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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Viagem a um Porto de outro tempo .1

por Nuno Cruz, em 05.05.18

Em 1866 o comboio ia já dando o seu contributo para tornar o nosso país mais pequeno. É nesse ano que o ainda jovem escritor/jornalista Manuel Pinheiro Chagas publica talvez um dos seus menos conhecidos livrinhos: Contos e descrições - Leitura para Caminhos de Ferro. Nele incluiu as observações que fez em viagens de comboio ou em consequência de uma viagem de comboio, e onde se encontram as que mais o impressionaram na deslocação que efetuou à nossa cidade em janeiro/fevereiro de 1865. É desse pequeno livrinho que extraí as linhas que abaixo se vão ler, acrescentando títulos de minha autoria.

 

*

A aventura da chegada, após sair do wagon nas Devesas

« O frio era intenso, e a chuva gelada, verdadeira chuva de janeiro, chegava-nos aos ossos. Depois de cumprir os deveres de bom cidadão, revelando humildemente à alfândega os mistérios dos meus baús, olhem em torno de mim, procurando algum desses guapos cidadãos do reino vizinho, que, a troco de modesta retribuição, prestam as suas robustas espáduas aos franzinos descendentes dos companheiros do Gama.

 

Aposto, em como não houve dez leitores, que adivinhassem um galego escondido nesta elegante paráfrase! Pois não era outra coisa que eu procurava. E nem um só despontava no horizonte! Contudo, o caso era sério. Eu não podia ficar na estação, nem podia transportar eu mesmo a bagagem. Naquele momento, bradaria, como Ricardo III: « Meu reino por um Galego», se eu tivesse um reino, e o galego mo aceitasse, duas coisas que duvido que pudessem acontecer.

 

Redobravam os trances aflitivos, em que me via. Estavam só mulheres em torno de mim, mulheres do Porto, com o xale à cabeça e com o chapéu desabado em cima do xale. Reparei que me olhavam como estupefactas da minha indecisão. Afinal, uma delas pareceu resolver-se, avançou para os baús, lançou mão ao mais pesado, ergueu-o como quem ergue uma pena, pô-lo à cabeça, e depois, serenamente, e sem que ao menos esse esforço lhe afogueasse as faces, perguntou: «Para onde vai isto?».

 

Se o senhor António Pereira da Cunha estivesse no meu lugar, acrescentava um capítulo ao seu formoso livro Brios heroicos das portuguesas. (...)

 

Entretanto, a portuense avançava, em direção a um carro, que devia transportar a bagagem para a cidade, tão desafogada e desembaraçada com o baú à cabeça, como a gentil Rebeca, a filha de Eleazar, a noiva de Isaac, quando ia encher na fonte o leve e airoso cântaro.

 

Eu seguia-a, pedindo mentalmente a Deus que não houvesse um outro cerco do Porto, que eu não estivesse entre os sitiadores, e que não caísse nas unhas da Isabel Fernandes desta nova Dio.

 

Aproximara-se o carro, que nos havia de transportar para o outro lado do Douro. Antes de me introduzir no veículo, examinei-o curiosamente. Devo confessar que valia a pena.

 

A anacrónica liteira jaz sepultada no olvido, e tem por epitáfio o admirável livro de Camilo Castelo Branco, publicado ultimamente pelo [O] Comércio do Porto. O carro seu contemporâneo merecia igual sorte, mas não merecia de certo igual epitáfio. Imaginem uma caixa estreita e curta, com duas banquetas de palha, onde cabem apenas quatro pessoas, rodeada de cortinas, e puxada por três cavalos enfileirados. Espanta-me esta prodigalidade! Três cavalos para arrastarem um veículo de quatro pessoas! É caso para se ufanarem os que vão metidos na tal caixinha! De que peso os cocheiros nos imaginam! Aquela medida preventiva abona muito a obesidade dos fregueses habituais destes corricolos!

 

Depois infunde certo respeito o aspeto dos três corcéis em linha. Os mesmos cavalos mostram-se mais garbosos, lembram-se que, se andam a três, também os jesuítas só assim podiam andar, e este paralelo conhece-se que lhes dá brios.

 

Tal sistema contribui muito para a veneração que não podemos deixar de prestar a estes carros, já de si veneráveis pela sua antiguidade. Eu, quando dei de cara com o terceto, tive vontade de o cumprimentar humildemente. Pareceu-me que os ginetes tinham uns certos ares de deputação, e estive um instante à espera que fizessem algum discurso.

 

Afinal metemo-nos no veículo; o cocheiro trepou ao seu trono, e partimos.

 

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a rua do Bonjardim na extinta extremidade equivalente à atual entrada da rua do Sá da Bandeira. Na imagem pode ver-se um carro puxado a três. Quem sabe o "resto infeliz do terremoto" que transportou Pinheiro Chagas.

