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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Um cenário para sempre irrepetível

11.08.19

Ainda hoje portadora de um sentimento medieval, a freguesia da Sé era tudo o que nela ainda se encontra e bem mais... Como é de geral conhecimento, algumas ruas que se situavam em frente e nas imediações da Catedral foram demolidas em 1939/40[1], com o intuito de ali se criar um largo - o Terreiro da Sé - com vista à monumentalização do conjunto dos edifícios episcopais, tornando-os mais visíveis, mais airosos e altaneiros[2]. Disso resultando uma acrópole medievo-barroca de forte impacto cénico ainda que artificial por ser completamente desprovida de historicidade[3]. A bonita imagem que o leitor pode ver logo abaixo é um dos poucos registos que nos ficaram do local tal como as gerações anteriores nos legaram, fruto das modificações por elas executadas ao sabor das suas necessidades mais do que das suas paixões.

 

 

tsantdem.png

i1 esta irrepetível imagem mostra-nos o bem mais acanhado acesso à igreja da Sé que existiu até 1939. Oponente à sua fachada, sobre cujas escadas da entrada uma pessoa descansa, temos a Capela de N.ª Sr.ª de Agosto (também conhecida por Capela dos Alfaiates), que dali foi levada para o gaveto entra a rua do Sol e a rua de São Luís.

 

 

E assim foi: em 1940, por ocasião de umas comemorações que por ali tiveram lugar, foi inaugurado oficialmente este espaço que se nos apresenta hoje aos nossos olhos livre já das casas antigas em ruas centenares que faziam frente à Sé Catedral, Casa do Cabido e Paço Episcopal. Mas a filosofia de restauro da época vivia ligada à monumentalização dos edifícios pátrios construídos sobretudo nos estilos românico e gótico, a que não foi alheio o culto da Nação à maneira do Estado Novo. Assim se impunha e assim se fez.

 

 

Screenshot_1.jpg

i2 esta planta surge num relatório da Câmara Municipal de 1938 e mostra-nos que o plano de demolições era bem mais ambicioso (felizmente não todo concretizado). Aqui já não figura a capela da foto acima (local assinalado com o X) no entanto o restanto edificado que iria desaparecer ainda lá se encontra. Mais: caso o plano fosse inteiramente executado, teriam sido exterminados pura e simplesmente quase todos os edifícios situados dentro do chamado muro velho; i. é, a muralha defensiva pré-românica e românica!

 

 

É claro que essa atitude, que teve quanto a mim o único efeito positivo de trazer alguma salubridade ao bairro da Sé, levou a que as gerações vindouras apenas pudessem aceder a uma boa fatia da história da cidade através dos escritos que nos foram deixados (por exemplo os Tombos da Mitra e do Cabido), nas fotografias (felizmente já existia este tipo de registo!) ou nas diversas plantas depositadas no Arquivo Municipal do Porto. Ficou-nos contudo irremediavalmente vedado o confronto desses registos com que poderia existir in loco, pois graças aquela fatídica decisão de 1938 para sempre se perderam aquelas ruas.

 

Para Sempre!

 

_______

1 - A mui antiga rua das Tendas, por exemplo, era um desses arruamento, ainda que nos nossos dias não fosse esse já o seu nome.

2 - A triste verdade é que se "devolveu" imponência a um edifício que nunca o pretendeu ter, ao menos da forma como o pensavam o governo nacionalista de meados do século XX. Nem passava aliás pela cabeça das gentes medievais tal ideia; mesmo tomando em consideração que a cércea das habitações comuns foram pelo menos até ao século XVII/XVIII bem menores que as dos edifícios atuais (a maioria do século XIX) o que certamente faria com que os fortes muros catedralícios sobressaíssem no conjunto urbano.

3 - Sendo a cidade medieval um amontado de casas desalinhadas, hortas, pomares, fraguedos, terrenos baldios, açougues, pelames, etc; nunca esta área esteve livre da outras edificações que se lhe avizinhavam, mais próximas ou mais afastadas. Tome-se como exemplo a primitiva casa da Câmara que até meados do século XIV se adossava à própria Sé numa casa de madeira pequena e desconjuntada.

 

 

§ Texto originalmente colocado no blogspot em 05.03.2014, agora revisto e aumentado.

