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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A praça da Liberdade à época da revolução de 1820

por Nuno V. Cruz, em 16.12.18

Nas primeiras décadas do século XIX, a imprensa começava a dar os seus primeiros passos e um pouco por todo o lado iam surgindo publicações periódicas, a esmagadora maioria delas de vida efémera. No Porto, um ano após a revolta de 1820 um dos jornais existentes era o Patriota PortuenseLonge ainda do tipo de publicação que veremos surgir nos anos 40 e sobretudo 50 daquele século, nele se notam contudo já algumas notícias locais e não apenas a publicação de Decretos ou notícias de carácter nacional do Reino Unido (de Portugal, Algarve e Brasil). E nele se começavam a ver também publicadas as correspondências de leitores que aproveitavam para mostrar o seu descontentamento com aspetos e modos como eram conduzidos os assuntos da cidade.

Nos dois artigos abaixo essas mesmas opiniões servem atualmente como pequenas janelas para um Porto que começava por fim a expandir-se para fora das suas muralhas medievais, mas onde Massarelos e Cedofeita eram ainda denominados de subúrbios. Neste contexto a atual Praça da Liberdade iniciava o seu lento processo de regularização e transformação, que só teria conclusão com a construção do edifício do Banco de Portugal e a demolição dos palacetes[1] do topo norte para abertura da Avenida dos Aliados, mais de cem anos depois.

 

praçanova.jpg

i1 a Praça Nova com o aspeto aproximado ao de 1821 (parcial de uma planta de 1790). O 1 assinala o palacete adquirido em 1819 para Paços do Concelho; o 2 indica e igreja e restante edificado dos Congregados ainda com a escadaria original demolida em 1838. O 3 é a célebre Fonte da Natividade com o seu mercado em redor, tudo demolido em 1833. O 4 aponta-nos a viela do Polé, que ainda foi captada em foto (ver aqui) pois só desapareceu no início do século XX para dar lugar ao edifício do Banco de Portugal; e finalmente o 5 reporta ao convento dos Loios, acompanhado pela sua torre e pela muralha que naquele local fazia um curioso cotovelo.

 

Mas vejamos então quais eram as "polémicas" à volta da praça da Constituição, em 1821.

 

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Patriota Portuense, 24 de Novembro
«CORRESPONDÊNCIA de um tal Brás Cata-cego

«Em 23 de dezembro no ano próximo passado é que se publicou a Portaria da Junta Provisional do Supremo Governo do Reino para que a Praça Nova se chamasse, para o futuro, Praça da Constituição; que, no lugar mais acomodado da dita praça, se levantasse um monumento, executado em pedra, com desenho que melhor possa exprimir o grande acontecimento do memorando dia 24 de agosto; e para que a praça se aformoseasse mais e tivesse extensão e capacidade necessária para este objeto, se demolisse o edifício da Natividade: recomendando-se à Ilma. Câmara que pusesse em prática tudo o que já dantes se achava determinado a este respeito, a fim de que esta utilíssima obra se não demorasse.

Tem decorrido quase um ano, e só vimos trocar-se a denominação da praça, sem solenidade alguma, porque o regime constitucional não admite cerimónias. Em quanto a monumento e demolição do edifício, fica para a ressurreição dos capuchos; pois que agora há falta de operários e ressurgindo aqueles haverá gente para tudo. Bendito seja Deus, que assim se executa o que um Governo determina!

Mas, sr. redator, como a obra está embarrancada não se há-de perder tudo, visto que se lhe deu começo in illo tempore que a pedra, daí tirada, dava para aquilo com que se compram os melões: bem haja quem é dotado de astúcia, que em ninharias faz dinheiro, e o tempo só está para pouquidades! Portanto lembro que se deve conservar aquela tapagem que se acha na obra (que é bem bonita!), e acabando-se de terraplanar o sítio da fonte, tem a cidade regeneradora um côrro para touros, cavalinhos, ursos e elefantes, com que os forasteiros nos armam ao dinheiro: desta sorte não nos incomodarão pelas ruas com os seus bicharocos e gaitas de fole, e jamais se irão hospedar com eles em casas de pasto, habitações impróprias para tal canalha: as janelas servem para as senhoras, como mais medrosas; e para os homens faz-se um tablado no lugar da varanda: esta lembrança não é para desprezar, porque além da comodidade destes aventureiros da santa conveniência, serve de chamariz para as lojas do bom e barato: e é de esperar que ela tenha a breve decisão que tem tido as memórias e modelos para a construção do dito monumento.