 

 

Apenas os cavalos andaram dois passos, percebi imediatamente que a sege de Nicolau Tolentino tinha descendentes diretos, e que esses não haviam degenerado, antes pelo contrário, tinham requintado em espírito inquisitorial. O primeiro solavanco, atirou-nos às nuvens, o segundo sumiu-nos num despenhadeiro, o imediato tombou-nos para a direita, o outro para a esquerda, o penúltimo ia-nos fazendo sair pela proa, o derradeiro pela popa. Em menos de cinco minutos tínhamos atravessado o zenith, o nadir, e os quatro pontos cardeais do horizonte. Era uma excursão com que muito lucraria talvez a geografia matemática, mas com que de certo padeceram as nossas costelas. Um nosso companheiro, que viera do Brasil, julgou-se mais em perigo dentro do carro nas calçadas de Vila Nova de Gaia, do que a bordo do paquete entre as ondas do Atlântico, e jurou que preferia atravessar a ponte pênsil a pé. Não cumpriu o juramento, infelizmente para nós, porque se não partimos as costelas, não foi por falta de ele o agoirar. O provérbio «À porta de casa se quebram as pernas» era o seu mote favorito, mote que ele glosava com repetidos suspiros e imprecações, quando a frágil caranguejola ameaçava desabar, e desfazer-se em caruncho.

 

Descemos uma calçada quasi erma, com o credo na boca, e implorando todos os santos do paraíso para que se dessem ao incómodo de segurar com as suas bem aventuradas mãos as tábuas daquele resto infeliz do terremoto, que ameaçava a cada instante desconjuntar-se, e enviar-nos para o céu depois de nos ter sacudido neste purgatório ambulante.

 

Se os náufragos da Medusa, tivessem ao menos farinha de pão, invejava-lhes a sorte! Uma jangada não engana a gente, e não se apresenta com a aparência pomposa de um carro de três cavalos!

 

Atravessamos a ponte pênsil, e o anfiteatro pitoresco da cidade invicta apresentou-se-nos envolto no véu sombrio e chuvoso da frígida manhã. O Douro corria torvo e carregado por baixo de nós; a corrente soturna quasi que nem baloiçava os barcos; que repoisavam o seu dorso líquido. As margens deste rio são de certo mais pitorescas do que as margens do Tejo; a natureza prodigalizou ali a graça e o mimo, nas praias do rio de Ulissea a severa majestade; mas o sereno azul das águas do Tejo, a limpidez dos seus cristais não sofrem comparação com a embaciada superfície do Douro; o Tejo espelha o céu, o Douro espelha o Inferno, o inferno que ruge no fundo das suas águas, que irrompe em alguns sítios no feroz turbilhão das cachoeiras, turbilhão que tantas vidas tem tragado, contando-se entre elas a do barão de Forrester, homem que só no Douro pensava, que o descreveu, que o estudou, que o pintou, que lhe devassou os mais recônditos mistérios; e que nele afinal encontrou a morte, provando assim que os serviços prestados aos rios, do mesmo modo que os obséquios, feitos aos homens, têm a ingratidão por prémio e por salário.

 

Apesar de ser ainda muito cedo, havia já imensa animação nas ruas que atravessamos. As lajes, que substituem no Porto o mac-adam lisbonense, protestaram contra os esforços que os cavalos faziam para galgarem as ladeiras, e levaram ao mais alto grau o terror do nosso companheiro de viagem. Andamos à ventura por aquelas subidas; umas vezes o cocheiro puxando os cavalos e o carro, outras vezes o carro puxando o cocheiro e os cavalos! Devo prestar a devida justiça aos briosos corcéis! Dos elementos constitutivos da nossa caranguejola foram eles os únicos, que se conservaram na mais perfeita inação! Fatalistas como uns turcos, não tentavam opor-se ao destino! Se o cocheiro, que se apeara, os levava para diante, iam para diante; se o carro exercia tração em sentido oposto, iam para trás! Pareciam membros da maioria, duvidosos sobre qual será a fração do ministério a que devem obedecer!

 

Enfim, depois de longas hesitações, fomos parar à rua do Bonjardim, assim chamada, porque, se houvesse algum jardim que se parecesse com ela, devia de ser horrendo. E, como nos livramos dos perigos da viagem, será bom não tentarmos a Deus, e ficarmos por aqui.

 

.............

 

Encostado voluptuosamente ao peitoril da janela da hospedaria, vi afastar-se o carro, por entre cujas cortinas, agitadas pelo balanço, surgia o rosto espavorido do nosso companheiro de viagem, que ainda tinha que afrontar perigos iguais, senão superiores aos que já tínhamos superado.»

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O último parágrafo fui já busca-lo ao capítulo seguinte, que veremos mais à frente. Também mais à frente analisaremos um pouco a "problemática" lajeado/macadam...