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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Teles Ferreira no século XXI

por Nuno Cruz, em 20.05.18

Confesso que tinha agendado mais para a frente falar-vos de novo sobre a carta topográfica da cidade do Porto de 1892, pois encontrei nos relatórios camarários um documento da autoria do "grande arquiteto" da primeira planta executada com base científica da cidade do Porto que pretendia aqui reproduzir. A razão porque o ia fazer apenas mais à frente advém de ainda há pouco ter colocado uma publicação versando este tema (como podem comprovar aqui). Contudo, tendo tido a felicidade de hoje[1] assistir ao Um objeto e seus discursos precisamente sobre uma pedra litográfica de um conjunto de seis que foram executadas para a impressão da planta da cidade numa versão mais reduzida do que as magníficas folhas aguareladas que hoje existem bem guardadas no Arquivo Municipal do Porto e disponíveis on line; não vi melhor altura do que esta para avançar com a minha ideia.

 

O evento foi muito interessante. Apreciei bastante a intervenção do Sr. vereador Pedro Baganha, cujas palavras, além de elucidativas, me fez acreditar no seu genuíno amor à cidade. Igualmente interessante foi a intervenção do técnico informático responsável pelo desenvolvimento de um excelente projeto que hoje teve o seu dia 1 fora dos circuitos fechados dos servidores da câmara (incrível é como este projeto, originalmente pensado para auxiliar na gestão dos cemitérios municipais, em boa hora se transformou neste grande empreendimento!). Trata-se precisamente de uma planta da cidade interativa, totalmente gratuita e disponível on line. Esta planta tem como base de arranque precisamente a de Teles Ferreira. Mas o seu objetivo é traze-la camada a camada até ao presente e mesmo até aos anos anteriores a 1892. Por agora apenas se encontra disponível o centro histórico da cidade, mas no futuro é todo o seu território que nos será mostrado, chegando ao pormenor de indicar muita documentação que existe inerente a monumentos, edifícios, arruamentos e praças, etc, relacionando-os com outros sítios na internet. Poderão desde já encontrar a(s) planta(s) a que me refiro aqui http://www.cm-porto.pt/cartas-historicas-interativas-do-porto/cartas-historicas-interativas-do-porto. Não se admirem, caros leitores, se passarem horas a explorar esta ferramenta...

 

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Pedra litográfica presente no evento (pedra n.º 2 de 6 correspondente à folha 5) - foto do autor.

 

Mas, e como este blogue não pretende falar do presente mas sim do passado, voltemos ao Eng. Teles Ferreira e ao trabalho que ele teve durante anos a fio para que hoje todos nos pudéssemos quase que hipnotizar com a simples observação de uma aguarela da sua planta e perdermo-nos nos pormenores que ela nos mostra de um mundo que já não existe.

O que se vai ler abaixo é um relatório de Teles Ferreira por sua vez incorporado no Relatório da Comissão Municipal publicado em julho de 1893 (nesta época, a cada trimestre era produzido um relatório). É muito interessante para se conhecer melhor o que está por trás deste precioso auxiliar à gestão e planeamento citadino, e em complementaridade com a publicação que vos dei já a conhecer.

 

 

*

«Ilmo e Exmo. Sr.,

 

Devendo terminar em agosto próximo, a comissão de que fui encarregado, do levantamento da planta da cidade do Porto, cumpre-me levar ao conhecimento da Exma. Câmara o estado em que ficam estes trabalhos, e bem assim apresentar alguns alvitres, que julgo necessários para conservação deles, que representa a importante verba de reis 40:000$00 e que não havendo muita fiscalização, desaparecerão se não no todo pelo menos em grande parte.

 

A carta topográfica da cidade do Porto compõem-se de quatro cartas, cuja planimetria está completa, e todas as folhas numeradas e por mim chanceladas e seladas com o selo da Câmara, acondicionadas em pastas próprias.

 

Carta n. 1 - Minutas de campos, escala de 1:500; compõe-se de 464 folhas de 0,80x0,50, sem margens e coladas em pano para sua melhor conservação, e ligeiramente passadas a limpo.

 

Destas folhas são completas 360 com 3:600 hectares de levantamento e 104 incompletas com 400 hectares. Nestas folhas já algumas tem as cotas de nivel.

 

Carta número 2 - Carta a limpo, cópia fiel da antecedente, que se compõe igualmente de 464 folhas, mas com margens.

 

Esta carta está desenhada a cores, segundo as convenções topográficas adotadas na Escola do Exército, em papel Woltreman colado em pano.

 

Carta número 3 - Carta cadastral na escala de 1:2500, redução da número 1, com todos os detalhes, compõe-se de 24 folhas de 0,80x0,50 com nivelamento em algumas delas e todas desenhadas a nankin.

 

Carta número 4 - Carta de gabinete na escala de 1/5000 redução da número 3.

 

Esta que se vai gravar compõe-se de 6 folhas com detalhes por massas, igualmente desenhada a nankin.

 

Entendo que a carta número 2, salvo melhores determinações de V. Exa., deve ser entregue no Arquivo da Exma. Câmara, sem nunca dali sair sem ordem expressa de V. Exa. Esta carta é um documento oficial e autêntico do estado da cidade em 1892, muito útil em consultar em épocas futuras e um auxiliar importante em questões judiciais.

