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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Como era a Porta Nova ou Nobre

por Nuno Cruz, em 30.09.18

Esta deveria ter sido a publicação de abertura do blogue aqui no Sapo, tal como o foi na sua casa anterior no blogspot. Contudo e porque pretendia desenvolver um pouco mais o tema e corrigir/modificar o registo anterior, acabou por se estender no tempo a sua publicação que apenas agora se dá. Assim, faço-a mesmo coincidir com o aniversário d' A Porta Nobre, trabalho que melhor ou pior iniciei em 30 de setembro de 2009.

Ora após este breve mas pertinente comentário, vamos ao assunto em mãos.

 

A Porta Nova ou Nobre era uma das entradas medievais na cidade do Porto situada grosso modo a meio da atual rua Nova da Alfândega, ainda que a uma cota inferior. Inicialmente um simples postigo da muralha que abraçava a cidade, foi supostamente alargada e elevada à categoria de porta durante o reinado de D. Manuel I [1]. Por diversas vezes por ela entraram os mais altos dignitários que demandavam esta cidade, vindos da outra banda, atravessando o rio e acostando os barcos de passagem no areal que desapareceu com a construção do edifício da alfândega. Transposta a dita porta faziam a sua entrada no burgo pela rua dos Banhos. Existiu até 1871, ano em que foi sacrificada em nome do progresso e com ela um pouco mais da história e da memória da cidade.

 

Na i1, colhida no googlemaps de há uns anos atrás, podemos ver a área da rua Nova da Alfândega que abarca o antigo correr da muralha e a zona da porta em estudo. O lanço que ainda hoje vemos nas escadas do Caminho Novo continuava uns poucos metros mais para abaixo em direção ao rio e ligava com a porta que se abria para poente. Logo a seguir a ela teríamos o baluarte que lhe fazia companhia e depois, invertendo para nascente, o antigo caminho de rolda da muralha passava a chamar-se rua de Cima do Muro que em 1871 à custa da demolição do bairro dos Banhos perdeu grande parte da sua extensão, permanecendo apenas um troço denominado muro dos bacalhoeiros).

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i1 

 

Aquando de umas sondagens arqueológicas prévias naquele local motivadas por um projeto da REFER que não chegou a avançar, foi encontrado em 2004 um troço desse velho muro (visíveis na imagem onde a linha vermelha se interrompe). Isso permitiu constatar o que já parecia muito plausível quando se observavam as fotografias da época das demolições: que os nossos bisavós não destruíram aqueles muros por completo! De facto, parte da muralha ainda lá se encontra in situ, talvez por ficar demasiado dispendioso, mesmo desnecessário, demolir pedra a pedra dado que a rua a abrir seria a uma cota superior; deixando parte do passado ali enterrado à guisa de sepultura.

 

São muito poucas as fotografias que nos mostram a Porta Nova, e ainda assim sempre ao longe e sem grande definição. A i2, preparada por mim, é uma montagem de duas dessas imagens.

 

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 i2 Na imagem da esquerda é perfeitamente visível a abertura da Porta Nova ou Nobre, ao centro da estrutura assinalada pelo retângulo branco. O retângulo amarelo assinala o edifício construído por cima dela no século XVIII. É importante ter em mente que todas as casas que estão à sua frente, no areal de Miragaia, já não existem: em seu lugar e a uma cota superior está agora o largo Artur Arcos. A imagem da direita mostra-nos um outro ângulo do mesmo edificado: o B assinala a pequena viela que dava ingresso ás escadas do Caminho Novo; a letra A mostra as únicas casas que se encostavam à muralha pelo lado de fora que sobreviveram à hecatombe de 1870/71; apenas para serem demolidas nos anos 50 do século XX (ver i3)

 

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i3 Escadas do Caminho Novo nos anos 30 do século passado. Ao fundo o retângulo amarelo assinala as casas que se vêm ainda nas fotos onde consta a Porta Nova, assinaladas na I2 com a letra B e na i8 com o n.º 5 (os portais destas casas ainda lá estão entaipados).

