Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Viagem a um Porto de outro tempo .5

por Nuno Cruz, em 02.07.18

E eis que vos trago mais um capítulo do livrinho de Manuel Pinheiro Chagas. As suas descrições são deliciosas de ler, embora provindas de uma alma ainda jovem e em início de carreira. É o prazer que obtenho na sua leitura que me move nesta partilha convosco, caros leitores; de um texto que é praticamente desconhecido.

 

*

«Há tanto tempo que os leitores, recostados comigo à beira do Douro, estão tomando forças para empreender a ascensão que nos deve levar à eminência da Torre da Marca, que os julgo capazes já de treparem até aos píncaros mais elevados do Himalaia, quanto mais ao aprazível outeiro, onde campeiam a Capela de Carlos Alberto e o Palácio de Cristal. (...)

 

Para evitarmos demoras, permita-me o leitor que o leve num vôo ao cume do monte, o que lhe poupa a fadiga, e lhe permite gozar mais depressa a dilatada e esplêndida perspetiva, que dali se desfruta.

 

Como o sol brilha alegremente inundando com os seus raios a mais pequena minuciosidade desse quadro magnífico! Lá em baixo agrupam-se as casas brancas de Massarelos por trás das árvores da alameda, verdejante mantilha, que de verão as protege contra a curiosidade indiscreta do sol, mas que o inverno rasga e dispersa, deixando-as ficar todas vergonhosas, quando o astro radiante surge e as surpreende, como hoje, até que o sopro verificador da primavera renove o aéreo tecido da folhagem. Para o outro lado estende-se em gracioso anfiteatro a casaria de Entre Quintas e Vilar. Entre essas casas obscuras avulta uma, não pela magnificência do edifício, não por ser minimamente pitoresco o sítio em que poisa, mas porque aí residiu Carlos Alberto, porque foi o mosteiro de S. Justo de um monarca não saciado de ambição, não farto de deleites, mas desalentado do seu combate heróico e incessante contra os ímpios decretos do destino (...).

 

Depois, se estendermos a vista para a margem fronteira, depara-se-nos o viçoso e perene tapete de verdura, que já lhes descrevi, por onde se espreguiçam as casas do Candal, e que se dilata sem perder o matiz até ao longínquo horizonte, onde se fecha no cortinado dos pinheirais, dispersos como vedetas, imóveis como elas, e parecendo como elas atentos aos vagos ruídos, que lhes leva a aragem. Depois Vila Nova, e no último cotovelo oriental do rio o morro imponente da Serra do Pilar, visível de todas as eminências da cidade, como se a Providência nos quisesse por sempre ante os olhos a memória dos feitos heróicos, praticados pelos nossos pais para nos legarem o sistema liberal, que tão degenerado vai, quanto esquecidas já estão essas façanhas, e olvidados os que as levaram a cabo.

 

massarelosCandal.JPG

 

Se as pedras pudessem rir e chorar!

 

Não podem, felizmente para os atores de tantas comédias, cujo vergonhoso enredo se desenrola diante desses silenciosos bastidores. Eia pois! Sejamos como Cilas, e não perturbemos o majestoso esplendor desta admirável natureza com a recordação das misérias da humanidade.

 

Se prestarmos bem o ouvido, escutaremos ao longe o ruído do mar, aqui mais perto o murmúrio do rio, além o sussurrar da brisa nas árvores da serra. Por cima de nós o dossel azul do firmamento, o doirado pavilhão do sol, em torno o ambiente salutar das eminências! (...)

 

Enfastiado de tantas digressões, já o leitor me está chamando: «E o Palácio de Cristal?».

 

Aqui o temos, esse documento da energia, e da vigorosa iniciativa da segunda cidade do reino. Quisera também dizer: e do bom gosto artístico de quem o construiu, se essas desgraciosas torrinhas, que flanqueiam o edifício, me não desmentissem formalmente. Bem situado está ele; talvez em todo o reino se não encontrasse um ponto tão apropriado; e de certo que os seus irmãos de Londres e de Paris dariam uma boa porção dos seus esplendores em troco desta inexcedível posição. Os jardins hão de formar um lindíssimo passeio, a que nenhum outro se poderá equiparar, e que resgatará magnificamente a pasmosa insuficiência do jardim de S. Lázaro, onde se atropela aos domingos a sociedade elegante do Porto.