 

A carta número 4 vai ser entregue aos gravadores, e a sua reprodução de mil exemplares será um valioso auxiliar para atenuar o seu custo em talvez dois terços dele, se a venda for bem administrada e fiscalizada.

 

Restam as cartas número 1 e 3, que são as que devem ficar a cargo de empregados competentes, debaixo das ordens diretas do Exmo. Engenheiro. Estas cartas devem ficar resguardadas o mais possível, devendo tirar-se da carta número 1 uma cópia em papel tela para uso da repartição técnica.

 

Na carta número 1 devem ser lançadas dia a dia as diversas alterações que se vão dando na cidade tanto em ruas como em construções, e as cotas de nivelamento, como já têm muitas folhas; igualmente também estas cotas devem ser lançadas na carta número 3 para melhor se apreciar o seu conjunto.

 

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Folha n. 5 da Carta Topográfica da Cidade do Porto reduzida da que foi mandada levantar na escala 1:500. Trata-se da folha correspondente à litografia apresentada como mote para a sessão Um objeto e seus discursos deste sábado.

 

Nivelamento. - Terminada a planimetria, falta o complemento deste trabalho, o nivelamento, sem o qual a carta não poderá prestar serviço completo.

 

Estão feitas deste trabalho 70 a 80 folhas com a superfície aproximada de 550 hectares, faltando portanto 7/8. Este serviço é desempenhado pelo condutor de obras públicas, Otávio José Machado, que vence pelas folhas semanais 700 reis nos dias úteis, não tendo sido possível, para ativar este trabalho, desviar os outros empregados, por estarem todos encarregados da retificação da planimetria de todas as cartas.

 

Sendo de incontestável necessidade que este trabalho se complete, lembro a V. Exa., que debaixo da fiscalização direta do Exmo. Engenheiro, deverá ser desempenhado pelo mesmo condutor, para não alterar a ordem e o sistema com que tem sido feito, visto o pessoal técnico da junta de obras ser diminuto e mal chegar para o serviço daquela repartição.

 

Este serviço é muito moroso, porquanto o montei de maneira a ser da maior precisão possível, tanto quanto podem dar os instrumentos e pessoal de que se dispõe. É necessário aproveitar os dias em boas condições atmosféricas e tem muitas vezes de se reproduzir polígnos, que acusam mais de um centímetro por quilometro, metade do erro exigido em Obras Públicas.

 

Nestas circunstâncias, se for bem aproveitado e fiscalizado o tempo e o serviço, não se poderá completar o nivelamento em menos de dois anos e o seu custo em empregados e serventes não deve exceder a 800$000 reis.

 

Conservação. - Permita-me V. Exa. que nesta parte eu seja um pouco minucioso. Obriga-me a isso o natural desleixo que há, não conservação de documentos, aliás importantes, que desaparecem das repartições, sem que a responsabilidade vá a quem toca; e também os interesses da Exa. Câmara, que tem despendido com estes trabalhos uma importante soma, que se não forem bem zelados e conservados,  é dinheiro literalmente deitado à rua.

 

É certo que estes trabalhos, que só os interessados conhecem, não são simpáticos,  não se vêm, não se apalpam e o público mal ajuíza deles, se é que ajuiza muitas vezes; mas a esclarecida competência de V. Exa. e da Exma. Câmara, não deixará de concordar, que pelo seu valor merecem, senão maior pelo menos igual cuidado, ao que se dispensa às praças ajardinadas, ruas, mercados, etc, para os quais depois de concluidos se nomeiam logo guardas, para sua vigilância e conservação.

 

Não são empregados do quadro que eu peço se nomeiem para este serviço; isso hoje não o pode fazer a Exma. Câmara.

 

Ficando como devem estes trabalhos debaixo das ordens imediatas do Exmo. Engenheiro, poder-se-ia julgar que a junta das obras se poderia encarregar deste trabalho; mas esta repartição tem o quadro tão restritamente preciso para os muitos trabalhos técnicos, que dificilmente se poderá encarregar destes, que darão bem que fazer a dois empregados; porquanto não é só a guarda e conservação, de que se devem encarregar, mas tem ainda as contínuas alterações a fazer dia a dia na carta pelo movimento de construções, a cópia em papel tela que se deve tirar para conservação dos originais de campo, e para uso da repartição técnica, e mais tarde a planta de todos os encanamentos, o que é importante e de muito dispêndio, podendo a pouco e pouco ir-se fazendo, já aproveitando das plantas existentes, já procedendo a estudos no terreno.

 

Estabelecida pois a necessidade da conservação da carta e não podendo a junta de obras encarregar-se deste serviço, é claro que se terá de criar um pessoal; lembro à Exma. Câmara (o que já fiz em duas sessões plenárias, sendo em ambas tomado em consideração) os dois empregados, que atualmente desempenham excelentes serviços nesta repartição, Manuel Pereira da Costa e Moisés Augusto, empregados por mim educados neste serviço e os únicos que pelos seus quinze anos de serviço nesta repartição melhor conhecem a topografia da cidade e melhor poderão esclarecer o Exmo. Engenheiro sobre a mesma carta.

