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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Uma publicação muito pessoal

16.09.19

Tive o privilégio de ser criado no centro histórico do Porto, no 4º andar do portal n.º 76 da rua Nova da Alfândega, na freguesia de S. Nicolau. A minha paisagem de todos os dias era o cotovelo que a muralha ali faz bem como a horta do mosteiro/tribunal de S. João Novo, isto não contando com o rio e mais ao longe o monte do castelo de Gaia: tudo, como se vê, repleto de história! Irão por isso os meus caros leitores perdoar esta publicação de caráter mais pessoal. Mas não se preocupem, à boleia de um desastre e da saudade vou abordar fases pretéritas da cidade. Digo desastre pois aquela casa foi recentemente afetada no incêndio ocorrido na madrugada do dia 17 de julho. Assim pude ver, através das televisões e com bastante tristeza, as janelas daquele edifício já devoluto escancaradas por forma a permitir o acesso dos bombeiros à sua vizinha envolvida em chamas.

 

Este edifício foi construído na década de 70 do século XIX, tal como quase todos restantes daquele correr, que ainda hoje apresenta um aspeto oitocentista não devassado pelo betão. As suas casas não são obviamente muito antigas e apresentam sensivelmente duas tipologias diferentes, fruto da uniformidade que a câmara municipal impunha a quem construísse. Ocupou um terreno anteriormente preenchido por uma escadaria do lado interno da muralha bem como algumas das casas demolidas, implementadas em estreitas vielas medievais igualmente desaparecidas. A estrutura mais notável nas redondezas terá sido a Porta Nova, sacrificada em 1871 para a construção da rua Nova da Alfândega a uma cota superior (dela já me ocupei aqui).[1] O que quer que reste de tal porta jaz agora escondido pela sapata da nova rua, sensivelmente na área onde se encontra a entrada do parque de estacionamento.

 

A i1 deverá corresponder à época da construção do ramal da alfândega (1881/88) e nela podemos ver vários pormenores interessantes. Pormenor curioso: o 3º andar do edifício a que me refiro não tinha ainda perdido a sua varanda.[2]

 

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i1 A) muralha fernandina : B) águas-furtadas onde foi criado o autor : C) o que resta do fortim de S. Filipe, mais conhecido por fortim da Porta Nova, prestes a ser engolido pela sapata que sustentará a ferrovia (à sua direita ainda se vê um pano de muralha) : D) casas que hoje se encontram ao topo das escadas do Recanto mas que tinham frente para a rua do Forno Velho de Baixo : E) antiga rua das Barreiras, agora incorporada na rua Arménia

 

A i2 é outra panorâmica tirada na mesma altura, que nos permite observar de um ângulo diferente a forma como as casas novas se alinhavam com o fortim.

 

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I2 esta imagem mostra-nos os pormenores acima descritos mas deixando ver as casas que sobreviveram à destruição necessária à construção da nova rua: F) esta casa existiu, pelo menos, até aos anos 50 do século XX[3] : G) as escadas do Recanto que ainda apresentavam um grande desnível face ao aspeto que agora tem. Por ele, creio, se pode inferir o quão irregular deveria ser o bairro dos Banhos, recebido pela cidade moderna com todos os sobe e desce a que a ocupação medieval daquela encosta se adaptara.

 

Em junho de 1872 foi aprovada pela Câmara a planta modelo para os edifícios a reedificar entre as escadas do Caminho Novo e a rua do Comércio do Porto (à época rua da Ferraria). Logo em janeiro do ano seguinte um Manuel dos Santos Preguiça submeteu o seu pedido de aprovação da planta da casa que pretendia construir, estando para isso já a demolir a que possuia no mesmo local pelo lado do sul das escadas do Caminho Novo. Aquela planta ficou servindo de modelo às restantes por ser conforme com a que fora aprovada pela Câmara.[4] Para a trazer ao novo alinhamento foi o mesmo proprietário forçado a adquirir à edilidade uma porção de terreno de 27,5m2. Esse edifício é hoje o alojamento local Seventyset.

