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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Como era a capela do Senhor Salvador do Mundo em 1755

30.09.19

Caríssimos leitores, este blogue celebra hoje dez outonos. A maior parte da sua vida passou-a no blogspot, tendo em 2017 sofrido uma trasladação para esta casa lusitana, no sentido sobretudo de melhorar a sua qualidade visual, ao mesmo tempo que as suas publicações vão sendo para aqui reaolocadas, após uma revisão ou mesmo pontual correção, do seu conteúdo. Enquanto tal ocorre, novas publicações vão sendo intercaladas com as suas irmãs mais velhas. Aquando do fecho no blogspot, o número de visualizações ultrapassava os 181.000. Desde 2017, quando A Porta Nobre mudou de casa e o contador voltou a 0, esse número foi drasticamente reduzido, não ultrapassando hoje as 25.000 visualizações.[1]

 

A todos os que me leem, especialmente os que o fazem desde o início, o meu muito obrigado! É meu desejo ter força para prosseguir neste trabalho que executado com carinho, mas que, como qualquer atividade, tem dias mais motivadores do que outros... Quem corre por gosto não cansa, diz-se popularmente, e é por isso que, não tendo em vista o lucro material, por cá me pretendo manter, divulgando pedaços da história da cidade de uma forma um pouco diferente da habitual, apresentando documentos e factos desconhecidos, ou, pelo menos, pouco conhecidos, de todos os interessados pela história desta urbe.

 

«»

 

Não fosse a mensagem acima, e esta publicação não seria assim tão extensa... Hoje trago-vos a medição de uma capela que atualmente quase passa despercebida, mas que durante vários séculos foi bastante conhecida. No século XIX, porém, esteve quase para desaparecer, transformada em algum armazém ou, quem sabe, numa casa de habitação para alojar os numerosíssimos galegos, sem os quais a vida da cidade não fluía (é preciso que se lembre!).[2] Mas, como dizia, o que hoje vos pretendo dar a conhecer é a medição da capela pertencente à Confraria do Senhor Salvador do Mundo, sita nas Congostas. Esta capela vem, pelo menos, desde os finais do século XV, quando os habitantes da Rua das Congostas se reunirem em confraria após a peste que assolou a cidade os ter poupado. A primitiva capela ruiu no ano de 1656, tendo sido reedificada no ano seguinte à custa de esmolas. Já no final do século XIX, a dita capela sofreu as obras de ampliação necessárias para a trazer ao alinhamento da Rua Mouzinho da Silveira, ficando nessa época com o aspeto exterior que ainda hoje apresenta.

 

Screenshot_1.jpg

capela do Senhor Salvador do Mundo em maio de 2016

 

Sobre a capela anterior, no entanto, existe um curioso documento de maio de 1755, pouco anterior ao grande terremoto, onde aquela estrutura - e não só - é cuidadosamente medida. Medição essa que foi lançada no Tombo da confraria, de onde B. Xavier Coutinho[3] a extraiu e colocou no incontornável arquivo portuense que foi a revista O Tripeiro. Peço ao caríssimo leitor que leia o texto que se lhe apresenta diante dos olhos, e vá tentando imaginar, já que é essa a única hipótese que hoje temos, como seria aquela capela antes de chegar o mundo moderno, ávido de ruas espaçosas. Diz-nos, então, o documento:

 

*

«Ele Dr. Juiz do Tombo mandou ao louvado que a medisse, e medindo-a ele com efeito, achou que a dita capela na loja em baixo tinha de comprido dez braças, com a parede, e livre da parede menos três palmos e quatro dedos da parte do poente ao nascente, de norte a sul cinco palmos e meio. E que a medida da parte do sul ao norte tinha mais um palmo livre das paredes e que pela parte de fora tem de largo sete braças, cuja loja da dita capela tem sua porta para a Viela do Salvador, e sua janela com sua grade de ferro para o poente, e dita Rua do Salvador; e tem mais na dita loja e armazém da capela uma porta que se acha tapada de pedra e cal, que vai ter às casas que ficam na traseira da dita capela para a parte do nascente, que hoje são de António Caetano José de Sousa Magalhães, filhos que ficaram de Manuel de Sousa Dias.