A Ilma. Câmara fez certamente o que devia em renovar e ornar os Paços do Concelho em quanto o cofre tinha churume: em verdade, o interior do edifício tem belíssimas pinturas, gosto delicado nos tetos estucados, magníficos reposteiros, portas com ricos entalhos, etc; o exterior (aqui torce a porca o rabo!) é justíssimamente como um homem vestido à sebastianista, com um chapéu de copa alta (à constitucional) com uma pluma em cima, que é a primorosa e excelente estátua do Porto que, na sua mão de obra escusava tanta delicadeza para tanta altura. Porém, Deus perdoe a quem fez tal judiaria; que, depois de feita a tal obrinha, deu peco no cofre da cidade, que não anda para trás nem para diante... (...)

 

«»


Patriota Portuense, 29 novembro
CORRESPONDÊNCIA de resposta ao tal Brás Cata-cego

Estranhei que no n.º 279 do seu Diário o correspondente Brás se apelidasse Cata-cego, quando ele tem olhos tão espreiteiros! Porém se todavia ele é pesquisador, ainda lhe escapuliu da lembrança advertir o seguinte:

Há meses afixou-se um Edital para derrubar as barracas da feira no tempo perentório de oito dias; mas o tempo determinado foi-se, e após ele decorreram meses, servindo o Edital só para oprimir esquinas!

Pode ser que estorvasse esta providencia alguma medida político-lucratoria que as descaradas regateiras arranjassem com seus embustes, pois que para isso são amestradas; porém dado que assim fosse são elas diabólicas feiticeiras, capazes até de virar o mundo com o debaixo para riba! Eu as esconjuro; porque temo mais seus feitiços do que suas pragas, baldões e bravatas. Mas, sr. redator, pela chibança das regateirinhas há-de valer um cominho o Edital dos srs. Juízes Almotaçés, e o seu conteúdo ter o privilégio do caranguejo? E nós se quisermos transitar naquele sítio, havemos de vêr-nos abarbados com encontrões, e alcançarmos indulgência plenária para sair dele!

Eu conheço que as tais barracas servem de embelezar a nossa cidade, pois que nos apresentam um retalho das ruas de Constantinopla; mas o Brigadeiro N. Trant[2], não lhe importando belezas, pespegou com elas em terra a despeito das mesinhas, caramunhas, e feitiços das guapas regateiras. Ele tudo podia; porque além de pouco se lhe dar que galrassem, não temia feitiços, por neles não crer como protestante e não católico: assim, fazia sempre o que premeditava. Ora, eu não quisera desmanchar prazeres: mas se os tais casebres de madeira, são próprios só para os Turcos, mandem-se-lhes para lá os donos dos de cá, e a Justiça que os consente; assim ficaríamos livres dos tais empecilhos, e não se embespenharia e nausearia o público contra a falta de execução do celebrado Edital!

(...) Bem lembrado catará de quando todos os vendedores e vendedeiras dos mercados andaram em bolandas; ei-los já para aqui, ei-los já para ali, ei-los outra vez para cá, ei-los outra vez para lá; até que por fim todos tiveram o seu paradeiro.

Na praça de Santa Teresa ficaram os padeiros de pão de milho (vulgo broa): tanto uns como outros foram despedidos da praça da Constituição, para aquele lugar ficar amplo, não só por ser de muito trânsito, mas para se fazer a parada, render-se a guarda principal, etc: muito boa providência, esclamaram todos; porém muitos dias não eram passados, quando atrás do tanque desta praça se viram encouchadas algumas padeiras do pão de broa; e como aí se demorassem algum tempo, sem que a justiça dos Almotacés as enxergasse (pois que todos andam cegos com estas cousas), foram-se plantar com toda a cachimonia no sítio donde tinham saído as padeiras do pão molete; e lá se conservam muito empertigadas nas suas tripeças. As vendedeiras da sardinha, do bacalhau podre, das quentinhas, e algumas de molete, como lhes não fizessem bom gasalhado onde estavam, mui arteiras se fincaram ao pé das outras; e aí temos a entrada da praça entulhada com hum mercado de mixtiforios! Como ali hajam filhos de muitas mães, chovem por conseguinte os impropérios, pulhas, chufas, pragas e tudo o que é contrario à decência e bons costumes: e isto no centro da cidade onde continuamente passam famílias e pessoas honestas!

(...) A Câmara (composta de Fidalgos!!) está quase a expirar-lhe o prazo de sua governança; veremos agora se, com estas viravoltas constitucionais, temos Câmara constitucional (...); então veremos, executando-se o que um Governo constitucional determinou, derrubar-se o encantado edifício da Natividade, e alevantar-se o esquecido monumento constitucional; veremos também publicar-se as contas do cofre da Cidade, porque, se ele lhe pertence, é inconstitucional ocultar-se sua receita e despesa (...).»

