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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Fugazes vislumbres de um Porto desaparecido

20.07.19

É inútil ao portuense interessado pela história da sua cidade tentar reproduzir - urbanisticamente falando - as fotografias que abaixo se apresentam, pois que a paisagem atual difere daquela em 90%.

 

Sabemos todos nós que nos interessamos pela história da nossa cidade, que a abertura rua Mouzinho da Silveira veio destruir por completo bastantes edifícios e alguns arruamentos. Construída em duas fases, na 1ª foi rasgada de São Bento até ao topo da rua de S. João, finalizando onde se erguia a capela e hospital de São Crispim e S. Cispiniano (ambos arrasados para se poder alinhar convenientemente a nova rua). Nesta 1ª fase a rua esteve para se chamar rua Nova da Biquinha, pois que a rua da Biquinha foi o arruamento que ela fez desaparecer (pequeno e esconso resquício do traçado medieval da cidade). Na 2ª fase a rua Mouzinho da Silveira destruiu a antiquíssima rua das Congostas - ou Cangostas - uma rua talvez de aspeto idêntico à dos Mercadores e que fizera por séculos a ligação entre o importante largo de São Domingos (ponto central da cidade até ao advento da Praça Nova), com o rio e a alfândega primitiva. Também aqui o nome da rua antecessora esteve para ser mantido, mas no final ideia não vingou. Assim, tudo o que restou da rua das Congostas foram 5 casas não demolidas por desnecessário para o novo alinhamento bem como outras apenas parcialmente expropriadas, que receberam novas fachadas dada a necessidade de realinhamento com a nova rua (ver aqui).

 

Desta última rua, ficou-nos uma imagem da fonte que existia junto à embocadura com a rua Infante D. Henrique, onde se alargava um pouco, sensivelmente onde hoje inicia o passeio esquerdo da rua Mouzinho da Silveira (ver aqui). Uma outra fotografia (em baixo à esq.) mostra o topo da rua das Cangostas no seu entroncamento com a rua da São João. Ainda no mesmo dia, uma nova fotografia (em baixo à dir.) foi tirada no lado oposto, foto essa que tem o condão de nos mostrar parte da fachada da capela de S. Crispim e S. Crispiniano (que já abordei aqui)[1].

 

 

01.png

i1 montagem com as imagens referidas acima e parte de uma planta, exemplificando o local onde foram colhidas. Legenda: a) seta vermelha é a entrada da rua das Cangostas b) seta verde indica o edifício da rua de S. João demolido para dar lugar à rua Mouzinho da Silveira c) seta azul indica a entrada da rua da Biquinha d) A seta branca indica o único cunhal que ainda hoje se apresenta como naquela época. Finalmente o circulo verde refere-se à fachada da capela de S. Crispim e S. Crispiniano (do qual a câmara tomou posse judicial em 1874)[2]

 

 

A imagem que abaixo apresento, por muito que custe a acreditar ao meu caríssimo leitor, foi tirada do mesmo local da fotografia em cima à direita. O cunhal indicado com a seta branca na imagem antiga não aparece por se encontrar escondido pela capela da S. Crispim e S. Crispiniano.

 

 

Screenshot_1.png

i2 como se vê a área foi substancialmente alargada (fotografia do autor : 12 de junho de 2016)

 

 

Permitam-me diferir da opinião de Germano Silva exposta numa das suas crónicas em relação à rua de Sousa Viterbo como sendo a herdeira da rua das Cangostas[3]. Primeiramente pelo que acima vimos sobre o perfil da segunda fase da rua Mouzinho da Silveira e em segundo lugar pelo facto de que a rua Nova de São Domingos (nome original da rua Sousa Viterbo) ter sido rasgada em terrenos onde se erguera a capela da Senhora das Neves[4], o transepto de igreja gótica dominicana, sacristia, claustro, dormitório, etc[5]. Além desta discordância, uma retificação no artigo citado acima que creio urge é a referência à demolição da fonte de São Domingos para construção da capela da Senhora das Neves. Na realidade a capela da Senhora da Escada (seu nome original) é anterior a 1238, ano em que os dominicanos vieram para o Porto; tendo o chafariz sido construído apenas em 1544, a expensas da Câmara e em colaboração com os dominicanos[6]. Para além desse facto, enquanto coexistiram, as duas estruturas estiveram distanciadas cerca de 25 metros (na i3 o hexágono ch indica a localização do chafariz e o Ne a localização aproximada da capela da Senhora das Neves).

