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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (1)

10.04.19

O anterior alojamento d' A Porta Nobre no blogspot manteve-se ativo desde o seu início em 2009 até meados de 2017, quando optei por lhe dar sequência no Sapo. Logo no início referi que paulatinamente iria transferir para a nova casa as publicações que achasse tal o merecerem. O que abaixo poderá ler é uma dessas publicações. Por ventura pensará o leitor onde é que eu já li isto? Bem a resposta estará certamente no facto de esta (como outras) publicações terem sido reutilizadas por outros blogues versando o Porto e a sua história, tendo entretanto a sua fonte original do blogspot desaparecido. Estas cartas do Barão de Forrester estariam inéditas até eu as ter redescoberto em 2013? Não o posso dizer, embora acredite que não. Certo é que para mim foi uma agradável surpresa descobri-las no local original onde foram publicadas, isto é, no jornal O Comércio de 1854! São um raro testemunho de uma pessoa culta e letrada que singrou este nosso tão belo rio quando ainda selvagem, sem barragens que o domassem e poucos penedos desaparecidos à força do dinamite.

Tenha então o leitor o prazer de ler ou reler a primeira delas, agora mesmo.

 

*

«COMEÇAMOS HOJE A PUBLICAÇÃO DE UMA SÉRIE DE CARTAS SOBRE O DOURO, QUE JULGAMOS INTERESSANTES E DEVEMOS À BONDADE DE UM CAVALHEIRO TÃO HABILITADO PARA ESCREVER SOBRE O OBJETO, COMO O ILM.º SR. FORRESTER

 

PRIMEIRA CARTA

Quem quer seguir viagem do Porto pelo rio Douro acima, deve lembrar-se que até Pé de Moura quase nunca no verão os barcos carregados poderão passar sem maré, e ainda que a nossa barquinha não levava o que se pudesse chamar carga, contudo os arranjos de camas, baús e mais utensílios próprios ou necessários para uma longa viagem, bem como a tolda, os armários, beliches, mantimentos, etc. pesavam, pelo menos, metade da lotação do barco que era de nove pipas – escolhemos por conseguinte a hora da maré, que deitava das 3 para as 4 horas da tarde para a nossa saída de hoje. Também ainda que não somos astrólogos nem sabemos calcular bem as mudanças do tempo temos tal ou qual fé nas diferentes fases da Lua – e como há 15 dias a esta parte sempre tivemos vento leste fortíssimo, entendemos que este quarto de Lua crescente nos poderia favorecer, e com efeito assim aconteceu porque não somente podemos aproveitar a maré mas tivemos vento pela popa. Chegamos às 8 horas e meia a Carvoeiro, 3 léguas e meia da cidade, andando à razão de 3 quartos de légua por hora.


O leito do rio Douro até este ponto é uma pouca de areia – o canal para a navegação é estreitíssimo e actualmente na maré baixa apenas trás de 2 a 3 palmos de água. Estas areias depositam-se todos os anos com as enchentes do rio, e as marés de Verão concorrem para a sua conservação. Assim tem acontecido desde que os fenícios se estabeleceram em Portugal – e pelo que se vê, a arte, a ciência, e o mecanismo não poderam remediar o mal! – ao menos pelo que vemos, não parece ter havido tentativa alguma para este fim.

 

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o lugar de Arnelas

 

Pela margem esquerda notamos as pequenas povoações de Quebrantões – Oliveira – Espinhaça de Avintes – Arnelas – Crestuma e Carvoeiro, e pelo lado direito Campanhã, Valbom, Gramido, Atães, Sousa, Gibreiro, Esposar, Lixa e Pombal. Quebrantões é notável por ser o sítio onde na guerra peninsular, os exércitos luso-britânicos passaram, quando os franceses evacuaram o Porto. Agora é neste sítio a barreira por onde nenhum barco, por pequeno que seja, pode passar sem ser examinado. Defronte são as ruinas do grande seminário que foi arruinado durante o cerco do Porto e logo ao pé, também se vêem algumas paredes do palácio desmantelado do bispo: tanto as belas árvores desta quinta como as do convento da serra foram cortadas em 1833. Oliveira, sempre tem sido célebre pelo seu antigo convento e por ser a sua cerca um recreio para os habitantes do Porto. Avintes, é a terra das padeiras que abastecem a cidade do Porto com excelente pão. Arnelas, notável por suas madeiras e lenha e pela sua feira de S. Miguel, em que as nozes abundam.[1] Crestuma, pela abundância de águas e lenhas suficientes para fazer trabalhar imensas fábricas – porém onde por ora ainda não há nenhuma. Aqui no tempo da antiga Companhia havia o registo de todos os barcos com vinho que iam para o Porto. Carvoeiro, pela quantidade de lenhas e madeiras que manda para o Porto. Campanhã, pelas fábricas de curtume e pelo isolado palácio arruinado do Freixo, que tem as armas dos Lencastres sobre a porta. Valbom, por ser a terra dos pescadores, que nas suas belíssimas lanchas vão ao mar. Gramido, sítio onde o sr. D. Miguel em 1833 estabeleceu uma ponte de barcos e onde em 1846 se fez a convenção entre as forças luso-espanholas e a Junta do Porto.

 

Os povos desde Atães até Pombal sustentam-se do produto das suas terras mandando apenas de vez em quando algumas melancias, melões e hortaliças para o Porto. É para notar que em toda esta extensão do rio, em quanto que os homens se ocupam na agricultura, as mulheres conduzem os seus barcos com géneros ou passageiros para o Porto. Estas mulheres são muito hábeis na sua ocupação; a maneira como elas cantam suas modinhas, que geralmente são originais, faz crer com especialidade ao estrangeiro, que são as criaturas mais felizes do mundo e que ignoram inteiramente o que é a fome e a miséria. São muitos os dias que nem dois patacos ganham – porém continuam a cantar e parecem contentíssimas com a sua sorte.


Chegados ao nosso ancoradouro, tratamos de fazer os arranjos necessários para aí passarmos a noite.


Sou de VV. & c.
J. J. Forrester»

*

 

Esta carta vem publicada no jornal O Comércio (nome primeiro d' O Comércio do Porto) do dia 11 de setembro de 1854.

 

1- Na publicação original que dela fez no blogspot, um anónimo de Arnelas fez o seguinte comentário, que creio pertinente também recuperar: «Arnelas nunca foi conhecida pelas suas madeiras e lenha, mas sim por ter sido um importante entreposto comercial desde o séc. XVI, na "guerra comercial" que moveu ao Porto nessa altura. Mais tarde foi a localidade onde se implantou uma das primeiras fábricas de cerveja do país. Ficou bem conhecida devido ao sável e à lampreia. É um lugar maravilhoso, não fosse a minha terra. (desculpem a modéstia!)»

 

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Originalmente publicada no blogspot em 21.04.2013