Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

O bueiro da Natividade

por Nuno V. Cruz, em 31.10.18
Recordam-se os leitores de ler em crónicas do insigne historiador da cidade Germano Silva (creio que a notícia original surge na 2ª série de O Tripeiro) sobre uma remodelação dos aquedutos das águas ocorrido na Praça da Liberdade aí pelos anos vinte do século passado? E recordam-se também de ler que o povo dizia serem aqueles túneis para os frades se encontrarem com as freiras? Bom, disparates à parte que a imaginação popular por vezes cria na sua santa ignorância, verdade é que os subterrâneos existiram mesmo mas não seguramente com a intenção imaginativa que a eles se queria atribuir.
 
Em baixo podemos ler uma notícia de um periódico dos anos 30 do século XIX, onde esses túneis se viram envolvidos numa banal tentativa de roubo, mas de onde podemos extrair alguma informação preciosa sobre eles; sempre levando em conta que esta história é cerca de 100 anos mais antiga do que a remodelação que acima referi.
 
 
 
*
«Todo Porto sabe que há um aqueduto geral chamado Rio da Vila, que vai desaguar ao Douro, e corre a descoberto desde a viela do Largo do Souto, até à Biquinha, pelas traseiras da Rua das Flores. Este aqueduto recebe em si as vertentes do regato de Liceiras, e os enxurros das ruas, que entram por bueiros abertos em várias partes, como no fim da rua de Santo António, largo da praça de D. Pedro, no sítio onde foi a Natividade, no lado dos Congregados, Caldeireiros, etc.
 
Estes bueiros tinham todos na sua permitiva (sic); isto é, anos há, travessões de ferro, que apenas deixavam passar as águas; e é tanto verdade, que às vezes, a terra e as areias arrastadas na corrente, os tapavam, e faziam inundações nas vizinhanças a ponto de ser necessário grande esforço e tempo para os desentulhar e deixar passar grande quantidade de povo, que era obrigado a interromper o seu trânsito em ocasiões de grandes bátegas de chuva. Alguns destes varões de ferro hão desaparecido de vez em quando, e ninguém tem prestado atenção a esta falta.
 
 

imaj.jpg

i1 1- localização da antiga Fonte da Natividade / 2- traseiras do edifício 'das Cardosas', onde se constata que originalmente eram edifícios distintos apesar da fachada regular em comum / 3- local onde os diversos regatos se juntam formando o Rio da Vila. Notar que nos anos 30 do século XIX este edifício ainda não estaria concluído e nas suas traseiras o convento dos Loios ainda existia, sendo usado como quartel.
 
 
Ainda mais: o bueiro do sítio onde foi a Natividade, não só deixou de ter os ferros há muito tempo, mas está de tal maneira esburacado, que parece mais uma entrada de funda cova, do que bueiro para a água. Pode entrar uma pessoa sem grande dificuldade. Esta abertura, assim mais praticável, data do tempo da demolição da Natividade; época em que o tal bueiro esteve metido entre as pedras e entulho que na demolição se iam acumulando em redor, enquanto se não alimpou o sítio inteiramente; e então o buraco ficou como estava, e ninguém lhe prestou atenção, porque não houve motivo para isso. Um caso imprevisto veio porém dar celebridade ao bueiro do Rio da Vila no sítio da Natividade!
 
Domingo passado, em uma casa da Praça de D. Pedro, das que têm traseiras para a cerca do extinto Convento dos Lóios, seriam 2 para 3 horas da noite, sentiu-se rumor em uma pequena janela, ou postigo, que ao nível do teto da loja dá luz à parte detrás dela. Aplicou-se atenção; o rumor cessou; e abrindo-se pela manhã a portada que fecha a tal janela, viu-se que a vidraça interior estava fechada com a cravelha costumada, e nenhuma aparência fazia desconfiança.
 
Porém o tal rumor, pelo que agora se descobriu, foi originado por se tirar o betume de um vidro, e tentear-se um buraco que apenas serve para mostrar que é dia, o qual está aberto na porta ao direito do tal vidro que se tirou. Tornaram a por o vidro, com novo betume, depois de verem a grossura da janela para os seus planos, e como os vidros são abetumados pela parte de fora, ninguém tal viu, até ontem, que as circunstâncias fizeram inspecionar a janela.
 
