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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Viagem a um Porto de outro tempo .3

por Nuno Cruz, em 25.05.18

Continuemos a acompanhar Manuel Pinheiro Chagas, na qualidade de turista, pela nossa cidade.

 

*

Cafés

«Cerrei o capítulo passado, abandonando os leitores na praça Nova ou antes na praça de D. Pedro, como a câmara municipal ordena com tão pouco sucesso (...).

Sem mais reflexões, e atendendo a que o leitor deve estar farto de sentir a bulha dos tamancos, e de contemplar o madeiramento central do largo, crisálida bastante feia, de onde há-de sair, segundo creio, não uma borboleta mas uma estátua, vou oferecer-me para lhe servir de guia, meio seguríssimo de se extraviar, porque eu mesmo ainda não fui capaz de voltar à rua do Bonjardim, sem ter feito primeiramente um giro completo em torno da praça como se fosse cavaleiro de toiradas, e andasse executando as cortesias preliminares. [1]

(...)

Aqui tem os meus caros leitores o café Portuense, o mais notável, segundo creio, de todos os botequins da cidade invicta. Entremos por conseguinte nele com a veneração, que inspiram estas academias da moderna geração, academias onde todos os assuntos se discutem, onde se fazem e desfazem reputações, onde a virtude das mulheres e o talento dos escritores são despedaçados com a mesma faca, com que se parte o fiambre, ou se afogam nas ondas do ponche, onde se vai também muitas vezes a pique o senso comum.

 

Estou que os fumos da vaidade, e os modos despejados de que a mocidade contemporânea é acusada, e, inda mal, com justiça, são devidos à substituição dos antigos salões pelos grémios e pelos botequins, donde é repelido o delicado e suave prestigio feminil, cujos meigos raios sobredoiravam de certa elegância e de certo encanto os próprios vícios desenfreados da sociedade do século passado. [2]

 

Ou fosse porque o dono do café Portuense se compenetrasse da influência, que os botequins exercem na civilização, ou fosse por qualquer outro motivo, é certo que uma sala de academia não podia ser mais majestosa. Não ousa a gente falar em voz alta, e os jornais assumem naquelas mesas o venerando aspeto duns Evangelhos. Já é!

 

Duas estátuas, em atitude mais ou menos graciosa, recebem o freguês, que sente logo dali inocular-se-lhe no ânimo a ciência infusa de belas-artes, indispensável a todos os frequentadores de botequins, mas que em Lisboa só se encontra no fundos das garrafas, ou nas pinturas equivocas de alguns quadrinhos. As paredes, forradas de espelhos, entremeados com grandes telas, absorvem a luz, que os vidros polidos, colocados de distância a distância, refletem com tal ou qual repugnância. Sente-se nisto a opolência e a gravidade, a riqueza severa, a firme intenção de não sacrificar nos frivolos altares da moda, de não animar as frívolas tendências das modernas gerações e de dirigir os espíritos pelo são caminho da filosofia! (...)

 

Quem vem habituado à abundância de luz do café Martinho, espanta-se desta aparência sobria do café Portuense. Tem de confessar depois que, se bem adotasse outro sistema, o botequim da cidade invicta não é inferior ao café de Lisboa, e a vastidão do estabelecimento e os cinco magníficos bilhares, de que este se ufana, dão-lhe jús à estima dos amadores.

(...)

Passemos por defronte do edifício da câmara, com a veneração a que tem direito estas residências municipais, torneemos a praça, e paremos finalmente diante da livraria Moré, casa perfeitamente lisbonense, em cujas estantes campea o lindo romance de Camilo, Agulha em palheiro, que sai agora mesmo do prelo, e que se vem juntar à magnífica lista deste editor, a quem está atualmente devendo imenso a literatura nacional.

 

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Deixemos ao lado direito a rua dos Clérigos, ao lado esquerdo a rua de Santo António, vamos seguindo em frente, até entrarmos na rua das Flores, onde os ourives apresentam, na vidraça das suas lojas, expostos à admiração das mulheres do povo formidáveis cordões e arrecadas, proporcionadas à força muscular deste sexo frágil, que põe baús à cabeça, e arrasta socos nos pés [3], e que de certo andaria em equilíbrio instável, se estes formidáveis contrapesos não viessem contribuir para conservar a posição vertical das populares portuenses.

