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Fund. 30 - IX - 2009


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Ontem, numa amena e interessante conversa com outro historiador da nossa cidade, veio a certa altura à baila a questão dos erros que por vezes decorrem das investigações, sejam elas feitas por pessoas formadas na área, sejam elas de historiadores amadores, onde humildemente me insiro.

E concordo com a sua ideia base: eu proponho algo e digo que é assim pois mediante a documentação que consultei cheguei a esta conclusão. Mas outra pessoa refuta e diz: não o senhor está errado. Obviamente que quer eu quer ela teremos de sustentar a nossa ideia. Não bastará dizer que, por exemplo, alguém está errado e não fundamentar o porquê (e quem sabe poder vir a ser contradito). Ainda pior serão os que poderão desconsiderar o trabalho de outrem apenas porque se é investigador "encartado" e o outro é médico, advogado ou um simples empregado de escritório como eu; pois aí falamos já do preconceito. Mas não quero chegar aí... (Pedro Vitorino era médico de formação e Artur de Magalhães Basto advogado, isto para dar dois exemplos dos mais exímios historiadores portuenses, dos quais ninguém põe em causa a qualidade dos seus ensinamentos).

 

Sou o primeiro a apelar aos meus leitores para me corrigirem (vejam a minha primeira publicação, por favor). O erro depois de repetido muitas vezes é como a peçonha, espalha-se e não há quem o erradique. Até porque, e nisso a internet é fértil, não faltam sítios em que as mesmas coisas são copiadas e recopiadas e copiadas por outros a partir do mesmo texto, etc, etc... se o texto não é fidedigno lá vão os erros atrás, as generalizações... e em vez de apurarmos a verdade, somos acompanhados destes ditos, datas e informações de duvidoso teor, embora os aceitemos como verdade.

 

Eu próprio já me auto corrigi e não só: ainda recentemente, uma pessoa que conheço e que divulga o Porto com mestria - aliás bastante conhecido neste nosso Porto - me chamou a atenção para que a palavra Belomonte se escreve com o "o" ao contrário da forma que usava: Belmonte, como a terra do distrito de Castelo Branco. Fui confirmar, verifiquei que estava errado e corrigi o erro agradecendo a chamada de atenção (curiosamente verifiquei depois que um dos doutos historiadores desta cidade cai no mesmo erro que eu, neste caso em obra publicada, o que só serve para erodir o preconceito do amador/profissional). Pela minha parte, e sem me querer desculpar, já vi Belomonte escrito de diversas formas em textos antigos e só pode residir aí a minha confusão.

 

Sou picuinhas quando se trata de história. Dizia o historiador desta cidade a que me refiro no início do texto que o facto de eu vincar que um acontecimento tinha ocorrido num ano e não no outro seria "coisa à historiador" não obstante ser eu apenas historiador na alma. Não concordo, como lhe disse, e isso não nos incompatibiliza creio para (seguramente) conversas ou eventuais trabalhos futuros. Por outro lado concordou comigo quando vemos, e neste caso falávamos do sítio do Arquivo Municipal do Porto, diversas gravuras e imagens com legendas erradas. Eu próprio já alertei para algumas e embora tenha obtido amável e-mail de agradecimento, elas lá continuam... A título de curiosidade, aqui fica uma e com isto findo.

Atente-se na gravura abaixo:

naoheholland.png

Esta gravura é referida como sendo da autoria de J. Holland e datada de 1838. Esse indivíduo, que realmente visitou Portugal nesta época e é autor de lindíssimas gravuras não só do Porto mas de outras partes do país, nunca poderia ter desenhado esta imagem, pelo menos naquela época. Porquê? Porque esta aguarela foi seguramente pintada após 1883.

Caro leitor, o que vê ao fundo da rua do Infante, no meio da rua? Se pensou nada ou numa árvore, acertou. Pois é, mas nos anos 30, 40, 50, 60 até 1871 existia ali o início de duas ruas: a rua de S. Francisco e a rua de S. Nicolau (ex-Ourivesaria). E não se pense que seria à cota atual pois a primeira estaria num local elevado (a diferença de cota para a igreja de S. Francisco não era tão grande e a escadaria era menor) e a segunda a uma cota mais baixa (aliás parte dela ainda existe, mas sem saída). A primeira casa que se veria entre essas ruas teria um aspeto "medieval" e aparece na gravura da igreja de S. Nicolau de J. Cardoso V. Vilanova e também numa nesga de uma foto do Palácio da Bolsa (que poderá constatar no final desta publicação).

 

Depois disso o que vemos à direita? Pois é, o jardim do Infante já lá está! Até o quiosque que eu ainda conheci na sua versão anos 80 do século XX! Ou seja, as casas que aí existiam nos anos 30, 40, 50, 60 já lá não estão. Se por um acaso pudéssemos espiar e o Infante já lá estivesse erguendo a sua mão, poderíamos então dizer que a imagem foi criada já no limiar do século XIX ou mesmo inícios do seguinte. Sendo assim, fiquei-me pela datação possível (em história, várias vezes mais não há do que isso). Mas posso dizer que o filho da Inclita geração não estava lá ainda. É que, mais recentemente, vi no excelente livro O Porto das luzes ao liberalismo esta mesma aguarela descrita como sendo da autoria de um senhor chamado T. M. Johnson e datado de 1893. Que eu estava certo não tinha dúvida, mas é sempre bom encontrar um argumento que dá sustentação a uma dedução "a olho".

 

Portanto, o alerta que faço aos meus leitores é: aceitem a informação que vos passam sempre criticamente. Sem dúvida essa advertência se estende àquela que aqui vou colocando!

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