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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Viagem a um Porto de outro tempo .4

por Nuno Cruz, em 10.06.18

Continuemos acompanhando Manuel Pinheiro Chagas na sua viagem ao Porto, naquele já longínquo mês de janeiro (e fevereiro) de 1865. Relembro os meus caros leitores que os títulos que antecedem os excertos transcritos fui eu quem tomou a liberdade de os criar.

 

*

O indomável Douro

«O Douro galgou por cima do cais, tomou as ruas, e intercetou em muitos pontos as comunicações. Como um leão, que se espreguiça sem a mínima intenção feroz, e que não outro direito senão o de estar à vontade, o Douro, sentido-se incomodado pela estreiteza do seu leito, invadiu pacífica mas irresistivelmente os sítios, que encontrou mais à mão, estabeleceu-se ali serenamente, lambendo com toda a amabilidade as paredes das casas, dando mostras de se querer portar como bom vizinho, de estar até resolvido a respeitar as posturas da câmara municipal, contanto que nestas não haja alguma disposição, que o contrarie.

 

Se o Douro fosse menos bem educado, o que seria feito das árvores e dos candeeiros do cais! Podia muito bem arranca-los brutalmente, e ir oferece-los ao oceano próximo. Era possível que o fizesse, se estivesse de mau humor; não estava. As árvores bracejam sossegadamente os seus ramos por sobre as águas. Os candeeiros contemplam com serenidade, e até com certo orgulho, os seus irmãos da terra firme, como pacíficos burgueses, que, ao princípio, todos apavorados por se verem metidos num barco entre as ondas, se recobram afinal do susto, reconhecendo a pacatez do mar, e olham desdenhosamente para os seus companheiros, que se ficaram na praia.

 

Depois das copiosas chuvas de janeiro, amanheceu finalmente, sereno e esplêndido, o dia vinte e oito, sábado. Toda a cidade soltou um suspiro de satisfação. Despovoaram-se as casas, e, como as lajes das ruas se enxugaram com uma rapidez verdadeiramente maravilhosa, as senhoras, não temendo macular as suas galas, correram pressurosas a visitar o Douro, que se dignára hospedar-se no Porto, determinado a espairecer algum tempo por aqui.

 

Aproveitemos o dia, leitor, e vamos ver a cheia.

 

Prepare-se para algumas surpresas. (...)

 

(...). Se formos renovar a nossa excursão a Miragaia, e quisermos passar pela Porta Nobre, antes de lá chegarmos, encontraremos o rio, que, sabendo talvez do que intentávamos, se deu pressa em vir ao nosso encontro. Agradeçamos-lhe a amabilidade, e voltemos para trás. Vamos a Cima do Muro, e vejamos isto.

 

O Douro, trepando até pouca distância dos primeiros andares, proibiu o uso das portas, e pôs fora os habitantes das lojas. Sumamente romanesco, só consente que se saia pelas janelas. A escada de corda, a aventurosa companheira dos ladrões e dos namorados, tem agora foros de legalidade. As escapades estão agora autorizadas.

 

Oh arrojo dos galanteadores! Escadas aéreas que as auras baloiçam! Capas flutuantes ao vento! Vultos gentis de mulheres, encostadas ao peitoril das janelas, esperando ansiosamente o resultado da intrépida excursão, empreendida pelos seus galãs! Oh! Mistério suavíssimo destas entrevistas! Lições ocultas de amor, cujos segredos enlevam tanto mais, quanto mais a furto se revelam! Afoitezas de amantes, perdestes o vosso prestígio!

 

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i1 Uma cheia no Douro (foto do Arquivo Municipal do Porto)

 

Sobem e descem os Bartolos pela escada dos Almavivas! Nas varandas das Rosinas encostam-se as cozinheiras! Os vultos, que deslizam ao longo das muralhas, não usam capa, usam capote de barregana! Tem obesidade, em vez da proverbial magresa! É nas bochechas do sol, indignado com tamanha audácia, que se executam estas façanhas, que só a lua costuma iluminar! É à face dos regedores, e dos tios, que estas coisas se praticam! Que digo? São os mesmos regedores, são os próprios tios, que perpetram estes descomedimentos! E descem para os barcos, e os barqueiros cortam a água com os remos, e o bote lá voga, lá foge, como se aquela casa esguia fosse um castelo roqueiro com os fossos profundíssimos, aquela janela uma gótica ventana, aquela rubicunda senhora uma pálida castelã, aquela casca de noz uma ligeira gôndola, aquele negociante um enamorado trovador!

(...)

Se o leitor está disposto a continuar a digressão, tem ainda muito que ver! Paremos aqui.