Romance às obras setecentistas na Sé

07.07.19

Como é geralmente sabido a Sé Catedral do Porto chegou aos início do século XX com o aspeto que lhe foi dado após a Sede Vacante ocorrida dois séculos antes[1]. Com efeito, as obras que o Cabido operou na fábrica da nossa secular igreja vestiram-na de elementos barrocos, tendo para isso sido sacrificados muitos dos seus elementos românicos originais e outros desaparecido por detrás de novas paredes, talha e estuque... No século passado estando a DGEMN e seguir uma política de reintegração dos monumentos no seu desenho românico original, se por uma lado eliminou muitos desses anacronismos setecentistas colocando à vista estruturas originais do monumento que se pensavam para sempre perdidas, por outro lado fez desaparecer muitas obras de arte barrocas, no conjunto de todo o monumento. Assim, é um facto que hoje nela podemos apreciar bastante trabalho de pedreiro de excelente execução, contudo longe de ser medieval ele próprio ainda não completou cem anos de idade! Talvez agora, no século XXI, com uma outra forma de encarar e acarinhar os monumentos que herdamos de geração em geração, a nossa Catderal possa descansar de semelhantes esbulhos; e que as gerações atuais e vindouras não tenham ideia de a modernizar ou de a desmodernizar com uma suposta reintegração (o que quer que isso queira dizer!).

 

Mas voltemos ao século XVIII. Existe na Biblioteca Pública de Braga um Romance não datado e não assinado, que é particularmente interessante de ler: trata-se nada mais nada menos do que uma crítica ao Cabido e ao cónego encarregado das obras da Sé por aquela mesma instituição. Se não se trata de um documento profundo e importante em termos históricos, não deixa ele de ser bastante curioso e jocoso. Aqui o deixo transcrito do volume II da obra O Porto na Época dos Almadas de Joaquim Jaime B. Ferreira Alves (1990), atualizando apenas a ortografia. Espero que vos agrade!

 

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interior da Sé Catedral antes das transformações operadas pela DGEMN nos anos vinte e trinta do século passado. Este era o aspeto que havia resultado das campanhas de obras barrocas, criticadas no texto.

 

*

 

«Falecendo o Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor D. Frei António de Sousa, bispo do Porto em 4 de junho de 1766, o Ilustríssimo, e Reverendíssimo Cabido, logo depois do seu falecimento intentou, e com efeito pôs em execução o mandar concertar a igreja da Sé; tanto por fora, como por dentro: para este fim nomeou diretor das obras ao reverendo doutor José Pedro Vergolino, Acipreste da sua catedral. A esta eleição se fez o seguinte

 

Romance

 

Senhores da Sé Vacante

Um zeloso, e grande amigo

Da vossa honra, pertende,

Que um pouco lhes deis ouvidos.

 

Assim só de vos dizer

Do muito que se está rindo

Quasi toda esta cidade

Desse vosso patetismo

 

Pois sendo vós tão discretos

E prezados de entendidos;

Fostes eleger mestre de obras

ao preclaro Vergolino!

 

Um homem, que às suas rendas

Nunca lhe soube dar tino;

Pois sempre as trouxe emprazadas

Em mãos de outro senhorio!

 

Um homem, que só de barro

Sabe formar assovios,

Pintar de pardo as paredes,

Formar no ar labirintos!

 

Um homem que tem ideias

Para gastar de improviso

Cem moedas em uma noute,

Fazendo gala do vício!

 

Um homem, que os curadores

Não lhe poderão dar isso;

Porque em todos os empregos

Sempre mostrou desvario!

 

Um homem, que governar-se

Nunca soube, e por isso

Mete em casa o Pirralho

Diretor do indivíduo!

 

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mais notáveis elementos barrocos eliminados da fachada da Sé Catedral, aquando da reintegração do século XX

 

Enfim, um homem de pedras,

Sem dar nunca um indício;

Que ainda nos séculos vindouros

Virá a ter algum juízo!

 

A este pois só achasteis

Mais capaz nesse Cabido,

Para diretor das obras;

De que todos se estão rindo!

 

Eu bem sei, que a Sé por fora

Fica um quadro de embutidos,

Um tabuleiro de damas,

Um composto de bonitos.

 

Um mapa todo de figuras,

Mui bem lançadas nos riscos;

Que as do jardim de Versalhes

Não podem ter mais feitio.

