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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Viagem a um Porto de outro tempo .7

por Nuno V. Cruz, em 03.08.18

Prosseguimos na companhia do jovem jornalista Manuel Pinheiro Chagas, na sua viagem pelo Porto e arredores. De Matosinhos ao Freixo, vejamos as impressões que este lisboeta recolheu, algumas delas não tanto lisonjeiras...

 

*

No Senhor de Matosinhos

« (...) Espero que se lembrarão ainda do sítio, em que nos separamos, do cocheiro preto e da romaria que íamos empreender, com o piedoso fim de visitarmos a milagrosa imagem do protetor dos navegantes.

 

Esmoreciam já os resplendores do sol, desmaiavam os vivos tons das campinas, perdiam-se os horizontes nas esfumadas brumas do crepúsculo, quando me vi obrigado a separar-me do leitor. Transportemo-nos de novo ao mesmo sítio, e à mesma hora, e aproveitemos a luz que nos resta para visitarmos a igreja.

 

Apeemo-nos à porta do adro, e deixando para a saída as capelinhas, que nos ficam de um e de outro lado, entremos na igreja, que, por um feliz acaso, se acha aberta.

 

A tíbia luz do sol, que iluminava frouxamente a nave, o leve murmúrio dos campos que se escutava ao longe, tudo predispunha o espírito para receber a impressão religiosa, que flutua na atmosfera dos templos. Infelizmente a igreja de Matosinhos é completamente incapaz de inspirar nos mais crentes esse sentimento poético, que salteia os próprios incrédulos nos majestosos recintos das velhas catedrais, ou na singela nave da igreja campesina.

 

O deplorável gosto, cujo domínio notei nas poucas igrejas do Porto que vi, campeia desassombrado neste templo, a que seria tão fácil dar um tom de mística poesia. Bastava que lhe não tocassem, e que dessem por santuário à tosca imagem do Salvador a simples capela das aldeias. Para desgraça nossa, espalhou-se a notícia de que este Cristo fazia milagres, e a interesseira devoção dos que tomam Deus por um negociante não se julgou segura enquanto não forrou de oiro as paredes e o teto do pobre templozinho. As colunas caiadas aparecem no meio desta opulência pesada, como uns tamancos na sala de um burguês enriquecido.

 

É esta a verdadeira impressão que produz a igreja!
(...)
(...) Artista e crente são igualmente repelidos.

 

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Igreja do Senhor de Matosinhos. Ao seu lado, um pouco recuado, o edifício que alberga o Museu de Arte Sacra da Irmandade. (imagem http://www.matosinhoswbf.pt/)

 

É muito conhecida a lenda da aparição da imagem, que ora campeia no altar-mor dessa igreja-barão. Arrojou-a o mar à praia; haviam-lhe apenas as ondas roubado um braço. Uma pobre mulher, que andava pelos rochedos colhendo lenha para a sua pobre cozinha, encontrou um madeira que lhe serviu, e levou-o para casa. Mas o fogo repelia constantemente o alimento que lhe ofertavam, e o pedaço de pau saltava para fora das labaredas que o respeitavam (...). Espantada de tamanho prodígio, a pobre velha foi pedir a solução do enigma a um sacerdote, que lha deu imediatamente. O bem aventurado madeiro não era senão o braço do Senhor naufrágo.
(...)
Dos repetidos milagres, que este senhor tem efetuado, dão clara prova os quadros da sacristia, que conseguimos ver, depois de algumas dificuldades rapidamente superadas. COnvencem-se os mais incrédulos à vista das telas, em que ignorados Rafaeis exposeram, com um notável vigor de colorido, as cenas patéticas do alto mar. Estão os navios colocados em posições por tal forma arrojadas, que seriam necessários dois milagres, o primeiro para arranjar um naufrágio assim, o segundo para livrar dele uns baixeis tão anormais. Saem os mastros das quilhas, os barcos vão de encontro a uns rochedos azuis banhados por ondas amarelas, e a imagem do Senhor de Matosinhos aparece providencialmente, ocupando só por si metade do quadro e deixando a outra metade ao oceano, ao navio, aos cachopos, à equipagem, e ao dístico. Notemos de passagem que são os dísticos unicamente que ficam maltratados pela procela. Aí é que não houve remédio senão alijar gramática, e ortografia! Mas se tudo isto nos desperta um sorriso, o sorriso fenece imediatamente nos lábios, quando pensamos no sincero e ingénuo sentimento, que inspirou aquelas toscas ações de graças, que guiou o rude e inexperto pincel do piedoso artista.