 

E medida a capela em cima do sobrado se achou ter nove braças e meio de comprido do nascente ao poente, livres das paredes, e de largo, de norte a sul, medida da parte da nascente, tem mais seis varas menos um quarto, e medida da parte do poente tem de largo seis varas e uma mão travessa.

 

E tem a dita capela suas janelas rasgadas para a Rua das Congostas e tem duas janelas de peitoril para a parte do sul.

 

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parte de uma planta anterior a 1865 que nos mostra a Viela do Salvador e o edifíco da capela, provavelmente na versão descrita neste texto. Com o alargar da Rua das Congostas (1), depois Mouzinho da Silveira, tornou-se necessário chamar a sua fachada ao novo alinhamento

 

Tem seu alpendre com suas escadas de pedra para a viela chamada do Salvador, com seu campanário e sino; e confronta da parte do nascente com casas dos ditos António Caetano José de Sousa Magalhães e seu irmão o Dr. Vicente José de Sousa Magalhães, que ficam encostadas à dita capela; e da parte do sul com a dita Viela do Salvador, e do norte com casas dos herdeiros do Padre Domingos Tavares, de que é direto senhorio a Santa Casa da Misericórdia desta cidade, e do poente com a dita Viela do Salvador que é larga; e sendo medida, se achou ter de largo três varas, menos uma mão travessa, a qual era muito estreita; e declarou o louvado medidor e os oficiais da confraria da Irmandade da capela, que para efeito de fazerem a dita viela mais larga, compraram as casas na frente da rua para a parte do sul, de Juliana de Jesus, e as desfizeram, tomando terras delas para alargar a dita rua, e depois as tornaram a vender: e quas [sic] as ditas casas dos herdeiros do Padre Domingos Tavares tem para a dita viela cinco janelas de peitoril; a saber: duas no sobrado de baixo pequenas, e três no sobrado de cima, sem que tenha sacada alguma para a dita viela.

 

E as casas que ficam defronte desta, da parte do sul da dita Juliana de Jesus, que são de dous sobrados para a Rua das Cangostas, e tem uma (?) soleirinha (?) para a parte de trás, tem uma porta pegada ao chão confrontando com a mesma capela, com três janelas de peitoril para a parte da mesma capela e para a Viela do Salvador tem também duas janelas de peitoril sem varanda nem sacada; e que a parede da mesma capela tem de grossura três palmos menos uma polegada».

*

 

Também Sousa Reis, um século mais tarde, nos dá uma imagem ainda que muito breve, da frontaria desta capela: « ... e logo no princípio deste mesmo beco ou viela [do Salvador] e em frente da sua entrada, está o oratório e pequena Capela de S. Salvador, a qual posto ter a sua frontaria talhada e aberta em arco espaçoso, que a atravessa em toda a largura, e a porta ampla e inferior a [=à?] balaustrada assente nesse arco, me parece ser em épocas remotas o santuário pertencente ao Hospital das Velhas, que consta existiu naquela rua das Congostas... ».[4]

 

E agora que chegamos ao fim, questiono-o caríssimo leitor: conseguiu imaginar aquele lugar naquele ponto do passado? Certamente que sim. E certamente que a sua imagem é diferente da que eu ou outro leitor formou. Ainda assim, elas só devem divergir em questões de pormenor, limitados à nossa capacidade de, melhor ou pior, integrar a totalidade das formas que se nos apresentam descritas. Espero, que não tenha dado o exercício como perdido! E que volte já na próxima publicação, dando-me a alegria da sua leitura, que desejo sempre agradável.

 

 

1 - Os motivos para tal são, a meu ver, dois: o facto de não existirem 8 anos de publicações que pudessem atrair a atenção do leitor casual, bem como o método de contagem do blogspot, que sempre me pareceu algo desgarrado e por isso enganador.