 

 

Henrique Duarte Sousa Reis ainda conheceu esta porta e descreve-a da seguinte forma:

'Consta a Porta Nobre de um edifício fortemente construído com toda a solidez, quasi quadrado em forma de torre feita de pedra assente: é alta e nela praticado está um elegante arco liso e sem adornos ou maineis; olha ao poente para onde é voltada a fachada principal exterior, e sobre ele se vêm duas ordens de janelas de peitoris (sic), que correspondem aos andares, de que esta torre se compõem, contendo cada um deles duas janelas, e no espaço das primeiras lá se encontra no centro o escudo com as reais quinas portuguesas.
Na face interna deste primeiro andar, e logo sobre a porta estava aberto um oratório, aonde se venerava a imagem  de «Nossa Senhora das Neves» que todo era voltado para a rua dos Banhos; acha-se hoje [c. 1865] tapado de pedra e cal. (...) [2]
O segundo andar desta torre era reservado para residência de alguma autoridade civíl ou militar, ou finalmente para qualquer repartição pública, como demonstra a grande porta inferior a outro escudo real que sobre a sua padieira se conserva, e é voltada para o lado do sul, e tem comunicação pela escada de pedra fabricada para o cimo da muralha, e próximo ao fortim (...).
Para o mesmo lado do sul corre, desta torre, um pouco mais recuado da linha do frontispício dela, um lanço de muralha lisa, que sobe até à altura da soleira da porta do segundo andar, de que já falei, e pelo lado superior do mesmo lanço foi delineada através de toda a sua grossura a escada, que facilita a entrada para esse andar, mas só por cima do muro de defesa da cidade ao qual se sobe por outro lanço de escadaria também de pedra praticada pela face externa da muralha, de encontro à parede das costas do fortim (...).'

 

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i4 Neste extrato da planta de 1852 para abertura da rua que viria a denominar-se Nova da Alfândega, podemos ver o que parecem ser dois maciços torreões da Porta Nova que nos dá uma boa ideia da sua robustez (n.º 1). O n.º 2 indica o fortim, o 3 a praia de Miragaia, o 4 é a rua das Barreiras, 5 a rua dos Banhos e 6 as escadas do Caminho Novo (parte desaparecida).

 

Mas afinal qual era o verdadeiro aspeto desta anciã entrada da cidade? Já Mário de Menezes no artigo publicado n' O Tripeiro - Vol. XII/6.ª série - havia colocado em dúvida qual a sua real forma face às hipóteses que na sua frente se lhe apresentavam. Contudo este autor parece não conhecer qualquer imagem fotográfica dela (ou pelo menos, não lhe faz referência). A gravura que serve de base a todos nós para ajuizar da sua forma e dimensão - i5 - foi apresentada na revista O Tripeirio de março de 1926; acompanhada de um texto que aparentemente lhe dá bastante credibilidade. Creio contudo que é preciso olhar com olhos bem críticos para esta gravura[3] e não a creditar como definitiva - muito pelo contrário - pois na verdade as datas não estão de acordo com o que aparentemente seria real. Ora o texto que acompanha a gravura, a certa altura, diz-nos: 'Graças à boa ideia que teve o nosso amigo Sr. Francisco José de Sousa, antigo e abalizado professor de desenho, de fixar no papel o desenho da Porta Nova, copiando-a do natural, na sua mocidade, é que O Tripeiro pode hoje fornecer aos seus leitores a interessantíssima ilustração que acompanha esta artigo'. [4]

 

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 i5 A Porta Nova ou Nobre, conforme representada por quem ainda a conheceu, mas certamente não com esta forma tão primitiva.

 

Ainda assim não posso estar plenamente de acordo com aquelas palavras. Não duvidando que o autor do desenho o tenha feito a partir do original, estou igualmente convicto que o fez interpretando o que via, transpondo para um possível espeto dela no antigamente. De facto, aquela velha entrada na cidade nunca poderia ter aquele aspeto quando o autor a desenhou. Por todo o século XIX as ameias já se encontravam ausentes e a alvenaria de granito que a compunha não apresentaria certamente aquela forma no 'segundo andar', uma vez que este fora substituído nos inícios de setecentos por um edifício de dois pisos. Também o esguio torreão do lado direito me levanta, por essa mesma caraterística, bastantes dúvidas sobre a sua real existência...

 

Ainda sobre qual seria o aspeto original desta fortificação, na i6 mostro dois estudos de Gouveia Portuense, claramente contrastantes. Quer um quer outro se aproximarão eventualmente mais da realidade nuns pontos enquanto se afastarão radicalmente dela em outros. Qual deles o mais verdadeiro?

