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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

As taracenas de Vila Nova

31.03.19
Esta palavra - taracenas - soará estranha ao comum do leitor de hoje. Para a sua definição sigo o historiador Amândio Barros na obra Porto - A construção de um espaço marítimo no início dos tempos modernos. Assim, as taracenas seriam «instalações cobertas onde se construíam, reparavam, e guardavam barcos»; distintas aliás dos estaleiros, cujos locais, preparados para a construção, eram a céu aberto. Uma leitura da obra citada proporcionará bastante informação sobre os vários pontos de abrigo de navios e de construção naval que existiram no Porto e seus arredores ribeirinhos e para a qual remeto o leitor.  Aqui pretendo referir em exclusivo as de Vila Nova (de Gaia), que existiram junto ao antigo convento de Corpus Christi.
 
Embora Joaquim António G. Guimarães faça remontar estas taracenas pelo menos ao final do século XIV[1], na opinião de Amândio Barros tal não fica provado pela passagem que supostamente o certifica, uma vez que a mesma é bastante difusa no seu significado. Ela refere: «E o dito Gil Paes pelo dito juramento disse que Afonso Giral almoxarife das taraçanas de Vila Nova da par de Gaia de quantos vinhos haviam nunca ganhava alvará nenhum[2] dos vereadores da dita cidade para que os metesse...». Junta-se a esta ausência de fontes a ausência da menção das taracenas junto ao convento das dominicanas, aquando da sua fundação em 1345: «... assim como estão cerradas, tapadas, muradas com sa igreja, como parte pola fonte por cima das casas contra o monte como estava cerrado tapado: de contra Douro caminho público: de contra Abrego caminho público ...»
 

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i1 a antiga povoação de Vila Nova vista do Castelo de Gaia no final do século XIX. O rectângulo indica o local onde deverão ter existido as taracenas.

 
Assim, para o autor, a única base documental sólida que possuímos da existência destas estruturas remontam ao século XVI. Deste século vem-nos também a única descrição que delas existe, elaborada pelo procurador real Francisco Dias: «da banda de Vila Nova estão umas outo[3] casas armadas sobre arcos, muito compridas: afirma-se que se fizeram para ali meterem galés em tempo de inverno e bem parece ser para esse efeito; e porque isto é muito antigo, serve agora uma parte delas para se matarem e fazerem as carnes de el-rei para suas armadas».
 
A estas estruturas se chamava num documento de 1620 «tarracenas de el-rei» e quase um século depois, em 1703, ainda eram as «teracenas de sua Majestade» não obstante um alvará régio de 1675 ter feito já doação da pedra dos seus arcos às freiras de Corpus Christi para reedificarem a igreja. Em 1758 delas restava apenas «um lugar emparedado e fechado» que somente era utilizado «para recolher as madeiras e fábrica real». Não admira portanto que pouco tempo depois, em 1760, se tenha doado o terreno ao brigadeiro João de Almada. Há igualmente uma referência à Quinta das Taracenas ainda no século XVII, cujo proprietário - Manuel Teixeira da Costa - vendeu quando foi para o Brasil.
 

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i2 à dir. uma imagem esquemática de uma galera medieval extraída de um mapa antigo : à esq. um pormenor da vista do Porto (Baldi, 1668/9), do que parecem ser restos de uma estrutura englobando o que também parecem ser arcos; serão estes os restos das taracenas? (do outro lado do rio temos a Torre da Marca, o convento de Monchique e mais ao longe Massarelos).

 

Estas taracenas existiram, não resta disso dúvida. Ainda assim, no entender do autor que temos vindo a seguir, será improvável que fosse um local de construção de novas embarcações. Terão servido sobretudo para resguardo de galés durante o inverno (navios frágeis e caros, como sublinha), mas equipadas com todos os apetrechos e matérias-primas para neles efetuar reparações de monta. Uma outra sua função, menos vistosa mas igualmente vital, seria a armazenagem das farinhas usadas na produção do famoso biscoito e a sua cozedura.
 