Ontem às 3 horas da noite, tornou-se a sentir o mesmo rumor, no mesmo sítio, e ouviu-se tinir vidro quebrado. Então a gente da casa se levantou e pode conhecer que com um trado se faziam furos na janela.
 
Como a janela é forrada com chapas de ferro de arcos de pipas, deu lugar a operação dos ladrões, a tomarem-se medidas pelo lado da praça, pedindo auxílio à Guarda do Trem dos Congregados, a quem se ministrou um lampeão; (tudo isto da janela, para que não se abrisse a porta da rua ao direito do sítio da operação, e se espantasse a caça) e se lhe ensinou que fosse a escolta pedir entrada ao Quartel dos Lóios, para entrar na cerca, e pilhar os ladrões. Assim se fez. À baioneta calada caiu a escolta com ímpeto sobre o sítio do assalto, aonde estavam 4 homens. Dous deles tiveram a coragem de se lançar abaixo de uma alta parede, e os outros dous que estavam em cima da escada para chegar à janela, foram presos. Perguntados por onde entraram para esta cerca murada de todos os lados, apontaram para um bueiro, que está dentro da mesma, e que serve de escoadouro de águas no seu plano inclinado, tendo entrado eles dous pelo bueiro da Natividade, dizendo que não sabiam por onde tinham entrado os outros dous, os quaes já se achavam no sítio. E parece que talvez eles entrassem por onde saltaram!
 
 

liiber.JPG

i2 Esta imagem mostra-nos o lado da praça da Liberdade no início do século XX onde posteriormente foi erguido o Banco de Portugal. Com o n. 1 assinalo o edifício 'das Cardosas', onde os ladrões seguiram em peregrinação; e com o n.º 2 o casario do lado poente, onde creio que estaria o tal quarto subterrâneo (duas curiosidades já desaparecidas são a viela do Polé, que se vê na imagem e para a direita mas fora do enquadramento encontrava-se o tanque que substituíu a Fonte da Natividade). Notar que o tipo de construção que aqui se vê é típica do século XIX, contudo à data dos acontecimentos narrados - 1836 - provavelmente não teriamos o edificado totalmente com este aspeto(?); ainda assim creio ser a melhor imagem para ajudar a ilustrar esta publicação.

 
 
A escolta deixando seguros os presos teve a coragem de descer pelo bueiro e foi seguindo uma das seis ramificações em que diz que a certa distância se divide o aqueduto, e foi dar com uma casa subterrânea, com porta e fechadura que estava aberta! Dentro desta casa havia uma cama de palha, parecendo à escolta que um vulto fugia para um dos lados. A quentura da palha indicava que pouco antes ali estaria alguém deitado. Nesta casa estavam duas cadeira, alguns pipinhos de vinho, bastantes cebolas, uns paus como tocheiras de por à janela com tocos, em ocasiões de luminárias, e alguns estofos velhos, que dizem parecer ser de igreja... Esta casinhola tem comunicação para a casa de D. António de Amorim na Praça de D. Pedro, por cuja porta da rua veio a sair a escolta.
 
Tal é o facto, segundo por diversas vias nos informamos.
 
No sítio do roubo, existem dous vidros quebrados na vidraça, e três furos na portada, um que varou, e dous que vieram de encontro às chapas dos arcos que a forram.
 
Os presos atravessaram a cidade no meio de imensa multidão, quando foram à presença do Ministro de Polícia Correcional, e depois para a cadeia.
 
Todo o dia, grande ajuntamento concorria a ver o célebre bueiro, e não há mais em que falar nesta cidade.
 
Por esta razão, e para fazer rir os nossos leitores como se estivéssemos a ler a história do Gil Brás de Santilhana, resolvemo-nos a relatar o facto, para ver se alguém cuida em providenciar como convêm a similhante respeito!»
*


Artigo extraído d' O Artilheiro de Quinta-feira, 24 de Março de 1836.
 
 
 
___________
Publicação originalmente colocada no blogspot em 03.09.2016, agora revista.