2 - Muitas casas deste tipo existiram espalhadas pela cidade. Nelas, estes pobres homens eram empilhados em condições desumanas, bastando, para isso comprovar, a consulta aos jornais de meados do seculo XIX. Um exemplo desse tipo de habitações, foi a casa que existiu no local do bonito hotel que há poucos anos veio substituir a Araújo & Sobrinho. (demolida em 1845 e conhecida por A ilha). Ou anos mais tarde, quando a polícia foi obrigada a despejar uma casa que se encontrava a ameaçar ruína na Rua das Congostas, de onde retirou pelo menos 11 galegos que ali 'viviam'.

3 - O Tripeiro,. Série 6, vol. VIII, p. 312.

4 - Apontamentos para a verdadeira história..., vol. 4, p. 346.

Fugazes vislumbres de um Porto desaparecido

20.07.19

É inútil ao portuense interessado pela história da sua cidade tentar reproduzir - urbanisticamente falando - as fotografias que abaixo se apresentam, pois que a paisagem atual difere daquela em 90%.

 

Sabemos todos nós que nos interessamos pela história da nossa cidade, que a abertura rua Mouzinho da Silveira veio destruir por completo bastantes edifícios e alguns arruamentos. Construída em duas fases, na 1ª foi rasgada de São Bento até ao topo da rua de S. João, finalizando onde se erguia a capela e hospital de São Crispim e S. Cispiniano (ambos arrasados para se poder alinhar convenientemente a nova rua). Nesta 1ª fase a rua esteve para se chamar rua Nova da Biquinha, pois que a rua da Biquinha foi o arruamento que ela fez desaparecer (pequeno e esconso resquício do traçado medieval da cidade). Na 2ª fase a rua Mouzinho da Silveira destruiu a antiquíssima rua das Congostas - ou Cangostas - uma rua talvez de aspeto idêntico à dos Mercadores e que fizera por séculos a ligação entre o importante largo de São Domingos (ponto central da cidade até ao advento da Praça Nova), com o rio e a alfândega primitiva. Também aqui o nome da rua antecessora esteve para ser mantido, mas no final ideia não vingou. Assim, tudo o que restou da rua das Congostas foram 5 casas não demolidas por desnecessário para o novo alinhamento bem como outras apenas parcialmente expropriadas, que receberam novas fachadas dada a necessidade de realinhamento com a nova rua (ver aqui).

 

Desta última rua, ficou-nos uma imagem da fonte que existia junto à embocadura com a rua Infante D. Henrique, onde se alargava um pouco, sensivelmente onde hoje inicia o passeio esquerdo da rua Mouzinho da Silveira (ver aqui). Uma outra fotografia (em baixo à esq.) mostra o topo da rua das Cangostas no seu entroncamento com a rua da São João. Ainda no mesmo dia, uma nova fotografia (em baixo à dir.) foi tirada no lado oposto, foto essa que tem o condão de nos mostrar parte da fachada da capela de S. Crispim e S. Crispiniano (que já abordei aqui)[1].

 

 

01.png

i1 montagem com as imagens referidas acima e parte de uma planta, exemplificando o local onde foram colhidas. Legenda: a) seta vermelha é a entrada da rua das Cangostas b) seta verde indica o edifício da rua de S. João demolido para dar lugar à rua Mouzinho da Silveira c) seta azul indica a entrada da rua da Biquinha d) A seta branca indica o único cunhal que ainda hoje se apresenta como naquela época. Finalmente o circulo verde refere-se à fachada da capela de S. Crispim e S. Crispiniano (do qual a câmara tomou posse judicial em 1874)[2]

 

 

A imagem que abaixo apresento, por muito que custe a acreditar ao meu caríssimo leitor, foi tirada do mesmo local da fotografia em cima à direita. O cunhal indicado com a seta branca na imagem antiga não aparece por se encontrar escondido pela capela da S. Crispim e S. Crispiniano.