Como nos refere Joaquim António G. Guimarães, após a decadência do império da Índia e com o domínio filipino, não seria justificável a manutenção daquela estrutura dada a inexistência de grandes armadas para apetrechar. A isto creio poder acrescentar que o facto do tempo das grandes galés há muito ter desaparecido talvez ajudasse a tornar ainda mais obsoletas aquelas construções que à época já não teriam certamente terrenos em volta que possibilitassem a sua expansão; pois que os mais modernos modelos de navios exigiam outro tipo de estruturas de apoio, mais vastas e complexas(?). Fosse qual fosse a razão ou razões que levaram à sua extinção, delas pouco mais que nada ficou, quer na documentação quer na materialidade; mas mesmo nesta alguns restos terão por ventura chegado aos nossos dias...
 
Com efeito, quem hoje passa pela rua das Sete Passadas junto ao antigo convento de Corpus Christi e olhar com atenção para o muro que percorre uma boa parte da sua face sul, irá com certeza reparar numas pedras de aparência robusta e um semi-arco de igual modo construído. Toda aquela simetria denota construção antiga, regular, e que obedeceu a um plano bem mais complexo do que o simples delimitar de uma propriedade. Ainda segundo Joaquim António G. Guimarães, aquelas estruturas deverão ser tudo o que resta (à superfície, acrescento eu) das velhas taracenas de Vila Nova!
 

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i3 imagens do autor tiradas na rua das Sete Passadas. Na primeira vê-se, ao fundo, o antigo convento de Corpus Christi.

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1 - Gaia e Vila Nova na Idade Média pp.161-162
2 - No original «nem huum».
3 - i. é, oito.

Um 'favor' a Gaia e a fonte do Bonjardim

27.12.18

Vasculhando velhos jornais dou sempre de caras com algumas notícias, artigos de opinião, ou simples notas bastante interessantes. Algumas que desconhecia, outras que conhecia por terceiros em obras sobre a história da cidade (e que já por algumas vezes comprovei que a informação prestada estava parcial ou totalmente errada!).

 

Não foi diferente com o Periódico dos Pobres no Porto de julho e agosto de 1846, que consultei. O leitor mais atento à data verá que está muito próxima a guerra civil da Patuleia[1] (a segunda guerra civil num espaço de uma dúzia de anos) mas já depois da revolta da Maria da Fonte. Pelos relatos dos jornais se vê que por toda a cidade existiam caceteiros, termo usado contra os indivíduos ou grupos de indivíduos que agrediam gratuitamente os seus opositores[2]. E no meio desta convulsão um jornal diz-nos que tudo está calmo, o outro que não se pode andar na rua por causa dos ratoneiros e caceteiros... Enfim, a luta entre Cartistas e Setembristas estava ao rubro e o pavio já quase todo queimado...


Chega a altura da eleição para a comissão municipal. Dirigia-a José Passos, irmão do mais célebre Passos Manuel, comprometido em gerir as contas da Câmara com muita cautela dado a penúria que existia nos cofres do concelho. Foi reconduzido no cargo em agosto sendo o mais votado, com menos de 800 votos. Durante o período que antecede esta votação, surgem no periódico referido (e opositor) umas pequenas achegas sobre a gestão da Câmara, a seu ver más decisões, tratadas com ironia. Eis alguns excertos:

 

'Quem não senão ele [vereador Pinto da Silva] compreenderia a necessidade da fonte do Bonjardim? Quantas pessoas ou bestas tem sido vítimas de sede por não poderem alcançar uma gota de água das fontes da Praça de D. Pedro, largo de S. Bento das Freiras, e rua da Madeira pela desmesurada distância em que se acham?! Pode-se ter inveja aos habitantes desde o Bolhão para cima, que vivem na abundância d’água: queira Deus que eles não sejam tão ingratos da solicitude do Sr. Pinto da Silva, no dia 30 deste mês, com os visinhais da fonte do Bonjardim conta ele seguro, e muito mais porque o sr. Fiscal projeta macadamisar essa rua, e faça-lhe justiça, é um plano gigantesco, depois do qual ninguém se atreverá a borrar o nome do Sr. Pinto, o ela ter sido calcetada há muito pouco tempo, o ter-se gasto nisso bons e muitos patacos; o haverem muitíssimas outras em muito pior estado, isso são cousas que não entram em linha de conta: em fim é a rua do Bonjardim, e há-de parecer-se com o seu nome, ou o Sr. Pinto da Silva não há-de morar nela!'