 

Eu bem sei, que agrada aos olhos

Da dama o rosto bornido;

Porém a pagar-lhe os gastos

Soa muito mal aos ouvidos.

 

Senão dizei-me senhores;

Que tem as rendas do bispo,

Para pagar as pinturas

Do chafariz do registo?

 

Tanto ferro esperdiçado

Tanto ouro embutido,

Tantas jornais, tantos óleos,

É zelo, ou desperdício?

 

Um chafariz, que se agora

Lança água do Registo;

Em vindo novo prelado

Ninguém nele molha a bico.

 

Para borrar-lhe o letreiro,

E por-lhe por subscrito;

Que se murió para el mundo

La que foi nata em Cabido.

 

Dizei-me: as pedras que estavão

Há tantos anos

Duraram agora mais

Com a reforma dos picos?

 

As tintas pelas paredes

Pelas juntas tantos riscos

Farão que tenhão mais dura

Com os fortes desse edifício?

 

Não era melhor, meus senhores,

Conservar o pardo limpo,

E cuidares lá por dentro

No que é culto divino!

 

Encher de ouro os ornamentos;

Fazer cortinas de tino;

Alcatifar a Sé toda,

Os altares todos ricos!

 

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A Sé do Porto no século XX de Maria Leonor Botelho, é um livro imprescindivel para quem queira conhecer quem e como se "fez" a Sé catedral que chegou aos nossos dias

 

Mas que há-de ser se elegestes

Um mestre de obras noviço

Que tudo quanto professa

Entesoura nos abismos!

 

E o pior, meus senhores, é

pagar-lhe o feitio;

Se estiverdes pelas contas,

Que vos der o Vergolino.

 

E haveis de ser tão bons homens.

E homens de tanto brio,

Que digais: Estamos por tudo

Sem mais forma de juízo

 

Ora tomai meus concelhos,

Assentai no que vos digo,

Recebi o rol dos gastos

Estando vós em Cabido.

 

Depois de vistas as contas,

E depois de tudo lido,

Sem que seja relator,

Porque é parte o Vergolino.

 

Por acordão resolvemos

Pague-se o que for preciso;

E tudo o que for supérfulo

Pague a parte, está dito

 

Fim»

 

*

 

Agora que terminou a leitura do documento, pergunto ao leitor: não se trata de um curioso e interessante testemunho crítico daquele espaço, daquele tempo?... 

 

_______________________________________________

1 - Não obstante desde pelo menos o século XVI existirem registos de obras na sua fábrica. A mais marcante é a substituição da capela-mor românica (em deambulatório) pela que agora existe, do início do século XVII e que resulta da vontade do bispo D. Frei Gonçalo de Morais - ver mais aqui).

A Capela-mor e a Sacristia da Sé Catedral

16.11.18

Venho hoje, caros leitores, trazer-vos uma publicação espontânea. Serve ela para celebrar a aquisição de uma obra que já vinha a namorar há algum tempo, e que nesta semana finalmente consegui adquirir. Trata-se do conhecido tratado Memórias Archologico-Históricas da cidade do Porto, editadas em Braga(!) no ano de 1924; da autoria de Monsenhor José Augusto Ferreira.

 

Acredito que alguns de vós já conheça esta obra, mas mais acredito que seja inteiramente desconhecido pela maioria. Não irei discorrer da sua qualidade mas, quando abri e desfolhei os volumes um pensamento súbito apoderou-se de mim e me fez meditar sobre ele : Os exemplares que adquiri estão ainda com as páginas juntas tal qual como saíram da gráfica. Constatei assim que, em quase 100 anos de existência, ninguém leu estes exemplares em particular! Uma obra de uma tiragem tão escassa tão rara e tão importante, virgem como qual saiu do prelo parece-me deveras para lamentar. Assim, e apesar das páginas se encontrarem já amarelecidas pelo tempo, constatei ser o primeiro a por os olhos em pleno nelas. Não que isso me traga especial vantagem ou qualquer tipo de benefício, mas não deixo de sentir uma certa tristeza. Os livros compram-se para serem lidos, é essa pelo menos a minha política...

 

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i1 - Capa do primeiro volume da obra em estudo. Nela impera um equívoco: O Porto não é Ciuitas Virginis como aqui se vê no pseudo-brasão, mas sim Ciuitatis Virginis, o que é completamente diferente! Este erro persiste à séculos e é daqueles enganos que de tantas vezes repetido já foi elevado a verdade para muitos que deveriam saber melhor....

