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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

CSI à moda do Porto de oitocentos...

23.11.19

Confesso, caro leitor(a), que hesitei em colocar esta publicação, uma vez que ela nada traz de relevância para o conhecimento da história da cidade. E só a posso inserir na rubrica O Porto de oitocentos... pois a nada mais se presta do que a mostrar-nos o quão atrasada estava a sociedade da época em variadíssimos aspetos. Passou-se o caso em maio de 1838, por essa altura nos jornais portuenses esgrimiam acusações cartistassetembristas sobre os apupos e a pateada ao ex-deputado Morais Mantas, que veio ao Porto a negócios, no vapor do mesmo nome (com ele viera igualmente Manuel da Silva Passos)[1].

 

Assim, nesses anos de profundas convulsões, a política e os seus faits divers tem quase o exclusivo das discussões nos jornais. Esta correspondência é uma pequena janela para a sociedade da época fora da política. Ora o caso dá-se junto ao cemitério da Ordem da Trindade, cujo largo naquela altura - tirando os dias de feira - era muito sossegadinho... Ao contrário do habitual transcrevo o artigo com a sua ortografia original.

 

 

*

«Correspondencia

O exame do cadaver d'um ourives da rua dos Caldeireiros desta Cidade, que morreo na Botica da Trindade, e que parece indubitavel ter sido envenenado.

 

Sr. Redactor, desejava que no seu periodico fosse inserido o seguinte.

 

Passava eu por acaso na Trindade quinta feira dez deste mez depois d'uma hora da tarde, e vendo á porta do cemiterio um grupo de gente aproximei-me e observei um cadaver, e junto delle um homem enfiando n'uma agulha d'albarda um barbante grosso. Soube dos circunstantes que, na quarta feira, entrára na Botica daquella Irmandade o individuo, que se autopsiava, em gritos, pedindo cousa que o fizesse vomitar, e azeite, e que, nesta situação horrivel, procurando com os dedos provocar o vomito o que nunca conseguiu, morrêra passados poucos minutos. Tambem nos dizem os visinhos que este individuo estivera de manhã fundindo ouro, que logo depois de jantar se queixara suppondo-se envenenado, e que, por ser conhecido na Botica da Trindade se dirigira alli a pedir algum remedio. A justiça competente veio inspeccionar o cadaver, e trouxe para esta analise ao sugeito que eu vi enfiando a agulha d'albardeiro, e que me disserão se chamava Aniceto, que também diz alguem ser cirurgião.

 

O ventre do cadaver tinha uma abertura que póde assemelhar-se a um T ás avéssas, cujo ramo horisontal estivesse lançado transversalmente por baixo das costelas e por cima do embigo e o ramo vertical descesse do apendix xiphoideo até encontrar o primeiro. Atravez desta abertura via-se o estomago muito cheio e vermelho, o epiplon (vulgo redenho) estava desviado para um lado e vião-se algumas circunvoluções dos intestinos cheias de gazes. No resto do cadaver ninguem tinha mexido. Julgava eu que a necropsia não tinha ainda começado, quando vi que o individuo que enfiava a agulha d'albarda principiava a coser com ella a abertura, que já mostrava bem a capacidade de quem a tinha feito! Perguntei então a este.. (nem sei o que) o que tinha apparecido? Respondeu-me - nada - (O que me não admirou porque elle nada tinha procurado). E então de que morreria? - d'apoplexia - (Certamente conheo-lha [sic] pelo pulso!!..) E o estomago não foi aberto? - mas não tinha senão liquido sem cheiro - (O jantar que, pouco antes da morte, tinha sido introduzido no estomago, e de onde nunca mais pôde sair, provabelmente tinha voado!) Admira-me, lhe disse eu, ter elle sido aberto e ainda estar tão cheio de gazes e tão volumoso?! - isso é porque eu lh'injectei agoa para o observar - (Por onde faria elle a tal injecção?.. pela boca não, porque estava cheia bem como os narizes d'escuma aonde ninguem tinha mexido; talvez seria pelo....) Mas a que será devida a vermelhidão do estomago? - isso não vale nada é porque já aqui está ha muito em contacto com o ar - (Ah! e não cahio alli um raio! Pobres defuntos, guardai-vos do ar que vos inflamma!...) Neste tempo estava terminada a sutura, que, por ser nova, podia chamar-se sutura d'albardeiro (não é do nome do seu autor..) e em quanto lavava seus resiveis instrumentos perguntou-lhe o Escrivão da diligencia, se a gordura teria sido a causa da apoplexia? ao que teve de resposta - sim, foi a gordura - bravo, disse o Escrivão, então eu que sou magro não tenho de morrer apopletico, ao que o tal inventor da nova sutura annuiu, e pouco depois se foi deixando estes sitios, que, póde ser, ainda agora écôão as muitas asneiras que ouvírão, sitios que tiverão o nojo de ver a um homem reputar albarda o cadaver d'um seu similhante!

 

trind.jpg

Imagem de meados do século XX mostrando o entrocamento da rua do Alferes Malheiro com a rua da Trindade e traseiras da igreja da Trindade (onde agora temos o edifício hospitalar da mesma Ordem). Seria por aqui o cemitério daquela instituição, onde póde ser, ainda agora écôão as muitas asneiras que ouvírão... ?[2]

 

 

A que conhecimentos não foi confiada uma parte tão importante da medicina? Com que facilidade se diz morto de apoplexia um homem, que disse por sua propria boca que estava envenenado, que lhe dessem azeite, e que conservou o juizo, movimento e sentimento até ao seu ultimo momento; e aquem finalmente só, e muito mal, foi inspeccionada a cavidade peritoneal!!.. Ah! Porto, Porto! Tens homens, e homens muito dignos que professão em Anatomia, e Medicina forense, e porque não os consultas em similhantes casos?..