 

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1 - Será esta a fonte do Bonjardim do artigo de opinião? Ficava na esquina da Rua do Bonjardim (à esquerda, agora Rua Sá da Bandeira) com a Rua de Sá da Bandeira (à direita, agora Rua de Sampaio Bruno). [3]  2  - Por curiosidade, ao fundo não vemos "céu aberto" pois ali encontra-se a fachada nascente do antigo edifício da Câmara Municipal. Logo ao virar dessa esquina e fora da imagem, se pudessemos fazer tal percurso, veriamos a capela dos Reis Magos

 

O anónimo continua a apontar a gestão, a seu ver ruinosa, do município pela comissão municipal, nomeadamente à extinção do imposto dos carros que de Gaia entravam na cidade e dos que da cidade para Gaia iam. Assim 'a casinha da ribeira levantou-se, e com ela um prejuízo para o município do Porto de 60$ a 70$ - que rendia semanalmente'. E ironiza com o facto de a Câmara de Vila Nova não ter levantado o mesmo imposto para os carros que ali entravam vindos de Ovar.


Convém esclarecer que a supressão deste imposto advém de um acordo entre os dois municípios em que ambos se comprometeram a suprimir as casinhas onde o mesmo se taxava, à entrada da ponte pênsil. Contudo, e aqui está a queixa de quem escreve, esse imposto rendia bastante aos cofres portuenses, bem mais do que aos gaienses por razões óbvias, pelo que não compreendia a decisão. Embora José Passos tenha explicado quando tomou posse, que a taxação dos carros quando entravam nas barreiras da cidade era já suficiente não havendo por isso necessidade de os sobretaxar.


Uns dias depois o anónimo continua a sua crítica: 'E porque será que se planisão [sic] obras novas, deixando as principiadas e no coração da cidade! A obra de S. Domingos [rebaixe do murinho iniciado no ano anterior] merecerá desprezo, enquanto que a nova fonte do Bonjardim, próxima e muito próxima de outras, tantos obreiros contem que parece acabar-se antes da posse da Câmara a eleger!' Mais continua: 'Será decente aos olhos do público praticar a avilês com que ontem [23 de Agosto] se mudava a pedra do largo e da obra de S. Domingos para a fonte do Bonjardim? Será isto economia, ou andará a pedra fazendo via sacra por economia do cofre?'[4]

 

Não nos podemos esquecer que isto das opiniões de jornais, é sempre bom ouvir as duas partes. Neste caso a outra parte era o jornal O Nacional, que arrancara em maio, sendo na prática o mesmo que A Coalisão apenas com o nome mudado (ele próprio o diz no seu primeiro número); mas isso ficará para uma próxima publicação. Com estas linhas, o objetivo de abrir uma pequena fresta para bisbilhotar o Porto daquela altura está por ora cumprido. Outras mais irei abrindo por aqui se aos meus leitores interessar e eu as conseguir elaborar de forma concisa...

 

1- Que decorreu entre outubro de 1846 e junho do ano seguinte. A origem desta palavra deve ser procurada no castelho patulea (confira no Diccionario de la lengua española).

2- Chegaram a matar um militar de alcunha O fajardo.

3- Em determinado tempo, o proprietário do prédio a ela adjacente queixou-se à Câmara das inflitrações de água que os canos provocavam na sua casa!

4 - Esta última frase tem alguma importância histórica, pois revela o destino que se deu à pedra do célebre e centenar Murinho de S. Domingos.

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Publicado originalmente no blogspot em 08.01.2017 : agora revisto.

Do Porto houve nome Portugal?

12.01.18

Este título é como que uma pequena provocação que faço ao leitor... A frase é bem conhecida e resume a ideia que foi a partir do nome da cidade do Porto - se bem que ainda na sua forma primitiva - que o país foi batizado. Mas é possível que este nome não seja originário exclusivamente do local onde existe o centro histórico do Porto, algo que não sendo novidade, acredito que a maioria dos portuenses o desconheça. O ponto de interrogação está lá precisamente para isso, para nos fazer pensar um pouco na questão.

