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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Viagem a um Porto de outro tempo .6

por Nuno Cruz, em 20.07.18

Prosseguindo na transcrição de uma (grande) parte do livrinho de Manuel Pinheiro Chagas, iremos desta vez acompanhar o autor numa viagem à Foz e a Leça, num registo breve mas recheado de curiosas referências.

 

*

«(...) Prometi-lhes, caros leitores, acompanha-los numa digressão pelo rio acima, e podem estar certos que realizarei a promessa. Antes, porém, que o faça, convido-os a um passeio para o lado oposto: passeio que terá por fim ver a Foz, Leça da Palmeira e Matosinhos.

 

A viagem e um "insólito"

Já ninguém se lembra do inverno, e o sol, rindo no céu azul, faz esquecer a todos as carrancas das nuvens. O magnífico panorama, que se desfruta descendo a rua da Restauração, revela-se em todo o seu esplendor, despido dos véus espessos do nevoeiro, em que muitas vezes se envolve. Ou seja, porque a rainha do Douro queria fazer a corte aos ingleses, que abundam no seu seio, ou seja simplesmente por uma prosaica razão meteorológica (...) é certo que as brumas, que acompanham muitas das manhãs do Porto, pouco terão que invejar à cerrada neblina de Londres. (...)

 

Felizmente, o spleen não acometera os filhos da pérfida Albion no dia, que destinamos à romaria da Foz, e o céu meridional ostentava-se com todo o seu brilhantismo encantador. Saímos do hotel da Europa (...), e depois de nos termos persignado, e termos feito uma solene promessa ao Senhor de Matosinhos, cuja capela íamos visitar, se voltássemos a salvamento, aventuramo-nos, guiados por um cocheiro preto, nessas ruas do Porto, ruas democráticas, que castigam a ambição de quem tem o atrevimento de meter num caleche com a ameaça perene de lhe partirem as costelas, ou pelo menos de o estatelarem na lama, onde ficará servindo de exemplo a todos os peões refratários.

 

Digamos já, para não quebrarmos depois o fim da narração, o motivo, porque apesar de poder escrever são e salvo estas linhas, não cumpri a solene promessa feita ao Cristo milagroso, que, prestemos-lhe essa justiça, nunca fez maior milagre do que este (...). Confesso, que, em boa hora, nos devíamos ter pesado a cera, a nós, à carruagem, aos cavalos e ao preto. Mas, exatamente neste último ponto está o intrincado do negócio. Um preto de cera é um caso não previsto no código dos ex voto! (...)

(...)

Seria forçado a repetir-me, se quisesse descrever-lhe a estrada da Foz. Já percorremos uma boa porção dela, quando fomos ao Palácio de Cristal, já divisamos uma outra parte, quando da eminência da Torre da Marca relanceamos a vista para o cenário que se desenrolava aos nossos pés. Contentemo-nos por conseguinte em saborearmos a doçura destes raios de sol, e em nos enfeitiçarmos silenciosamente com a perene verdura, e pitoresca disposição das casas da margem fronteira.

 

Não nos enlevaremos porém tanto, que não reparemos na lisonjeira atenção que nos prestam todos os que vão passando junto de nós. Reparo que ficam por muito tempo a olharem-nos, pasmados, que chamam uns pelos outros, que se reúnem em magotes, que vêm correndo para nos verem melhor. A que será devida tamanha popularidade? Pensei modestamente em me fazer eleger deputado, e olhei com modos afáveis para as pessoas que nos rodeavam. Meditava no meu programa, quando notei que eram as crianças os admiradores mais obstinados e entusiásticos que tínhamos. Soltavam, gritos de alegria, assim que nos viam, davam cabriolas em sinal de regozijo, mostravam enfim sincero desejo de nos fazerem uma ovação delirante. Admirei de mim para mim a precoce inteligência dos portuenses infantis, e contemplei com enternecimento os exercícios ginásticos a que se entregavam. Isto de saltos mortais, da cabriolas e reviravoltas é de bom agouro para uma eleição. São quasi sempre os candidatos que se entregam a esses exercícios. A mímica das crianças não podia querer dizer outra coisa senão: «Serás deputado.» (...)

 

Confesso que tive uma atroz desilusão, quando me vi obrigado a reconhecer que a pessoa a quem eu devia aquele espetáculo, a pessoa, que me iluminava com um reflexo da sua popularidade, era o cocheiro preto! O homem, habituado segundo parece, àquelas manifestações, conservava-se impassível, e ouvia sem espanto as mulheres do Porto chamarem-se umas às outras, para se colocarem diante dele em contemplação extática.

 

A Foz

Foi debaixo desta impressão que eu cheguei à Foz. Deliciei-me em estar ali, não porque a foz seja um sítio muito bonito, nem muito pitoresco, mas porque eu enlevo-me sempre com o espetáculo imutavelmente sublime do oceano, porque fico horas e horas sentado nas fragas, vendo a meus pés quebrarem e espadanarem as ondas. os que se enlevam com estas belezas devem ir à Foz. A costa, eriçada de rochedos, irrita a fúria do leão dos mares, e obriga as ondas a desfazerem-se num verdadeiro delírio de espuma. É um espetáculo majestosamente belo ver essa extensa praia, beijada por uma onda, que se empina lá ao longe, que enrola a sua fita verde, corda-se a um tempo de um diadema de espuma que o sol doira logo em todos os pontos, curva graciosamente o solo, como corcel garboso, que se prepara para a investida, corre modulando o seu cântico magnífico, depois dá num rochedo, solta um grito de raiva, quebra com medonho estampido, como que ergue os espumantes braços ao céu para o ameaçar, blasfema, por lhe ter colocado ali aquela pedra, mudo e impassível obstáculo, afinal salpica as fragas, desfaz-se em catarata alvejante, que cintila ao sol como um montão de pedras preciosas, e cede o lugar à que se lhe segue imediatamente.