 

Isto dito deixo-vos com um pequeno texto extraído desse livro, a pp. 197 e 198, referente à Capela-mor e Sacristia da Sé Catedral, edifícios que a patina do tempo equilibrou com o restante corpo da máquina da igreja, mas que na verdade são umas centenas de anos mais novas que a românica igreja fortaleza que se vislumbra ao longe a todos que contemplam aquela imensa penedia chamada Penaventosa.

 

*

«Capela-mor e Sacristia da Catedral (1606).

Para atestar a grandeza deste Prelado [D. Fr. Gonçalo de Morais] existem na Catedral do Porto duas obras notáveis: a Capela-mor e a Sacristia. Esta, cujo pavimento é de mármore, e tem ao fundo um lindo altar, dotou-a não só de magníficos arcazes e armários par a guarda das alfaias e paramentos, mas também de lavatórios e mesas de mármore, dando-lhe o aspeto imponente que tem hoje(1).

 

A capela-mor, essa foi feita por ele de mármore a fundamentis, com soberbos cadeirais (2) e majestoso retábulo, e, embora não seja cabeça para aquele corpo, por destoar do seu estilo arquitetónico, é contudo, grandiosa e impressionante (3).

 

catedral.png

i2 - A Sé Catedra vista pelo googlemaps: 1 - Capela-mor construída no início do século XVII, construção em claro contraste com a restante igreja e que fez desaparecer a original da igreja com o seu certamente notável deambulatório. / 2 - Sacristia. / 3 - Corpo da igreja, mais antigo, não obstante o seu aspeto atual dever-se a importantes reformas feitas no século XVIII em periodo de Sede Vacante e posteriores obras do século XX no sentido da a reverter à sua pureza românica original, assim destruíndo e refazendo grande parte do que ali se vê.

 

Na capela de S. Vicente, fundação de D. Frei Marcos de Lisboa, ampliou, como disse D. Frei Gonçalo de Morais, o jazigo dos bispos, e para ali fez trasladar solenemente, em 20 de março de 1614, as ossadas dos que estavam em sepulturas dispersas pelo corpo da Catedral, a saber: D. Simão de Sá Pereira, D. Rodrigo Pinheiro e D. Julião, que com os cadáveres de D. Frei Marcos de Lisboa e de D. Jerónimo de Menezes completam o número dos Bispos inumados naquele lugar. (4)»

*

 

NOTA: Tirando esta, as notas finais são parte integrante do texto.

 

_________________
1- A atual sacristia era anteriormente uma capela, onde se diz que se paramentavam os Prelados para as Missas pontificais, o que fazem hoje na capela de S. Vicente. D. Gonçalo de Morais transformou essa capela em Sacristia, por ser acanhada a primeira, que se conserva ainda ao lado da capela-mor, para onde tem porta.
2 - Os cadeirais, que tem hoje o Coro, não são os de D. Gonççalo de Morais, mas aliás da segunda metade do século XVIII, pois o estilo é já do género de Luís XVI.
3 - O mesmo facto se deu, entre outras, na Capela-mor da Sé de Braga e Évora, construídas, aquela em 1509, e esta no tempo de D. joão V, em estilo diferente do corpo da igreja. Os púlpitos de mármore da Sé do Porto são também atribuídos, pelo menos um, a D. Gonçalo de Morais, e bem assim a estante coral de bronze na data de 1616. O brasão de D. Gonçalo de Morais ostenta-se no arco triunfal da mesma capela-mor, na referida estante coral, e na porta do átrio do Paço episcopal, que reformou.
4 - O retábulo atual da Capela de S. Vicente deve ser de D. João Rafael de Mendonça, pois no respetivo altar ostenta-se o brasão deste Prelado.

2 de fevereiro de 1387: Um casamento real no Porto

02.02.18

Um dos mais importantes passos dados na aliança anglo-lusa pouco depois da celebração da mesma, deu-se com o casamento de D. João I, fundador da 2ª dinastia portuguesa, com a inglesa Phillipa of Lancaster, filha do primeiro duque de Lencastre, John of Gaunt.

Creio ser geralmente sabido que essa união teve lugar na Sé Catedral do Porto. Fernão Lopes transmite-nos em suas páginas, vívidas memórias de como tudo se terá passado. E é precisamente esse episódio que pretendo recordar nesta publicação - hoje que se completam 631 anos da efeméride - com a transcrição parcial do capítulo da crónica referente ao casamento real.