 

 

Screenshot_1.png

i2 como se vê a área foi substancialmente alargada (fotografia do autor : 12 de junho de 2016)

 

 

Permitam-me diferir da opinião de Germano Silva exposta numa das suas crónicas em relação à rua de Sousa Viterbo como sendo a herdeira da rua das Cangostas[3]. Primeiramente pelo que acima vimos sobre o perfil da segunda fase da rua Mouzinho da Silveira e em segundo lugar pelo facto de que a rua Nova de São Domingos (nome original da rua Sousa Viterbo) ter sido rasgada em terrenos onde se erguera a capela da Senhora das Neves[4], o transepto de igreja gótica dominicana, sacristia, claustro, dormitório, etc[5]. Além desta discordância, uma retificação no artigo citado acima que creio urge é a referência à demolição da fonte de São Domingos para construção da capela da Senhora das Neves. Na realidade a capela da Senhora da Escada (seu nome original) é anterior a 1238, ano em que os dominicanos vieram para o Porto; tendo o chafariz sido construído apenas em 1544, a expensas da Câmara e em colaboração com os dominicanos[6]. Para além desse facto, enquanto coexistiram, as duas estruturas estiveram distanciadas cerca de 25 metros (na i3 o hexágono ch indica a localização do chafariz e o Ne a localização aproximada da capela da Senhora das Neves).

 

 

final.jpg

i3 perguntará o leitor que significado tem a seta amarela indicando um edifício do largo de S. Domingos. na verdade é somente um "edifício referência" que assinalo com uma seta da mesma cor, acima na imagem à esquerda, para ajudar o leitor a distinguir os arruamentos atuais dos existentes em 1872.

 

 

A acrescentar ainda a estas linhas, e no seguimento de uma planta de 1881 que consultei no Arquivo Municipal do Porto, podemos verificar que quando se iniciou a construção dos edifícios da rua Mouzinho da Silveira, nesta zona a última casa construída foi a do gaveto com o largo de São Domingos. Nela se verifica que por esse terreno se poderia entrar diretamente para as traseiras das novas casas. Não tendo ainda descoberto um documento que o refira, é contudo percetível, pelos alinhamentos expostos nas plantas que essas traseiras deverão ser o que resta da medieva rua da Biquinha, que foi obliterada da memória da cidade quando a nova rua foi rasgada naquela área[7].

 

3ddf.jpg

i4 com a ajuda do Googlemaps verifica-se que esses veneráveis restos da rua da Biquinha se encontram agora maioritariamente preenchidos pelo prolongamento dos edifícios da Mouzinho, mas alguns continuam sendo saguões: haverá ali ainda algum vestígio do piso da rua antiga?

 

 

Caro leitor, espero não ter sido aborrecida a leitura destas linhas. Trata-se de uma questão de gosto pessoal verificar as fases pretéritas da cidade por esta via: esmiuçando plantas que as gerações anteriores nos legaram sobre áreas que já hoje nos parecem bem antigas mas que, como é o caso desta, estão apenas agora a fazer século e meio numa cidade que conta já com 900 anos de vida!

 

*

 

 

1 - Ambas tiradas em 1872, quando o imperador do Brasil, D. Pedro II, visitou o Porto.

2 - Esta confraria, relíquia institucional do Porto medievo, subsiste ainda hoje no topo da rua Santos Pousada.

3 - Aquando da publicação original que fiz no blogspot a crónica de Germanos Silva ainda se encontrava disponível on-line no blogue Cadernos da Libânia. Recentemente, contudo, esse blogue foi removido.

4 - Demolida ainda no século XVIII.

5 - Tudo demolido em 1865.

6 - Depois da retirada deste chafariz em 1845, foi construída uma fonte que ficou embutida durante algumas décadas no edifício da papelaria Araújo & Sobrinho. Mas mesmo desta tudo o que resta no local é a moldura em pedra que se pode ver na montra.

7 - Esta situação não única. Em breve reflexão recordo caso das casas da face nascente da antiga rua de Elias Garcia (mais conhecida pelo penúltimo nome que teve: rua de D. Pedro), que ainda lá se encontram escondidas pelas suas novas e mais modernas faces do passeio oriental da avenida dos Aliados. E bem assim, conhece o autor destas linhas um saguão na mesma situação dos que aqui vimos, por trás do edifício nº 76 da Rua Nova da Alfândega, que corresponde à continuação da antiga rua o Forno Velho de Cima.