 

O Livro Preto da Sé de Coimbra - um códice do século XII hoje guardado na Torre do Tombo - preserva dois documentos preciosos e intrigantes. Ambos se relacionam com uma putativa doação ao mosteiro de Crestuma de um couto e várias outras localidades e rendimentos. Esta doação teria sido feita em 922 pelo rei Ordonho II por intermédio do bispo D. Gomado que se retirara da vida ativa para esse mosteiro. Geralmente tidos como apócrifos, os dois documentos ali arquivados serão falsificações do início do século XII, quando a diocese de Coimbra lutava com a do Porto pelo controlo de paróquias a sul do Douro.

No entanto o seu provável caráter fraudulento não implica que sejam completamente inválidos para os historiadores atuais. Com efeito, na época em que foram produzidos, muitos documentos alti-medievais deveriam ainda existir e os redatores sabendo e conhecendo esses documentos poderão simplesmente ter-se apropriado de elementos que aproveitaram nos seus próprios escritos, nomeadamente a toponímia. Ou por ventura tal não se ter dado e os redatores aproveitaram simplesmente a toponímia viva à altura da redação, o que me parece mais plausível.

 

Antes de analisarmos as passagens, levemos em conta que fora por esta altura - século IX e X - que a designação Portucale (sem dúvida Portugale na pronúncia da época) se começou a estender ao território que compunha o 1.º Condado Portucalense extinto em 1044 com a morte violenta do seu último conde Mendo Nunes e que não se deve confundir com o que veio a dar origem ao nosso país. É também importante que o leitor procure ignorar o moderno sentido da palavra Portugal, interiorizando-a como topónimo e não como corónimo.

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O primeiro documento a certa altura da sua narrativa informa que o rei chegando a Portugal, se colocou em navios e subiu rio acima acompanhado pela rainha e os condes locais Lucido Vimaranes e Rodrigo Lucides para vir ao encontro do bispo que não se podia ausentar do mosteiro. É para mim muito literária esta passagem e não posso deixar de a aproximar à lenda de Gaia pela poética; o que me leva a imaginar o rei e seu séquito subindo o Douro; passando Quebrantões, o Areinho, Arnelas e finalmente estacionando diante de Crestuma para desembarcar e ir saudar o prelado retirado na sua vida espiritual! Eis a passagem:

« ... et ipse rex sua mercede et illa Regina excitabit naues in portugale cum suos comites lucido uimarani et roderico luci et sui episcopi fuerunt nauigio eremitam uistare ipsum episcopum et ad orationem ad ipsum locum sanctum ... Et mansit ipse rex cum suo exercitu in ipso monasterio et in alio die fecit concilium et exquisiuit uitam de ipsos, confessores et de ipsa congregatione. ... »

reiOrdonho.png

 Excerto da página do cartulário onde vem a passagem transcrita acima.

 

O documento prossegue dizendo que o rei e os outros nobres que o acompanhavam fizeram várias doações ao mosteiro. Nessas supostas doações está precisamente a passagem que nos interessa:

«Villa de Portugal quomodo diuidit per suos terminos antiquos quomodo diuidit cum illa uilla de Mahamudi et inde per montem a termino de Colimbrianos usque in Gal'.»

viladePortugal.png

Excerto da página onde vem a frase transcrita acima.

 

Sobre esta passagem, diz-nos João Pedro Ribeiro: «Temos por tanto a povoação de Portugale, ou Porto no Séc. X não ao norte, mas ao sul do Douro, confinando pelo nascente com Mafamude, pelo poente com Coimbrões, sítios ainda hoje bem conhecidos, e portanto reduzido à Gaia atual [início do séc. XIX], antiga Cale. À face deste documento se pode retificar o que os nossos escritores, e os estrangeiros tem escrito ácerca desta povoação, que deu o seu nome ao nosso reino».

E esta não é a única referência a tal vila naquele local. Com efeito, existe outra (muito escassa) documentação que menciona uma localidade com o nome de Portugale, Portugalla ou Purtugal do lado gaiense, coisa que não se dá na margem oposta do Douro. O documento em estudo parece apontar para uma Vila de Portugal em correspondência com a Vila Nova (de Rei) da baixa Idade Média, que se desenvolveu centrada na rua Cândido dos Reis (antiga rua Direita).