 

Continuemos descendo sempre, caminhemos em direção ao rio; agora vamo-nos perder com toda a certeza (...).

 

Pois com estas ideias, caros leitores, estamos perdidos no labirinto de vielas estreitas, escuras, emaranhadas, que vão ter a Miragaia. Contudo, encostemo-nos um ao outro, e vamos por aí fora.

 

O Porto antigo

O Porto primitivo, da mesma forma que a primitiva Lisboa, do mesmo modo que todas as cidades, que brotam à beira dos rios, agrupou-se timidamente, mirando-se no torvo espelho do seu Douro, como a donosa Lisboa mirava os seus encantos no límpido cristal do Tejo; mas não foi tão imprudente nesses enlevos de vaidade, que espraiasse as suas casas por toda a margem, formando longa fila paralela à corrente, e perdendo a segurança com a extensão. As habitações foram trepando pelos penhascos, que se empinavam tremendos à beira do rio apertado neste leito de fragas, até ficarem todas à sombra do paço episcopal, que se ergueu entre elas mais com o seu aspeto mais de castelo roqueiro, do que de residência eclesiástica. Assim devia de ser, atendendo a que o bispo era não só pai espiritual, mas senhor temporal, e que, possuindo os habitantes do Porto em corpo e alma, por tal forma os tinha seguros no seio da igreja, que muito arteiro devia ser o demónio, se fosse capaz de se apossar de uma perna, só que fosse, de um cidadão portuense.

(...)

Assim, pois, como vassalos humildes e cautelosos cristãos, aninharam-se os moradores do Porto em torno da sagrada habitação do seu bispo e senhor, chegando-se bem uns aos outros, fazendo negaças ao sol, que dificilmente se poderia aventurar nas estreitíssimas vielas da cidade, a qual não faltava por este modo aos usos e costumes da idade-média, que, sendo uma era de gigantes, folgava em não caber por estas ruas e portinhas de anões.

(...)

A pouco e pouco, como é natural, o Porto foi-se sentindo apertado, quis desafogar, e irrompeu em todos os sentidos, trepando mais por um lado, espraiando-se para outro, e afastando-se da religiosa sombra do seu paço episcopal, que, da altura onde campeava, pode ver tristemente as suas ovelhas fugirem-lhe a bom fugir, e irem à procura destes bens temporais, que se chamam ar e luz, sem os quais não pode viver a frágil organização humana.

(...)

No Porto não acontece assim [4]. A mão poderosa da natureza não veio ajudar as transformações dos homens e do tempo, e tudo se foi fazendo por conseguinte a pouco e pouco. De forma que a cidade velha ficou conservando o posto que ocupava, sem perceber as inovações, que se lhe iam adicionando, mas que a não desalojavam, nem se lhe metia de permeio. Apenas uma ou outra rua nova ousa espreitar por entre o montão de casas esguias, que se atropelam umas às outras, e se conservam carrancudas e imóveis, apertando-se cada vez mais, como que para oporem o seu cerrado esquadrão às invasões do progresso. Olham de soslaio para a ponte pênsil, e contam ao Douro, seu sombrio confidente, o rancor que lhes inspira a arrojada fita, que ousa saltar duma à outra margem, sem respeito algum pela sua venerada catadura. O Douro, que tem também os seus agravos, e que se vê ofendido no seu orgulho pela incrível audácia da atrevida, que lhe não pediu licença para o transpor, jura vingança, e ruge enfurecido, ameaçando, sempre que pode, soverter a insensata, e galgar pelas ribas penhascosas para ir bramir nas praças amodernadas da sua gentil vizinha.

 

Mas a velha cidade não suspeita sequer as louçanias, em que a civilização se tem desentranhado, enquanto ela se conserva imóvel com as suas casas negras, espantando-se apenas de não ver passar cavaleiros e donzéis pelas tortuosas ruas, onde o trabalho campeia, onde se projeta a cada instante a luz avermelhada da forja, onde se escuta o retinir do martelo na bigorna (...). Mas, se, mais feliz do que Lisboa, pode conservar o terreno que ocupava, e não ceder um ponto só às modernas construções, não pode impedir que nos sítios, que deixava livres em torno de si, se fossem a pouco e pouco erguendo novas cidades, que se sucedem umas às outras, e formam um conjunto pitoresco, e digno de se observar. À medida que o Porto se vai afastando do rio, vão-se alargando as ruas, as casas vão deixando essa aparência esguia (...). O bairro de Cedofeita, que tem um tal ou qual ponto de contacto com o bairro lisbonense de Buenos Aires, é perfeitamente um bairro confortável, construído, com todas as comodidades exigidas pelo espírito moderno.