 

Saimos da Sacristia, e dirigimo-nos para a carruagem, porque a noite aproximava-se rapidamente, e no horizonte via-se apenas o purpúreo listão, que o sol deixa após si, quando desaparece no seu leito aquoso. Apesar disso, não podemos deixar de relancear a vista para uma das capelinhas do adro. Havia dentro um grupo, que representava uma das cenas da paixão. Cristo subia ao Calvário, levando aos ombros a cruz ignominiosa. Torturavam-no os soldados romanos, cuja feia catadura era de inspirar pavor. O cinzel do artista entregara-se a um tal delírio de indignação, que eu não desejo tormento maior a todos os algozes do Divino Jesus, do que ter no inferno um escultor destes a modelar-lhes eternamente imagens deste feitio. (...)

 

O nosso preto impacienta-se. Vamos para a carruagem, e voltemos ao Porto.

 

Não julgue, leitor, que o deixo descansar por muito tempo. Trata-se de visitar a casa do Freixo, por conseguinte de subir a corrente do rio.

 

Entremos pois a porta do Sol, desçamos, porque não há outro remédio, as escadas do Codeçal, e vamos ter à Ribeira.

 

Saltemos para qualquer dos barcos, que se nos oferecem. Segundo vê, pode escolher barqueiros ou barqueiras. As denodadas portuenses não se temem das iras do Douro, e com o chapéu de varina na cabeça, em pé nos botes, prometem-nos resistir com intrepidez às fúrias da corrente. Lança-nos o acaso num bote tripulado por dois homens. Resignemo-nos!

 

Não oferece ao princípio muito interesse a nossa navegação. O rio, apertado entre os empinados rochedos em que assentam de um lado o Porto, do outro lado as eminências de Vila Nova, opõe o nosso barco a força da corrente, e não nos oferece em compensação alguma perspectiva deliciosa. Parece que navegamos no fundo de uma caverna, e, servindo provavelmente de espetáculo muito interessante a quem nos estiver contemplando das Fontainhas, ou do Prado do Repouso, não gozamos coisa alguma. Porém o rio continua nas suas sinuosidades, e dentro em pouco oferece-se-nos à vista a graciosa bacia, que tem numa das suas margens a quinta da China, na outra o Areeiro, se me não falha a memória.

 

Este ponto é delicioso, e nunca vi uma paisagem mais suave, e que mais se aproximasse da ideia que formo de um desses lagos encantadores da Suíça, com que enlevam os viajantes. Uma doce luz ilumina o quadro. O rio, que, depois de se espraiar neste sítio, volta bruscamente à direita, favorece a ilusão, porque parece terminar de repente, de forma que o prolongamento da margem esquerda fica-nos fronteiro, e finge lá ao longe ligar-se com a margem oposta, encerrando por esta forma a superfície liquida, que parece dormir sossegada em tão formoso leito. No último plano do quadro divisam-se vagamente uns montes cobertos de neve, que o sol tinge de reflexos rosados. As casas brancas de Avintes trepam pelo outeiro verdejante, que se ergue à beira do rio, e dispõem-se naturalmente em gracioso anfiteatro. Mais em baixo a caso do Freixo, com as suas torres laterais, banha os pés no Douro. Por toda a parte verdura, luz a jorros, casas brancas disseminadas, ou agrupando-se em aldeias garridas, um céu sem nuvens, azul, tão azul que faria estalar de inveja o formoso firmamento italiano. Murmúrios campestres, vozes que se erguem ao longe de uma e de outra margem, e que quem vai pelo rio ouve quasi distintamente, um perfume de tranquilidade na atmosfera, tudo sereno, tudo risonho! O próprio Douro parece sorrir-se e salta de contentamento nas pedras, onde faz redemoinhos e cachões, que talvez o divirtam muito, mas que nos contrariam a nós horrivelmente. Os barqueiros, remando de pá nos barcos como os gondoleiros venezianos, um bote, levado pela corrente, que vai em sentido oposto, que se deixa ir ao som da água, e a cujo bordo vai uma mulher cantando com voz fresca e suave uma trova popular, que a pouco e pouco esmorece com a distância; tudo isto contribuía para produzir em mim esse estado de deliciosa indolência, em que os sentidos dormitam, e em que a alma se deixa ir também como que à tona da água, embalada por alguma vaga e deliciosa canção, que um rouxinol desconhecido nos está gorjeando na fantasia!

 

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I2 ... um desses lagos encantadores da Suíça ...  (pormenor de um postal)

 

Distraiu-me a atenção neste instante um espetáculo verdadeiramente pitoresco. Um bote, que ia também lutando com, o rio, metera-se imprudentemente num passo difícil, e não conseguia, por maiores esforços que intentasse, continuar o seu caminho. A tripulação era numerosíssima, e toda feminina, à exceção de um homem, que parecia ser o diretor da companha. (...) as boas das mulheres remavam com a maior energia, fazendo ao mesmo tempo uma algazarra capaz de meter medo ao próprio Douro. Mas, por maior bulha que fizessem, por mais vigor que empregassem, o barco permanecia impassível. Era um espetáculo interessante ver aquele grupo curvado sobre os remos, agitando-se e berrando, e colhendo tantos resultados como os que nadam em casa em cima de uma cadeira. A bulha é que me causava admiração. (...)