 

Notar que no dia 2 D. João I veio ao Porto para casar, como casou. Contudo a cerimónia e boda só ocorreram quase dez dias depois, motivado pelo seu périplo pelo país a mobilizar tropas para a causa do (agora) sogro. Phillipa contudo esteve mais tempo na cidade: chegara em novembro do ano anterior e desde essa altura até ao seu casamento ficou alojada no paço episcopal (não o atual mas o medieval que ficava no mesmo espaço). Durante este tempo conheceu finalmente o seu futuro esposo:

 

Os noivos conhecem-se

« (...) foi em tanto trazida mui honradamente de mandado de seu padre a Infanta Dona Felipa à cidade do Porto (...) u[1] foi recebida com gram festa; e prazer, vindo muito acompanhada de ingreses, e portugueses (...), e pousou nos paços do bispo, que som muito perto da Sé deste logar.

El-rei partio de Évora, e o Condestabre com ele: e quando chegou ao Porto achou hí a Infante Dona Felipa, sua molher que havia de ser, e pousou em S. Francisco, e em outro dia foi ver a Infante, que ainda não vira, e falou com ela, presente aquele bispo, per um bom espaço, e espedio-se, e foi jantar[2], e depois que el-rei comeo, mandou à Infante suas jóias, e ela a ele, (...) : e el-rei esteve ali poucos dias, e foi-se caminho de Guimarães »

 

Só agora, na verdade, se vai dar o acontecimento do dia 2, o casamento, feito à pressa por causa da Quaresma que iria ter início e que inviabilizaria a cerimónia, por isso:

 

O casamento

« (...) escreveu logo el-rei ao bispo do Porto, que em outro dia tivesse todo prestes pera lhe fazer as benções: o bispo feze-o assi. El-rei cavalgou [desde Guimarães] este dia à tarde, e andou toda a noite, em guisa que, andadas aquelas oito légoas, amanheceo na cidade. O bispo D. João já estava prestes revestido em pontifical, e seus beneficiádos como compria. A infante foi trazida mui honradamente dos paços, u pousava, à Sé: e ali em nome do senhor Deos a recebeu el-rei (...): e esto foi a dous dias de fevereiro em festa da purificação da Benta Virgem: e havendo entom el-rei vintenove anos, e a infante sua esposa vinteoito, e esto acabado, ordenou logo el-rei de fazer sua voda, e tomar casa da quinta-feira seguinte a oito dias (...) »

 

E agora chega a descrição das festas do dia 11, que Fernão Lopes pinta com todo o seu colorido verdadeiramente medieval:

 

Os dias festivos

« (...) encomendou el-rei a certos oficiais de sua casa, e aos oficiais da cidade o encarrego, que cada um desto tivesse, e com gram diligência, e sentido, tinhom todos cuidado do que el-rei lhes encomendara, uns para fazerem praças; e desempacharem as ruas, por u haviam dandar as gentes, outros de fazer jogos, e trebelhos, e matinadas de noite, e fizerom mui à pressa uma ũa grande praça ante S. Domingos, e a rua do Souto, que era entom tudo hortas, u justavom, e torneavam grandes fidalgos, e cavaleiros, que o bem sabiom fazer, e outra gente nom[3]. Assi que toda a cidade era ocupada em desvairados[4] cuidados desta festa. E todo prestes para aquele dia, partio-se el-rei à quarta-feira, donde pousava, e foi-se aos paços do bispo, u pousava a Infante, e a quinta-feira forom as gentes da cidade juntas em desvairados bandos de jogos, e danças per todalas praças, com muitos trebelhos[5], que faziom.

 

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 Quadro francês representando o casamento real na Sé do Porto, pintado já no século XV. Embora oficializado no dia 2 de fevereiro, a cerimónia realizou-se apenas no dia 11 (ver mais abaixo).