 

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i6 Imagens apresentadas na revista O tripeiro, da autoria de Gouveia Portuense.

 

 

Também Artur Arcos, no seu belíssimo painel em que quase fotografa a Miragaia ribeirinha, pintou esta estrutura, certamente como a viu numa panorâmica bastante antiga e que lhe deve ter servido de inspiração[5]. Esta é no meu entender a melhor interpretação daquela entrada da cidade que conheço; ainda que esteja convencido necessitar de vários acertos.

 

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i7 Interpretação de Artur Arcos da área da Porta Nova.

 

Queria também eu apresentar a minha humilde contribuição para ajuizarmos do aspeto desta porta, cuja designação escolhi para dar nome a este blogue. Ainda assim, não o faço por agora: prefiro dar a conhecer uma outra fotografia que não obstante a fraca definição, é bastante interessante por ter sido tirada numa altura em que o sol não projetava grande sombra sobre o local. Nela procurei igualmente colocar mais pontos de referência modernos, por forma a ajudar o leitor a realmente ver onde a porta se encontrava (hoje soterrada por baixo da entrada do estacionamento do Parque da Alfândega).

 

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i8 1. À direita é visível o topo da abertura praticada na porta / 2. Casa construída no século XVIII, entre as duas janelas pode-se ver as armas lá colocadas. / 3. Casa atualmente ocupada pelo Grupo Musical de Miragaia (na antiga rua das Barreiras, hoje incorporada na rua da Arménia) / 4. Casa atualmente ocupada pelo Mirajazz (nas escadas do Caminho Novo) / 5. Última casa a ser demolida, já no século XX, que se encontrava encostada à muralha, onde atualmente a mesma faz o seu último cotovelo e finaliza (ver i3) / 6. Casa atualmente ocupada pela Escola de S. Nicolau, no topo das escadas do Recanto (aquele pequeno correr é o que resta da antiga rua do Forno Velho de Baixo).

 

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i9 Esta imagem pretende contrapor a anterior, mostrando a atualidade do local: os números assinalados são precisamente os mesmos locais, na imagem i8: 3. Grupo Musical de Miragaia, 4. Mirajazz, 5.último cotovelo da muralha antes de a mesma finar na Porta Nova, onde se encostavam as casas assinaladas com 5 na i8.

 

 

Em novembro de 1870 o arco da Porta Nova foi entaipado 'até meio das pedras' uma vez que era já muito perigoso transitar por ali dado o grande amontoado de entulho e as demolições em curso. Ainda no mesmo mês n' O Comércio do Porto é referido que se andava à procura de nova casa para a 3.ª Esquadra de Polícia que se encontrava na que ficava 'sobre o arco da Porta Nobre', que ia ser demolida[6]. Ao contrário do que surge escrito em alguns números da revista O Tripeiro na sua 3ª, 5ª e 6ª séries, a Porta Nova não foi destruída em 1872 mas sim em 1871. Eu próprio tive ocasião e o verificar nos jornais a época (fazendo justiça àquela centenária revista, este erro de um ano é corrigido no seu último volume da 6º série, mas não o mês que continua a ser dado como fevereiro).

 

Na atualidade, tudo o que dela nos resta são as armas 'fernandinas', que possuem a curiosa característica de desenharem onze castelos ao invés dos atuais sete, bem como umas suas congéneres do século XVIII: ambas guardadas no Museu Nacional Soares dos Reis. Mas há também a grande possibilidade de pelo menos os primeiros metros em altura desta porta ainda se encontrarem no seu local original, ali, debaixo da rua que a sepultou para sempre...

 

Finalizo esta publicação com umas curiosas notícias respeitantes aos últimos dia daquele imponente entrada na cidade que por quase 500 anos campeou, na paisagem da praia de Miragaia:

