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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Um equívoco e um mistério

por Nuno Cruz, em 23.03.18

Parte 1 - o equívoco

 

No sítio do Arquivo Municipal do Porto deparei com a imagem que se pode ver abaixo, identificada como «Retrato de homem no adro da igreja de Águas Santas». Mesmo sendo o cenário secundário - a julgar pela forma como a fotografia foi tirada o objetivo estaria na pessoa retratada - a igreja, posso assegurar, não é a de Águas Santas. A resposta vai mais abaixo, mas antes de o leitor a procurar desafio-o a primeiro olhar, meditar, e descobrir por si só...

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i1 imagem do Arquivo Municipal do Porto

 

Na verdade esta fotografia mostra parte do adro da igreja do antigo convento de S. Francisco do Porto com o seu portal lateral entaipado, aspeto com que se apresentava até c. de 1935. Pode o leitor comprovar isso mesmo na imagem tríplice que preparei e que confronta dois estágios pretéritos daquele portal com a atualidade (i2). O tipo de pedra usada para entaipar esta passagem parece ser bastante regular, o que fica dando a ideia que a obra será ainda do tempo do convento (talvez da época em que este foi quase completamente refeito, na segunda metade do século XVIII). A ajudar a esta ideia estava a porta que se lhe abriu uns metros mais ao lado e que desapareceu quando o monumento foi restaurado no século XX.

portal1.jpg

i2 À esquerda vemos o portal tal como chegou aos início do século XX. Ao meio temo-lo já liberto do tapamento mas à sua volta tudo o mais ainda se mantinha. À direita está ele e o espaço que o circunda com o aspeto que hoje conhecemos.

 

Parece incrível, e é de facto quase um milagre, que esta igreja tenha sobrevivido até aos nossos dias apresentando ainda de uma forma global o aspeto gótico com que foi construída. O contraste entre o antes e o depois não é substancial, pois felizmente as intervenções não adulteraram a sua traça. Ainda assim podemos identificar várias diferenças, que melhor se podem ver na i3 e sua legenda.

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i3 imagem do Arquivo Municipal do Porto

 

Esta imagem talvez ainda dos finais do séc. XIX mostra-nos a igreja antes das modificações que sofreu no exterior. Os elementos suprimidos são: 1- janela, 2- divisórias(?) em pedra, 3- porta lateral e 5- janela. O n.º 4 é o portal lateral original da igreja que foi desentaipado, como já referido. O 6 indica as capelas laterais da igreja e a sacristia da mesma, com o aspeto com que ficaram em 1872 após a demolição da também capela de Santo Elói que ali se encostava. Neste ponto aliás, tiveram lugar as principais modificações externas na estrutura - ilustradas pela i4 - onde se pode ver que (afinal) também a igreja de São Francisco do Porto foi alvo de reconstruções por parte da DGEMN, mesmo que em menor escala quando comparadas com as de outros monumentos nacionais.

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i4 Imagem do Sistema de Informação para o Património Arquitetónico

 

 

Parte 2 - o mistério

 

Se o leitor atentar na i2 como se de um "descubra as diferenças" se tratasse, poderá verificar que numa daquelas fotos falta um pequeno elemento decorativo... Não me refiro ao pentagrama, obra de meados do século XX a querer parecer antiga; falo da mísula que se vê bem junto ao portal e que terá servido de apoio à arcaria de um alpendre, estrutura que se vislumbra na vista do Porto produzida em 1736 (i5).

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i5 pormenor da vista setecentista de Duncalf

 

É sem dúvida possível que a igreja de São Francisco tenha sido rodeada por um alpendre, género de construção hoje praticamente inexistente no país salvo em pequenas capelas. Por exemplo uma reunião concelhia teve lugar na clasta segunda deste convento em 20 de janeiro de 1400. Este termo (e a sua variante crasta) era usado no português medieval como sinónimo de claustro, mas também podia significar alpendre, sobretudo quando se refere a ele como segundo.

Mas será o alpendre que vemos em Duncalf, que a julgar pela imagem se estendia apenas por cima da porta lateral, contemporâneo da época em que a igreja foi erguida? Se atentarmos bem, ao longo do corpo da igreja existe ainda hoje um entalhe onde poderão ter encaixado as traves que sustentariam uma alpendrada, o que parece tornar incompatível a coexistência de ambos por causa da sobreposição estrutural. Além disso, a ter existido um alpendre que corresse o adro pelo sul e poente até à entrada principal da igreja, foi talvez forçoso remove-lo para transformar o portal gótico naquele tão belo conjunto que hoje temos com as suas colunas salomónicas de belo efeito. É um pensamento meu que tão só pretendo que o leitor veja como uma hipótese.

 

Sejam ou não cabais estas ideias, o facto é que aquela mísula de arte idêntica à construção da igreja esteve tranquila até ao momento em que os homens decidiram tira-la do lugar que por séculos, qual sentinela, ocupara. Para onde terá ido aquela pedra só aparentemente insignificante? E porquê remover uma peça que fazia parte da estrutura original da igreja, numa época em que a mentalidade restauradora tendia para a reintegração na traça original dos monumentos? São perguntas que por agora terão de ficar sem resposta...

 

misula.png

 

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NOTA FINAL: para uma descrição sucinta mas completa sobre o restauro do exterior da igreja ver o texto de Lúcia Rosas a pp. 116 do recente volume O Convento e a Venerável Ordem Terceira de São Francisco do Porto, das Edições Afrontamento (obra coordenada por Natália Marinho Ferreira-Alves e Joaquim Jaime B. Ferreira-Alves).

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