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Fund. 30 - IX - 2009


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Parte 1 - o equívoco

 

No sítio do Arquivo Municipal do Porto deparei com a imagem que se pode ver abaixo, identificada como «Retrato de homem no adro da igreja de Águas Santas». Mesmo sendo o cenário secundário - a julgar pela forma como a fotografia foi tirada o objetivo estaria na pessoa retratada - a igreja, posso assegurar, não é a de Águas Santas. A resposta vai mais abaixo, mas antes de o leitor a procurar desafio-o a primeiro olhar, meditar, e descobrir por si só...

agsant.jpg

i1 imagem do Arquivo Municipal do Porto

 

Na verdade esta fotografia mostra parte do adro da igreja do antigo convento de S. Francisco do Porto com o seu portal lateral entaipado, aspeto com que se apresentava até c. de 1935. Pode o leitor comprovar isso mesmo na imagem tríplice que preparei e que confronta dois estágios pretéritos daquele portal com a atualidade (i2). O tipo de pedra usada para entaipar esta passagem parece ser bastante regular, o que fica dando a ideia que a obra será ainda do tempo do convento (talvez da época em que este foi quase completamente refeito, na segunda metade do século XVIII). A ajudar a esta ideia estava a porta que se lhe abriu uns metros mais ao lado e que desapareceu quando o monumento foi restaurado no século XX.

portal1.jpg

i2 À esquerda vemos o portal tal como chegou aos início do século XX. Ao meio temo-lo já liberto do tapamento mas à sua volta tudo o mais ainda se mantinha. À direita está ele e o espaço que o circunda com o aspeto que hoje conhecemos.

 

Parece incrível, e é de facto quase um milagre, que esta igreja tenha sobrevivido até aos nossos dias apresentando ainda de uma forma global o aspeto gótico com que foi construída. O contraste entre o antes e o depois não é substancial, pois felizmente as intervenções não adulteraram a sua traça. Ainda assim podemos identificar várias diferenças, que melhor se podem ver na i3 e sua legenda.

igj.JPG

i3 imagem do Arquivo Municipal do Porto

 

Esta imagem talvez ainda dos finais do séc. XIX mostra-nos a igreja antes das modificações que sofreu no exterior. Os elementos suprimidos são: 1- janela, 2- divisórias(?) em pedra, 3- porta lateral e 5- janela. O n.º 4 é o portal lateral original da igreja que foi desentaipado, como já referido. O 6 indica as capelas laterais da igreja e a sacristia da mesma, com o aspeto com que ficaram em 1872 após a demolição da também capela de Santo Elói que ali se encostava. Neste ponto aliás, tiveram lugar as principais modificações externas na estrutura - ilustradas pela i4 - onde se pode ver que (afinal) também a igreja de São Francisco do Porto foi alvo de reconstruções por parte da DGEMN, mesmo que em menor escala quando comparadas com as de outros monumentos nacionais.

00077920.JPG

i4 Imagem do Sistema de Informação para o Património Arquitetónico

 

 

Parte 2 - o mistério

 

Se o leitor atentar na i2 como se de um "descubra as diferenças" se tratasse, poderá verificar que numa daquelas fotos falta um pequeno elemento decorativo... Não me refiro ao pentagrama, obra de meados do século XX a querer parecer antiga; falo da mísula que se vê bem junto ao portal e que terá servido de apoio à arcaria de um alpendre, estrutura que se vislumbra na vista do Porto produzida em 1736 (i5).

duncsans.jpg

i5 pormenor da vista setecentista de Duncalf

 

É sem dúvida possível que a igreja de São Francisco tenha sido rodeada por um alpendre, género de construção hoje praticamente inexistente no país salvo em pequenas capelas. Por exemplo uma reunião concelhia teve lugar na clasta segunda deste convento em 20 de janeiro de 1400. Este termo (e a sua variante crasta) era usado no português medieval como sinónimo de claustro, mas também podia significar alpendre, sobretudo quando se refere a ele como segundo.

Mas será o alpendre que vemos em Duncalf, que a julgar pela imagem se estendia apenas por cima da porta lateral, contemporâneo da época em que a igreja foi erguida? Se atentarmos bem, ao longo do corpo da igreja existe ainda hoje um entalhe onde poderão ter encaixado as traves que sustentariam uma alpendrada, o que parece tornar incompatível a coexistência de ambos por causa da sobreposição estrutural. Além disso, a ter existido um alpendre que corresse o adro pelo sul e poente até à entrada principal da igreja, foi talvez forçoso remove-lo para transformar o portal gótico naquele tão belo conjunto que hoje temos com as suas colunas salomónicas de belo efeito. É um pensamento meu que tão só pretendo que o leitor veja como uma hipótese.