 

Veja-se portanto que a preocupação destes artigos de opinião, nome que modernamente lhes daríamos, residia na Fonte da Natividade ou mais propriamente no comércio que ao redor dela existiam. Uma vez que nós próximos dez anos iríamos entrar num período muito complicado da história de Portugal, o que se havia projetado fazer, isto é, a demolição daquela fonte e trasladação dos comerciantes para outros espaços da cidade, teria de aguardar por 1832-33 e bem assim o pagamento das indemnizações aos donos das barracas prolongariam-se ainda no tempo por mais uns anos. Mas essa situação será explorada mais à frente, numa publicação dedicada exclusivamente à fonte da Natividade. Por agora deixo o meu caro leitor com os pequenos apontamentos que atrás leu, que andavam esquecidos em jornais amarelecidos pelo tempo.

 

 

1- Um deles serviu quase cem anos como Paços do Concelho.

2 - Nicholas Trant, oficial inglês que governou as Armas do Porto entre 1814-1818. Mais conhecido por Nicolau Trant uma vez que naquela época ainda era costume corrente aportuguesar alguns dos nomes de estrangeiros (veja-se o exemplo máximo de Niccolò Nasoni), foi a ele que foi dedicada a célebre planta redonda de George Balck.

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Publicado originalmente a 11.01.2015 no blogspot, agora revisto.

O bueiro da Natividade

por Nuno V. Cruz, em 31.10.18
Recordam-se os leitores de ler em crónicas do insigne historiador da cidade Germano Silva (creio que a notícia original surge na 2ª série de O Tripeiro) sobre uma remodelação dos aquedutos das águas ocorrido na Praça da Liberdade aí pelos anos vinte do século passado? E recordam-se também de ler que o povo dizia serem aqueles túneis para os frades se encontrarem com as freiras? Bom, disparates à parte que a imaginação popular por vezes cria na sua santa ignorância, verdade é que os subterrâneos existiram mesmo mas não seguramente com a intenção imaginativa que a eles se queria atribuir.
 
Em baixo podemos ler uma notícia de um periódico dos anos 30 do século XIX, onde esses túneis se viram envolvidos numa banal tentativa de roubo, mas de onde podemos extrair alguma informação preciosa sobre eles; sempre levando em conta que esta história é cerca de 100 anos mais antiga do que a remodelação que acima referi.
 
 
 
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«Todo Porto sabe que há um aqueduto geral chamado Rio da Vila, que vai desaguar ao Douro, e corre a descoberto desde a viela do Largo do Souto, até à Biquinha, pelas traseiras da Rua das Flores. Este aqueduto recebe em si as vertentes do regato de Liceiras, e os enxurros das ruas, que entram por bueiros abertos em várias partes, como no fim da rua de Santo António, largo da praça de D. Pedro, no sítio onde foi a Natividade, no lado dos Congregados, Caldeireiros, etc.
 
Estes bueiros tinham todos na sua permitiva (sic); isto é, anos há, travessões de ferro, que apenas deixavam passar as águas; e é tanto verdade, que às vezes, a terra e as areias arrastadas na corrente, os tapavam, e faziam inundações nas vizinhanças a ponto de ser necessário grande esforço e tempo para os desentulhar e deixar passar grande quantidade de povo, que era obrigado a interromper o seu trânsito em ocasiões de grandes bátegas de chuva. Alguns destes varões de ferro hão desaparecido de vez em quando, e ninguém tem prestado atenção a esta falta.
 
 

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i1 1- localização da antiga Fonte da Natividade / 2- traseiras do edifício 'das Cardosas', onde se constata que originalmente eram edifícios distintos apesar da fachada regular em comum / 3- local onde os diversos regatos se juntam formando o Rio da Vila. Notar que nos anos 30 do século XIX este edifício ainda não estaria concluído e nas suas traseiras o convento dos Loios ainda existia, sendo usado como quartel.
 
 
Ainda mais: o bueiro do sítio onde foi a Natividade, não só deixou de ter os ferros há muito tempo, mas está de tal maneira esburacado, que parece mais uma entrada de funda cova, do que bueiro para a água. Pode entrar uma pessoa sem grande dificuldade. Esta abertura, assim mais praticável, data do tempo da demolição da Natividade; época em que o tal bueiro esteve metido entre as pedras e entulho que na demolição se iam acumulando em redor, enquanto se não alimpou o sítio inteiramente; e então o buraco ficou como estava, e ninguém lhe prestou atenção, porque não houve motivo para isso. Um caso imprevisto veio porém dar celebridade ao bueiro do Rio da Vila no sítio da Natividade!
 