 

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Esta publicação aglutina duas originalmente colocadas no blogspot em 12.07.2015 e 25.07.2015, agora bastante revistas.

Cinco relíquias das Congostas e mais alguns curiosos detalhes....

11.09.18

A rua das Congostas era uma artéria íngreme e bastante antiga que partindo da rua do Infante subia o declive que ainda hoje se apresenta a quem inicia a subida da rua Mouzinho da Silveira, indo desembocar junto à encruzilhada da rua de S. João, Biquinha (também ela já desaparecida) com o largo ou calçada de S. Crispim (designação dada no século XIX à rampa que sobe para S. Domingos). Esta rua mantinha ainda muito do seu carácter medieval na tortuosidade e estreiteza que a caracterizava - sendo talvez a dos Mercadores um bom exemplo de comparação. Aquando da grande revolução urbana promovida no casco histórico da cidade à época de Pinto Bessa (1867-1878) foi inteiramente sacrificada por forma à cidade ficar com melhores acessos à recem inaugurada Nova Alfândega em Miragaia.

 

Mas nem toda a rua desapareceu... ou melhor dito; nem todos os edifícios que a compunham desapareceram. Com efeito, o projecto levado a cabo para a rua das Congostas expropriou quase todos os proprietários dos prédios nela sitos, uma vez que o seu alinhamento iria ser completamente diferente do existente, em face do novo arruamento que se queria mais amplo e desafogado; tendo-se eventualmente mostrado desnecessário demolir cinco prédios do lado nascente. Esses cinco edifícios constituem como que uma relíquia do arruamento que por séculos ali existiu e que desde cerca de 1875 desapareceu para sempre. Na i1, colhida ontem no local[1], podem ver-se em destaque os edifícios em questão (a fonte para esta afirmação foi o Projecto Base de Documento Estratégico para o quarteirão da Feitoria Inglesa da Porto Vivo).

 

 

5relcong.jpg

i1 - Ressalvando a eventual remodelação das suas fachadas e/ou reperfilamento dos portais, estas cinco casas são o que resta in situ da antiquíssima rua das Congostas.

 


Mas outros pequenos factos curiosos descobri[2] no AMP no que toca a esta rua, posteriormente à publicação original destas linhas. Em primeiro lugar é necessário retificar o que escrevi acima (2013): pois caro leitor parece que, afinal, daquelas 5 casinhas pelo menos a que se encontra mais a sul teve a sua fachada realinhada. Isso mesmo constatei ao me deparar com um documento referente a uma outra sua vizinha, mais precisamente a primeira acima delas.

 

Ora o caso é o seguinte: em junho de 1892, 36 proprietários e moradores da rua Mouzinho da Silveira entregaram na câmara (mais) um abaixo assinado pedindo o corte dos prédios com os nº 58 a 66, com vista «ao complemento da referida rua e fazer desaparecer a má impressão e péssimo efeito que produz o conservar-se o referido prédio fora do alinhamento». O documento refere também que já se andava a proceder ao alinhamento da capela de S. Salvador do Mundo[3] bem como do prédio com o n.º 50 e 52, ficando por conseguinte muito fora do alinhamento e fazendo má vista aquele edifício; o único que faltava alinhar. Alertavam também para o facto de ser aquela altura do ano a melhor ocasião para os inquilinos do referido prédio procurarem habitação e o proprietário não se opor ao alinhamento com o fundamento de não poder despedir os inquilinos senão na época própria.

 

 

palnrwe.JPG

i2 - Planta de 1892 usada pelos técnicos da Câmara para expor a questão do realinhamento da capela de S. Salvador do Mundo e do edifício a sul deste. Legenda: P - Pátio de S. Salvador : A - área de terreno da antiga rua que a nova capela de S. Salvador do Mundo veio a ocupar para a trazer ao alinhamento atual : b - terreno que a Câmara teve de expropriar para alinhar aquele edifício : c - terreno que a Câmara teve de alienar para trazer o edifício ao novo alinhamento. O traço verde representa o alinhamento das fachadas e o azul o das guias do passeio da rua Mouzinho da Silveira.