 

É necessário contudo atendermos ao que vai pelo nosso lado, porque estamos em risco de imitar involuntariamente as valentes, mas infelizes remadoras. Não houve remédio senão saltar um barqueiro para terra, e ir-nos puxando com uma corda, afim de podermos atravessar um sítio, em que fervia a água por tal forma, e corria com uma velocidade tal, que a simples ação dos remos não seria bastante para nos fazer ultrapassar esse obstáculo. Com o auxílio da corda podemos progredir, não sem o bote ter andado a passear por cima dos rochedos, passeio que me demonstrou a utilidade da ausência da quilha nestes barcos destinados à navegação no Douro.

 

Abordamos finalmente ao Freixo, depois de termos afrontado de rosto sereno muitos perigos, que não enumero por miúdo, para não fazer descorar o leitor, e desmaiar a leitora. Dir-lhes-ei apenas que estivemos horas e horas naquele delicioso sítio, encostados à muralha do jardim desta casa, propriedade outrora do visconde de Azurara, atualmente do Sr. Comendador Velado[1]. O Douro passava sussurrando ao sopé dos muros, e desfilava com toda a galhardia por baixo das primorosas janelas dessa agradável residência.

 

Tão enlevados estávamos a namorar o torvo rio, que se mostrava neste sítio gracioso e meigo, (...) que nem nos lembrávamos que o fim principal da nossa ida ali fora visitar a casa, de que nos haviam dito no Porto maravilhas. Resolvemo-nos finalmente a fazer a visita, pretexto oficial da nossa viagem.

 

Depois de algumas dificuldades, provenientes de estar então em Lisboa o dono da casa, conseguimos, graças à oficiosa e delicada intervenção de dois visitantes autorizados, a realização do nosso desejo.

 

É realmente uma sumptuosa residência, cheia de riqueza, mas principalmente de um apuradíssimo bom gosto. Ali não se descurou a mais pequenina minuciosidade; em tudo se revela a acertada iniciativa de pessoa instintivamente artista.

 

Entre muitas coisas, que ali há a admirar, temos principalmente os trabalhos de estucador. Neste género há verdadeiras maravilhas, e é de espantar a habilidade destes rudes trabalhadores portugueses, que fazem com a mão grosseira brotar prodígios ou da cantaria da Pena, ou do estuque do Freixo. São deveras os descendentes dos artífices de Belém e da Batalha. Como eles lavram, cinzelam, torneiam, a pedra, tão maleável, como a cera, nos seus hábeis dedos!

 

O que há no Freixo, como não pode deixar de haver em todas as casas portuguesas, é a ausência completa de quadros e de estátuas. É infelicíssima a pintura mural de uma das salas, e mais infeliz, segundo me consta, ainda fora a primitiva. Os olhos desviam-se dela naturalmente, e procuram de novo deliciar-se com os primorosos ornatos, em que falei, e que o dono da casa preferiu muito acertadamente.

 

A casa ainda não está completa, e tem a lutar com a grande dificuldade de se sujeitar mais ou menos ao risco da que existia. É isso provavelmente o que dá à fachada o aspeto desgracioso que tem. Uma escadaria, que se não espraia majestosamente, mas que se empina aferrada a palácio, oculta metade da frontaria, e produz um efeito desagradável.

 

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O Freixo numa litografia(?) do século XIX (Arquivo Municipal do Porto)

 

Saímos desta deliciosa casa, que está destinada, pela posição que ocupa e pelo bom gosto do seu proprietário, a ser uma das mais belas residências de Portugal, e dirigimo-nos ao ponto de embarque. De passagem notamos uma casa trivial e suja, que destoava horrorosamente das magnificências que tínhamos visto. Era a saboaria do Freixo!

 

Estes contrastes encontram-se no Porto mais do que fora para desejar. É um dos senões da formosa cidade, e é o que lhe lançam mais ao rosto.

 

O andar do tempo deve convencer os portuenses da necessidade de colocarem cada coisa no lugar que lhe compete. Gloriem-se, porque justamente se gloriam, da blusa do operário, mas, por amor de Deus, não a vistam quando forem a um baile.»

 

 

[1] Recebeu há pouco o título de Barão do Freixo (...)

*

 

 

Na próxima publicação, fInalizará!