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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Miragaia - uma fotografia insignificante...

por Nuno Cruz, em 17.07.18

A

A imagem que deu razão a esta publicação é uma insignificante (feia até) fotografia de uma parte dos cobertos de Miragaia. Contudo, melhor a analisando podemos verificar que se trata de um documento único apesar do confrangedor cenário de semirruina que ali se apresenta. Ei-la:

 

miragaia.png

 i1 A rua dos Cobertos (agora de Miragaia)

 

Olhando e re-olhando para ele verifica-se que estas casas são as que se apresentam no pormenor da imagem abaixo assinaladas com o rectângulo. A ladeá-las estava aquela que agora é a primeira casa na rua de Miragaia vindo do largo Artur Arcos (assinalada em i2 com o n.º 2 mas não presente na i1). Do lado oposto, o edifício assinalado com o n.º 1 em ambas as imagens parece, mas não é, o mesmo. Para melhor localizar assinala-se com o n.º 3 a Porta Nova ou Nobre e o seu fortim, na i2.

 

cobertos.jpg

i2 Pormenor de uma panorâmica antiga

 

A i3 mostra o local na atualidade. Será de reparar que a i1 foi já tirada de cima da sapata da rua Nova da Alfândega, construída dali para poente em direção ao edifício alfandegário, primeiro do que o lado nascente, pelo que a i3 só tem a beneficiar disso em termos de perspetiva... A casa 1 e 2 estão assinaladas para melhor localização e o X marca o local onde estavam as casinhas.

 

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i3 O local na atualidade

 

Como curiosidade, na i4 que consiste num pormenor da gravura de 1736 de Duncalf, podem-se vislumbrar os edifícios referenciados, em parte apresentando já varandas que parecem ser de ferro e outras ainda usando um sistema com portadas de madeira que abrem debaixo para cima e não para os lados como estamos modernamente acostumados, um sistema sem dúvida mais antigo (remontando ao tempo em que ter vidros nas janelas era um luxo?).

 

duncalf.png

i4 Gravura de Duncalf (1736)

 

Sem dúvida terá sido mais o seu estado de ruína aliado à necessidade de alargar aquele espaço, tendo em vista a perda que toda a zona acabara de sofrer com o desaparecimento da praia de Miragaia, que terá ditado a demolição daquelas singelas construções. Felizmente ficou-nos esta fotografia, outros verdadeiros monumentos pudessem ter tido essa sorte...

 

B

Outras demolições vieram, por exemplo, anos mais tarde a dar lugar ao largo de S. Pedro de Miragaia (1941). A i5, uma montagem feita com duas imagens do AMP, são registos dessas demolições (outros existem no AMP e no espólio da Casa Alvão, à guarda do CPF). A imagem i6 mostra-nos o local ainda no século XIX, antes das modificações causadas pela construção do novo edifício da Alfândega.

 

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i5 Demolições na rua de Miragaia e na rua Arménia, que originaram o largo de S. Pedro de Miragaia (1941).

 

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i6 A área do atual largo de S. Pedro de Miragaia é a rodeada pelo retângulo amarelo. Curiosamente, a pequena viela à direita dentro desse retângulo desapareceu, mas uma nova viela existe hoje entre o edifício que ali foi construído não há muitos anos e o primeiro fora do retângulo, à direita (hoje parcialmente demolido, pelo seu estado ruinoso).

 

Após as demolições e englobado no programa de recintos infantis que a Câmara vinha construíndo, foi ali inaugurado em 1946 o recinto infantil Salazar (i7).

 

rinfsal.jpg

i7 a cerimónia de inauguração e um aspeto geral do Recinto Infantil Salazar.

 

Outras demolições tiveram ali lugar, que permitiram por exemplo levar mais luz à rua da Arménia, ao mesmo tempo que desapareciam casas que seguramente se encontrariam bastante arruindas (por exemplo o pequeno largo criado em frente às instalações da serralharia civil e artística A Conquistadora).

 

 

C

Uma outra fotografia insignificante do AMP é a que abaixo se apresenta:

 

css.png

 

Esta casa, que se encontra na rua de Miragaia entre a rua dos Armazéns e a viela da Companhia, apresentava nos inícios do século XX o decrépito mas muito curioso aspeto que se vê acima. Pela forma e materiais utilizados suponho-a de construção anterior ao século XVII, ou no mínimo originária dele. Ainda apresenta os famosos sobrados ladrom medievais, que avançavam sobre a rua. Nela podemos também admirar uma pequena colunata que daria auxilio no suporte dos andares superiores. Fossem estas colunas originárias da época da construção inicial ou acrescentos posteriores mesmo que vetustos, certo é que o edifício perdeu-as há largos anos. Tendo entrado em declínio estrutural, como quase todos os edifícios antigos da nossa cidade, a sua ruína chegou ao fim quando foi reconstruido para alojar um hotel com o nome de Miragaia House. Do edifício original quase nada terá restado, mas terão os arquitetos responsáveis pela reconstrução tido conhecimento daquelas colunas no edifício original?

 

Em baixo e para fecho desta publicação, deixo-vos uma outra imagem, da Ilustração Portuguesa, referente às cheias de 1909, onde assinalo com o n.º 1 a casa que vimos acima.

 

 

mrg.jpg

 

Irão os leitores desculpar-me pela publicação de retalhos, mas se é verdade que A Porta Nobre almeja distinguir-se pelo conteúdo, não é seguramente contra o seu caráter trazer à luz uma publicação onde a imagem, ainda que sobressaindo, se acaba por fundir com sucesso na parca informação escrita.

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Publicado originalmente em 27.08.2016, no blogspot agora revista e bastante aumentada.