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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Sobre a viela da Neta

por Nuno Cruz, em 02.07.17

Desde há alguns anos para cá, conforme vou procurando conhecer as transformações urbanísticas do centro histórico do Porto, tenho para mim que apesar de sempre se referir a época dos Almadas como de grandes transformações na cidade, isto é mais verdade no que toca à expansão (veja-se o caso do bairro dos laranjais). Contudo, quase cem anos depois dessas transformações, outras existiram tão ou mais importantes do que essas, que prepararam a cidade para o futuro, muito à custa de arruamentos que vinham já desde o séc. XIV e XV, pelo que essas novas ruas obliteraram para sempre da paisagem portuense outras bem mais antigas. Por isto normalmente refiro que existiu um Porto A.P.B. e um Porto D.P.B.: ou seja um Porto Antes de Pinto Bessa e outro Depois de Pinto Bessa; porque foi durante os mandatos na presidência deste dirigente que a cidade viu o início de transformações enormes no seu casco histórico, as quais creio que só quem as viveu poderia avaliar completamente.

 

Uma delas foi a completa urbanização da área que compreendia a antiga viela da Neta, onde hoje temos uma boa parte da rua Sá da Bandeira. Esta viela era no século XIX um local imundo e sórdido da cidade não obstante ai ter vivido - e falecido em 1863 - José da Silva Passos (que presidiu à Câmara por curtos periodos de tempo em 1834 e 1846). O projeto do novo arruamento foi aprovado em Câmara em 26 de julho de 1866, o que se reflete na pequena "notícia" que vão ler mais abaixo.

 

planta.jpg

A imagem acima é um pormenor da planta de aprovação da continuação da rua Sá da Bandeira de 1866: 1 - Viela da Neta; 2 - Teatro Baquet; 3 - Teatro Circo, depois Teatro Sá da Bandeira; 4 - Cruzamento da rua do Bonjardim com a rua Sá da Bandeira, agora Rua Sampaio Bruno, vendo-se assinalada à direita a fonte do Bonjardim. (imagem do Aquivo Municipal do Porto)

 

No jornal A Actualidade de 29 de Março de 1874 colhi esta curiosa lembrança que os redatores do jornal fazem à Câmara:

«Chamamos a atenção dos digníssimos vereadores para um padrão de desleixo e de imoralidade e um recetáculo de imundice que aí se ostenta no centro da cidade sob a denominação de Viela da Neta. Aquele caminho é hoje transitado por grande parte dos frequentadores dos teatros Baquet e Circo [Sá da Bandeira], além de ser um ponto de trânsito comunicativo, quasi forçado, entre as ruas Sá da Bandeira [Sampaio Bruno], Bonjardim, Formosa, etc. O cheiro pestilencial, que ali reina de ordinário, só pode ser apreciado pelas vitimas. Os quadros de desmoralização que ali se observam são indescritíveis. Custa além disso a compreender o como não temos a registar, além destes factos, algum assalto noturno aos transeuntes. Sabemos que vai em dez anos que a câmara municipal do Porto tem em seu poder os documentos precisos para dar principio à abertura de uma rua que substitua aquela espécie de azinhaga infernal.

Sabemos, mais, que um proprietário desta cidade ofereceu à câmara metade do terreno preciso para a realização das ditas obras, além de uma soma importante destinada à sua coadjuvação. Cremos que só ao esquecimento pode ser atribuido o estado vergonhoso em que se acha o aludido local; outros lançarão o facto à conta de culpável desleixo. É pois em interesse da própria câmara que hoje formulamos estas reflexões; envolvem elas uma reclamação. Esperamos que seja atendida.»

 

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Neste pormenor de uma imagem também ela do Arquivo Municipal do Porto podem ver-se: 1 - Traseiras das casas da rua de Santa Catarina com os seus quintais; 2 - local da Viela da Neta (que não se vê); 3 - Rua Sampaio Bruno (ao tempo Rua do Sá da Bandeira); 4 e 5 - Praça de D. Pedro e rua de Santo António (Praça da Liberdade e rua 31 de Janeiro). Atrás do telhado da igreja dos Congregados vemos o do teatro Baquet no lado que deitava para a viela em estudo.

 

É possível que a Câmara por aquela altura estivesse a dar prioridade a outros arruamentos, só depois se preocupando com este. Na verdade acabara de ser construida a rua Nova da Alfândega e a rua de Sousa Viterbo; em Abril de 1874 teria início a expropriação na área da rua da Biquinha, Ponte Nova, Souto e Pelames, para construção da rua Mouzinho da Silveira e já se falava no alargamento das Cangostas (parte baixa da Mouzinho da Silveira) que já estava parciamente demolida graças à construção da rua Sousa Viterbo. Isto só para falarmos dos milhares de reis de empréstimos que a Câmara contraíra para estas ruas e excluindo outras que se iam abrindo e continuando fora do centro histórico... A rua Sá da Bandeira, no seu troço novo, era importante sim. Mas com as ruas mais próximas à nova Alfândega a serem urgentes para escoamento do trânsito que todos os dias fazia um vai e vem constante entre ela e as Barreiras da cidade e que exigia arruamentos largos e modernos, talvez se pudesse prolongar mais um pouquochinho no tempo aquele remanescente de uma época pré-industrial ali às portas da cidade antiga.

 

 

Aditamento:

Por pouco mais de um século subsistiu ainda uma vintena de metros da viela da Neta renomeada travessa da Rua Formosa (para os que já não se recordam bem, relembro que este pequeno e esconso arruamento existia logo acima da Casa Forte). Entaipada há largos anos, foi agora por fim suprimido graças a uma grande obra que ali se encontram a fazer. Não obstante o googlemaps, por exemplo, ainda dê como existente aquele beco, podemos contudo dizer que agora sim: morreu a viela da Neta!

 

tvformosa.jpg

Obras em curso em 2018: o círculo amarelo representa a antiga entrada da travessa da Rua Formosa pelo lado de Sá da Bandeira. O rectângulo azul representa o local onde existiu a antiga Casa Forte. Tudo acompanhado pelas escavadoras a tentar chegar à Nova Zelândia (imagem do Arq. Pedro Correia em Porto o lado abandonado da cidade).

 

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Publicação modificada em 03.06.2018