 

Há depois a resposta dos serviços técnicos da câmara, datada de 4 de agosto de 1892, que informa: «O prédio nº 58 a 66 da rua Mouzinho da Silveira, pertencente a José Nogueira Pinto compõem-se de duas casas, uma que tem os n.ºs 58, 60 e 62, de quatro andares, tem de avançar na sua maior parte para vir ao alinhamento da rua, e a outra que tem os nº 64 e 66 de 3 andares tem de recuar para o alinhamento segundo a planta junta (i2), levando por isso a excelentíssima câmara a adquirir o terreno que faz parte da casa 64 e 66 com a superfície de 5,75m2 (...) e de alienar o terreno que defronta com a casa que tem os nºs 58, 60 e 62 com a superfície de 1,65m2 (...)». Seguem-se as contas de deve e haver na alienação e compra do terreno, apeamento e reconstrução da fachada do nº 64 e 66, valor de 6 meses de renda dessa casa e indemnização ao proprietário para reparos no interior e rebaixe de um portal nas traseiras. Não incluiu o técnico da câmara a indemnização pela demolição e reconstrução da fachada da casa nº 58 a 62 por essa obra não ser urgente não sendo necessário a câmara compelir o proprietário a executa-la[4].

 

 

ali01.JPG

i3  Postal que nos mostra aquelas casas, com as suas lindas janelas setecentistas, ainda no alinhamento original.

 

 

Certo é que após o alinhamento da capela de S. Salvador do Mundo e do tal edifício das Congostas supostamente nunca reperfilado; este outro edifício ainda ficou mais uns anos a fazer um estranho e inconveniente cotovelo. Com isso ganhou o direito de ser figurante em vários postais do início do século, sobretudo os que retratam a estátua do Infante D. Henrique.

 

 

ali02.JPG

i4 - Outra perspectiva das casas em estudo.

 

 

As duas imagens que deixei para o fim são as que reputo de mais surpreendentes: uma mostra-nos um pouco do rés-do-chão daquele edifício tão desalinhado dos restantes (i5); a outra (i6) mostra-nos o andar cimeiro dos edifícios em questão, com uma ressalva enorme: a rua das Congostas ainda existia!

 

 

CONG.jpg

i5 - Nesta imagem podemos ver o completo desalinho do edifício em face à rua Mouzinho da Silveira (amarelo) e também verificamos que a capela de S. Salvador do Mundo já se encontra alinhada (azul).

 

 

congpred.jpg

i6 - Por uma acaso fotográfico, os edifícios que temos vindo a acompanhar ficaram registados numa imagem - anterior a 1872 - ainda emaranhados no meio da tortuosa e medievica rua das Congostas!

 

 

Se caro leitor não se apercebeu de que edifício temos vindo a tratar, a i7 ajudará a ver qual o edifício e como ele se encontra na atualidade.

 

 

agpred.JPG

i7 - Com uma mãozinha do googlemaps, aqui se apresenta a entrada do pátio de S. Salvador ladeado pela capela do mesmo nome (reconstruída, como vimos, em 1891/1892) e a casa que temos vindo a estudar.

 

 

Como observação final e pessoal, não posso deixar de notar que o projecto original da fase 2 da rua Mouzinho da Silveira previa a manutenção do nome Congostas, o que, se virmos bem faria todo sentido, uma vez que este troço da rua parecerá, ao turista ou transeunte que nada saiba de toponímia, um arruamento independente do outro grande lanço que vai de S. João a Almeida Garret. Não deixaria de ser bem mais pitoresco e quem sabe mais "verdadeiro" ter mantido aquela nome, no entanto a edilidade da altura assim não o entendeu[5].

 

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1 - Isto é, em 02.02.2013.