 

Mais adiante outra porção da mesma onda espraia-se com voluptuosidade no areal, presenteia-o com limos verdes e cinzeladas conchinhas, foge murmurando, ou antes arrulhando um adeus, deixa ficar atrás gotinhas de espuma, que a seguem pesarosas, e se vão arrastando languidamente até se prenderem num seixo, e ali ficarem escondidas, abrigadas do temeroso combate.

 

No mais a Foz de inverno não tem encantos especiais que a recomendem ao viajante. No tempo dos banhos creio que há uma animação inexcedível naquelas praias, naquelas ruas. Agora só se encontram pescadores fumando indolentemente à porta das casas, ou dormitando com uma tranquilidade, que contrasta singularmente com a azáfama incessante em que andam os portuenses.

 

leessa.JPG

O rio Leça num registo da Photo Guedes preservado pelo AMP, ao fundo Leça da Palmeira. No centro da imagem descortina-se um pedaço da ponte de pedra construída no século XVII, arrasada aquando da demolição da Doca n.º 2 do porto de Leixões. O fotógrafo estará, segundo creio, posicionado não muito longe do local onde agora existe a ponte móvel.

 

Leça da Palmeira

Não assim Leça da Palmeira. Esta graciosa aldeia tem em se mesma os atrativos, que namoram os olhos de quem vai vê-la, ao por do sol, com as suas casinhas brancas banhando os pés no mar. Faz gosto viver ali; há como que um perfume de sossegada poesia na atmosfera. O oceano, o próprio oceano parece abrandar os seus rugidos, para que a sua voz não destoe das serenas melodias da terra. Animado por essa meiguice do gigante, o rio, que dá o nome à povoação e que a separa de Matosinhos, entra afoitamente nas suas águas, e dá-se ao prazer de ter uma foz em miniatura, bonitinha, tranquila, que o mar respeita mais do que a barra do Douro. (...)

 

Passei momentos deliciosos na janela do hotel Estefânia, por baixo da qual vem o oceano, de concerto com o rio, entoar uma serenata, onde os rugidos do baixo profundo se casam harmoniosamente com os flébeis murmúrios do tenor.

 

No horizonte, perdidas no imenso mar, viam-se umas velinhas brancas que pareciam gaivotas imóveis, a espanejarem as asas doiradas pelos raios de sol. Ali, a pouca distância, o areal onde expiravam meigamente as ondas. Lá ao longe a coroa de espuma, que cingia momentaneamente a fronte das rochas, denunciava a luta das vagas com os fraguedos da Foz. Para trás espreguiçava o rio Leça as suas águas por entre margens viçosas e verdejantes, onde sobressaia a alvura das duas aldeias vizinhas. Uma capelinha em forma de arco triunfal, em cujo centro se via de perfil a cruz de Cristo, majestosa ali mais do que em qualquer outro sítio, erguia-se a dois passos do mar, onde a colocou a poética devoção dos pescadores, que desejam poder divisar entre os escarcéus a imagem daquele que só os pode domar. E o sol, já declinando para o acaso, iluminava com os seus esmorecidos resplendores esta cena verdadeiramente pitoresca, distribuía, como hábil artista, a luz e a sombra, doirava a imensa extensão das ondas, purpureava o horizonte, incendiava com os seus fogos os vidros de uma janela distante, fazia realçar num ponto a verdura, noutro amarelecia o arvoredo.

 

Uma celebridade...

Mesmo à beira mar, sentado numa pedra, que as vagas lambiam, vi um anão, um anão de cabeça disforme, baloiçando frenético as pernas pequeninas, que a espuma borrifava de vez em quando. Era o anão de Leça, que nenhum dos leitores que ali tenham ido, desconhece de certo. A qualquer hora do dia que se entre no hotel Estefânia, encontra-se o anão, implorando com infindos trejeitos a caridade dos visitantes. A praia é a sua residência predileta. Gosta de fazer caretas ao oceano, de o apupar, e não sei mesmo se o apedreja. O mar está costumado com ele e não lhe faz mal, estima-o até, chega a considera-lo como um enorme búzio, que um dia arrojou à praia distraído. (...)

(...)

(...) A glória não é para ele coisa nova. É considerado como uma curiosidade de Leça, figura nos álbuns fotográficos que se vendem no Porto, e não há miss, nem lady de loiros cabelos, que, ao passar por este sítio, se não tenha sentado diante do ufaníssimo anão, e não o tenha desenhado no mimoso velino do seu sketch-book.

 

O que é certo é que me roubou tempo, amigo leitor, que o sol está quasi a atufar-se nas águas, e que ainda não visitamos a capela do Senhor de Matosinhos. Não temos remédio pois, senão considerar isto como uma peça teatral, onde se respeite a regra das três unidades, e aprazaremos a curiosidade dos leitores para o segundo ato, que principiará no mesmo sítio e à mesma hora.

 

Caiu o pano.»

*

 

Relembrando que os pequenos títulos intercalares do que atrás se leu são de minha autoria, é com prazer que vos informo que esta viagem prosseguirá...