 

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i3 planta do edifício novo que o Sr. Preguiça construiu, sem o acrescento de um andar solicitado posteriormente

 

Em maio do mesmo ano, Gertrudes Magna da Purificação Monteiro submete à Câmara o pedido de aprovação para a construção de duas casas idênticas, geminadas com a do Sr. Preguiça, mencionado no pedido o termo reconstruir.[5] Por se encontrar no lado de dentro da muralha num local antes ocupado por edifícios e via pública e pelo facto de estarmos na presença de duas casas, a D.ª Gertrudes teve de adquirir dois pedaços de terreno. As suas confrontações deixam-nos vislumbrar alguns fragmentos de toponímia hoje olvidada.

 

O primeiro terreno ia desde a frente do seu prédio (o pré-existente) e a face da nova rua numa extensão de 14,5m do lado poente, 14,1m do nascente, 6,85m do norte e 3,85m do sul.  Confrontava a poente com a rua Nova da Alfândega, nascente com o prédio pré-existente, pelo norte com o edifício do Sr. Preguiça e a sul com terrenos públicos (cujos proprietários dos prédios contíguos teriam de adquirir para submeter os seus edifícios ao novo alinhamento). Já o segundo terreno, diz explicitamente o documento, era uma porção da antiga viela que ficava ao norte do prédio pré-existente, entre ele e a cerca fernandina. O terreno tinha sensivelmente 14,1m por 1,5m - que estreita viela! com as seguintes confrontações: a poente confrontava com o terreno que acima vimos, a nascente com a viela do Forno Velho de Cima (que dava servidão para o prédio pré-existente da D.ª Gertrudes e seus vizinhos), a norte com o antigo muro da cidade nas traseiras das escadas do Caminho Novo e finalmente a sul o próprio prédio que a requerente pretendia reedificar.[6]

 

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i4 planta submetida pela D.ª Gertrudes. O portal mais à esquerda é o do n.º 76, encostando à casa do Sr. Preguiça. Os portais da direita são da agora destruída mercearia Porta Nova. A platibanda difere da realmente construída, o que poderá relacionar-se com um pedido da requerente, de 1875, para modificar as almofadas da platibanda.

 

As casas construídas naquele local, pelo menos até às escadas do Recanto, são reedificações e adaptações do pré-existente, tendo os proprietários que as alinhar dado que agora deitavam para uma pequena escarpa à face da nova rua em construção. A i5 mostra-nos precisamente isso. Creio que não terá restado outra hipótese aos proprietários das casas poupadas à hecatombe a sua demolição se não da totalidade das paredes, pelo menos de todo o seu interior. A casa que conheci, por exemplo, foi certamente construída a pensar em alojar famílias dado que pelo menos o segundo e terceiro andares apresentavam uma enorme boca de extração de fumo na cozinha (a casa é anterior ao aparecimento da eletricidade); o que não joga com um simples acrescentar de paredes para trazer o edifício ao novo alinhamento.

 

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i5 parcial de uma fotografia mostrando o que foi demolido naquela zona: A) local onde existiu a Porta Nova, B) atual término da muralha fernandina, resultante das demolições, C) e E) mostram as casas e escadaria que ainda subsistem das escadas do Recanto e finamente D) serão as casas da D.ª Gertrudes com antigas frentes para a rua do Forno Velho de Baixo (traço amarelo na foto) e rua do Forno Velho de Cima (hoje em parte transformada em saguões das casas existentes)

 

Apelo à boa concentração do leitor para interpretar o parcial de uma planta que apresento abaixo, da altura em que se projetava chegar à nova Alfândega não pela rua que foi efetivamente construída mas pela rua de D. Fernando (atual rua da Bolsa). Ela é plena de pormenores a todos os que queiram melhor conhecer todas as escadinhas que existiam no quase completamente desaparecido bairro dos Banhos (não obstante esta planta apresentar um plano nunca seguido tal não tem afetação para o nosso tema).