1. «Arco da Porta Nobre - Conforme já informamos os leitores, anda-se procedendo à demolição do antigo arco da Porta Nobre e do edifício que lhe ficava por cima par a abertura da rua da nova alfândega. No edifício a que nos referimos havia umas armas e uma inscrição que a Exma. Câmara, com louvável desvelo, fez remover para o Museu Municipal da rua da Restauração. A inscrição diz o seguinte: GOVERNANDO AS ARMAS DESTA CIDADE E SEU PARTIDO, O CORONEL ANTONIO MONERO DE ALMEIDA, SE FEZ ESTA OBRA NO ANO DE 1731. No andar que ficava ao nível do pátio do mesmo edifício, apareceu também um letreiro toscamente feito em uma pedra, a qual, segundo se pode entender, diz: 17 DO 6º DE 1410. No espaço que ia de uma a outra janela conhecia-se que havia brechas iguais ás e inclinar as peças.» In O Comércio do Porto e 28 de abril de 1871 

2. «Rua da Nova Alfândega - Principiaram ontem os trabalhos para a construção da rampa do lado da antiga Porta Nobre para a carga e descarga dos barcos, (...). O Arco da Porta Nobre já está todo desfeitoIn O Comércio do Porto e 17 de agosto de 1871 (o sublinhado é meu)

 

E em jeito de remate, recordo uma notícia de 15 de agosto de 1871 do O Jornal do Porto sobre um acontecimento que se dera dois dias antes. Embora irrelevante, serve aqui para contrapor um registo mais leve, para o leitor descomprimir da densidade da matéria acima estudada. Recordemos que por aquela altura andava em construção a rua Nova da Alfândega, e o arco da Porta Nova iria ser dentro de dias demolido, pelo que a paisagem em redor dela seria de um caos de pó, buracos, terra e pedra:

'Ante-ontem, ao cair da noite, voltavam da Foz quatro cavalerias (sic) da Guarda Municipal, e chegavam à Porta Nobre quando já a vozeria dos barqueiros lhes anunciava que tinham de retroceder até à Restauração, por causa do tapume que obstrue o arco.

Quando os cavaleiros conheceram o engano, já a vozeria era estrepitosa e acerada de motejos desta laia:
    - Para trás!
    - É tornar pela Restauração!
    - É ter paciência!
Os cavalerias (sic), de repente, como se se tivessem passado palavra, cravam os acicates nos cavalos e arremetem denodadamente contra as escadas de Cima do Muro[7].
    Num momento desapareceram cavalos, e cavaleiros diante da multidão que, de motejadora, ficou boquiaberta.'

 

Convenhamos que ver aqueles cavaleiros a subir aquela escadaria deve ter sido uma visão única, mesmo para aquele tempo!

 

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1 - Facto que carece de esclarecimento. Por exemplo, J.P. n' O Tripeiro de Agosto de 1910 diz que a porta foi alargada por ordem de D. Manuel I em 1522, juntamente com o fortim. Mas D. Manuel I morreu em 1521 e o fortim foi apenas construído anos depois, fazendo parte da linha de defesa da cidade como último reduto de defesa após o forte de S. João da Foz.

2 - Segundo Pinho Leal seria a Nossa Senhora do Socorro. Mais à frente na sua obra refere Sousa Reis sobre este oratório: «primitivamente esteve sobre o arco de S. Domingos, e depois foi transferido para cima do arco da Porta Nobre, onde ainda pelo lado da rua dos Banhos, se vêm os restos».

3 - Um pouco à semelhança do que fez Magalhães Basto com as gravuras da Porta da Vandoma, artigo quem um dia recuperarei neste blogue.

4 - Francisco José de Sousa tinha, aquando da publicação destas linhas em 1923, mais de 90 anos; pelo que à data da demolição da Porta estaria perto dos 40.

5 - Artur Arcos nasceu em 1914, 43 anos após a demolição do monumento, e começou a pintar em 1959. A outra pintura onde o autor representa esta entrada da cidade é um fausto de pompa e cor ainda que o anacronismo impere (a ação tem lugar no século XV sendo-nos apresentada com o edificado do século XIX) e seja, a meu ver, irrealista na forma quer da porta quer do fortim.

6 - Esta casa é precisamente a que Sousa Reis descreve e que se encontrava por cima do torreão da porta em estudo.

7 - A Câmara designara como alternativa à rua dos Banhos enquanto se ia abrindo a rua Nova da Alfândega,a calçada da Esperança; hoje denominada rua de Tomás Gonzaga.

 

 

NOTA: Esta publicação é uma revisão e ampliação das publicadas originalmente no blogspot em 30 de setembro de 2009, 26 de novembro de 2009, 18 de dezembro de 2013 e 18 de abril de 2016.