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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Viagem a um Porto de outro tempo .2

por Nuno Cruz, em 13.05.18

Continuamos a leitura de excertos do livrinho de Manuel Pinheiro Chagas apresentado anteriormente, com curiosos apontamentos sobre a forma como ele, sendo um lisboeta de gema, via e interpretava o Porto de meados do século XIX (tenhamos sempre presente que estas palavras foram escritas em 1865).

 

*

Ruídos portuenses

«Se os leitores têm grande desejo de que eu lhes descreva minuciosamente a segunda cidade do reino, aconselho-os a que façam preces públicas para que a chuva, cessando, haja por bem desbloquear-me, e permitir-me largas digressões por esta terra, que me parece inexcedivelmente pitoresca, e que conserva, muito mais do que Lisboa, o cunho nacional.

(...)

No mesmo dia em que cheguei, saí da hospedaria, e confesso que julgava sinceramente praticar com isso uma façanha digna de ser exaltada pela tuba épica, e merecedora da eterna gratidão dos leitores, por quem eu me sacrificava. No meu quarto sentia a chuva desabar com estrepitoso fragor, e pensava de mim para mim que se haviam aberto as cataratas do céu, e que um novo dilúvio ameaçava soverter o mundo (...). Saí, apesar disso, encomendando a minha alma a Deus, e preparando-me para ir até ao Douro na terrível enxurrada.

 

Não foi pequeno o meu espanto, quando me vi no meio da rua. Caía uma chuva ligeira, pouco incomodativa, e, contudo, o estrépito continuava do mesmo modo! Estava sendo vítima de uma ilusão dos meus ouvidos, ou alguma fada maligna, natural do Porto, se divertia a pregar pirraças a um lisboeta recém-chegado?

 

Nada disso sucedia, a não ser que quiséssemos alcunhar de fada a câmara municipal, com o que incorreríamos de certo nas iras dos vereadores, zelosos da dignidade das suas funções, e pouco desejosos, provavelmente, de serem comparados a silfos, ou a quaisquer outros espíritos, graciosos sim, mas tenuíssimos, como todos os espíritos, que, por essa qualidade pouco municipal, estão excluídos para todo o sempre de fazerem parte de qualquer vereação.

 

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O mac-dam, que em Lisboa amortece a queda da chuva, e a recebe amorosamente no seu seio, coito amaldiçoado que origina a lama celebérrima do Chiado, é raríssima no Porto. As lajes das ruas opõem o seu duro broquel aos líquidos virotes, arremessados pelas nuvens. Deste incessante combate nasce a imensa bulha, que ilude quem não está habituado a este concerto pouco harmonioso, mas preferível, ainda assim, ao desconcerto do mac-dam de que são vítimas as nossas pernas na capital.[1]

 

Saí da rua do Bonjardim. Eis-me na Praça Nova, no centro da vida portuense, no Chiado da cidade invicta.[2]

 

De um lado sobe a rua de Santo António, defronte empina-se a dos Clérigos. A celebrada torre ergue-se-lhe ao cimo, e campeia desassombrada, arrojando aos seus a sua airosa estatura! Que vida, que movimento, que agitação! A chuva cessou, e o sol, rasgando as nuvens, e aparecendo como que numa janela do céu, debruça-se para a terra, espreguiça os seus raios doirados, e repelindo para longe a massa negra, que lhe protegia o sono, e que o incomoda agora, forma em torno de si um terreiro azul, onde se espaneja à vontade, e onde recebe as saudações daqueles, a quem afaga e anima com a sua benéfica luz!

 

A estas horas, os elegantes do Marrare aproveitam a trégua, e encostam-se à ombreira do botequim, as senhoras lisbonenses atravessam a lama, aproveitando a ocasião para se revelarem aos seus admiradores particulares, ou (tal é a sua generosidade) aos mesmos profanos, a perfeição do mimoso pezinho que a natureza lhes doou. As carruagens perpassam salpicando os passeantes, que se indignam, (...).

 

O sol regala-se com este espetáculo, ri a bandeiras despregadas, e, malicioso como um folhetinista do céu, quando lhe parece, corre outra vez as cortinas, deita-se a dormir, e as nuvens, que voltam a formar-lhe alcova, desprendem as torrentes de água, dispersam os espavoridos passeantes, obrigam as senhoras a fugirem, e inundam os chapéus de chuva dos democratas, que fazem nessa ocasião novas despesas de estilo.

 

No Porto não goza o sol tal divertimento; quando se lembra de acordar, não vê senão pessoas que correm azafamadas a tratar dos seus negócios, que vão, que vem, que voltam, e, se encontra um ocioso como eu, que anda de nariz para o ar saboreando a doçura dos seus raios, bayan aux grues como Alfredo de Musset, diz logo consigo: «Este é de Lisboa.»

 

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Não se ouve também aqui aquele concerto de pregões floreados, variados, prolongados infinitamente, que se escuta na capital; o pregão aqui é curto e monótono assimilham-se (sic) todos uns aos outros. O vendilhão em Lisboa é um vadio, que, a pretexto de vender, atordoa os ouvidos de quem passa. O vendilhão escuta-se a sim mesmo, mais do que escuta os fregueses.

(...)

Aqui nada disso! O vendilhão é um homem de negócio! Apregoa para apregoar, para anunciar a sua mercadoria; se pode dispensar-se de tal incomodo, melhor! Por isso berram menos e negoceiam mais.