 

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i6 eis uma grande fatia do bairro dos Banhos mostrando a área que nos interessa. O retângulo vermelho mostra-nos o atual Forno Velho, sobrevivência da rua do Forno Velho de Cima; o retângulo azul indica as escadas do Recanto, sobrevivência da rua do Forno Velho de Baixo e o castanho a Porta Nova. O verde, é claro, indica o local das casas que se reconstruiram junto à muralha, propriedade da D. Gertrudes. Quase tudo o resto foi destruído

 

Talvez já não se recordem os meus caríssimos leitores da publicação sobre uma rua já desaparecida e completamente esquecida pelos historiadores da cidade (salvo a não surpreendente exceção do Dr. Ferrão Afonso, a quem devo o conhecimento dela), chamada rua da Almea, ou rua da Boa Vista. Nela se falava igualmente na rua da Minhota (ou Munhota), também ela obscura mas mais conhecida por ser frequentas vezes citada como a rua onde existiu uma sinagoga. Ambas se situariam precisamente nesta área, mas ainda hoje nenhum historiador se debruçou sobre elas por forma a identificar com a precisão possível o seu traçado.[7] Ora a rua da Minhota poderá rer sido uma destas duas ruas; talvez com maior probabilidade a rua do Forno Velho de Baixo (hoje reduzida às escadas do Recanto). A rua da Almea situava-se na área agora ocupada pelo convento e já no século XVIII desaparecera da memória dos portuenses (dela ainda sobreviverão restos debaixo da sapata de S. João Novo...).

 

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i7 imagem do saguão da casa colhida em 2017 quando esta era ainda habitada. Para a captar posicionei-me dando as costas à muralha no mesmo local onde se encontrava antes das demolições a escada/viela que descia encostada à dita muralha, dando passagem do Forno Velho de Cima para o Forno Velho de Baixo (ver retângulo verde na i6). Se nos fosse possível ver através dos saguões, teriamos ao fundo o atual Forno Velho. Notar que estes saguões dos edifícios estão ao nível do segundo andar na face voltada à rua, consequência da ocupação da encosta (como vimos atrás na i2, letra G)

 

Na i7 não é percetível o desnível existente entre lado direito que encosta à casa e o lado esquerdo que encosta ao muro, preenchendo um patamar mais elevado no correr da porta entaipada. Estou em crer que esse patamar será tudo o que resta neste lote do solo da antiga viela, pois encontrando-se ele fora do terreno da casa não terá havido a necessidade de o destruir e numa primeira fase seria mesmo importante não o fazer, pois durante algum tempo mais a viela ainda esteve ativa sabendo o autor de viva voz que durante muito tempo por ali se acedeu ao edifício (ver mais abaixo). Uma segunda razão é o facto de aquele patamar ter sensivelmente a medida apontada na explicação do técnico da câmara para a largura do segundo terreno que a D. Gertrudes teria de adquirir - 1,5m - terreno que pela planta i6 se vê ser a continuação daquela viela. É apenas uma hipótese que a arqueologia talvez venha a confirmar ou desmentir.

 

A memória mais antiga que consegui oralmente recolher sobre este edifício ou o seu antecessor, remete-nos para uma escola que ali existiu cujos alunos usavam a porta entaipada visível na i7 para a ele acederem. Em 1955 o edifício era propriedade de uma senhora de nome Laurinda, que por sua vez o herdara do seu falecido marido. Naquela época o rés-do-chão e o primeiro andar já estavam ocupados por escritórios, o segundo por uma família e o terceiro pela proprietária. Em testamento, a D.ª Laurinda deixou o edifício ao Albergue da Mendicidade do Porto. Pela minha parte, nos anos 80/90, recordo que o primeiro e segundo andares estavam ambos ocupados por escritórios e o piso térreo desocupado. O terceiro ocupado pela antiga vizinha de meus avós (com quem emotivamente me reencontrei em 2017) e claro, no quarto pelos meus queridos avós já desaparecidos, que sempre estarão na minha memória.

 

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i8 o edifício que temos vindo a estudar encontra-se agora em obras de remodelação/reconstrução. O que virá a ser?

 

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i9  pormenor das águas-furtadas daquele edifício onde passei os dias mais despreocupados da minha vida. 

