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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

Uma guerra a fingir

05
Mai13

O cerco do Porto não foi uma guerra a fingir. Muito pelo contrário, para além da ceifa de centenas de vidas por forma direta, foi também responsável indireta pela morte de muitos portuenses com doenças cujas parcas condições sanitárias da época, adjuntas à fome e maleitas que os próprios soldados trouxeram, ajudaram a proliferar.

Mas calma prezados leitores, não vos venho aqui hoje divulgar lembranças tristes em tempo de Natal!

 

Com efeito, escassos dois meses após a convenção de Evoramonte que pôs um fim à monarquia absoluta em Portugal, D. Pedro IV, acompanhado da sua consorte e da sua filha e rainha D. Maria II[1], visitaram a cidade do Porto. Deu-se esta visita em finais de julho de 1834, um ano após o regente ter finalmente conseguido com segurança deixar esta cidade, rumo à capital.

 

Durante a visita a corte ficou instalada no paço da Torre da Marca[2] e visitou vários pontos da cidade, entre instituições hospitalares, bailes preparados em sua honra, o Teatro Nacional [de S. João], etc. Visitou também as diversas linhas do cerco à cidade bem como a fortaleza da Serra do Pilar, tendo por palavras tentado demostrar as privações e apuros em que se viram as tropas sitiadas, a sua esposa e filha.

 

Mas não só a palavras se resumiu a explicação. Como nos relata o principal jornal da época da cidade - O Periódico dos Pobres no Porto - houve uma encenação de batalha para que suas majestades com mais realismo pudessem desfrutar de um vislumbre do que tinham sido aqueles tempos de angústia tão presentes ainda na população. A partir deste ponto deixo o jornal falar...

 

*

«S.M.I. tinha determinado dar a SS. MM. a rainha, e duquesa de Bragança alguma ideia de um dos repetidos ataques que os bravos do Exército Libertador, com tanto denodo, sempre repeliram; e para completo desempenho mandou o Quartel Mestre General do Exército colocar a tropa da maneira seguinte:

 

A 3ª Brigada, comandada pelo coronel Brito defendia a linha desde extrema direita em Campanhã até Guelas de Pau, deixando em reserva no centro da linha o 3º Batalhão da 5ª Brigada do comando do coronel Osório. A 4ª Brigada guarnecia a trincheira desde Guelas de Pau até à Aguardente, deixando de reserva no centro da linha o 2º Batalhão da 5ª Brigada. A 1ª Brigada do comando do coronel Meneses ocupava o reduto das Antas, e posições adjacentes, e tinha em reserva aqueles corpos de Brigada que fossem necessários, e um esquadrão de cavalaria nº6, estava também postado no largo da Aguardente o esquadraão de Cavalaria Nacional. O reduto do Covelo era guarnecido pelo 2º Regimento de Infantaria ligeira da Rainha.

 

Um tiro de canhão anunciou a chegada de SS.MM. à Bateria do Fojo, e o começo do figurado ataque. Depois de entreterem os piquetes um pequeno tiroteio, tiveram de retirar-se, não grado o entusiasmo dos nossos soldados, que nem brincando consentia fazê-lo apressadamente. Suposta a aproximação do inimigo as baterias de toda a linha de Redutos romperam um vivíssimo fogo, a que respondiam as repetidas descargas de infantaria, o Forte de Gaia, e mais alguns redutos da parte de além do rio.


Os bravos oficiais, e soldados do exército eletrizados por semelhante espetáculo mal podiam conter as faiscas do seu bem provado valor, e acreditar a ficção.


A 2ª Brigada do comando do tenente coronel Miranda, composta dos Corpos 1 e Móvel do Porto, e Batalhão de Empregados Públicos e um esquadrão de Cavalaria nº6 sustentou o Reduto do Cavêlo [sic], ocupando depois as posições adjacentes ao mesmo, e onde por fim deu-se vivas a suas majestades, ao imperador regente do reino e à Carta, mostrando todos o maior entusiasmo.