 

Um outro historiador, o (quase proscrito) Dr. A. de Almeida Fernandes, considera mesmo que o Portucale da margem direita do Douro decaiu graças aos dois «perturbados séculos, cortados de guerras civis e de momentâneas entradas de inimigos, por terra e mar, mouros e normandos». No contraste, o interior florescia enquanto que a localidade junto ao rio pela «sua posição flúvio marítima (passagem e porto) era arriscadíssima, atraindo todos os invasores de terra e mar. Por isso mesmo, entre a tomada do conde Vimara, naquele ano [presúria de 868], e a doação à respectiva Sé, já no séc. XII, não temos mais notícia verdadeira dela.». E eu relembro que ainda em 1147, enquanto Pedro Pitões tentava cativar os cruzados à causa de D. Afonso Henriques, lá lhes ia dizendo que não há muitos anos os mouros ali tinham vindo pilhar....

googlemapss.png

Com a ajuda do GoogleMaps vemos aqui as localidades referidas no documento. A esse rol acrescentei para efeitos de melhor compreensão o Porto medievo e a foz do ribeiro das Azenhas ou de Santo Antão, que por séculos separou Gaia de Vila Nova (seta azul).

 

Recuando um pouco no tempo para cerca de 30 anos antes da suposta doação de 922, num manuscrito referente à consagração da primeira Catedral de Santiago de Compostela uma passagem dele informa-nos da remoção de colunelos de mármore e outros materiais existentes no oppido portugalense que remontavam à época romana e que foram levados por mar para serem reutilizados no seu pórtico lateral. A passagem, segundo a leitura do investigador José Eduardo Lopez Pereira, diz:

 

« ... De oppido portucalense ratibus deportatas adduximus quadras et calcem unde sunt aedificate columnae decem et VIII, cum aliis columnellis marmoreis simili modo navigio ... »

 

Onde estaria o templo a que estas colunas pertenciam? Em Vila Nova? Em Gaia? No morro da Penaventosa? Em favor deste último existe a descoberta em frente à Sé em 1940 de uma ara votiva dedicada aos Lares Marinhos bem como de duas colunas de mármore, quem sabe irmãs das que foram levadas para a Galiza. Mas uma vez mais, certezas não temos. Quanto ao lado oposto do Douro, creio que só futuras escavações arqueológicas o poderão indicar, mesmo levando em conta que uma boa parte da área foi muito modificada desde os meados do século XVIII, quando aqueles terrenos se foram povoando de armazéns de vinho.

 

Outros documentos existem com referências sugerindo que (um)a localidade Portugal ficaria na margem esquerda do Douro:

a) a primeira menção conhecida à igreja de Santa Marinha é de c. 927: «... monasterium in ipsa villa vocabulo sancta marina ...», vila esta que estaria eventualmente associada à villa de portugal que vimos atrás;

b) em 945 existia uma «... strata veredaria que discurrit de portugal ...» e que é também mencionada em 1118;

c) em 1116, quando D. Hugo era já bispo do Porto mas anteriormente à doação de D. Teresa, surge num documento «... sancta marina de purtugal ...».

Estes apontamentos são importantes sobretudo se tivermos em consideração a ausência de referências para a margem direita do rio entre os anos IX e XI.

 

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 Vila Nova e o seu desaparecido areal vista do morro do castelo de Gaia. Vila Nova corresponderá ao Burgo Velho do foral de Gaia dos meados do séc. XIII, cuja sua igreja - Santa Marinha surge ainda referenciada como Santa Marinha de Portugal no século XII. A imagem abaixo mostra a rua Direita em Gaia durante uma cheia; fenómeno a que o Douro esteve sujeito até à sua "domesticação" na segunda metade do século XX. Ora, dado que esta situação teve que ser enfrentada uma e outra vez, ano após ano, por todas as civilizações que habitaram este cantinho do noroeste peninsular; não será ela de certa forma relevante para aferirmos dos locais de fixação das populações? (ambas as imagens do Arquivo Municipal do Porto).

 

Depois destas referências, o topónimo do lado gaiense começa a evoluir na documentação para Portu dorij logo em 1120, Portum Dorii em 1196, Burgo de Portu de Gaya em 1251 ou apenas portu de Gaya em 1255, vindo a culminar em 1255 e 1288 nos nomes burgo veteri de portu e Burgum vetus. Esta última nomenclatura é na prática dada como extinta naquela data, substituída por Villa Nova de Rey mas perdendo o possessivo poucos tempo depois para estabilizar em Vila Nova, separando-a de Gaia o ribeiro das Azenhas ou de Santo Antão.