 

É esta, por fim de contas, a índole verdadeira dos portuenses. Não gostam de perder tempo! Os laivos de estrangeirismo, que por aqui há, são ingleses, os de Lisboa franceses. O Porto, nas coisas em que não é português de velha têmpera, é inglês. (...) O próprio provérbio Time is money tem aqui foros de cidade; a índole reflexiva, calculadora, sensata dos nossos fieis aliados inocolou-se também no animo dos portuenses.

 

Em Lisboa fala-se muito, grita-se muito, prega-se, exorta-se, não se faz nada, ou fazem-se meetings. O Porto é sossegado, quieto, pensador, e, quando resolve fazer qualquer coisa, leva-a a cabo. Lisboa é turbulenta, o Porto é temível! Para guardar o edifício liberal, para defender os foros e os privilégios do país, Lisboa procede como o cãozinho fraldeiro que, ao sentir a mínima bulha, grita, salta, ladra, e que foge, quando aparecem os ladrões; o Porto é como o cão de fila, que rosna, deixa aproximar o assaltante, salta-lhe às goelas, e mata ou é morto.

 

Aqui não pode haver guerras do pão, num tumultos do Natal, nem saída dos presos; aqui há revoltas de 20, de 32, de 46[3]. Há a reflexão, que pesa maduramente os prós e os contras, a energia que não cede sem terminar o que resolveu. Não há desordens, há motins; não há tumultos, há revoluções. Nas mais pequenas coisas se revela esta qualidade peculiar dos povos do norte, mas que os portuenses possuem desde tempos imemoriais, e que não podemos atribuir unicamente à influência dos costumes inglesados.

(...)

É isto o que resgata o Porto de muitos defeitos de que o acusam; é a veneração, é o respeito, que o trabalho aqui inspira; é a imensa atividade, que se nota nesta vasta oficina. Acusam o Porto de não pensar senão em transações, em negócios, em dinheiro, de não prestar culto à inteligência, quando é dirigida num sentido que não seja o de colher interesses positivos. Não sei o que há verdadeiro na acusação; sei apenas que, a ser exata, é uma ventura para o país, que haja no seu território uma cidade, que se digne pensar nestes interesses prosaicos, que são a base da prosperidade das nações. Esse defeito (se existe) desaparecerá também à medida que o Porto se for desenvolvendo, e que, conservando sempre principalmente a sua índole comercial, preste justiça a todas as aspirações e tendências da atividade humana.

(...)

Não me atrevo a afirmar que não exista esse defeito no Porto, porque seria uma tal afirmativa notável arrojo em quem reside aqui, há oito dias, encerrado pela chuva numa hospedaria; mas o que posso asseverar é que, neste pouco tempo, tenho podido observar um certo movimento literário, pouco inferior ao de Lisboa; e a brilhante literatura portuense é uma prova de que nem todos os filhos da cidade invicta se entregam exclusivamente às preocupações materiais.

(...)

Esta agitação regular, este movimento desestouvado, esta azáfama tranquila, se me permitem o termo, que distingue os povos trabalhadores, que é característico dos ingleses, noto-os também em todas as pessoas em torno de mim. A pouca frequência das carruagens, que priva a cidade da bulha ensurdecedora das ruas de Lisboa, a raridade dos pregões, o sucesso com que todo se faz, dariam ao Porto um aspeto fantástico, se um ruído contínuo, forte, seco, mas compassado, não chamasse a atenção do estranho. Ao princípio, não se supõem, não se adivinha o que seja. Parece a bulha das matracas na semana santa lisbonense, parece um martelar incessante, um tripudiar de crianças, que querem fazer desesperar o professor, um bater de palmas a compasso, um doidejar de inúmeras castanholas, um rufar de baquetas em tambores de pedra... e contudo, por mais que se tente descortinar o que produz essa bulha, não há meio de o conseguir.

 

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Homens, mulheres passam ao nosso lado descendo, subindo os passeios, e nada trazem nas mãos, que possa originar semelhante ruído. O pobre ignorante olha, examina, e nada vê. Afinal, mirando os pés dessa gente, descobre o motivo. Essa bulha, que tanto nos intrigou (desculpem o galicismo carnavalesco), é produzido pelos tamancos, ou socos, que usa o povo portuense, batendo nas lajes das ruas calçadas![4]»

*

 

 

Prosseguirá...

 

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1 - Raríssimo é um adjetivo bastante exagerado. Mais provável será que as principais ruas do Porto de 1865 estivessem efetivamente "macadamisadas"; isto julgando pelas notícias que tenho vindo a encontrar, por exemplo, nos relatórios camarários dos anos 70, 80 e 90, quando o macadam começou a ser substituído pelo paralelepipedo de canelas.

2 - Apesar de constantemente se referir à praça Nova, naquela altura a praça já tinha o nome de praça de D. Pedro; aliás o autor vai referir isso mesmo no capítulo seguinte.

3 - A da Constituição, Guerra Civil e Patuleia, respetivamente.

4 - É curiosa esta referência aos tamancos ou socos, que embora não sendo única, parece atribuir esta característica apenas à região do Porto. Acredito que, contudo, o seu uso estivesse generalizado pelo menos em todo o Minho, senão mesmo em praticamente todo o país.