 

 

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i3 perguntará o leitor que significado tem a seta amarela indicando um edifício do largo de S. Domingos. na verdade é somente um "edifício referência" que assinalo com uma seta da mesma cor, acima na imagem à esquerda, para ajudar o leitor a distinguir os arruamentos atuais dos existentes em 1872.

 

 

A acrescentar ainda a estas linhas, e no seguimento de uma planta de 1881 que consultei no Arquivo Municipal do Porto, podemos verificar que quando se iniciou a construção dos edifícios da rua Mouzinho da Silveira, nesta zona a última casa construída foi a do gaveto com o largo de São Domingos. Nela se verifica que por esse terreno se poderia entrar diretamente para as traseiras das novas casas. Não tendo ainda descoberto um documento que o refira, é contudo percetível, pelos alinhamentos expostos nas plantas que essas traseiras deverão ser o que resta da medieva rua da Biquinha, que foi obliterada da memória da cidade quando a nova rua foi rasgada naquela área[7].

 

3ddf.jpg

i4 com a ajuda do Googlemaps verifica-se que esses veneráveis restos da rua da Biquinha se encontram agora maioritariamente preenchidos pelo prolongamento dos edifícios da Mouzinho, mas alguns continuam sendo saguões: haverá ali ainda algum vestígio do piso da rua antiga?

 

 

Caro leitor, espero não ter sido aborrecida a leitura destas linhas. Trata-se de uma questão de gosto pessoal verificar as fases pretéritas da cidade por esta via: esmiuçando plantas que as gerações anteriores nos legaram sobre áreas que já hoje nos parecem bem antigas mas que, como é o caso desta, estão apenas agora a fazer século e meio numa cidade que conta já com 900 anos de vida!

 

*

 

 

1 - Ambas tiradas em 1872, quando o imperador do Brasil, D. Pedro II, visitou o Porto.

2 - Esta confraria, relíquia institucional do Porto medievo, subsiste ainda hoje no topo da rua Santos Pousada.

3 - Aquando da publicação original que fiz no blogspot a crónica de Germanos Silva ainda se encontrava disponível on-line no blogue Cadernos da Libânia. Recentemente, contudo, esse blogue foi removido.

4 - Demolida ainda no século XVIII.

5 - Tudo demolido em 1865.

6 - Depois da retirada deste chafariz em 1845, foi construída uma fonte que ficou embutida durante algumas décadas no edifício da papelaria Araújo & Sobrinho. Mas mesmo desta tudo o que resta no local é a moldura em pedra que se pode ver na montra.

7 - Esta situação não única. Em breve reflexão recordo caso das casas da face nascente da antiga rua de Elias Garcia (mais conhecida pelo penúltimo nome que teve: rua de D. Pedro), que ainda lá se encontram escondidas pelas suas novas e mais modernas faces do passeio oriental da avenida dos Aliados. E bem assim, conhece o autor destas linhas um saguão na mesma situação dos que aqui vimos, por trás do edifício nº 76 da Rua Nova da Alfândega, que corresponde à continuação da antiga rua o Forno Velho de Cima.

 

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Esta publicação aglutina duas originalmente colocadas no blogspot em 12.07.2015 e 25.07.2015, agora bastante revistas.

Cinco relíquias das Congostas e mais alguns curiosos detalhes....

