que foi desafiado nada mais nada menos do que o futuro Barão de Forrester. Eis a descrição daquele jornal:

 

«Duelo Malogrado

Consta-nos que no Sábado se malograra um duelo entre o Sr. José James Forrester, e o Sr.  Wright, ambos súbditos britânicos. Houve quem denunciasse as intenções dos dous cavalheiros: o cônsul procurou dissuadi-los, mas debalde; então foi informado o Sr. juiz da Policia Correcional do acontecimento que ia ter lugar, e este magistrado deu logo as providencias de forma, que às 7 horas da manhã foram ambos presos, no momento em que saíam de suas casas para o lugar do combate.

A questão dos vinhos do Douro parece haver sido a causa da desavença.»

(NOTA: O PPP informa que extraíra esta notícia do seu concorrente, A Coalisão).

 

Estaria esta "questão" relacionada com o trabalho apresentado de forma anónima por Joseph James Forrester no ano anterior, onde este criticava os que adulteravam o vinho? Fosse essa razão qual fosse, ainda bem que este duelo não teve lugar, pois dessa forma a sua vida poderia ter sido interrompida aos 36 anos de idade. Não sei se este acontecimento da vida de tão distinta personalidade será conhecido. Mas aqui fica registada, para que possa pelo menos figurar como uma nota de rodapé num possível trabalho biográfico sobre este distinto inglês que tanto amou o Douro e que por ironia do destino por ele foi morto.

 

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Publicado originalmente n' A Porta Nobre (blogspot) em 08.11.2013 e 11.06.2016 : a imagem é meramente ilustrativa.