 

Há neste ponto uma prancha, que dá passagem de Cima do Muro para uma janela do primeiro andar! Ponte levadiça! Lá passa um vulto com passo firme.

(...)

Correi, homens de armas! Apressai-vos, dom castelão, vinde receber o nobre visitante! Pagens e donzeis, fazei honra! Pouco se demorou o cavaleiro! E ei-lo sai!... Trás um pacote de de velas de sebo!

 

Agora a explicação do enigma!

 

Na loja deste prédio havia uma mercearia. O Douro exigiu do merceeiro que lhe trespassasse a casa, e não houve remédio senão ceder! Mas o merceeiro não era homem que descoroçoasse por tão pouco. Viu-se expelido do rez-de-chaussée, estabeleceu-se no primeiro andar! Se o Douro continuasse a subir, o digno portuense iria para o telhado, e faria concorrência aos gatos! No primeiro andar improvisou um balcão, e armou a tenda. Os fregueses, não menos intrépidos do que ele, não o abandonaram. A ponte levadiça foi estabelecida. A frágil tábua chamou os habituais compradores, e, daqui por diante, a par do denodo militar e do denodo civil, há-de fulgurar com igual brilhantismo o denodo merceeiro!

 

Desçamos a escada que de Cima do Muro conduz à Porta Nobre, transformando-a em gruta aquática. Saltemos para um bote, e demo-nos ao prazer de passearmos embarcados no sítio onde, há pouco tempo andamos a pé.

 

Dizem que o primeiro barco fora um tronco de árvore cavado. Ei-nos voltados às Eras primitivas! A pouca distância de nós navega um homem não metido num tronco, mas num gavetão! É mil vezes mais pitoresco! Uma gaveta pacífica transformada em jangada! Oh! Inconstância das coisas humanas! Oh! Versatilidade da fortuna! Nem as gavetas podem contar com o futuro!

 

Desembarquemos e dirijamo-nos ao Palácio de Cristal. O dia é de veras favorável ao passeio! Que esplêndido, que saboroso sol de inverno! Parece que a natureza, temendo a volta imediata dos temporais, se apressa em gozar as delícias dessa primavera de um dia. A nós dá-nos maior prazer a trégua do inverno, do que a plena paz da primavera! Não é mais deleitoso o fresco oásis, no meio da aridez do deserto, do que as campinas esmaltadas de flores de extensas e sempre viçosas regiões?

 

Assim, leitor, avante! Aspiremos a plenos pulmões esta aragem seca e fria, que bebe de um trago as emanações húmidas da terra ensopada em chuva, como o areal bebe os rios que nele se perdem. Deixemo-nos beijar por esta luz clara e límpida do astro-rei, que fulgura tão esplendidamente no céu azul e desassombrado de nuvens agoirentas! Contemplemos a margem esquerda do rio, sempre verde, apesar do inverno, e que promete para os ardores do estio, frescas sombras e frondosíssimo arvoredo! A natureza, desejando resguardar estes sítios das iras do Douro, encobriu-lhes a aridez das rochas com o manto verdejante, que o inverno despe dos floridos recamos, mas que não consegue arrancar. Podem os troncos despojar-se das folhas, cair por terra amarelecido o magnífico dossel dessas florestas, mas as rochas nunca ficarão nuas, nunca os penedos ousarão mostrar nestes lugares abençoados a sua cabeça escalvada.

 

Ao longe, e no último cotovelo, que daqui se divisa, feito pelo Douro, descortina-se a serra do Pilar, nome tão gloriosamente celebrado nos fastos liberais. Depois Vila Nova vem molhar timidamente os pés no rio, que, lascivo como um sultão, em vez de lhos beijar trémulo e palpitante, ousa erguer-se voluptuosamente, e enlaçar a cintura da gentil vizinha do Porto, que de longe a está namorando, e contemplando aflito sem poder acudir-lhe, porque se vê igualmente dominado pelo diabólico déspota.

(...)»

 

O Candal

«Se o Douro é sultão, devemos inveja-lo; porque nenhum teve ainda mais formoso harém! Depois de Vila Nova a louçã, Candal a viçosa! Candal, onde o Guilherme do Amaral de Camilo, foi esconder os seus amores! Se amores são rouxinóis, que gostam do mistério e da sombra do arvoredo, nunca mais risonho e misterioso tálamo se lhes ofereceu para se ocultarem da vista do mundo, e descantaram lá do fundo da espessura as suas trovas apaixonadas! Agora a luz do sol de inverno revela-a, como formosa mulher, a quem um postigo indiscreto, abrindo-se de súbito, faz aparecer no mais simples e desalinhado negligé da manhã! Vergonhosa de se ver surpreendida, retrai-se, procura esconder-se; mas brilha o sol em todo o seu esplendor, e não pode deixar de se mostrar desataviada como o inverno a deixou. Mas de verão, quando pompear todas as suas galas, todo o viço dos seus bosques, todo o esplendor das suas flores, como deve ser bom viver ali, e duplicadamente bom amar... amar que é viver duplicadamente.