Domingo passado, em uma casa da Praça de D. Pedro, das que têm traseiras para a cerca do extinto Convento dos Lóios, seriam 2 para 3 horas da noite, sentiu-se rumor em uma pequena janela, ou postigo, que ao nível do teto da loja dá luz à parte detrás dela. Aplicou-se atenção; o rumor cessou; e abrindo-se pela manhã a portada que fecha a tal janela, viu-se que a vidraça interior estava fechada com a cravelha costumada, e nenhuma aparência fazia desconfiança.
 
Porém o tal rumor, pelo que agora se descobriu, foi originado por se tirar o betume de um vidro, e tentear-se um buraco que apenas serve para mostrar que é dia, o qual está aberto na porta ao direito do tal vidro que se tirou. Tornaram a por o vidro, com novo betume, depois de verem a grossura da janela para os seus planos, e como os vidros são abetumados pela parte de fora, ninguém tal viu, até ontem, que as circunstâncias fizeram inspecionar a janela.
 
Ontem às 3 horas da noite, tornou-se a sentir o mesmo rumor, no mesmo sítio, e ouviu-se tinir vidro quebrado. Então a gente da casa se levantou e pode conhecer que com um trado se faziam furos na janela.
 
Como a janela é forrada com chapas de ferro de arcos de pipas, deu lugar a operação dos ladrões, a tomarem-se medidas pelo lado da praça, pedindo auxílio à Guarda do Trem dos Congregados, a quem se ministrou um lampeão; (tudo isto da janela, para que não se abrisse a porta da rua ao direito do sítio da operação, e se espantasse a caça) e se lhe ensinou que fosse a escolta pedir entrada ao Quartel dos Lóios, para entrar na cerca, e pilhar os ladrões. Assim se fez. À baioneta calada caiu a escolta com ímpeto sobre o sítio do assalto, aonde estavam 4 homens. Dous deles tiveram a coragem de se lançar abaixo de uma alta parede, e os outros dous que estavam em cima da escada para chegar à janela, foram presos. Perguntados por onde entraram para esta cerca murada de todos os lados, apontaram para um bueiro, que está dentro da mesma, e que serve de escoadouro de águas no seu plano inclinado, tendo entrado eles dous pelo bueiro da Natividade, dizendo que não sabiam por onde tinham entrado os outros dous, os quaes já se achavam no sítio. E parece que talvez eles entrassem por onde saltaram!
 
 

liiber.JPG

i2 Esta imagem mostra-nos o lado da praça da Liberdade no início do século XX onde posteriormente foi erguido o Banco de Portugal. Com o n. 1 assinalo o edifício 'das Cardosas', onde os ladrões seguiram em peregrinação; e com o n.º 2 o casario do lado poente, onde creio que estaria o tal quarto subterrâneo (duas curiosidades já desaparecidas são a viela do Polé, que se vê na imagem e para a direita mas fora do enquadramento encontrava-se o tanque que substituíu a Fonte da Natividade). Notar que o tipo de construção que aqui se vê é típica do século XIX, contudo à data dos acontecimentos narrados - 1836 - provavelmente não teriamos o edificado totalmente com este aspeto(?); ainda assim creio ser a melhor imagem para ajudar a ilustrar esta publicação.

 
 
A escolta deixando seguros os presos teve a coragem de descer pelo bueiro e foi seguindo uma das seis ramificações em que diz que a certa distância se divide o aqueduto, e foi dar com uma casa subterrânea, com porta e fechadura que estava aberta! Dentro desta casa havia uma cama de palha, parecendo à escolta que um vulto fugia para um dos lados. A quentura da palha indicava que pouco antes ali estaria alguém deitado. Nesta casa estavam duas cadeira, alguns pipinhos de vinho, bastantes cebolas, uns paus como tocheiras de por à janela com tocos, em ocasiões de luminárias, e alguns estofos velhos, que dizem parecer ser de igreja... Esta casinhola tem comunicação para a casa de D. António de Amorim na Praça de D. Pedro, por cuja porta da rua veio a sair a escolta.
 
Tal é o facto, segundo por diversas vias nos informamos.
 
No sítio do roubo, existem dous vidros quebrados na vidraça, e três furos na portada, um que varou, e dous que vieram de encontro às chapas dos arcos que a forram.
 
Os presos atravessaram a cidade no meio de imensa multidão, quando foram à presença do Ministro de Polícia Correcional, e depois para a cadeia.
 
Todo o dia, grande ajuntamento concorria a ver o célebre bueiro, e não há mais em que falar nesta cidade.
 
Por esta razão, e para fazer rir os nossos leitores como se estivéssemos a ler a história do Gil Brás de Santilhana, resolvemo-nos a relatar o facto, para ver se alguém cuida em providenciar como convêm a similhante respeito!»
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Artigo extraído d' O Artilheiro de Quinta-feira, 24 de Março de 1836.
 
 
 
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Publicação originalmente colocada no blogspot em 03.09.2016, agora revista.