 

Sejam ou não cabais estas ideias, o facto é que aquela mísula de arte idêntica à construção da igreja esteve tranquila até ao momento em que os homens decidiram tira-la do lugar que por séculos, qual sentinela, ocupara. Para onde terá ido aquela pedra só aparentemente insignificante? E porquê remover uma peça que fazia parte da estrutura original da igreja, numa época em que a mentalidade restauradora tendia para a reintegração na traça original dos monumentos? São perguntas que por agora terão de ficar sem resposta...

 

misula.png

 

________

NOTA FINAL: para uma descrição sucinta mas completa sobre o restauro do exterior da igreja ver o texto de Lúcia Rosas a pp. 116 do recente volume O Convento e a Venerável Ordem Terceira de São Francisco do Porto, das Edições Afrontamento (obra coordenada por Natália Marinho Ferreira-Alves e Joaquim Jaime B. Ferreira-Alves).

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3 comentários

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De José Almeida a 27.03.2018 às 11:25

Bom post Nuno (como sempre aliás)

Tenho uma pergunta sobre esta igreja, mas que foge ao tema:
- Quando visitei pela última vez a igreja, disseram-me que, aquando das invasões do exército de Napoleão, a mesma foi usada como estábulos,tendo sido destruída bastante madeira e riqueza para, por exemplo, queimar e manter quente os animais. No entanto também me disseram que, felizmente, ainda se salvou bastante por engenho e coragem dos portuenses. O que sabes sobre isto relativamente ao convente de S.Francisco?

Abraço!
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De Nuno Cruz a 27.03.2018 às 21:50

Olá José, obrigado!


Vou-te ser sincero: não conheço os relatos que referem tal situação. Conheço sim menções generalistas ao saque que os franceses fizeram durante o tempo que permaneceram em Portugal, nomeadamente no Porto. Por exemplo, pelo menos nos 3 primeiros dias de ocupação, os soldados andaram à solta em saques intensos, até Soult ter refreado a sua tropa. Por isso não duvido que muitas preciosidades tivessem sido levadas por eles e hoje estejam em museus e coleções particulares em França. Até porque nas condições de rendição os franceses foram autorizados a levar os seus "pertences"...
Mas muito ou quase tudo provavelmente se salvou precisamente devido ao engenho da população, que escondeu como pode os seus pertences preciosos. Fossem as grandes instituições monásticas, nobres, ou o particular mais remediado que queria preservar o pouco que tivesse.

Não sei, e duvido, que a igreja tenha sido usada como estrebaria. O acesso a ela não é fácil para o efeito, se bem que talvez antes das obras do fim do século XIX, a escadaria que lá se encontrava, que era diferente, fosse em rampa mais suave.
Pelo lado de cima: onde agora temos a rua da Bolsa era a horta do convento e na rua Comércio do Porto ficava a "porta do carro" que dava acesso à horta, pelo que acredito que pelo menos nesse local os franceses tenham estacionado os seus solípedes, alojando a tropa no interior do convento.

A única situação que conheço em que a igreja foi profanada, foi quando a mesmo esteve na mão da Associação Comercial do Porto, no curto período de tempo de 4 anos, em que foi usada como armazém alfandegário.

Não conheço a fundo os relatos e estudos sobre as invasões napoleónicas. É possível que alguém, algures, tenha escrito nas suas memórias algo sobre o assunto. Se assim foi, quando com isso me deparar, certamente que colocarei aqui, até porque esta igreja e convento é um dos meus temas preferidos da história da cidade.


Um forte abraço,
Nuno V. Cruz
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De Nuno Cruz a 27.03.2018 às 23:09

Eu disse que a igreja foi entregue à Associação Comercial do Porto mas isso não é certo. Ela foi por um breve período de tempo usada como armazém da alfândega sim, e profanada, mas não por aquela instituição.

Se bem que em 1838 houve um caso relacionado com a igreja e a rua Ferreira Borges, que não iria deixar aquela instituição muito bem na fotografia... Mas isso fica para quando eu recolocar aqui uma publicação antiga.

Abraço,
Nuno Cruz

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