 

E assim caríssimos leitores me despeço, agradecendo a todos que tiveram a amabilidade e paciência de ler esta publicação algo fastidiosa sobre uma simples casinha da rua Nova da Alfândega. Como se pode ver abaixo ela encontra-se agora em obras para ressurgir com uma nova vida. Mudam-se os tempos, muda-se os donos... que eu desejo possuam o bom senso de preservar alguma coisa do que ali existiu e não se renderam ao facilitismo de tudo demolir para erguer em betão. Mais feliz ficaria se aquelas paredes fossem ocupadas por famílias de habitantes em alternativa às famílias de hóspedes, para que o n.º 76 da rua Nova da Alfândega pudesse renascer como um novo berço memórias!

 

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1 - A ligação afetiva a toda aquela área juntamente com o facto de ter sido ali que comecei a verdadeiramente me apaixonar pela história da nossa cidade, foi a principal razão que me levou a dar ao blogue o "pomposo" nome A Porta Nobre. Devo contudo advertir que este nome, de origem ainda incerta, não era o oficial daquela entrada da cidade e ainda não logrei conhecer como e quando ele surgiu.

2 - Na janela mais a poente dessa varanda perdeu o autor destas linhas várias horas a observar a máquina Diesel a manobrar os vagões e a fazer um comboio para depois levar para Campanhã e a observar os elétricos que em baixo passavam de e para o términus da linha 1, no Infante.

3 - Minha mãe, nascida em 1950, ainda conheceu os últimos habitantes da casa cujo senhor tinha o ofício de sapateiro. Nitidamente uma casa com origens medievais, ocupava uma área muito estreita de solo, o que obrigava à existência de uma íngreme escadaria para aceder aos sobrados.

4 - Em  setembro daquele ano o Sr. Preguiça pediu lhe fosse autorizado o acrescento de mais um andar.

5 - O técnico da Câmara que analisa o pedido aplica o mesmo termo.

6 - Ao senso comum os pontos cardeais parecem estar mal orientados, contudo se observarmos a rua na carta da cidade veremos que não. Ainda assim, não sendo a orientação rigorosíssima, ela serve o propósito.

7 - Esta tarefa, árdua mas no final gratificante, poderia ser levada a cabo por algum estudante universitário que quisesse fugir aos estudos clichê sobre a rua Nova, Flores e outras. Para isso terá o mesmo de consultar imprescindivelmente o arquivo dos padres de S. João Novo e o da Câmara bem como, de uma forma mais ligeira, os das restantes congregações religiosas possuidoras de casas naquelas ruas.

Como era a Porta Nova ou Nobre

30.09.18

Esta deveria ter sido a publicação de abertura do blogue aqui no Sapo, tal como o foi na sua casa anterior no blogspot. Contudo e porque pretendia desenvolver um pouco mais o tema e corrigir/modificar o registo anterior, acabou por se estender no tempo a sua publicação que apenas agora se dá. Assim, faço-a mesmo coincidir com o aniversário d' A Porta Nobre, trabalho que melhor ou pior iniciei em 30 de setembro de 2009.

Ora após este breve mas pertinente comentário, vamos ao assunto em mãos.

 

A Porta Nova ou Nobre era uma das entradas medievais na cidade do Porto situada grosso modo a meio da atual rua Nova da Alfândega, ainda que a uma cota inferior. Inicialmente um simples postigo da muralha que abraçava a cidade, foi supostamente alargada e elevada à categoria de porta durante o reinado de D. Manuel I[1]. Por diversas vezes por ela entraram os mais altos dignitários que demandavam esta cidade, vindos da outra banda, atravessando o rio e acostando os barcos de passagem no areal que desapareceu com a construção do edifício da alfândega (fazendo a sua entrada no burgo pela rua dos Banhos). Existiu até 1871, ano em que foi sacrificada em nome do progresso e com ela um pouco mais da história e da memória da cidade.