 

Os vidros de cores, colocados no fundo da sala grande do palácio, hão de dar aos visitantes um magnífico espetáculo, quando se incendiarem com os vívidos fogos do sol meridional, e entornarem por todos os pontos do vasto salão uma chuva de rubins (sic), topázios e esmeraldas. A natureza preparou aquele terreiro para uma festa da humanidade, e comprovou-se em agrupar ali todos os encantos, todas as magnificências que podem lembrar ao homem, no orgulhoso delírio produzido pela vista das obras primas da sua indústria, quanto elas são pequenas e imperfeitas perante os esplendores das obras de Deus.

 

Crítica à exposição de 1865 

Supõem o leitor por isto que eu sou fanático da ideia da exposição universal. Acho-a prematura, incrivelmente prematura.

(...)

É digno desta nobre cidade o patriótico pensamento de chamar sobre nós a atenção da Europa, e de nos fazer colher os benefícios que resultam sempre da afluência dos estrangeiros. Mas o patriotismo levado a esse ponto é um patriotismo egoísta. Não podemos dizer aos outros povos: "Venham, porque a sua vinda é para nós uma felicidade e um provento." E contudo, que outro motivo se pode alegar?

 

É o Porto por acaso uma cidade central, cuja posição cómoda para os expositores do mundo inteiro desculpe a completa falta de comodidades, que encontrarão aqui? Não. É por acaso uma cidade tão adiantada em indústria, que todos os inconvenientes se dissipem diante do desejo de visitar, de estudar as suas fábricas? Não. (..) É forçoso não o dissimularmos.

 

Mas nesse caso, como tenciona o Porto receber a Europa? Dando-lhe céu azul, fulgido sol, panoramas admiráveis? A receção é barata, consoladora para ânimos poéticos, mas não sei se será suficiente (...).

 

Aqui os estrangeiros têm ruas, onde as carruagens mais fofas e suaves causam maiores torturas do que a sege de Nicolau Tolentino; iluminação que se fia mais na lua e nas estrelas do que nos recursos da companhia de gás, polícia suficientíssima para uma cidade sossegada como está é, mas impossível com a população flutuante que se há-de aqui acumular. Cidade eminentemente trabalhadora, não teve ainda tempo de cuidar nos regalos da vida. E contudo faltam cinco meses e meio para a abertura da exposição[1], e neste pequeno lapso de tempo hão de se criar hospedarias confortáveis, tornar luminosas as noites, fazer sair do nada um modo de se não andar sempre a pé[a], [e] todos os outros melhoramentos de que o Porto precisa! Nada é impossível com a vigorosa energia desta cidade, mas há-de ser difícil.

(...)

Avante leitor, que isto não é vida. (...)

(...)

(...) Aqui tem o Palácio dos Carrancas, onde D. Pedro IV residiu por algum tempo na época do assédio, e que é atualmente residência real, pequena, mas graciosa. A sua fachada simples, mas nobre e regular, é superior à do absurdo Palácio das Necessidades. Aqui tem mais adiante o hospital da Misericórdia, edifício magnífico mas incompleto, com muito boas condições arquitetónicas, mas com péssimas condições higiénicas. (...) Atravessamos o vasto largo da Cordoaria, que se chama oficialmente Campo dos Mártires da Pátria, e onde se vendem tachos de barro, que não sei se são os tais mártires da pátria, mas que julgo estarem antes predestinados a serem mártires dos garotos. Silêncio, musa folhetinistica! Neste campo, agora tão prosaico, foram enforcadas as vítimas do absolutismo em 1829. Honra aos manos ilustres!

 

Ali têm a Cadeia da Relação. Leiam as Memórias do Cárcere de Camilo Castelo Branco, e a sua negra fachada iluminar-se-á com os esplendores da poesia.

