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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Breves notas sobre o 'palacete' da Praça da Batalha

07.08.19

«Falemos agora de uma outra casa, a da Batalha, construída na esquina da Praça da Batalha com a Rua de Entreparedes, em fins do século XVIII por José Anastácio da Silva da Fonseca, fidalgo da Casa Real e cavaleiro da Ordem de Cristo (...).

 

Era também casa de grandes proporções, a cujo salão de baile só podia comparar-se, em extensão, o da velha Feitoria Inglesa.

 

Pertenceu seguidamente a Manuel Guedes da Silva da Fonseca Meireles de Carvalho, moço fidalgo da Casa Real, tenente-coronel de milícias de Penafiel, comendador das Ordens de Carlos III e de Isabel a Católica (...)

 

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i2 o palacete no início do século XX

 

Com a entrada das tropas liberais no Porto o Governo tomou conta do edifício e fez lá instalar diferentes repartições públicas. Também serviu de hospital de sangue. A família abandonou-o então e foi refugiar-se na casa da Aveleda.*

 

Bernardo de Sá Nogueira, depois barão, conde e marquês de Sá da Bandeira, gravemente ferido em combate, travado no lugar da Bandeira, em Santo Ovídio (Vila Nova de Gaia), teve de sujeitar-se à amputação do braço direito, feito na casa da Batalha. E o braço foi enterrado nos jardins, junto a um cedro, sobre cujos terrenos veio a construir-se, relativamente há pouco tempo, o atual edifício das encomendas postais.

 

Em 1842 a casa foi novamente restituída aos seus proprietários.

 

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i1 o palacete em 1833. Em 1861 a Câmara Municipal terraplanou a Praça da Batalha, indemnizando o proprietário por o obrigar a readaptar o edifício ao novo nivelamento

 

No dia 25 de fevereiro de 1863, podia ler-se no jornal «O Anunciador» (...), o anúncio de um grande leilão de mobílias a realizar no palácio da Praça da Batalha, 62 (...); rendeu esse leilão a quantia de 8.408$284 rs., importância muito avultada para a época.

 

A casa então já era pertença de Manuel Pedro Guedes da Silva da Fonseca Meireles de Carvalho, moço fidalgo da Casa Real com exercício no Paço, senhor da Casa da Aveleda (...), que o alugou ao Estado pela renda anual de 1.200$000 rs., e depois a vendeu, para instalação da estação dos Correios, Telégrafos e Telefones, que ainda lá se encontra, aguardando desde há muito tempo transferência para novo edifício, a construir no cimo da Avenida dos Aliados (...).

 

Há relativamente poucos anos, na administração geral dos Correios e Telégrafos não existia a escritura de compra, pelo que esse departamento do Estado chegou a suspeitar que o prédio não tivesse sido vendido, mas simplesmente alugado, e assim o comunicou à família Guedes. Ao cabo porém, de várias pesquisas (...), foi encontrado o respetivo documento na Torre do Tombo, não restando portanto nenhuma dúvida sobre a transação efetuada».

Excerto de um artigo do Brigadeiro Nunes da Ponte in O Tripeiro de fevereiro de 1952

*

 

Em 2007, sendo este edifício propriedade da Portugal Telecom, foi colocado à venda e posteriormente adquirido por um grupo hoteleiro coimbrão. Atualmente, no local onde existiu o palacete, existe um novo edifício que preserva a fachada do século XVIII bem como os arcos do átrio do seu antecessor, como se pode verificar no sítio do Hotel Collection Porto Batalha. Essas parcas pedras bem como as memórias escritas que nos deixaram as anteriores gerações, são tudo o que resta daquela mansão como legado para as gerações vindouras.

 

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i3 edifício que substituíu o palacete, preservando a sua fachada. Notar que os óculos superiores a algumas das janelas do primeiro andar não são originais. Pela análise das imagens existentes, podemos constatar que a fachada os apresenta apenas desde meados do século XX. Mais recentemente, aquando da construção do novo edifício, foi aumentada a fenestração a esse nível com a adição de duas pequenas janelas quadradas nas laterais do brasão bem como janelas retângulares encimando as restantes janelas do primeiro andar que não apresentavam óculos.

 

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* Os proprietários, partidários de D. Miguel, dadas as circunstâncias viram-se obrigados a abandonar a cidade.