 

Na i1, colhida no googlemaps de há uns anos atrás, podemos ver a área da rua Nova da Alfândega que abarca o antigo correr da muralha e a zona da porta em estudo. O lanço que ainda hoje vemos nas escadas do Caminho Novo continuava uns poucos metros mais para abaixo em direção ao rio e ligava com a porta que se abria para poente. Logo a seguir a ela teríamos o baluarte que lhe fazia companhia e depois, invertendo para nascente, o antigo caminho de rolda da muralha passava a chamar-se rua de Cima do Muro que em 1871 à custa da demolição do bairro dos Banhos perdeu grande parte da sua extensão, permanecendo apenas um troço conhecido como muro dos bacalhoeiros.

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i1 

 

Aquando de umas sondagens arqueológicas prévias naquele local motivadas por um projeto da REFER que não chegou a avançar, foi encontrado em 2004 um troço desse velho muro (visíveis na imagem onde a linha vermelha se interrompe). Isso permitiu constatar o que já parecia muito plausível quando se observavam as fotografias da época das demolições: que os nossos bisavós não destruíram aqueles muros por completo! De facto, parte da muralha ainda lá se encontra in situ, talvez por ficar demasiado dispendioso, mesmo desnecessário, demolir pedra a pedra dado que a rua a abrir seria a uma cota superior; deixando parte do passado ali enterrado à guisa de sepultura.

 

São muito poucas as fotografias que nos mostram a Porta Nova, e ainda assim sempre ao longe e sem grande definição. A i2, preparada por mim, é uma montagem de duas dessas imagens.

 

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 i2 Na imagem da esquerda é perfeitamente visível a abertura da Porta Nova ou Nobre, ao centro da estrutura assinalada pelo retângulo branco. O retângulo amarelo assinala o edifício construído por cima dela no século XVIII. É importante ter em mente que todas as casas que estão à sua frente, no areal de Miragaia, já não existem e no seu lugar a uma cota superior está agora o largo Artur Arcos. A imagem da direita mostra-nos um outro ângulo do mesmo edificado: o B assinala a pequena viela que dava ingresso às escadas do Caminho Novo: a letra A i ndica as casas que se encostavam à muralha pelo lado de fora que sobreviveram à hecatombe de 1870/71; apenas para serem demolidas nos anos 50 do século XX (ver i3)

 

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i3 Escadas do Caminho Novo nos anos 30 do século passado. Ao fundo o retângulo amarelo assinala as casas que se vêm ainda nas fotos onde consta a Porta Nova, assinaladas na I2 com a letra B e na i8 com o n.º 5 (os portais delas lá permanecem, entaipados).

 

 

Henrique Duarte Sousa Reis ainda conheceu esta porta e descreve-a da seguinte forma:

'Consta a Porta Nobre de um edifício fortemente construído com toda a solidez, quasi quadrado em forma de torre feita de pedra assente: é alta e nela praticado está um elegante arco liso e sem adornos ou maineis; olha ao poente para onde é voltada a fachada principal exterior, e sobre ele se vêm duas ordens de janelas de peitoris (sic), que correspondem aos andares, de que esta torre se compõem, contendo cada um deles duas janelas, e no espaço das primeiras lá se encontra no centro o escudo com as reais quinas portuguesas.
Na face interna deste primeiro andar, e logo sobre a porta estava aberto um oratório, aonde se venerava a imagem de «Nossa Senhora das Neves» que todo era voltado para a rua dos Banhos; acha-se hoje [c. 1865] tapado de pedra e cal. (...)[2]
O segundo andar desta torre era reservado para residência de alguma autoridade civíl ou militar, ou finalmente para qualquer repartição pública, como demonstra a grande porta inferior a outro escudo real que sobre a sua padieira se conserva, e é voltada para o lado do sul, e tem comunicação pela escada de pedra fabricada para o cimo da muralha, e próximo ao fortim (...).
Para o mesmo lado do sul corre, desta torre, um pouco mais recuado da linha do frontispício dela, um lanço de muralha lisa, que sobe até à altura da soleira da porta do segundo andar, de que já falei, e pelo lado superior do mesmo lanço foi delineada através de toda a sua grossura a escada, que facilita a entrada para esse andar, mas só por cima do muro de defesa da cidade ao qual se sobe por outro lanço de escadaria também de pedra praticada pela face externa da muralha, de encontro à parede das costas do fortim (...).'