 

As principais ruas, por u estas festas haviom de ser, todas erom semeadas de desvairadas verduras e cheiros. El-rei saiu daqueles paços em cima de um cavalo branco, em panos douro, realmente vestido, e a rainha em outro tal mui nobremente guarnida: levavom na cabeça coroas douro mui ricamente obradas, de pedras, e a jofar de grande preço. Os moços dos cavalos levavom as mais honradas peças, que hí erom de grande preço, não indo arredos um do outro, mas ambos a igual, e todos mui bem corregidos, e o arcebispo levava a rainha de rédea diante íam pipias e trombetas, e outros instrumentos, tantos que se nom podiom ouvir, donas filhas dalgo, e isso mesmo da cidade, cantavom indo detrás, como é costume de vodas. A gente era tanta, que se nom podiom reger, nem ordenar: por o espaço, que era pequeno, dos paços à igreja: e assi chegarom às portas da Sé, que era dali muito perto, u D. Rodrigo[6] bispo da cidade já estava festivalmente em Pontifical revestido esperando com a cleresia, o qual os tomou pelas mãos e demoveo a dizer aquelas palavras: que a Santa Igreja manda, que se digom em tal sacramento.

 

Entom disse missa, e pregaçam, e acabado seu ofício tornarom el-rei, e a rainha aos paços, donde partirom com semelhante festa, u haviom de comer.

 

As mesas estavom ja mui guarnidas de todo o que lhe compria: nom somente onde os noivos haviom destar, mas aquela, u era ordenado de comerem bispos, e outras honradas pessoas de fidalgos, e burgueses do lugar, e donas e donzelas do paço, e da cidade. O mestre-sala das vodas era Nuno Alvarez Pereira condestabre de Portugal, servidor de toalha, e copa: e doutros ofícios erom grandes fidalgos, e cavaleiros, u houve assaz de iguarias de desvairadas maneiras de manjares. Enquanto o espaço do comer durou, faziom jogos à vista de todos homens, que o bem sabiom fazer; assi como trepar em cordas, e tornos de mesas, e salto real, e outras cousas de sabor: as quaes acabadas alçarom-se todos, e começarom a dançar: e as donas em seu bando cantando arredor com grande prazer.

 

El-rei se foi em tanto pera sua câmara, e depois de cea, ao serão o arcebispo, e outros prelados com muitas tochas acesas lhe benzerom a cama daquelas benções, que a igreja pera tal auto ordenou, e ficando el-rei com sua mulher, foram-se os outros pera suas pousadas. (...) »

 

Agora que muitas localidades vão tendo e promovendo a sua feira medieval, não vejo memória mais feita à medida para também o Porto ter a sua do que a recreação deste casamento e de tudo o que lhe foi subjacente. É uma história que tem tudo: uma princesa instalada num paço, um rei que viria saíndo de um convento subindo a Sé ao encontro dela, todos os cónegos, bispo, homens bons e povo aguardando pelos noivos... e claro depois da solenidade, a festança regada com jogos, comida e vinho!

Não se pense que as feiras medievais são para alegrar localidades de média e pequena dimensão. Creio que não. Tendo em conta o tema, um evento destes tem tudo para dar certo, sobretudo numa cidade como o Porto onde o peso da história se sente no ar. E aquele Terreiro da Sé parece ter sido feito à medida para todo o aparato. Fica dada a ideia...

 

NOTAS:

1 - O u é português antigo para onde.

2 - Naquela época o jantar tinha lugar por volta da atual hora do almoço.

3 - O convento dominicano estava ainda praticamente rodeado de hortas. O local a que Fernão Lopes alude corresponde ao atual largo de S. Domingos e o troço sul da rua das Flores; onde apenas uma azinhaga existia que levava à rua do Souto. Lá em cima, onde agora temos as traseiras da igreja da Vitória, ficavam as barreiras onde os besteiros praticavam a arte da besta para estarem prontos se o rei os chamasse para a guerra.

4 - Desvairado corresponde ao atual diverso.

5 - Difícil é, atualmente, encontrar uma palavra que traduza na perfeição trebelho. Ela relaciona-se com as danças e folguedos como o próprio contexto parece indicar. É também usada para designar as peças do xadrez, o que claramente não é o que pretende Fernão Lopes. Talvez se refira aos objetos utilizados nos jogos e danças que o cronista refere(?).

6 - Aqui deve ter havido lapso de Fernão Lopes, o bispo era D. João (III), tal como ele próprio refere anteriormente.

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Bibliografia:

Chronica DelRey D. Joam I de Boa Memoria e dos Reys  de Portugal o Decimo, de Fernão Lopes (edição de 1644) disponível na Biblioteca Nacional Digital