11.09.18

A rua das Congostas era uma artéria íngreme e bastante antiga que partindo da rua do Infante subia o declive que ainda hoje se apresenta a quem inicia a subida da rua Mouzinho da Silveira, indo desembocar junto à encruzilhada da rua de S. João, Biquinha (também ela já desaparecida) com o largo ou calçada de S. Crispim (designação dada no século XIX à rampa que sobe para S. Domingos). Esta rua mantinha ainda muito do seu carácter medieval na tortuosidade e estreiteza que a caracterizava - sendo talvez a dos Mercadores um bom exemplo de comparação. Aquando da grande revolução urbana promovida no casco histórico da cidade à época de Pinto Bessa (1867-1878) foi inteiramente sacrificada por forma à cidade ficar com melhores acessos à recem inaugurada Nova Alfândega em Miragaia.

 

Mas nem toda a rua desapareceu... ou melhor dito; nem todos os edifícios que a compunham desapareceram. Com efeito, o projecto levado a cabo para a rua das Congostas expropriou quase todos os proprietários dos prédios nela sitos, uma vez que o seu alinhamento iria ser completamente diferente do existente, em face do novo arruamento que se queria mais amplo e desafogado; tendo-se eventualmente mostrado desnecessário demolir cinco prédios do lado nascente. Esses cinco edifícios constituem como que uma relíquia do arruamento que por séculos ali existiu e que desde cerca de 1875 desapareceu para sempre. Na i1, colhida ontem no local[1], podem ver-se em destaque os edifícios em questão (a fonte para esta afirmação foi o Projecto Base de Documento Estratégico para o quarteirão da Feitoria Inglesa da Porto Vivo).

 

 

5relcong.jpg

i1 - Ressalvando a eventual remodelação das suas fachadas e/ou reperfilamento dos portais, estas cinco casas são o que resta in situ da antiquíssima rua das Congostas.

 


Mas outros pequenos factos curiosos descobri[2] no AMP no que toca a esta rua, posteriormente à publicação original destas linhas. Em primeiro lugar é necessário retificar o que escrevi acima (2013): pois caro leitor parece que, afinal, daquelas 5 casinhas pelo menos a que se encontra mais a sul teve a sua fachada realinhada. Isso mesmo constatei ao me deparar com um documento referente a uma outra sua vizinha, mais precisamente a primeira acima delas.

 

Ora o caso é o seguinte: em junho de 1892, 36 proprietários e moradores da rua Mouzinho da Silveira entregaram na câmara (mais) um abaixo assinado pedindo o corte dos prédios com os nº 58 a 66, com vista «ao complemento da referida rua e fazer desaparecer a má impressão e péssimo efeito que produz o conservar-se o referido prédio fora do alinhamento». O documento refere também que já se andava a proceder ao alinhamento da capela de S. Salvador do Mundo[3] bem como do prédio com o n.º 50 e 52, ficando por conseguinte muito fora do alinhamento e fazendo má vista aquele edifício; o único que faltava alinhar. Alertavam também para o facto de ser aquela altura do ano a melhor ocasião para os inquilinos do referido prédio procurarem habitação e o proprietário não se opor ao alinhamento com o fundamento de não poder despedir os inquilinos senão na época própria.

 

 

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i2 - Planta de 1892 usada pelos técnicos da Câmara para expor a questão do realinhamento da capela de S. Salvador do Mundo e do edifício a sul deste. Legenda: P - Pátio de S. Salvador : A - área de terreno da antiga rua que a nova capela de S. Salvador do Mundo veio a ocupar para a trazer ao alinhamento atual : b - terreno que a Câmara teve de expropriar para alinhar aquele edifício : c - terreno que a Câmara teve de alienar para trazer o edifício ao novo alinhamento. O traço verde representa o alinhamento das fachadas e o azul o das guias do passeio da rua Mouzinho da Silveira.