 

A que terriveis consequencias não póde dar lugar o juizo d'um practico similhante, quando decida a causa de uma morte? o culpado, se existe algum, que dirija encomios ao autopsiante de sua victima! O Juiz, a quem o caso pertence, conheça a insufficiencia do practico a quem incumbio tão ardua tarefa!! O público aprenda a ser cauto contra o charlatanismo que ainda, não sei porque fatalidade, exerce destes encargos no Porto, aonde abunda esta praga contrária á saude,  e tão nociva á sociedade.

 

Sou Sr. Redactor de V.

Manuel Joaquim Alves Passos

Aluno do 4º ano Médico Cirúrgico do Porto»

*

Extraído de A Vedeta da Liberdade de 14 de maio de 1838.

 

 

Pequena nota biográfica: Segundo o Dicionário Bibliográfico Português (tomo 6), Manuel Joaquim Alves Passos nasceu no concelho de Cabeceiras de Basto, tendo-se formado na escola Médico-Cirúrgica do Porto. Era, em 1862 quando o Dicionário foi impresso, professor no Liceu de Braga. Publicou em 1840 o curioso volume Estudo sobre alguns sinónimos da língua portuguesa.

 

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1 - Ocorrera o caso em S. Lázaro e na Batalha junto ao hotel onde se hospedava, na volta do passeio que este fizera até ao Prado do Bispo [agora Prado do Repouso]. Nos apupos estiveram envolvidos, entre outros, o verredor do Banco de Portugal e o famoso Barbeiro do Periódico dos Pobres no Porto. Notar que em 4 de abril havia-se jurado a nova Constituição de 1838 (de curta vida), na elaboração da qual colaborara.

2 - A imagem é meramente ilustrativa uma vez que todo o edificado que ali se vê, à exceção da igreja, ainda não existia à época a que se reportam os factos descritos.

Um duelo que acabou num repasto e outro que não chegou a começar.

09.11.19

Eis uma curiosa notícia que saiu no Periódico dos Pobre no Porto, em 9 de Janeiro de 1845:

«Ontem às 8 da manhã teve lugar no sítio do reduto do Covelo, subúrbios desta cidade, um duelo a tiro de pistola entre os Srs. Marquês de Chardonnay e António Augusto de Passos Pimentel, alferes de infantaria 6 (…) o n.º de espectadores seria 20 pessoas, a maior parte estrangeiros, ingleses, franceses e espanhois.

Tendo chegado ao sítio apresado (sic) as duas seges em que iam os desafiados, cada um com o seu respectivo padrinho, e apeando-se os padrinhos, e à vista dos espectadores, mostrando os cartuchos com as balas, carregaram as pistolas, as entregaram aos seus afilhados, marcaram o terreno e a 20 passos de distância os contendores descarregaram!!

Nenhum ficou ferido; a pistola do Sr. Passos errou fogo, não batendo o fósforo, e ele não quis segundar, e tendo-se anteriormente convencionado que qualquer que fosse o resultado se dariam por satisfeitos, os contendores se abraçaram e tornaram para casa da mesma forma que tinham ido, dizendo o Sr. Chardonnay - ficamos amigos, sirva-nos isto de lição a ambos.

Pouco depois o Coronel Passos almoçava com a família Chardonnay em casa desta por convite desta senhora. – o motivo desta estranha pendência foram certas ocorrências desagradáveis que em uma das noites passadas tiveram lugar numa soirée, e na presença de algumas famílias respeitáveis que ali se achavam.

O Sr. Chardonnay aceitou o desafio que lhe propôs o sr, António Augusto, e lhe deixou a escolha de armas.»

 

Daqui, deste nosso imberbe recanto do século XXI, estas pequenas notícias permitem-nos abrir uma acanhada vidraça colorida para aquele século que se escreve com as mesmas letras mas numa ordem diferente. E embora não seja relevante para a história da cidade, o pitoresco dela torna-a, a meu ver, minimamente interessante.

 

duel.jpg

 

Igualmente refiro, também por curiosidade e porque o tema é o mesmo, que neste mesmo volume do periódico, em 23 de janeiro, surge um outro duelo em que foi desafiado nada mais nada menos do que o futuro Barão de Forrester. Eis a descrição daquele jornal:

 

«Duelo Malogrado

Consta-nos que no Sábado se malograra um duelo entre o Sr. José James Forrester, e o Sr.  Wright, ambos súbditos britânicos. Houve quem denunciasse as intenções dos dous cavalheiros: o cônsul procurou dissuadi-los, mas debalde; então foi informado o Sr. juiz da Policia Correcional do acontecimento que ia ter lugar, e este magistrado deu logo as providencias de forma, que às 7 horas da manhã foram ambos presos, no momento em que saíam de suas casas para o lugar do combate.

A questão dos vinhos do Douro parece haver sido a causa da desavença.»

(NOTA: O PPP informa que extraíra esta notícia do seu concorrente, A Coalisão).

 

Estaria esta "questão" relacionada com o trabalho apresentado de forma anónima por Joseph James Forrester no ano anterior, onde este criticava os que adulteravam o vinho? Fosse essa razão qual fosse, ainda bem que este duelo não teve lugar, pois dessa forma a sua vida poderia ter sido interrompida aos 36 anos de idade. Não sei se este acontecimento da vida de tão distinta personalidade será conhecido. Mas aqui fica registada, para que possa pelo menos figurar como uma nota de rodapé num possível trabalho biográfico sobre este distinto inglês que tanto amou o Douro e que por ironia do destino por ele foi morto.