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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A Rua Escura

03.08.19

A Rua Escura é uma das mais antigas artérias da cidade do Porto, talvez mesmo a primeira a surgir fora da muralha primitiva que circuitava o Morro da Penaventosa. Principiava à esquerda da Porta da Vandoma (a principal saída da cidade) e por ela se descia ao rio Douro pelo carreiro que viria a dar origem à Rua da Bainharia e Rua dos Mercadores. Denominada Rua Nova no século XIV, em documentação do século XV apresenta já o epíteto de Escura, um nome que provirá provavelmente da sua parca largura aliada à construção medieval que não sendo de tendência para casas muito altas, tinha contudo nos sobrados-ladrão amplamente usados na baixa-média e tão característicos daquele período, um grande contributo para o encobrimento daquela artéria.

 

Relacionadas com esta rua existem duas curiosas imagens do AMP catalogadas como tendo sido tiradas na Rua Chã, ainda que essa afirmação seja mais verdadeira para uma delas. Têm em comum o apresentarem paisagens para sempre fisicamente desaparecidas da cidade, permanecendo assim na memória através destes raros e preciosos documentos fotográficos.

 

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i1

 

Na i1, podemos ver em primeiro plano o Solar dos Correias, edifício demolido mas numerado pedra por pedra das quais o paradeiro se perdeu. A verde está indicada a direção da Rua Chã, um caminho muito importante que saía da Porta da Vandoma, dando início à estrada para o interior norte do país; a vermelho temos a indicação da Calçada da Vandoma, onde bem perto do fotografo existiu até meados do século XIX essa famigerada porta do muro velho; finalmente a azul a Rua Escura; situada logo ali à ilharga daquela entrada, onde chegavam as pessoas e mercadorias que vinham de passar o rio para aceder ao burgo de D. Hugo e seus sucessores.

 

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i2

 

A i2 foi a que mais me intrigou! Está classificada como tendo sido tomada na Rua Chã, mas não pode ser! A Rua Chã nunca foi daquela diminuta largura para além de que o termo chã implica que seja plana, coisa que esta rua não é. Acrescenta ainda o facto da Rua Chã ter sido igualmente conhecida, em tempos mais idos, por Rua Chã das Eiras por ser o arruamento onde existiam os eirados de trilhar e secar os cereais, o que não se compadece com a largura que este arruamento apresenta. Bem sei que na foto podemos ver uma placa toponímica com o dístico Rua Chã[1]  (seta amarela), mas essa placa refere-se à rua que vem em direção ao fotógrafo e não aquela que realmente se vê na foto. Aquela é na verdade a Rua Escura que ali se ligava com a Rua Chã, entrando ambas no burgo velho pela Porta da Vandoma, a dois passos da Sé. Se esta argumentação não convencer, bastará olhar para a parede de pedra do lado esquerdo da i2 e compará-lo com a da i1 e concluir o óbvio: estamos na presença da mesma rua!

 

A elipse laranja que coloquei na i2 assinala um ponto fixo de referência que de certo modo ainda existe: é o edifício que se vê na i3, um cliché bem conhecido por figurar em inumeros postais (compare o leitor com o aspeto atual na i4).

 

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i3 este local, posto que bastante modificado, ainda existe: à esquerda e em sentido ascendente temos a Rua de São Sebastião, à direita no sentido descendente apresenta-se-nos a Rua Escura. Aqui estiveram os primitivos Paços do Concelho, junto a mais uma porta do muro velho (que existiu sensivelmente onde está a guarita do sentinela do Aljube).

 

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i4 o mesmo local em 2016 (foto do autor)

 

 

Escusado seria referir que as imagens que deram mote a esta publicação - i1 e i2 - não são passíveis de serem colhidas nos nossos dias uma vez que toda aquela área foi destruída e o solo rebaixado, dando lugar à passagem que agora nos permite o acesso à Rua Escura vindo da Avenida D. Afonso Henriques. A i5, preciosa ajuda do googlemaps, mostra-nos uma vista do céu de toda aquela área e que melhor ajuda o leitor a identificar o troço da Rua Escura que desapareceu.

 

 

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i5 creio ser facilmente identificável por todos o local que se nos apresenta na frente (atente-se na igreja da Sé ao lado esquerdo). As linhas a vermelho escuro indicam a parte da rua que já não existe. As letras indicam, a um patamar criado após a demolição de casas da Calçada da Vandoma que assinalo na i6o preciso local onde existiu o Solar dos Correias, (como se constata na mesma imagem.

 

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i6 o Solar dos Correias no antigo início da Rua Escura (diante dele vê-se o patamar criado aquando das primeiras demolições na Calçada da Vandoma). Onde foram parar as pedras deste edifício?

 

 

E assim mais uma vez se se comprova, caro leitor, como uma simples foto pode ser tão preciosa, por documentar uma realidade centenar que para sempre deixou de existir, e logo localizada bem no núcleo da cidade velha. Quantos outros locais que já desapareceram não tiveram esta sorte?

*

 

NOTA: 1- A placa toponímica apresenta o nome da rua como Rua Chaã (com o til sobre os dois aa). Tratou-se eventualmente de uma placa com a chancela do Gabinete de História da Cidade, uma vez que seria essa a grafia dos documentos do século XV. A forma atual é uma simplificação que decorre da evolução da língua. Em português antigo a pronúncia seria algo aproximada a rua tchãã, já de si uma evolução de chana (ler tchana). A palavra original latina é plana, no masculino planus. A forma atual resulta de um fenómeno que ocorre em milhares de palavras da nossa língua, denominado crase (fusão de duas vogais).

 

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Publicada originalmente no blogspot em 29.02.2016, agora revista.