 

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i4 Neste extrato da planta de 1852 para abertura da rua que viria a denominar-se Nova da Alfândega, podemos ver o que parecem ser dois maciços torreões da Porta Nova que nos dá uma boa ideia da sua robustez (n.º 1). O n.º 2 indica o fortim, o 3 a praia de Miragaia, o 4 é a rua das Barreiras, 5 a rua dos Banhos e 6 as escadas do Caminho Novo (parte desaparecida).

 

Mas afinal qual era o verdadeiro aspeto desta anciã entrada da cidade? Já Mário de Menezes no artigo publicado n' O Tripeiro - Vol. XII/6.ª série - havia colocado em dúvida qual a sua real forma face às hipóteses que na sua frente se lhe apresentavam. Contudo este autor parece não conhecer qualquer imagem fotográfica dela (ou pelo menos, não lhe faz referência). A gravura que serve de base a todos nós para ajuizar da sua forma e dimensão - i5 - foi apresentada na revista O Tripeirio de março de 1926; acompanhada de um texto que aparentemente lhe dá bastante credibilidade. Creio contudo que é preciso olhar com olhos bem críticos para esta gravura[3] e não a creditar como definitiva - muito pelo contrário - pois na verdade as datas não estão de acordo com o que seria real. Ora o texto que acompanha a gravura, a certa altura, diz-nos: 'Graças à boa ideia que teve o nosso amigo Sr. Francisco José de Sousa, antigo e abalizado professor de desenho, de fixar no papel o desenho da Porta Nova, copiando-a do natural, na sua mocidade, é que O Tripeiro pode hoje fornecer aos seus leitores a interessantíssima ilustração que acompanha esta artigo'.[4]

 

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 i5 A Porta Nova ou Nobre, conforme representada por quem ainda a conheceu, mas certamente não com esta forma tão primitiva.

 

Não posso estar plenamente de acordo com aquelas palavras. Não duvidando que o autor do desenho o tenha feito a partir do original, estou igualmente convicto que o fez interpretando o que via, transpondo para um possível espeto dela no antigamente. De facto, aquela velha entrada na cidade nunca poderia ter aquele aspeto quando o autor a desenhou. Por todo o século XIX as ameias já se encontravam ausentes e a alvenaria de granito que a compunha não apresentaria certamente aquela forma no 'segundo andar', uma vez que este fora substituído nos inícios de setecentos por um edifício de dois pisos. Também o esguio torreão do lado direito me levanta, por essa mesma caraterística, bastantes dúvidas sobre a sua real existência...

 

Ainda sobre qual seria o aspeto original desta fortificação, na i6 mostro dois estudos de Gouveia Portuense, claramente contrastantes. Quer um quer outro se aproximarão eventualmente mais da realidade nuns pontos enquanto se afastarão radicalmente dela em outros. Qual deles o mais verdadeiro?

 

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i6 Imagens apresentadas na revista O tripeiro, da autoria de Gouveia Portuense.

 

 

Também Artur Arcos, no seu belíssimo painel da Miragaia ribeirinha, pintou esta estrutura, certamente como a viu numa panorâmica bastante antiga e que lhe deve ter servido de inspiração[5]. Embora seja, no meu entender, a melhor interpretação daquela entrada da cidade que conheço, mantenho a convição de que necessitaria de correções.

 

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i7 Interpretação de Artur Arcos da área da Porta Nova.

 

Queria também eu apresentar a minha humilde contribuição para ajuizarmos do aspeto daquela porta, cuja designação escolhi para dar nome ao blogue. Ainda assim, não o faço por agora: prefiro dar a conhecer uma outra fotografia que não obstante a fraca definição, é bastante interessante por ter sido tirada numa altura em que o sol não projetava grande sombra sobre o local. Nela procurei igualmente colocar mais pontos de referência modernos, por forma a ajudar o leitor a realmente ver onde a porta se encontrava (hoje soterrada por baixo da entrada do estacionamento do Parque da Alfândega).