 

Screenshot_1.jpg

Efeitos de bombas : apontamento de J. B. Ribeiro (ver aqui o desenho completo)


Os espectadores estavam apinhados em todas as colinas das imediações das linhas, e todos recordavam com assombro os incalculáveis riscos que correu a vida de onde dependiam os destinos da nação portuguesa. SS. MM., depois de concorreram toda a linha guarnecida, voltaram ao paço (...)»

 

Dois dias depois, no dia 4 de Agosto, o duque de Bragança mandou encenar novamente uma batalha, desta vez para dar imagem dos «ataques que tinham tido lugar na Serra do Pilar, e da valorosa defesa que faziam os defensores daquele ponto, às 9h30 rompeu ali um visível fogo de mosqueteria e artilharia, e o mesmo se fez na Foz. No Crasto, e nas baterias imediatas, para recordar a forte oposição que os defensores da usurpação faziam aos desembarques das munições de guerra e boca, e por que maneira o pão de muitos meses que súbditos fiéis da rainha comeram dentro das trincheiras desta heróica cidade foi amassado com sangue e lágrimas».

*

 

Pese embora já não esteja no âmbito desta publicação, transcrevo aqui parte das palavras de D. Pedro IV que apareceram no mesmo periódico, no dia em que este chegou ao Porto, e que demonstram o quanto o mesmo se sentia grato à cidade; lembrando-nos agora o quanto ela foi realmente uma voz ativa no país, no que toca ao seu futuro, isto pelo menos até ao final do século XIX, ou mesmo, se quisermos dilatar um pouco mais a influência, até ao golpe da Monarquia do Norte, já em plena República. Após o Estado Novo e mesmo na atualidade, a nossa cidade viu-se resumida, em minha opinião, a uma posição "Emérita", praticamente sem qualquer capacidade de intervenção e ainda menos de decisão, corrida por um centralismo visceral que quase tudo corrói... Perdoem-me o desabafo, afinal, este não é um blogue de intervenção! Seguem finalmente as palavras de D. Pedro IV, de quem o coração repousa na nossa cidade (e isso diz muito):

 

*

«(...) Eu não quis por mais tempo demorar a minha vinda a esta muito nobre e muito leal cidade, em companhia da vossa rainha, com o fim de me congratular pessoalmente convosco, pela terminação honrosa da guerra civil, cumprindo a promessa que vos fiz no dia 26 de julho do ano próximo passado, imediato aquele em que o vencedor de Argel[3], experimentou o primeiro revés em Portugal. Entre vós tendes a vossa rainha, que vos agradece tantos esforços e sacrifícios que por ela tendes feito, e vos louva, pela heroicidade que mostrásteis, a qual poderá vir a ser imitada mas nunca excedida. Eu me felicito a mim mesmo por me ver no teatro da minha glória, no meio dos meus amigos portuenses, daqueles a quem devo pelos auxílios que me prestaram durante o memorável sítio, o nome que adquiri, e que, honrado, deixarei em herança a meus filhos.»[4]

*

 

D. Pedro, que começara a carta atrás parcialmente transcrita por declarar que viria proximamente fazer nova viagem para se demorar mais na cidade mas também para visitar as províncias do norte. Já não o pode fazer, pois faleceu em setembro desse mesmo ano, tendo aliás efetuado esta viagem ao Porto já com a doença avançada e sempre acompanhado do seu físico.

 

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1 - Agora Museu Soares dos Reis.

2 - Segundo creio, a única monarca europeia que não nasceu na Europa.

3 - Referência ao general francês Bourmont, que esteve ao serviço de D. Miguel.

4 - Lembrar que, se o herdeiro do trono nunca deixou de se titular Duque de Bragança; o secundogénito passou, daquela época em diante, a se titular Duque do Porto. Nessa condição estava, por exemplo, D. Manuel II, quando em 1908 se viu forçado a ser rei.

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