(...)

Vamos pois visitar o Douro, antes que ele nos visite, o que seria da sua parte muito delicado, mas muito desagradável para nós. Contudo, o torvo rio está dando mostras de nos querer fazer essa amabilidade, e, ou seja porque as chuvas torrentosas o tenham engrossado, ou porque esteja decididamente curioso de nos ver, vai-se levantando nos bicos de pés, e erguendo acima do areal a sua feia catadura, com grande desprazer dos portuenses, que receiam receber alguma dessas visitas, como as que ele lhes tem feito frequentemente, e em que toma a liberdade de se estirar por praças e ruas, como vilão em casa de seu sogro.

 

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Saiamos pois, da rua das Flores, entremos na de Ferreira Borges, e deixando à direita a da Ferraria, não nos esqueçamos contudo que perto dessa rua existe o local, onde se erguia outrora o arco de Santana [5], tão conhecido dos leitores do nosso querido Garret (...).

 

Continuemos a descer, que de relance podemos ir vendo ruas ilustradas literariamente, e cujas negras casas se douram com um reflexo de auréola, que cinge a fronte de um romancista, cuja fecunda e esplêndida imaginação se compraz em iluminar estes escuros recintos do velho Porto, sendo nisso mais generosa do que a companhia do gás, que os deixa ficar muitas vezes sepultados em completa sombra, e que outras vezes derrame neles a mentirosa luz de uns candeeiros, que me fizeram perceber perfeitamente as trevas visíveis, em que fala o cantor do Paraíso Perdido.

(...)

Passemos por conseguinte à Porta Nobre ou Porta Nova, porque andam os arqueólogos em discussão sobre qual será o verdadeiro nome, que lhe deve competir. Esta discussão felizmente não pode degenerar em luta, porque, a falarmos a verdade, pela porta, que lhes serve de tema, não podiam entrar a um tempo dois dos contendores.

 

Ambos os partidos alegam razões tão fortes, que eu não sei realmente para que lado hei-de pender, de forma que me parece melhor darmos-lhe os dois nomes, ambos merecidos, o de Porta Nobre, por ser plebeia bastante, e o de Porta Nova, por ser velha como Matusalém.

(...)

Estamos pois em Miragaia, se as minhas informações não erram; do lado esquerdo o imenso madeiramento, onde vão progredindo vagarosamente as obras da nova alfândega; para o lado direito ... repare o leitor numa daquelas vielas escuras, imundas, tortuosas. É a rua dos Arménios, donde saiu a Augusta do - Onde está a felicidade? - a Augusta, cuja linda casa do Candal se pode ver além na margem fronteira. Se continuarmos, se formos pelo caminho da Foz, havemos de encontrar o convento de Monchique, onde morreu, abraçada às grades do mirante, a Teresa do Amor de Perdição!

 

(...) Pareceu-me divisar encostada à negra fachada de uma dessas casas da rua dos Arménios a pálida fisionomia de Augusta, de resignada mártir, uma das mais suaves criações de Camilo. Por entre as grades do mirante de Monchique julguei descortinar o branco vulto de Teresa, vendo partir para o desterro o navio, que lhe roubava o amante, e com o amante a vida.

 

A chuva, que protestou decididamente interromper-me todas as reflexões, e destruir as intenções descritivas da minha viagem, desabou de novo em cima das lajes portuenses. Abra o chapéu leitor!

*

 

Prosseguirá... 

 

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1 - Este madeiramento central do largo era o tapume do pedestal e estátua de D. Pedro IV, que por esta altura ia sendo montada (ver AQUI)

2 - O séc. XVIII, evidentemente.

3 - Ver a primeira e segunda parte destas transcrições.

4 - O autor refere-se ao parágrafo anterior, que omiti, e que versava Lisboa.

5 - Este perto é relativo pois falamos de cerca de 350m de distância entre os dois pontos...