 

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i8 1. À direita é visível o topo da abertura praticada na porta / 2. Casa construída no século XVIII, entre as duas janelas pode-se ver as armas lá colocadas. / 3. Casa atualmente ocupada pelo Grupo Musical de Miragaia (na antiga rua das Barreiras, hoje incorporada na rua da Arménia) / 4. Casa atualmente ocupada pelo Mirajazz (nas escadas do Caminho Novo) / 5. Última casa a ser demolida, já no século XX, que se encontrava encostada à muralha, onde agora a mesma faz o seu último cotovelo e finaliza (ver i3) / 6. Casa atualmente ocupada pela Escola de S. Nicolau, no topo das escadas do Recanto (aquele pequeno correr é o que resta da antiga rua do Forno Velho de Baixo).

 

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i9 Esta imagem pretende contrapor a anterior, mostrando a atualidade do local: os números assinalados são precisamente os mesmos locais, na imagem i8: 3. Grupo Musical de Miragaia, 4. Mirajazz, 5.último cotovelo da muralha antes de a mesma finar na Porta Nova, onde se encostavam as casas assinaladas com 5 na i8.

 

 

Em novembro de 1870 o arco da Porta Nova foi entaipado 'até meio das pedras' uma vez que era já muito perigoso transitar por ali dado o grande amontoado de entulho e as demolições em curso. Ainda no mesmo mês n' O Comércio do Porto é referido que se andava à procura de nova casa para a 3.ª Esquadra de Polícia que se encontrava na que ficava 'sobre o arco da Porta Nobre', que ia ser demolida[6]. Ao contrário do que surge escrito em alguns números da revista O Tripeiro na sua 3ª, 5ª e 6ª séries, a Porta Nova não foi destruída em 1872 mas sim em 1871. Eu próprio tive ocasião de o verificar nos jornais da época (este erro de um ano é corrigido no seu último volume da 6º série, mas não o mês que continua a ser indicado como sendo o de fevereiro).

 

Na atualidade tudo o que dela nos resta são as armas fernandinas, que possuem a curiosa característica de desenharem onze castelos ao invés dos atuais sete, bem como umas suas congéneres do século XVIII, ambas guardadas no Museu Nacional Soares dos Reis. Mas há também a grande possibilidade de pelo menos os primeiros metros em altura desta porta ainda se encontrarem no seu local original, ali, debaixo da rua que a sepultou para sempre...

 

Finalizo esta publicação com umas curiosas notícias respeitantes aos últimos dia daquele imponente entrada na cidade que por quase 500 anos campeou, na paisagem da praia de Miragaia:

1. «Arco da Porta Nobre - Conforme já informamos os leitores, anda-se procedendo à demolição do antigo arco da Porta Nobre e do edifício que lhe ficava por cima para abertura da rua da nova alfândega. No edifício a que nos referimos havia umas armas e uma inscrição que a Exma. Câmara, com louvável desvelo, fez remover para o Museu Municipal da rua da Restauração. A inscrição diz o seguinte: GOVERNANDO AS ARMAS DESTA CIDADE E SEU PARTIDO, O CORONEL ANTONIO MONERO DE ALMEIDA, SE FEZ ESTA OBRA NO ANO DE 1731[7]. No andar que ficava ao nível do pátio do mesmo edifício, apareceu também um letreiro toscamente feito em uma pedra, a qual, segundo se pode entender, diz: 17 DO 6º DE 1410. No espaço que ia de uma a outra janela conhecia-se que havia brechas iguais às de inclinar as peças.» In O Comércio do Porto de 28 de abril de 1871 

2. «Rua da Nova Alfândega - Principiaram ontem os trabalhos para a construção da rampa do lado da antiga Porta Nobre para a carga e descarga dos barcos, (...). O Arco da Porta Nobre já está todo desfeitoIn O Comércio do Porto e 17 de agosto de 1871 (o sublinhado é meu)