2 - Foram para o autor destas linhas uma descoberta pois nunca as vi referênciadas talvez por serem meros pormenores, em qualquer outra publicação.

3 - Prometo falar deste assunto em outra publicação...

4 - Ou seja, a fachada que se encontrava recuada poderia, quem sabe, ter assim chegado aos nossos dias.

5 - Aliás o projeto é encarado inicialmente como sendo o alargamento da rua das Congostas!

 

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Publicação originalmente colocada no blogspot em 03.02.2013, agora revista e bastante aumentada.

Uma imagem intrigante e única do passado

16.05.18

A imagem que abaixo se apresenta bastante me intrigava uma vez que nada do que surge em primeiro plano parece reconhecível, pese embora a silhueta da Sé Catedral, Paço Episcopal e Igreja de S. Lourenço não abra brecha para dúvida: é o Porto! Mas, aqueles barracões e traseiras de casas que surgem em primeiro plano nada parecem ter que ver com o ângulo de onde a foto poderia ter sido obtida. Só olhando para plantas antigas da cidade, tentando descortinar esse mesmo local e comparar com o que lá se encontra agora, é que me dissipou alguma dúvida que ainda pudesse ter de que esta vista foi captada daquele que é agora o Palácio da Bolsa, talvez no primeiro ou mesmo segundo andar do seu ângulo voltado à rua Ferreira Borges.

 

dccc.jpg

Legenda: A - casa da rua das Congostas adjacente àquela em que se encostava a fonte, B - madeira empilhada referida pela notícia de 1860, C - barracões do pequeno mercado que ali temporariamente existiu, D - janelas e porta rasgadas nas traseiras das casas das Congostas / E - casas do lado nascente da mesma rua.

 

Aquilo que nos surge em primeiro plano, e analisando a planta existente no ADP bem como uma outra foto onde se vê o dormitório do convento dominicano visto de sul para norte (recentemente utilizada numa crónica do Sr. Germano Silva) indicam que se trata da parte mais a sul da antiga cerca dos dominicanos. Aqueles barracões estavam, grosso modo, onde agora corre a rua da Bolsa até ao gaveto da esquadra policial, nos baixos do mercado Ferreira Borges. As madeiras que se vêm depositadas no canto inferior direito ocupam a área onde agora encontramos o monumento ao Infante D. Henrique (essas madeiras estarão provavelmente relacionadas com uma pequena notícia que encontrei n' O Comércio do Porto de 1860 que refere que «um particular ocupou indevidamente grande parte da cerca do extinto convento com carros e carros de madeira que todos os dias servem de latrina pública, indo completamente contra as posturas municipais». As traseiras das casas que vemos são as da rua das Congostas (ou Cangostas), completamente arrasada para abertura da fase 2 da Rua Mouzinho da Silveira. Pormenor curioso é o das janelas e mesmo uma porta de acesso que naquelas paredes foram rasgadas; facto proibido na altura em que os dominicanos eram donos daquele espaço para não devassar a clausura (apenas se podiam construir pequenas aberturas e frestas como as restantes que ainda se vêm também na imagem).

 

mont.JPG

Excerto da planta acima mencionada: para além das letras já referidas, temos: F- fonte das Congostas, 1 - rua das Congostas, 2 - rua de S. João, 3 - rua do Ferreira Borges. O circulo e seta colocados no Palácio da Bolsa indicam a direção da objetiva fotográfica.

 

Para os meus caros leitores que ainda apresentam reservas, logo abaixo poderão ver uma foto tirada não há muitos anos, e que nos mostra com alguma aproximação o mesmo local nos nossos dias. Dever-se-á levar em conta que aquele terreno foi rebaixado em 1866 no local do edificado do convento bem como em 1871 na parte afeta à sua cerca; tendo sido terraplanado e alinhado em altura com a rua Ferreira Borges, aberta entre 1835 e 1839.

 

DSC1000.jpg

(2012 - foto do autor)

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Originalmente publicado no blogspot em 29.05.2013 com o nome Uma imagem intrigante; agora revisto e aumentado.