 

Assim nomeando V. Exa. o primeiro daqueles empregados conservador e o segundo medidor, conservando-lhes os atuais vencimentos de 700 reis diários ao primeiro, 500 reis ao segundo, nos dias úteis, não só adquire empregados mais competentes, como remunera quinze anos de bom serviço a esta casa, e não os pondo hoje (que deixaram os seus antigos ofícios, de que já não podem lançar mão) na contingência de não terem onde ganhar a vida.

 

Não pareça a V. Exa. excessiva a quantia de 400$000 reis anuais em que importará o salário desses empregados. Se a comparar com os guardas dos mercados e jardins, V.Exa. verá quão diminuta ela é, e quão superior é o serviço. E para que V. Exa. veja a importância que em Lisboa se dá a este serviço, basta observar que o pessoal da secção técnica, encarregado dele, compõem-se além do Engenheiro, de um condutor, dois desenhadores, um medidor e um porteiro, despendendo todo este pessoal 5:000$000 anuais.

 

Se porém as razões que acabo de apontar, e ainda as de economia forem estorvo a esta nomeação, tenho a honra de apresentar a V. Exa. a criação da receita dada pela mesma carta, que se não cobrir a despesa, pelo menos muito a atenuará.

 

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Folha n. 6 da Carta Topográfica da Cidade do Porto reduzida da que foi mandada levantar na escala 1:500, parte integrante da planta litografada para possibilitar a sua impressão. Trata-se da zona oriental da cidade, destacando-se a Estação do Pinheiro (Campanhã), os vales do Tinto e Torto na área em que correm dentro do município portuense.  

 

Desde que comecei estes trabalhos, todas as plantas necessárias à junta de obras têm sido cópias tiradas da planta geral, e assim deveria ser; mas o que não pode continuar sem lesar os interesses da Exma. Câmara, é um sem número de cópias para serviços particulares, umas autorizadas sobre a requisição da junta de obras, e outras por simples recomendação.

 

Todas estas cópias são pagas lá fora por preços excessivos, quando, se fossem pagas por um preço diminuto e tiradas na Câmara, montariam já a uma soma importante; e para que V. Exa. avalie melhor, basta referir que a última que a Exma. Mitra tirou, autorizada por ordem do Exmo. Presidente Oliveira Monteiro, se fosse paga a 10 reis o centímetro quadrado, importaria em 880$00 reis; acrescendo ainda, que essa grande porção de trabalho fica lá fora e que em pouco tempo haverá especulador que possua a planta toda, auferindo daí lucros que só pertencem à Exma. Câmara.

 

Ordene portanto, V. Exa. que todas as plantas que lhe forem presentes, para abertura de ruas, construções, etc. sejam cópias da sua planta oficial, pagando 10 reis por centímetro quadrado na escala de 1/500 e 50 reis na escala de 1/2500 nunca menos de 100 centímetros na primeira escala e 25 na segunda.

 

A fiscalização e execução deste serviço pode e deve ser desempenhada pelos empregados na conservação, e sendo rigorosa a fiscalização, dará boa receita para a Exma. Câmara, e os particulares lucrarão pela modicidade do preço.

 

Não veja V. Exa. na exposição que acabo de fazer, senão o meu empenho em ver conservar o trabalho que criei e igualmente conclui, como dar aos empregados que durante quinze anos me acompanharam, e que tão bons serviços prestaram, a justa recompensa desses serviços.

 

E ao deixar esta comissão, acompanha-me a certeza de que V. Exa. mais uma vez, adotando estas minhas reflexões, me dará uma prova de deferência, que juntarei às muitas, que V. Exa. e todas as Exmas. Câmaras sempre me dispensaram, de que me confessarei eternamente reconhecido.

 

Por último lembro a V. Exa. que o orçamento votado neste ano para estes trabalhos de 1:500$000 reis estará acabado em fim de setembro.

 

Se V. Exa. não quiser interromper estes trabalhos, serão suficientes até ao fim do ano, 240$000 reis. De futuro V. Exa. providenciará como melhor entender. - Deus guarde a V. Exa. - Porto e Repartição da Planta da Cidade, 21 de junho de 1893. - Ilmo. e Exmo. Sr. Conselheiro António Ribeiro da Costa e Almeida, Meritíssimo Presidente da Câmara Municipal do Porto.

 

Augusto Gerardo Teles Ferreira

Encarregado do levantamento da Planta da Cidade do Porto»

*

 

Espero que tenham apreciado a leitura deste relatório escrito por aquele que por mais de uma quinzena de anos trabalhou no sentido de completar esta enorme obra que, tendo um objetivo essencialmente prático, pode ser incluída sem grande esforço no conjunto do património artístico portuense.

 

Nota final: Todas as folhas da planta aqui apresentada estão disponíveis no sítio do Arquivo Municipal do Porto; para limitar a busca bastará escrever na caixa de procura, por exemplo, Carta Topográfica da Cidade do Porto reduzida.

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1 - Sábado, 19 de maio de 2018.