 

Para a esquerda está o edifício de todas as academias do Porto. Eu havia de dizer muito mal dele, se a Escola Politécnica e a Academia de Belas Artes de Lisboa me não tapassem a boca. Aí ao lado tem uma imensidade de feiras, da , do pão, dos sapatos, porque tudo aqui se vende em feiras, menos as consciências, que essas concorrem à feira central de S. Bento. Aqui ao pé a airosa Torre dos Clérigos, e a sua igreja, uma das melhores do Porto, talvez uma das poucas onde se vêm mármores. Nas que tenho visto, há muito oiro e muita cal. Paremos agora, estamos na Vitória.

 

Que admirável panorama! O que dá ao Porto um aspeto inexcedivelmente pitoresco é a situação original das colinas, em que está construído, que se levantam logo da beira do Douro, e ficam empinadas sem transição alguma, inundadas de casario, que parece aferrar-se à rocha, para evitar o despenhar-se. Lá em baixo o magnífico edifício da Bolsa; além a Sé erguida desassombradamente num píncaro, e arrojando ao céu as suas duas torres, um pouco mais abaixo, o Paço do bispo, e no fundo os intermináveis e deliciosos meandros do rio, que a cada instante nos estão preparando surpresas que nos arrancam gritos de admiração.

 

SeVitoria.JPG

 

Avante, leitor, não me esteja pasmado nem parado, que o sol já se não entretêm com estas coisas, e continua implacavelmente o seu caminho. Vamos; aqui tem Santo Ildefonso, e o hotel da Europa, onde estabeleci os meus novos arraiais. Não lhe ofereço entrar, porque não tenho tempo. Aqui tem a Batalha, onde um gracioso pedestal espera a estátua de D. Pedro V. Nós somos a nação dos pedestais. Na minha vida, que não é muito longa, tenho visto quatro; estátuas, ainda estou reduzido à de D. José, no que não sou mais feliz que o meu bisavó (...). Ali tem o teatro de S. João, que é em algumas coisas superior, noutras inferior ao de S. Carlos. Aqui está a Porta do Sol, espantadíssima de se ver metida no centro da cidade, quando outrora lhe era limite. Junto da Porta do Sol, o convento de Santa Clara, tão célebre pelos seus pastéis, quanto o de Odivelas pela marmelada; porque isto de fazer doces é uma ocupação ascética, que me fez sempre ter uma alta ideia da poesia dos mosteiros, e que me tem mostrado em beatificas visões as esposas de Cristo em torno das fornalhas, a calcularem o peso do açúcar! (...)

 

Avante, atravessemos as Fontainhas, onde se poderia fazer um delicioso passeio, e, passando pelo cemitério do Prado do Repouso paramos finalmente junto do edifício arruinado do Seminário.

(...)

E há quem viaje fora do reino, antes de ter visto esta admirável perspectiva, antes de ter visto o espetáculo verdejante, que nos fica fronteiro, as aldeias agrupadas graciosamente como gentis camponesas, umas a mirarem-se no rio, outras fugindo dele, como que assustadas, e parando a meia encosta! E o Douro, em contínuos torcicolos, assaz tranquilo aqui, e parecendo não poder desprender-se do admirável espetáculo, em que se enleva, Que mais lindo pode ser um lago da Suíça, onde se poderão encontrar mais deliciosos efeitos de luz e sombra, onde mais suaves longes, mais campestre panorama? (...) Onde há um céu mais azul, para servir de dossel a estas esplêndidas cenas?

 

Mas o sol furta-se-nos decididamente. Desprendamo-nos daqui. Um dia voltaremos, e passeando pelo rio acima, poderemos admirar, pausadamente estes magníficos sítios.

 

1. Escrevia-se isto em janeiro de 1865. Nada do que se temia se realizou; porque foi pequeníssima ou nula a afluência estrangeira.»

*

 

Prosseguirá...

______

a - O Carro americano seria introduzido no Porto em 1872 e apenas na linha marginal. Só a partir de 1874 se construíram linhas no interior da cidade.

2 comentários

Comentar post