 

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i2 Vista do Vale de Amores ou Vale da Piedade tirada dos jardins do Palácio de Cristal. Ao centro temos a propriedade particular que já foi convento de Santo António de Vale da Piedade, mais atrás, parte da zona do Candal. (fotografia do Autor)

 

E que deliciosas vivendas que por lá se vêm, agora isoladas, mas que no estio se descortinam apenas por entre a maciça verdura que as rodeia! Além ergue-se uma casa situada admiravelmente! É uma saboaria! Dizem-me que, num outro sítio também delicioso das margens do Douro, o Freixo, existe igualmente uma fábrica de sabão! Será o sabão, um missionário do prosaísmo, encarregado de desencardir as lindas paisagens dos arredores do Porto da poesia, que as mácula aos olhos dos utilitários? Pois irão força-la até nos últimos entrincheiramentos? Fugiu das cidades, deixou o campo livre às especulações mercantis, refugiou-se nos arvoredos, escolheu para habitar esses pavilhões de verdura, que não supôs lhe seriam invejados, esses palácios, aonde não vão os mestres de obras, e cujas majestosas colunatas foram erguidas por esse medíocre arquiteto, que se chama... Deus, arquiteto, que não pode por forma alguma rivalizar com os refazedores sublimes das modernas cidades, esses teatros, onde canta uma companhia lírica de rouxinóis, que nem dão o  de peito, nem fazem ginástica de garganta... e daí mesmo a vão espancar! Mandam as saboarias estabelecer-se nesse asilo umbroso de poetas e namorados!»

 

Vale de Amores

«E então que lindo nome que tem esse sítio! Vale de Amores! Vejam como isto soa bem! Saboaria de Vale de Amores! Quando se dirá: «Fábrica de curtumes da Fonte das Lágrimas! Refinação de Açúcar da Saudade!». É não pararem em tão bom caminho!

 

Este nome de Vale de Amores tem uma história. Foi este, segundo creio, o primitivo nome; porém depois edificou-se ali um convento. Os frades assustaram-se com a profanidade de tal denominação, temeram que nome tão azado a devaneios pouco religiosos os perturbasse nas suas meditações, e lhes fizesse voltar os olhos do céu para a terra, mais vezes do que era mister!

 

Tinha que ver se o sítio do convento vinha a ser motivo de tentações, e se os pobres frades, que já se viam abarbados com o mundo, o diabo e a carne, tinham ainda às costas o nome do mosteiro! O título do vale foi abolido, proscrito, excomungado, e substituído pelo pacífico e bem aventurado nome de Vale da Piedade! Não sei se as voluptuosas emanações, que deviam rescender na ramaria, e no arrelvado tapete de tão formoso lugar, fugiram com a denominação exilada, nem se as devotas intenções do excomungador foram cumpridas à risca; sei apenas que, mal desapareceram os monges, reapareceu o nome de Vale de Amores, o qual, como já lhes disse, escapou do convento, e caiu numa saboaria, e, se continuar na escala descendente, há-de ir parar nalgum barão, que é, segundo o parecer de Garret, o herdeiro do frade.

 

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i3 Jardim do antigo convento de Santo António de Vale da Piedade, hoje propriedade particular (fotografia do Autor) 

 

Adiante, leitor! Veja-me este Douro; como ele corre impetuosamente! E com tal velocidade que nem o sol tem tempo de se lhe espreguiçar nas águas, e doidejar graciosamente, espalhando por cima dele os seus dourados raios!

 

Seintila, e a corrente leva-lhe as faíscas na vertiginosa carreira, como serpente que se vai arrastando veloz com escamas reluzentes! Se o leitor o visse ao pá da ponte, furioso por encontrar resistência! As águas chegam, batem, não podem passar, empinam-se com desespero, voltam sobre as outras que se lhes seguem, travam medonho colóquio, rugem, desabam umas sobre as outras, fervendo em cachão, redemoinham de um modo assustador; e assim estão naquele combate incessante, temíveis até na sua impotência!

 

Mas já passamos o Cais Novo, e, para irmos ao palácio de Cristal, temos que subir uma formidável ladeira. Não acha melhor que respiremos um pouco, e que tomemos folego antes de principiarmos a ascensão?»

*

 

Prosseguirá...