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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Uma capela e um hotel

por Nuno Cruz, em 05.12.17

Aquando da demolição do antigo bairro do laranjal ou laranjais muitas foram as habitações demolidas e com elas alguns arruamentos suprimidos. Desapareceram também (em 1915) os dois palacetes que se encontravam afetos à Câmara Municipal, tendo a mesma transitado temporariamente para o Paço Episcopal. Por trás do palacete principal da Câmara existia uma capela denominada dos Três Reis Magos que teve forçosamente que desaparecer. Situava-se na rua do Laranjal, bem perto da bifurcação com a rua Elias Garcia.

PocariçaCapela 3reis magos.jpg

(foto retirada do sítio da Câmara Municipal de Cantanhede)

 

Esta capela que fizera parte do palacete, sendo capela privada ainda que com porta para a rua, encontrava-se sensivelmente onde hoje começa a faixa de rodagem ascendente da mesma avenida. No entanto, e ao contrário da hecatombe que tudo ou quase tudo levou, a pedra desta capela foi comprada por um indivíduo e foi deslocada para Cantanhede, mais precisamente para uma terra chamada Pocariça, onde ainda pode ser admirada. Ao lado podemos ver uma foto dessa mesma capela que já estava no local mais central da nossa cidade, mas que agora prossegue a sua vida - e ainda bem - num ambiente algo mais calmo. Não há, infelizmente, muitos exemplos desses.

 

Bem perto dela existia o hotel de Francfort, casa conhecida e com algum nome na cidade. Sobre este hotel apresentou aqui um texto de António Lança, publicado n' O Tripeiro de 1 de abril de 1919:

 

«Já não existe, como todos sabemos. Também não ficou a fazer falta aquele casarão inestético exteriormente, e que só se tornou célebre por durante muitos anos ser o hotel preferido pelos estrangeiros, pelas celebridades de todos os géneros e pelos endinheirados. Frequentar o Francfort dava tom e civilizava os que desejavam adquirir maneiras distintas.

 

Talvez o leitor desconheça que, antes de ser construído aquele prédio, a área por ele ocupada, uma nesga lateral do excesso do terreno, aonde foi aberta a rua do Bispo (depois D. Pedro e agora Elias Garcia[1], foi destinada pela Câmara, em 1849, para cemitério dos cães. V. Ex.ª fica admirado por ter o Porto precedido várias cidades europeias e americanas na invenção de um local destinado à sepultura da população canina, o que talvez fosse motivado por haver aqui cães em abundância e não existir ainda fábrica de guano, ou congéneres, para onde se lhes removesse a carcaça, depois de mortos. Esse destino findou em 1851, ano em que o negociante Luís Domingos da Silva Araújo requereu à Câmara a venda do terreno, para ali edificar o prédio, há dois anos demolido. Está portanto devoluto o terreno do antigo cemitério dos cães, provisoriamente sentina pública, ao natural, enquanto não se integrar na Avenida[2], por onde estadiam o seu luxo e elegância os janotas e as gentis descendentes dos novos ricos.

 