 

E em jeito de remate, recordo uma notícia de 15 de agosto de 1871 do O Jornal do Porto sobre um acontecimento que se dera dois dias antes. Embora irrelevante, serve aqui para contrapor um registo mais leve, para o leitor descomprimir da densidade da matéria acima estudada. Recordemos que por aquela altura andava em construção a rua Nova da Alfândega, e o arco da Porta Nova iria ser dentro de dias demolido, pelo que a paisagem em redor dela seria de um caos de pó, buracos, terra e pedra:

'Ante-ontem, ao cair da noite, voltavam da Foz quatro cavalerias (sic) da Guarda Municipal, e chegavam à Porta Nobre quando já a vozeria dos barqueiros lhes anunciava que tinham de retroceder até à Restauração, por causa do tapume que obstrue o arco.

Quando os cavaleiros conheceram o engano, já a vozeria era estrepitosa e acerada de motejos desta laia:
    - Para trás!
    - É tornar pela Restauração!
    - É ter paciência!
Os cavalerias (sic), de repente, como se se tivessem passado palavra, cravam os acicates nos cavalos e arremetem denodadamente contra as escadas de Cima do Muro[8].
    Num momento desapareceram cavalos, e cavaleiros diante da multidão que, de motejadora, ficou boquiaberta.'

 

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1 - Facto que carece de esclarecimento. Por exemplo, J.P. n' O Tripeiro de Agosto de 1910 diz que a porta foi alargada por ordem de D. Manuel I em 1522, juntamente com o fortim. Mas D. Manuel I morreu em 1521 e o fortim foi apenas construído anos depois, fazendo parte da linha de defesa da cidade como último reduto de defesa após o forte de S. João da Foz.

2 - Segundo Pinho Leal seria a Nossa Senhora do Socorro. Mais à frente na sua obra refere Sousa Reis sobre este oratório: «primitivamente esteve sobre o arco de S. Domingos, e depois foi transferido para cima do arco da Porta Nobre, onde ainda pelo lado da rua dos Banhos, se vêm os restos»; mas relembro o leitor que este último autor não é contemporâneo do arco de S. Domingos, que mais nada era do que a Capela de Nossa Senhora das Neves, demolida em 1758.

3 - Um pouco à semelhança do que fez Magalhães Basto com as gravuras da Porta da Vandoma, artigo quem um dia recuperarei neste blogue.

4 - Francisco José de Sousa tinha, aquando da publicação destas linhas em 1923, mais de 90 anos; pelo que à data da demolição da Porta estaria perto dos 40.

5 - Artur Arcos nasceu em 1914, 43 anos após a demolição do monumento, e começou a pintar em 1959. A outra pintura onde o autor representa esta entrada da cidade é um fausto de pompa e cor ainda que o anacronismo impere (a ação tem lugar no século XV sendo-nos apresentada com o edificado do século XIX) e seja, a meu ver, irrealista na forma quer da porta quer do fortim.

6 - Esta casa é precisamente a que Sousa Reis descreve e que se encontrava por cima do torreão da porta em estudo.

7 - Num manuscrito guardado na Biblioteca Pública Municipal do Porto da autoria de Joaquim Manuel Teixeira Marinho, encontram-se o desenho desta inscrição que nos permite ver que o nome Monero apresentado pelo jornal é de facto Monteiro. A inscrição, como se comprova no mesmo desenho, abrevia ou omite algumas letras sobretudo os ii, que aparecem apenas como um ponto por cima de uma das suas adjacentes.

8 - A Câmara designara como alternativa à rua dos Banhos enquanto se ia abrindo a rua Nova da Alfândega,a calçada da Esperança; hoje rua de Tomás Gonzaga.

 

 

NOTAS: 1) Esta publicação é uma revisão e ampliação das publicadas originalmente no blogspot em 30 de setembro de 2009, 26 de novembro de 2009, 18 de dezembro de 2013 e 18 de abril de 2016 ; 2) o ponto 7 foi acrescentado em 01.07.2019 bem como o ponto 2 foi melhorado.