 

Há depois a resposta dos serviços técnicos da câmara, datada de 4 de agosto de 1892, que informa: «O prédio nº 58 a 66 da rua Mouzinho da Silveira, pertencente a José Nogueira Pinto compõem-se de duas casas, uma que tem os n.ºs 58, 60 e 62, de quatro andares, tem de avançar na sua maior parte para vir ao alinhamento da rua, e a outra que tem os nº 64 e 66 de 3 andares tem de recuar para o alinhamento segundo a planta junta (i2), levando por isso a excelentíssima câmara a adquirir o terreno que faz parte da casa 64 e 66 com a superfície de 5,75m2 (...) e de alienar o terreno que defronta com a casa que tem os nºs 58, 60 e 62 com a superfície de 1,65m2 (...)». Seguem-se as contas de deve e haver na alienação e compra do terreno, apeamento e reconstrução da fachada do nº 64 e 66, valor de 6 meses de renda dessa casa e indemnização ao proprietário para reparos no interior e rebaixe de um portal nas traseiras. Não incluiu o técnico da câmara a indemnização pela demolição e reconstrução da fachada da casa nº 58 a 62 por essa obra não ser urgente não sendo necessário a câmara compelir o proprietário a executa-la[4].

 

 

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i3  Postal que nos mostra aquelas casas, com as suas lindas janelas setecentistas, ainda no alinhamento original.

 

 

Certo é que após o alinhamento da capela de S. Salvador do Mundo e do tal edifício das Congostas supostamente nunca reperfilado; este outro edifício ainda ficou mais uns anos a fazer um estranho e inconveniente cotovelo. Com isso ganhou o direito de ser figurante em vários postais do início do século, sobretudo os que retratam a estátua do Infante D. Henrique.

 

 

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i4 - Outra perspectiva das casas em estudo.

 

 

As duas imagens que deixei para o fim são as que reputo de mais surpreendentes: uma mostra-nos um pouco do rés-do-chão daquele edifício tão desalinhado dos restantes (i5); a outra (i6) mostra-nos o andar cimeiro dos edifícios em questão, com uma ressalva enorme: a rua das Congostas ainda existia!

 

 

CONG.jpg

i5 - Nesta imagem podemos ver o completo desalinho do edifício em face à rua Mouzinho da Silveira (amarelo) e também verificamos que a capela de S. Salvador do Mundo já se encontra alinhada (azul).

 

 

congpred.jpg

i6 - Por uma acaso fotográfico, os edifícios que temos vindo a acompanhar ficaram registados numa imagem - anterior a 1872 - ainda emaranhados no meio da tortuosa e medievica rua das Congostas!

 

 

Se caro leitor não se apercebeu de que edifício temos vindo a tratar, a i7 ajudará a ver qual o edifício e como ele se encontra na atualidade.

 

 

agpred.JPG

i7 - Com uma mãozinha do googlemaps, aqui se apresenta a entrada do pátio de S. Salvador ladeado pela capela do mesmo nome (reconstruída, como vimos, em 1891/1892) e a casa que temos vindo a estudar.

 

 

Como observação final e pessoal, não posso deixar de notar que o projecto original da fase 2 da rua Mouzinho da Silveira previa a manutenção do nome Congostas, o que, se virmos bem faria todo sentido, uma vez que este troço da rua parecerá, ao turista ou transeunte que nada saiba de toponímia, um arruamento independente do outro grande lanço que vai de S. João a Almeida Garret. Não deixaria de ser bem mais pitoresco e quem sabe mais "verdadeiro" ter mantido aquela nome, no entanto a edilidade da altura assim não o entendeu[5].

 

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1 - Isto é, em 02.02.2013.

2 - Foram para o autor destas linhas uma descoberta pois nunca as vi referênciadas talvez por serem meros pormenores, em qualquer outra publicação.

3 - Prometo falar deste assunto em outra publicação...

4 - Ou seja, a fachada que se encontrava recuada poderia, quem sabe, ter assim chegado aos nossos dias.

5 - Aliás o projeto é encarado inicialmente como sendo o alargamento da rua das Congostas!

 

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Publicação originalmente colocada no blogspot em 03.02.2013, agora revista e bastante aumentada.