Apenas se concluiu o edifício, logo se montou o hotel, em cujos baixos Paulo Podestá, falecido ai por 1869, instalou a sua livraria e tipografia Internacional, sendo aquela a mais bem organizada do Porto. Depois conheci ali a Cervejaria Schreck, e o café Chaves, que de anos a anos muda de poiso. Pelo hotel passaram inúmeros forasteiros de nome, em especial gente de teatro, e muitas celebridades líricas, como a Ida Benza, a Isabella Schwichner, a gloriosa Ristori, a Darclée, a Elisa Hensler, que depois casou com o rei D. Fernando, a Chiaramonte, a Dealberti, etc., pois o Porto em tempos foi grande apreciador de bom teatro lírico, não se contentando com artista de segunda plana. O penúltimo dos seus proprietários, François Babel, muito culto e de bastante iniciativa, quis torná-lo um hotel moderno, dotando-o até de balneário, mas a casa não se prestava a isso. Ainda assim, para o tornar conhecido fora do Porto, estabeleceu ali jantares de réclame, às quintas-feiras, bem servidos, e relativamente baratos, que lhe deram nome. A custo se ia tenteando, se não fosse o advento da república, que deslocou os políticos para o Grande Hotel do Porto, conservando-se-lhe apenas fiel, enquanto viajava, o Sr. Dr. António José de Almeida. A morte do Conde de Alves Machado, que ali viveu durante cerca de 40 anos, produziu nele um imenso vácuo. Babel faleceu, A casa ia em decadência. A freguesia foi-se retraindo e não primava pela generosidade; às vezes nem pontual era no pagamento das contas. Ainda nas vésperas do seu encerramento teve de penhorar as malas de uma conhecida atriz, que passava por trazer a carteira bem recheada. Já por vezes acontecera outro tanto com vários fregueses.

 

As obras da cidade vieram dar-lhe o golpe de morte: o prédio era necessário, a fim de melhor se desenhar o bacalhau[3], adoptado para modelo da sua planta. Custou-lhe, porém, a deixar-se entregar ao município. Ainda lá havia hospedes e já o camartelo municipal lhe esmoucava os telhados e as cantarias. Parece que algo de saudoso lhe custava a desprender-se dali; talvez os vários suicidas, que nos seus leitos se despediam da vida, como o espírito dilacerado da noiva do filho de Urbino de Freitas, vinda do Alentejo ali amortalhar-se, para a colocarem, no jazigo da Lapa, ao lado da alma gémea da sua, que tanto sofrera, em tão curta idade! O último cadáver que de lá saiu, foi o Dr. Teixeira de Sousa, o derradeiro chefe do Partido Regenerador e presidente do conselho, à queda da monarquia: não se suicidou, mas morreu torturado pelos caprichos do destino!»

1 - Destruída para abertura da avenida dos Aliados; 2 - A dos Aliados, é claro; 3- Refere-se, com toda a certeza, ao formato da nova avenida vista de cima.

 

capelahotel.jpg

Da direita para a esquerda temos: restos das traseiras do palacete da Câmara Municipal do Porto, a capela dos três Reis Magos, a rua do laranjal (ao fundo edifícios da rua dos Lavadouros), o Hotel Francfort e finalmente à esquerda a rua Elias Garcia. Tudo desapareceu para se formar a avenida dos Aliados.

 

 

Para termos uma ideia mais precisa do local onde ficava o hotel, atente-se nas imagens aqui colocadas:

 

futuraavaliados.JPG

A foto acima retrata o progresso das demolições do "bairro do Laranjal" para abertura da avenida dos aliados e creio ter sido tirada aí por 1916... À direita está o edifício do hotel. Verifica-se o que diz o cronista: mesmo com o camartelo à porta ainda laborava! A imagem apresentada abaixo, toscamente elaborada por mim com ajuda do Bingmaps, tenta ilustrar o local de onde esta foto foi tirada. Não estando tudo localizada com a precisão de um GPS, seria contudo naqueles locais que as antigas estruturas se encontravam.

Note-se que desta perspetiva se podem ver algumas casas que antes da construção da nova avenida tinham frente para a rua (de Elias Garcia) e estão agora escondidas, sendo meras traseiras dos imóveis que as substituíram na fachada atual da avenida (este "tapamento" teve logo início no edifício do café Embaixador).

Actualidade.JPG

Legenda: O X vermelho indica o possível local da foto; a azul a antiga rua do Laranjal, verde a rua Elias Garcia e amarelo o Hotel Francfort.

 

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NOTA: Esta publicação aglutina as que existiram no blogspot, publicadas em 29 de novembro de 2009, 19 do mesmo mês e ano e 29 de abril de 2010, respetivamente.

 

Bibliografia:

O Hotel Francfort, artigo de António Lança publicado n' O Tripeiro de 1 de Abril de 1919.

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