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O termo veteri / vetus creio que será significativo para sustentar a sua ligação à antiga villa de portugal como sendo uma e a mesma coisa. Aliás, já Joaquim António Gonçalves Guimarães, de onde tenho vindo a coligir algumas destas notas, refere na introdução ao seu trabalho as incertezas que existem e provavelmente sempre existirão mas numa coisa parece acreditar, ou assim o interpreto: o da «singularíssima situação em que uma vila rústica do século X, denominada Vila de Portugal, vem a dar o nome a um país que cresce para Norte e para Sul dessa passagem do Rio Douro».

 

Sem prejuízo de o termo Portucale se ter estendido a ambas as margens do Douro englobando o Porto alti-medieval; documentalmente não creio errar ao dizer que também é verdade que esse nome sobreviveu por mais tempo na margem esquerda na povoação de Vila Nova. Para a outra margem, a documentação não vai além do início do século XII(?):

a) na doação de D. Teresa - 1120 - temos a simples palavra burgo;

b) no mesmo ano numa bula papal surge Portu Dorii;

c) no testamento de D. Sancho I temos Portu, ou seja  o topónimo atual latinizado;

d) em 1238 um acordo entre a coroa e a mitra portuense dá-nos Portu Dorii;

e) pelo tempo dos forais gaienses, aquando das inquirições de D. Afonso III o burgo é mencionado como villa portus e a sua zona ribeirinha vila baixa.

 

Com a passagem do tempo, talvez nos inícios do século XIV, o nome Porto do Douro expressa nos documentos cai naturalmente em desuso, cristalizando em Porto, a sua forma simplificada. É na verdade um caso singular no nosso país a existência de uma cidade que "não tem nome", pois que tomou a designação daquilo que a fez nascer e crescer: o ser ponto de passagem fluvial na via latina mais importante do nosso território e posteriormente à estrutura portuária de apoio ao comércio marítimo.

 

Voltando aos textos do século XII que não chegaram a ser usados para os fins menos claros a que talvez os prelados conimbricenses os designassem, termino com as palavras do Padre Miguel de Oliveira no seu artigo publicado na Lusitânia Sacra em 1956:

«Não chegaram a redigir-se os dois documentos, mas lá ficaram as notas que o copista do Livro Preto, sem imaginar o trabalho que havia de dar aos historiadores, trasladou para a sua obra no estado em que se encontravam...»

 

Para concluir, dizer que não foi do Porto que veio o nome Portugal parece-me objetivamente errado. Contudo, e atendendo a tudo o que li dos vários especialistas que se debruçaram sobre o assunto - muitas vezes eles próprios com visões dispares - me parece também que vedar à margem sul do Douro semelhante título honorífico deixa o passado incompleto. Se numa assentou na sua génese o Portucale castro novo e na outra o Portucale castrum antiquum, não deixaram ambos de ter o fundamental em comum: o nome Portucale.

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Alguma bibliografia consultada:

A doação de Ordonho II ao bispo Gomado e ao Mosteiro de Crestuma, do Padre Miguel de Oliveira publicado na revista Lusitânia Sacra em 1956;

O Foral de Gaia de 1255, de Joaquim Ant. Gonçalves Guimarães, José Ant. Afonso e Raúl Solla Prata, editada pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia em 1983;

Gaia e Vila Nova na Idade Média, de Joaquim António Gonçalves Guimarães editada em 1995 pela Universidade Portucalense;

História da cidade do Porto, coordenada por Damião Peres e editada pela Portucalense editora entre 1962-1965;

História do Porto, dirigida por António A. de Oliveira Ramos, editada pela Porto Editora em 1994;

Ocupação da época romana na cidade do Porto..., de António Manuel S. P. Silva consultado em linha;

As origens da cidade do Porto, de António de Sousa Machado editada pelo próprio em 1972;

Portugal primitivo medievo, de A. de Almeida Fernandes, editada pela Câmara Municipal de Arouca em 2001.